Para uma teoria Winnicottiana da delinqüência

Desenvolvimento emocional primitivo – processo pelo qual um recém nascido passa do estado de narcisismo primário ou dependência absoluta, onde não há consciência da dependência nem de um mundo externo, para o estado de dependência relativa, onde as duas coisas começam a existir. Consiste em três movimentos paralelos: 1 – Integração (núcleos de ego formam um todo crescentemente organizado); 2 – Personalização (ligação cada vez mais estreita entre a psique e o soma, com a pele funcionando como membrana limitadora entre o ‘dentro’ e o ‘fora’); 3 – Realização: a – processo de tomada de consciência da existência de um espaço cada vez maior fora do indivíduo, e da localização e movimentação dos objetos nesse espaço, e da dimensão ‘tempo’ que situa os acontecimentos no contínuo entre o ‘antes’ e o ‘depois’. b – tornar-se (sentir-se) real.

O período da dependência relativa abarca dois estágios: o do ‘incompadecimento’, em que o desejo do indivíduo só encontra barreiras na impossibilidade física, e o do ‘concernimento’, em que o interesse pelo bem estar do outro passa a funcionar como uma nova barreira para esse desejo. A partir do estágio do ‘concernimento’ o indivíduo passa a levar em conta as conseqüências de seus atos para os que estão à sua volta. Durante todo esse período, o pensamento mágico, onipotente, funciona livremente: até certo momento, tudo aquilo que vem de fora e limita a onipotência do indivíduo (o que Winnicott chama de ‘não-eu’) é visto como ‘inimigo’ e rechaçado sempre que possível. Com a chegada do concernimento, surge um novo olhar sobre esse ‘não-eu’, que de ‘inimigo’ passa a ‘amigo’, ou ao menos a ‘indiferente’. Alguns fenômenos conforme a percepção de Winnicott:Agressividade – capacidade inata de movimentação, utilizada para alcançar as coisas desejadas a partir da capacidade de distinguir quais sejam elas.Agressão – capacidade de utilizar a agressividade para opor-se ao que for percebido como indesejável. Confiança – capacidade de sentir que certa figura é protetora e não inimiga. Segurança – sentimento de bem estar em contexto conhecido, no qual não haverá hostilidade em relação ao indivíduo.Deprivação – perda abrupta de figura de apego pela qual o indivíduo sentia confiança e cuja presença proporcionava ao indivíduo um sentimento de segurança. Difere da ‘Privação’ pelo fato de que nesta, a figura de apego não é confiável nem proporciona segurança. Conseqüência da ‘Privação’ – psicose. Conseqüência da ‘Deprivação’ – Tendência Anti-Social.

Temos que partir da idéia de que vivemos um e num paradoxo. Paradoxo é a co-existência de idéias que, por seu conteúdo, se contradizem, ou seja, que teriam existência plena se existissem sozinhas, mas que, co-existindo, permitem uma riqueza muito maior do conjunto total, apesar de ‘brigarem’. Por exemplo: Todos gostam de café com leite. Todos sabem que o café poderia ser tomado sozinho, e o leite também. Todos sabem que o café, sozinho, tem um certo gosto, e o leite também. Seria perfeitamente possível bebermos somente café, ou somente leite. No entanto, tanta gente prefere café com leite, e não cada um dos dois isoladamente, que é possível falar de uma aprovação quase universal da junção dos dois. O café com leite possui um gosto próprio, que não é a soma dos gostos específicos do café e do leite. Sim, é preciso não esquecer que na equação café com leite está incluído o açúcar. Temos então café com leite e açúcar. Esse conjunto significa que cada uma das substâncias põe limite às outras duas. Cada uma delas, se excessiva dentro da composição, abafaria totalmente o gosto das outras duas. As três substâncias devem, então, equilibrar sua presença de modo a nenhuma das três abafar o gosto das demais. Então teremos café com leite (e açúcar) do jeito certo. Mas ‘do jeito certo’ é o jeito de cada um dos que bebem café com leite. Cada pessoa tem o seu ponto ótimo de preferência pessoal, e tolerará muito bem, até certo ponto, desvios na sua fórmula favorita.

