A ferramenta grupo focal como instrumento para a pesquisa qualitativa em Psicologia

O grupo focal é uma ferramenta em pesquisa qualitativa que tem alcançado importância junto a pesquisadores de diversas áreas que trabalham questões sobre o homem, sua relação com o meio, seu comportamento e subjetividade. Seu surgimento está ligado à origem dos grupos gestaltistas e humanistas nas décadas de 50 e 60. Contudo, seu aprimoramento teórico e emprego mais amplo como método de pesquisa firmou-se na década de 70, na área médica, onde foi largamente utilizado para pesquisas sobre usuários de narcóticos.
A. Em que consiste o grupo focal? O objetivo do grupo focal está em proporcionar discussões ricas entre seus participantes, mediante a apresentação de um “estímulo” pelo pesquisador – pode ser perguntas, recortes de jornais e revistas, fotografias, músicas etc. – mediante o qual o grupo debate um tema que é seu foco (COTRIM, 1996:290). Essa ferramenta possibilita tanto a coleta de dados objetivos – que, entretanto, poderiam ser obtidos por outros meios – quanto de dados subjetivos, o mais importante (TURATO, 2003:313). Seu uso é particularmente valioso às pesquisas de caráter qualitativo, aquelas onde a base estatística para os dados coletados não é o mais importante, e sim a riqueza dos dados coletados, com suas várias nuances, procurando-se estudar em profundidade um tema em um dado grupo ou instituição. O pesquisador deve procurar manter o grupo fiel ao foco, porém, em momento algum essa atitude pode ser restritiva.

A riqueza do método focal está exatamente no fato de que na interação entre os entrevistados surjam idéias, preconceitos, estereótipos, concordâncias e dissonâncias que extrapolam os objetivos iniciais da pesquisa, podendo até mesmo sugerir novas hipóteses. “(…) Desta maneira, o informante, seguindo espontaneamente a linha de seu pensamento e de suas experiências dentro do foco principal colocado pelo investigador, começa a participar na elaboração do conteúdo da pesquisa” (TRIVIÑOS, apud in TURATO, 2003:315). Dentro da população que deseja-se estudar, escolhe-se um n de grupos representativo daquela população. Claro que aqui a representatividade é bem diferente da significância estatística, pois um número grande de grupos tornaria a pesquisa inviável. Para cada grupo, o ideal é que o número de homens seja igual ao de mulheres; claro que esta regra é bastante flexível, visto o pesquisador poder deparar-se com situações onde isto é impossível.

O número total de membros de cada grupo focal deve ficar entre 8 e 12 membros. Menos que isso, empobreceria a discussão; mais que isso, tornaria a análise extenuante. Os depoimentos devem ser coletados com instrumento próprio, geralmente um gravador portátil, para posterior análise.
B. A análise do conteúdo exposto. De posse dos depoimentos dos entrevistados, passa-se a transcrição e análise. O objeto de estudo é o discurso, exteriorizado através principalmente da palavra. “Por meio da palavra, podemos apreender os aspectos cognitivos/afetivos/volitivos constitutivos da subjetividade, sem esquecer que tal subjetividade e, portanto, os sentidos produzidos pelos indivíduos são sociais e históricos” (AGUIAR, 2002:131). Compreender esse discurso, os sentidos produzidos por ele, é visualizar as forças que o construíram, seus confrontos e acordos, desníveis e junções, procurando conhecer tanto aquilo que se repete quanto aquilo que foge.

A construção do saber e dos afetos apresentados pelos sujeitos é histórica – está inserida em um corte de acontecimentos que o afetam; é social – envolvida pelas condições ambientais, econômicas, políticas, educativas etc. Esses fatores devem ser desvendados pela pesquisa, pois estudar o sujeito como uma entidade isolada seria cair no intimismo e na ideologia. Contudo, o pesquisador deve fugir de generalizações; cada caso é único, inserido em fatores semelhantes a muitos outros casos, porém a singularidade do objeto de estudo deve ser respeitada.

C. Para além da hipótese inicial. Conforme aponta AGUIAR (op. cit.), a análise pode ser feita observando-se núcleos em torno dos quais o discurso se aglutina; esses núcleos prestam-se aí a categorização (cf. também PIMENTEL, 2001).

A percepção desses núcleos deve realizar-se não somente ao final da coleta de depoimentos, mas durante também: o pesquisador deve estar atento a temas relevantes que vão além das hipóteses inicialmente levantadas e lidar com eles, incitando os participantes a falarem mais a respeito e procurando conhecer as conexões entre os diversos núcleos (COTRIM, 1996; TURATO, 2003). Esses temas podem enriquecer a hipótese inicial, modificá-la ou até tornarem-se novas hipóteses.

D. Conclusões: O método focal de pesquisa tem muito a contribuir para as pesquisas em Psicologia, por alguns fatores, dentre vários outros:

a) Proporciona aproximar-se do sujeito e de seu discurso dentro do contexto em que se encontra, sem isolá-lo de quem convive com ele, possibilitando conhecer as forças psicossociais constituintes e sua interação com outros indivíduos;

b) Possibilita a superação da imposição da visão de um cientista de posse de uma hipótese que ele usa a priori para explicar o objeto, visto que o entrevistado aqui torna-se colaborador da pesquisa;

c) Devido ao fato de proporcionar aos entrevistados uma problematização conjunta do problema focado, já adquire caráter interventivo, pois pode resultar em ações espontâneas por parte do grupo. Outros usos e reflexões a respeito do grupo focal, inclusive não somente para levantamento de dados, mas para intervenção direta, vêm surgindo na área da saúde, particularmente na Psicologia em suas diversas vertentes. Tal crescimento de sua importância se deve a seu caráter que permite aproximar-se do humano sem isola-lo no individual, abarcando também o grupo e, conseqüentemente, um recorte do social.

Bibliografia

AGUIAR, W.M. (2002) “A pesquisa em Psicologia Sócio-Histórica”. In: BOCK, A.M.B. e FURTADO, O. (orgs.) Psicologia Sócio-Histórica. São Paulo, Arte e Ciência Editora.

COTRIM, B.C. (1996) “Potencialidades da técnica qualitativa grupo focal em investigação sobre abusos de substâncias”. In: Revista Saúde Pública, 30 (3), págs. 285-293.

PIMENTEL, A. (2001) “O método de análise documental: seu uso numa pesquisa historiográfica”. In: Cadernos de Pesquisa, 114, págs. 179-195.

TURATO, E.R. (2003) Tratado da Metodologia da Pesquisa Clínico-Qualitativa. Petrópolis, Ed. Vozes.

Luiz Bosco Sardinha Machado Júnior Graduando em Psicologia pela Faculdade de Ciências e Letras de Assis (UNESP) Membro do NEVIRG – Núcleo de Estudos em Violência e Relações de Gênero. Linha Educação, Valores e Questões de Gênero Contato: luizboscojr@yahoo.com.br

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