A “nética” da psicanálise

Com o surgimento da rede mundial de computadores vimos o aparecimento de um novo ponto de debate para ser enfrentado pela psicanálise em seus aspectos de progresso e em seus aspectos de retrocesso. Surgem questões inexistentes antes e ao mesmo tempo um vasto campo de divulgação de reflexões sobre a postura psicanalítica frente ao mundo. Sem dúvida nenhuma, a internet surge como um novo “lugar” de divulgação, informação, atualização, troca de reflexões, campo de embate entre as psicanálises, disputa de mercado, distorções, deformações, exercício da ética etc. Torna-se urgente refletir sobre esse novo espaço surgido sobre a égide da contemporaneidade.

Poucos são os autores que já se debruçaram sobre a questão, quer seja em obra publicada, artigos ou textos divulgados na net. Há algo escrito pelo psicanalista Sérgio Telles que aborda a questãode publicações em psicanálise de uma maneira bem pertinente para nossa reflexão aqui nesse texto(D).

Os diferentes institutos com seus cursos de formação apresentam seus aspectos em relação a transmissão da psicanálise, muitos desses aspectos bastante importantes quando se evidenciam no uso da rede.

“A instituição é conclamada a ser conservadora, enquanto que a conduta psicanalítica, ao contrário, é convocada a ser libertadora, e mesmo, subversiva. O equilíbrio entre estas tendências opostas e as inevitáveis tensões que elas provocam, estão longe de estarem atualmente preservadas”. (René Major)

A partir dessa reflexão veremos como essa inserção pode ser compreendida ou ainda poderá ser abordada a questão sob um olhar crítico e ainda comprometido por aquilo que constituiu, desde sempre, como a ética da psicanálise.

Um dos temas que surge como palco de acaloradas discussões no ciberespaço seria o que gira em torno da abordagem da psicanálise enquanto ciência ou em sua proposta como um método ou ainda uma ética. Vemos em sites, comunidades virtuais, textos net publicados essa temática abordada sobre as vertentes mais diversificadas, algumas delas bastante curiosas. Temos então um panorama bem abrangente de um fato que se alimenta em debates no mundo presencial representado por suas instituições de formação de psicanalistas e suas diferentes linhas de abordagem. Se, com toda certeza, essa questão não encontrará uma resolução nos debates virtuais, encontra nesse “lugar” um campo privilegiado de observação, poderíamos pensar quase que como uma radiografia de corpo brasileiro que compõe o saber e fazer da psicanálise. Muitos autores acreditam na existência de uma psicanálise bem brasileira, algo um tanto revelador dos nossos traços de miscigenação que compõem o perfil do ser brasileiro. Na rede isso se torna ainda mais evidenciado.

“A Internet representa para um país em desenvolvimento, como o Brasil, muito mais do que apenas um novo recurso tecnológico. Ela propicia uma possibilidade de reformulação do ensino e ajuda a minimizar as dificuldades e deficiências educacionais no país. Desta forma, com a diminuição virtual da distância geográfica, torna-se possível uma maior interação entre os profissionais mais habilitados, em geral concentrados nas regiões mais ricas do país, e aqueles que se situam nas regiões mais pobres em recursos humanos e tecnológicos”. (Giovanni Torello)C

Os psicanalistas de uma maneira geral ainda andam pela net meio que anônimos, dada a regra de neutralidade presente em sua formação, encontram no ciberespaço um risco de exposição que ainda questionam como possível. Outros mais desbravadores já fazem desse lugar um ponto de encontro e discussões bastante aprofundadas muitas das vezes. A grande maioria dos maiores institutos andaram sofisticando bem mais seus sites e mantendo uma preocupação recente em atualizá-los com suas informações, artigos e divulgações de eventos. Sem dúvida experimentam já um bom retorno que a net/divulgação possibilita.