Mas sempre haverá um limite para o desvio, de modo que se uma única das três substâncias estiver presente em quantidade excessiva ou deficiente, a pessoa rejeitará o todo. A meu ver, podemos tomar o exemplo do café-com-leite como modelo para tudo na nossa vida. (O mesmo pode ser dito sobre o fenômeno chamado ‘sal na comida’.) É por meio desse modelo que lidamos com aquilo que chamamos ‘realidade’. Que é sempre um paradoxo. O limite, então, tem a ver com duas coisas, que em si mesmas já são um outro paradoxo: O limite impede algo, e ao mesmo tempo possibilita outro. Não fosse o limite, uma das duas coisas impediria a existência da outra. O limite, então, é o que possibilita a duas coisas existirem lado a lado. É possível dizer, então, que o limite permite a coexistência, e portanto o próprio paradoxo. E por que o paradoxo é tão importante? Talvez porque o ser humano, à diferença dos outros animais, é complexo a ponto de não poder existir adequadamente sem que seja num ambiente paradoxal. Num ambiente simples, ‘lógico’, ou ‘óbvio’, a vida humana é possível somente por breves momentos. Se tudo é previsível, a sensação de segurança é total. Rapidamente, porém, o ‘caos’ (ou o ‘acaso’) contra-ataca, e o equilíbrio se restabelece. Temos em nossa vida amor e raiva.

É impossível que um dos dois reine absoluto. Na ‘lógica’, um dos dois deveria instalar-se e apagar a existência do outro. Mas isto não é possível na prática. Temos vários binômios: fome – saciedade, calma – excitação, sono – correria, e assim por diante. Nenhum desses fenômenos pode ocorrer isoladamente por muito tempo. A vida seria impossível. A vida humana, então, nem pensar. O coração bate e pára, bate e pára. Vida é isso. Só a morte é um sossego eterno. Ou então, no caos (que alguns chamam de ‘inferno’…), tumulto eterno. Com o yin e o yang dos chineses ocorre algo semelhante.Se essa aparente contradição é inevitável, segue-se todo o resto. O limite, então, surge como necessidade da própria vida – a necessidade de não permitir que algo se estenda infinitamente. Na vida animal o limite é implícito. As espécies animais desenvolveram-se com limites embutidos. Daí sua força – elas conseguem evitar os perigos por mecanismos simples e inerentes a elas. Mas daí também sua fraqueza – se surgir um perigo para o qual elas não estão preparadas, nada poderão fazer contra ele. A espécie humana vem ao mundo sem esses limites implícitos. Precisa, então, de limites vindos de fora. Aprendidos. Mas esta é, por sua vez, a grande vantagem da humanidade: a capacidade de inventar novas defesas contra perigos inesperados. O ser vivo vive à beira da morte. ‘Viver’ consiste em não ultrapassar essa beira. Para o animal, a maior parte dos limites que o impedem de ir longe demais estão embutidos dentro dele. Para o ser humano eles são dados pelo que este é capaz de aprender – de longe, o animal humano é o mais capaz de aprender – com a própria experiência e com a experiência alheia.

Os limites aprendidos permitem ao ser humano também manter o equilíbrio entre os dois lados de qualquer paradoxo, caso contrário o excesso de um lado e a deficiência do outro levarão à morte. Se assim é, toda a vida humana será pautada por esse conflito essencial entre os dois lados de qualquer coisa. E a vida humana especializou-se, com o tempo, à diferença da dos outros animais, em realizar-se num contexto macro-social, onde muitos exemplares da mesma espécie convivem ao mesmo tempo num mesmo espaço. O paradoxo inicial para a vida humana é, portanto, o da coexistência entre ter um espaço absoluto e ceder uma parte do mesmo para a existência de outros. A lei é a expressão da experiência do grupo, impondo limites ao desejo de espaço absoluto quando esse desejo não é limitado o bastante pelo próprio indivíduo. Idealmente, não seriam necessárias leis. Elas existem porque em nenhum grupo todos os indivíduos ao mesmo tempo são suficientemente maduros para terem aprendido tudo sobre a necessidade (e as vantagens) de limitar o próprio espaço. Na espécie humana (e este é um outro paradoxo) o indivíduo tem tanto a aprender, que nem sempre lhe é possível aprender tudo. Até porque boa parte dessa aprendizagem depende muito mais de quem lhe ensina (os pais, em primeiro lugar) do que da própria capacidade de aprender.

A espécie humana, então, inventa leis, para regular de fora o que não é regulado de dentro. Todo povo tem leis. Recentemente foi descrito um povo que não tem leis. Nem coesão social. Nem cultura própria. Seus indivíduos, então, vivem de acordo com as leis da sociedade onde vivem. Ou seja: isto é possível. Mas não pode ser a regra. Teria que haver outros povos, dotados de leis, entre os quais os membros desse povo esquisito possam viver. A lei é necessária para permitir a vida em conjunto. Sem leis estaríamos condenados não à transgressão eterna, mas em primeiro lugar à solidão eterna. E não haveria humanidade.O ser humano nasce em meio a outros, e vive sua vida toda em meio a outros. Aqueles que se localizam mais perto desse ser humano específico ficam marcados, para ele, como referências permanentes. Quando algum desses seres-referência ou todos eles desaparecem, há o desastre. O indivíduo perde o seu mundo e perde o seu eu. Porque não existe um ser humano individual. Não existe um ‘eu sozinho’. Ele terá que fabricar outros, um outro mundo e um outro eu. E inventar novos seres-referência. Daí as quadrilhas de foras-da-lei. Daí a sua força: elas lutam contra a catástrofe definitiva – a perda dessa segunda referência, que lhes salva a sanidade. E daí a sua fragilidade: as referências fabricadas e inventadas não têm a mesma estabilidade que a referência ‘natural’. É preciso considerar, então, que o fora-da-lei está doente.

Sua capacidade de manter-se vivo não é forte o suficiente para garantir que seu instinto de sobrevivência durma em paz. Ele perpetua a luta para poder se manter vivo.No início de tudo isso está o desenvolvimento emocional primitivo do ser humano. Winnicott foi quem mais perto chegou de compreendê-lo – até hoje – ao dizer: ‘O bebê é um ser à beira da angústia impensável (sinônimo de loucura), e a tarefa da mãe é mantê-lo longe dali.’ Essa ‘angústia impensável’ é, a meu ver, sintoma de algo mais profundo: o medo instintivo da morte, do qual Winnicott não fala, que afeta todo ser vivo em condições de ter percepções e movimentos – mesmo baratas. (Os vegetais, tanto quanto se sabe, não possuem nem uma coisa nem outra, por isso não podem lutar contra a morte nem fugir dela – podem apenas reproduzir-se abundantemente para garantir que alguns deles continuarão vivos. Trocaram por inteiro – ou nem chegaram a alcançar esse outro nível – a sobrevivência do indivíduo pela sobrevivência da espécie.) Quando a mãe, de algum modo, falha em sua tarefa de proteger o bebê da angústia impensável, teremos um ser que precisa defender-se sozinho contra o terror. Mas como diz o povo, ‘a melhor defesa é o ataque’. E assim, atacando, aquele cuja mãe falhou em mantê-lo longe do terror expulsa o terror de perto de si, adia o ‘dia do juízo final’ e vai vivendo, naquele tipo de vida que nós outros conhecemos como ‘criminalidade’. Aparentemente, os ‘fora-da-lei’ odeiam o limite. Mas não. Por um lado, porque todos nós odiamos o limite, então não são eles que o odeiam. Por outro, porque sem limites o que existe não é liberdade, mas loucura. Caos. Morte psicológica, que geralmente leva à morte física. O fato é que as quadrilhas de foras-da-lei têm os seus próprios limites. Suas próprias regras do jogo.

Só há um tipo de jogo em que não há regras: o brincar. Brincar, no sentido estrito do termo, significa fazer algo sem utilidade nem sentido, pelo simples prazer de fazê-lo. Estar numa piscina, por exemplo. Deitar-se na praia para ‘pegar sol’. Improvisar música num instrumento quando não há ouvintes. Jogar joguinhos no computador. Fazer carrinhos de brinquedo andarem para lá e para cá. Coisas desse tipo. Quando há utilidade e /ou sentido, falamos em jogar, não em brincar. E no jogo há sempre regras. Quando entra em ação o fenômeno da regra, do limite, estamos no reino do jogo, da lei. No brincar contam só a imaginação e a vontade. No jogo conta também o limite. É impossível viver em sociedade sem ele. Por isso o brincar, tantas vezes, é solitário. Todo ser humano tem necessidade de duas coisas antagônicas: de previsibilidade (segurança), e de liberdade (agressividade – ver definição acima). Não é possível viver dignamente sem um mínimo de ambas as coisas, que em essência são mutuamente excludentes. Então vivemos na corda bamba entre as duas. Paradoxo.Quando Winnicott fala de ‘tendência anti-social’, ele focaliza um fenômeno que deriva do fato de o ‘social’ (o mundo externo) ter atacado o indivíduo, que reage contra ele. Não fosse o ataque, não haveria a reação. O ataque pode ser por abandono, por invasão, por agressão física ou por agressão emocional. O ataque acontece num momento em que o indivíduo está estruturando a sua identidade (ou seja, na segunda parte da primeira infância – entre um e seis anos de idade) e já está bastante avançado nesse caminho. Nessa época, a identidade ainda é um projeto. Ainda não é um fato. Ela se desorganiza ao ser atacada. No processo de formação da identidade há um princípio fundamental: eu sei quem eu sou porque sei quem são minhas referências (uma criança pequena ainda não é um ‘eu’ – é a ‘filha de…’). No momento em que estas falham ou desaparecem, vai-se junto a identidade. Há, aqui, a ação de um outro fenômeno: a ‘confiança em…’. Essa confiança é essencial para que uma vida seja considerada ‘humana’.