Pensamos e propomos aqui nesse artigo que seria necessário que a psicanálise enquanto um corpo mais coeso e coerente tomasse esse lugar sem tanta precaução, porque enquanto ela não faz isso outras práticas se associam ao seu nome de uma forma despudorada e insistente. A pergunta que fica será a se esse retrato da psicanálise que aparece na internet estaria de alguma maneira refletindo o que realmente se passa com ela na atualidade dentro do Brasil. Questão nada fácil de responder, uma vez que o “encontro” que ela, a internet, possibilita, não é reproduzível no presencial que apresenta vários eventos praticamente isolados por segmentos da psicanálise e dada nossa dimensão territorial, sequer abrangendo todo o país naquela determinada corrente.

Nos variados debates encontrados pela net, surge outra questão que fala do contrato de sigilo no que se refere ao paciente. Vejamos o que pontua o psicanalista Sergio Telles em artigo publicado em jornal on-line de psiquiatria sobre pulicações em revistas especializadas, bastante interessante as reflexões que traz nesse texto:

“É interessante essa tomada de posição dos editores de revistas médicas sobre privacidade e precisão científica, pois ela permite, de imediato, evidenciar algumas peculiaridades do campo psicanalítico. Se do ponto de vista científico, é necessário o maior rigor na descrição dos fatos clínicos, que não devem ser alterados sob risco de invalidá-los, de imediato vemos como isso é impossível no relato psicanalítico, onde a questão do sigilo profissional e da proteção da privacidade do paciente tem um alcance e uma dimensão que não existe na medicina. Uma coisa é a publicação dos dados de uma doença do fígado, outra é o relato analítico, que envolve a biografia, o comportamento atual, as relações sociais e pessoais do paciente”. (D)(grifo nosso)

Se não existe forma de se impor normas quanto a isso na net, devemos estar atentos para o debate aprofundado sobre os aspectos da ética que envolvem o sigilo, levando-se em consideração os aspectos traumáticos que podem ocasionar ao paciente ao se deparar com a leitura acidental de seu “caso clínico” com as respectivas considerações feitas pelo profissional que cuida dele, e ainda seguido com os “palpites” mais insólitos ou mesmo selvagens que costumamos ler por aí na rede. Pensamos que uma orientação ética só é construída a partir do dito, daquilo que vem para o manifesto para ser discutido. Supomos, então, que mais do que nunca, alguma orientação a esse respeito precisa ser considerada pelos supervisores e professores em atuação nesse momento.

Seguindo no texto do link D encontraremos um resumo do artigo de Glen
Gabbard cujo título é "Disguise or consent: problems and recommendations concerning the publication and presentation of clinical material”, que estará se referindo a publicação de casos clínicos em livros e revistas especializadas.

“Em 1991 o Comitê de Atividades Científicas da American Psychoanalytic de Ética na Revisão, voltou a abordar a questão, chegando a uma solução do tipo "ou/ou".

Dizia a resolução deste Comitê:

"Se o psicanalista usa material confidencial em apresentações clínicas ou em situações científicas e educacionais com colegas, o material deve estar o suficientemente disfarçado para impedir a identificação do paciente ou o consentimento informado do paciente deve ser anteriormente obtido.

Se este for o caso, o psicanalista deveria discutir com o paciente os propósitos de tais apresentações, os possíveis riscos e benefícios para seu tratamento do paciente e seu direito de negar a permissão para tanto”.

Segue Gabbard em outro trecho dizendo:

“Há os que dizem que o disfarce sem consentimento é inaceitável. As editoras e jornais psicanalíticos encaram o problema sob diferentes enfoques. Alguns editores de livros de psicanálise estão agora pedindo ao autor que obtenha consentimento escrito dos pacientes descritos no livro. O Journal of the American Psychoanalytic Association e o International Journal of Psychoanalysis pedem a seus resenhadores para identificar potenciais problemas de quebra de sigilo profissional (confidencialidade) nos trabalhos que estão sendo avaliados, mas ambos deixam a critério do autor a forma de resolver o problema, quando ele existe ”.