Encontrei uma boa citação de Winnicott que diz tudo isso:As crianças precisam continuar descobrindo se ainda podem confiar em seus pais, e este teste pode continuar até que elas estejam prontas a fornecer condições seguras para seus próprios filhos, ou mesmo depois disto. Os adolescentes, bastante tipicamente, testam todas as medidas de segurança e todas as regras, regulamentos e disciplinas. Assim, em geral acontece que as crianças efetivamente aceitam a segurança como um pressuposto básico. Elas acreditam em um bom cuidado materno e paterno inicial porque o tiveram. Elas trazem consigo um senso de segurança, e este é constantemente reforçado por seus testes com os pais e a família, com os professores e amigos, e com todos os tipos de pessoas que encontram. Tendo verificado que as trancas e ferrolhos estão fechados com segurança, elas buscam destrancá-los e escancará-los; elas irrompem … As crianças saudáveis efetivamente precisam que os adultos continuem no comando, mas a disciplina deve ser fornecida por pessoas que podem ser (ao mesmo tempo) amadas e odiadas, desafiadas e das quais se pode depender; os controles mecânicos são absolutamente inúteis, e tampouco o medo é um bom motivo para a submissão. O campo de ação necessário ao verdadeiro crescimento sempre exige uma relação viva entre pessoas.

O verdadeiro crescimento é gradativo e, com o decorrer do tempo, leva a criança ou o adolescente a um senso adulto de responsabilidade, principalmente responsabilidade pela provisão de condições seguras para as crianças menores de uma nova geração. (Limite e Espaço, pág. 164) Num outro lugar encontro palavras de Jan Abram e duas citações de Winnicott encontradas por ela (The Language of Winnicott, Karnac Books, pág. 11):Winnicott:Do meu ponto de vista, existem três processos cujo início ocorre muito cedo: 1 – integração (transformação dos vários ‘núcleos’ de ego num todo razoavelmente organizado); 2 – personalização (integração psique – soma, o eu e o corpo formando um todo); 3 – em seguida a estes, a apreciação do tempo e do espaço e de outros aspectos da realidade – numa palavra, a realização.[1]Uma grande parte do que tendemos a considerar óbvio teve um começo e uma condição a partir dos quais iniciou-se o seu desenvolvimento. (P.P. ##) Jan Abram:Ainda que esses três processos possam iniciar-se no bebê durante as primeiras 24 horas de sua vida pós-parto, Winnicott reivindica a descoberta do que ele denomina ‘self primitivo incompadecido’. Essa ausência de compaixão ocorre antes de o bebê ser capaz de sentir concernimento, e portanto o self incompadecido antecede o self concernido.

Mas o self concernido, capaz de sentir-se compadecido, depende, para o seu desenvolvimento, de o self incompadecido sentir-se livre para se manifestar (a isto Winnicott chama de ‘espontaneidade’. D.B.). (Pág. 11) Winnicott:Quando assumimos que o indivíduo está se integrando e se pessoalizando, tendo tido um bom começo na tarefa de realização, ainda lhe resta um longo caminho antes de passar a relacionar-se como pessoa total com uma mãe total, e a importar-se com as conseqüências de seus próprios pensamentos e atos sobre ela. É preciso postular a existência de um relacionamento objetal inicial incompadecido (impiedoso – ruthless).