Desconhecemos quais sejam as recomendações feitas por editores aqui no Brasil, acreditamos que sigam na mesma direção das propostas internacionais. Pensamos que a questão que a internet traz sobre esse aspecto é gigantesca. Psicanalistas ainda em formação ou outros profissionais que dizem basear sua leitura na psicanálise, apresentam ou por insegurança ou por extrema forma de exposição narcísica, fragmentos de relatos onde obviamente a questão do consentimento sequer foi pensada. Temos a convicção que essa é uma questão mais do que urgente a ser tratada por abordagens nos vários institutos de formação e pelas faculdades que formam profissionais do campo psi.

Um aspecto avaliado ainda por Gabbard que pensamos que mereça ser citado diz respeito ao que pontua no trecho:

“Um terceiro e mais sombrio nível neste provocante situação diz respeito às motivações do analista. Uma agressão não bem resolvida dirigida contra o paciente pode ser um significante fator inconsciente nas motivações do analista que escreve. Muitos de nós escrevemos num esforço de controlar complexas e difíceis situações contra-transferenciais no nosso trabalho clínico. Consequências adversas da publicação do material clínico pode em alguns casos refletir nossa própria hostilidade não analisada em relação ao paciente que escolhemos usar como exemplo clínico”.

São questões como essas, próprias ao trajeto psicanalítico, que ganham dimensões no atual momento, antes impensáveis. Proliferam no Brasil blogs, sites, participação em comunidades virtuais etc cujo teor se pretende uma publicação em psicanálise e assim se identificam para o público leigo. Se atravessarmos esses indicadores com a análise do crescente descrédito ao qual a psicanálise vem sendo submetida por todo mundo, veremos que essa não é uma questão de menor importância.

O Brasil se apresenta como um fenômeno na utilização das páginas da web. “Uma pesquisa recente do Datafolha contabilizou que 47% dos brasileiros já têm acesso à internet”.(F) Não pensamos que esse possa ser um dado desconsiderado ao pensarmos a questão proposta nesse texto.Outro dado que nos remeterá para a importância desses questionamentos é o de que: “Somos o país no qual os usuários passam mais tempo conectados por mês. São mais de 22 horas mensais, ante 20 horas da França e 17,5 na Alemanha”. (F)

Na pesquisa feita pelo Ibope que aponta para esses dados Marcelo Coutinho, diretor de análise de mercado do Ibope Inteligência, fala para entrevista dada e publicada on-line no Carta Capital, questionando esses dados, mas também nos remetendo à uma importante reflexão:

Conceito de internauta e a possibilidade de 50% dos brasileiros estarem na rede

O que é internauta? é alguém que usa a internet uma vez a cada três meses (definição de todas as pesquisas de quantidade de usuários), uma vez na vida ou usa todo dia? Apenas 18% dos brasileiros, pela pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet no fim de 2007, utilizam a internet diariamente (entre a população de maiores de 10 anos de idade).

Temos que fazer uma série de discussões para chegarmos aos tais 50% dos brasileiros usando a internet, mas já chegou a hora de pararmos de pensar a internet como um fenômeno simplesmente numérico, e começarmos a olhá-la como um fenômeno qualitativo e comportamental. (grifo nosso)(G)

Esses dados, olhados sob qualquer prisma, sendo questionados ou não, nos apontam para um fenômeno que tem sido estudado por pesquisadores de muitas áreas, a psicanálise mais uma vez terá que construir pensamento a respeito desse tema contemporâneo e mais do que isso, pensar sua inserção nesse novo modo ou lugar onde se dá também sua participação.

Consideraçãos finais:

Ao longo da existência dessa coluna, que obviamente faz parte do fenômeno abordado aqui, tenho eu que a escrevo, tentado falar da psicanálise que se pode ler dentro de uma determinada perspectiva, que sei estar bem longe de representar, minimamente, a totalidade do que é falado em seu nome e ao mesmo tempo tentei lançar esse “pensar” dentro de uma realidade atual. Participar na internet não é algo que possa ser encarado de maneira fácil, em outro artigo meu publicado aqui nesse site(E), fiz considerações sobre o aspecto democrático existente na rede e quanto a inexistência ou pelo menos enfraquecimento dos indicadores de uma relação vertical que aconteceria em uma outra forma de expor conceitos em textos. Claro que essa verticalidade é de alguma forma mantida quando o autor já possui um reconhecimento sólido no mundo presencial e pelos institutos que o compõem no que diz respeito a psicanálise, ao procurar um texto na net, não poderemos nunca desconsiderar esse indicador.

Penso então que embora a internet traga aspectos bem preocupantes principalmente no quesito ética, por outro lado promove um intercâmbio que poderá ser bastante fecundo. Li certa vez em uma comunidade do site de relacionamentos Orkut, uma pergunta que remeteria a se Freud teria ou não um perfil de Orkut ou se participaria da internet de alguma maneira. Eu particularmente penso que ele seria um dos primeiros a aderir a isso, dada a sua característica de desbravador, acho que um traço de sua intrigante personalidade que dificilmente será questionado, basta abrir sua obra que nos deparamos com seu espírito curioso e sua disposição jovem, mantida até sua morte. Isso sem considerar a vasta correspondência que produziu ao longo da vida. Seriam hoje os e-mails?

Trago essas reflexões desde que comecei a participar dos fenômenos virtuais em 2005. Considero um campo magnífico de investigação e interesse. Cada passo novo que me aventuro nele, vislumbro outros inúmeros temas a serem encarados e lidos com a contribuição da psicanálise.

Algumas correntes da psicanálise tomam hoje a net muito mais marcadamente, postando suas “verdades” e achados. Não conheço pesquisa a respeito, mas pela observação direta diria que é forte a presença das escolas lacanianas. Caso isso se mostre um dado confiável, penso que seria interessante avaliar porque dessa presença mais representativa e atravessar esse dado com os principais constructos teóricos que essa escola formula.

Outro tema que poderá entrar para debate necessariamente versa sobre a situação atual da psicanálise no Brasil com o surgimento de institutos de formação pra lá de duvidosos, que agregam coisas impensáveis a sua prática, eles mais do que outros proliferam como bactérias pelo mundo net. Acho que isso merece um olhar também sob o prisma da net, sabemos que no mundo presencial isso já tem sido feito pela reunião de institutos idôneos. Deixo para nossa reflexão algo dito pela psicanalista Cibele Prado Barbieri :

“A situação atual nos coloca diante de uma difícil escolha: devemos lutar pela não regulamentação para assim defender a liberdade de ação dos psicanalistas e proteger o legado freudiano, ou criar um regulamento para preservar a psicanálise e as instituições psicanalíticas dos oportunistas, mesmo correndo o risco de promover um certo engessamento?”. (H)

O convite que quero construir a partir dessas minhas considerações aponta no sentido de que pensemos em uma ética para navegarmos nesse ciberespaço. Algo que por ironia chamarei de “interpsinauta”. Proposta sem dúvida nenhuma bem pretensiosa, mas necessário que seja dita e dita novamente, espero que por outros interessados no tema e pesquisadores capacitados.

“Ao escrevermos, como evitar que escrevamos sobre aquilo que não sabemos ou que sabemos mal? É necessariamente neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos na extremidade de nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro.”
Gilles Deleuze

Links contendo artigos que versam sobre o tema:

A – http://www.geocities.com/HotSprings/Villa/3170/convocao.htm

B – http://www.polbr.med.br/arquivo/marcio.htm

C – http://www.polbr.med.br/arquivo/mlitalia.htm

D – http://www.polbr.med.br/arquivo/psi0301.htm

E http://www.redepsi.com.br/portal/modules/smartsection/item.php?itemid=794

F – http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=6&i=1743

G – http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=6&i=1781

H – http://www.agalma.com.br/agalma/ver_artigos.asp?ID=3

About Denise Deschamps

Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “ Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro "Cinematerapia - Entendendo Conflitos".

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