Novamente, talvez esta seja apenas uma fase teórica, e ninguém consegue ser incompadecido (impiedoso – ruthless) depois da fase do concern, a não ser em estados dissociados (por exemplo, diante de uma ameaça brutal e total, quando o indivíduo, às vezes, ‘perde a cabeça’. D.B.) Mas os estados de ausência de compaixão (ruthlessness) dissociada são comuns no início da infância, e emergem em certos tipos de delinqüência e de loucura, e precisam estar disponíveis na saúde. A criança normal tem prazer na relação incompadecida (sem compaixão – ruthless) com a mãe, geralmente em meio a brincadeiras, e ela precisa da mãe porque esta é a única de quem se pode esperar que tolere a sua ausência de compaixão (ruthlessness) mesmo nas brincadeiras, pois isto na verdade a fere e a cansa. Sem a possibilidade de brincar de modo incompadecido, a criança terá que esconder o seu self incompadecido e dar-lhe vida apenas em estados dissociados (propriamente ditos, ou seja, em momentos em que a pessoa faz algo que ela não reconhecerá posteriormente). (P.P. ##) Este é, na verdade, um retrato do que podemos chamar de ‘vida humana perfeitamente normal’. O ‘normal’, portanto, inclui a transgressão. Mas trata-se de uma transgressão em condições regidas pelo amor e pela confiança, não pelo ódio ou pelo medo. Quando a transgressão é realizada em condições de medo/ódio, tudo muda de figura. O sujeito da transgressão não pode ser chamado dessa forma: ele não é sujeito, é objeto, pois não se trata de vontade e sim de compulsão. O impulso a roubar ou a destruir não é regido pela liberdade de escolha. É algo compulsório. É uma reação a uma perda. Mas não pode ser tratado facilmente porque a perda não foi de ‘algo’, foi de ‘tudo’. Winnicott fala de um self verdadeiro e de um self falso. No primeiro, o self se forma pela acumulação de experiências predominantemente ativas, em que o bebê é o sujeito da ação, na medida em que sua espontaneidade é aceita e acolhida pelas pessoas em volta. No segundo, ele se forma pela acumulação de experiências predominantemente passivas, em que ele é o objeto da ação de outra pessoa.

Na tendência anti-social o que vemos é que um self verdadeiro, acostumado a sentir-se sujeito da ação, que se vê repentinamente destituído dessa condição, percebendo-se não mais sujeito da ação, mas objeto dela (objeto do fato de que a pessoa de apego desapareceu, por exemplo), e isso muda tudo. A tendência anti-social é deflagrada por uma pá de cal sobre os sentimentos de confiança e de segurança da criança, e sobre seu sentimento de ser o sujeito da ação (ao menos em quantidade suficiente). A t.a.s. ocorre porque uma pessoa importante, uma figura de apego (Bowlby), desapareceu da vida criança por um tempo suficientemente longo para ela perder a esperança de reencontrá-la. Uma referência importante foi eliminada. (Um rosto que serve de espelho, pelo qual a criança identifica a si própria, perdeu-se – e o espelho ficou vazio…) Podemos imaginar alguém escalando o Everest, com um alpinista profissional seguindo na frente para mostrar o caminho e garantir a segurança. Se imaginarmos que lá pelas tantas esse guia desaparece, talvez entendamos como se sente a criança a partir dali. Desse momento em diante, o verdadeiro self dessa criança se esconde e surge em seu lugar um self aparentemente muito bonzinho, muito cordato e muito adaptado.

Mas falso. É um self adaptado à tarefa de garantir que não haverá mais perdas. Se lembrarmos da frase genial de Férenczi, de que ‘as crianças sentem-se culpadas pelos maus tratos que recebem’, veremos que o self da criança adapta-se a isso: A não mais sentir-se culpado e portanto sujeito a novos maus-tratos. O resultado é como nas histórias de terror: A criança parece boazinha, mas assim que viramos as costas algo terrível acontece. Porque o self verdadeiro dessa criança não está adaptado coisa nenhuma. Está, ao contrário, em busca. Em busca do que perdeu, e em busca de vingança por ter perdido. O sentimento dessa criança, mesmo se a figura de apego acabou reaparecendo (depois que é ‘tarde demais’, quando a esperança do reencontro esgotou-se), é de ser órfã de pais vivos. Isto porque a experiência de ter perdido não se apagará, por mais que a perda tenha sido apenas temporária – do nosso ponto de vista. O terror sentido pela criança não desaparece com o reaparecimento da pessoa. Nem há, para ela, a possibilidade de realizar um luto e sair dele posteriormente. Porque, repito, a perda não foi só da figura importante. A perda foi também de si mesma. Por isso o luto, nesses casos, é impossível, e por isso não há reparação.Infelizmente, o ser humano tem a tendência a generalizar (uma de suas capacidades mais importantes, mas ao mesmo tempo mais capazes de levar ao desastre). Por ela, os seres de referência que falharam tornam todos os outros seres humanos suspeitos e inconfiáveis.

Daí a tendência anti-social ser tão difícil de tratar: há que, primeiro, fazer com que um campeão de desconfiança deixe de sê-lo, e só depois ocorrerá o tratamento. A dificuldade (de quem trata de casos desse tipo) está em relacionar-se com alguém que não nos quer por perto – a não ser como instrumentos de satisfação de suas necessidades mais simples e imediatas. (Curiosamente, voltamos à noção de ‘mãe objeto’, aquela que satisfaz as necessidades do id, mas não supre as necessidades do ego. É a ‘mãe ambiente’, portanto, que morre ao desaparecer a referência.)Estamos, então, frente a uma criança / adolescente / jovem que sofre de Tendência Anti-Social. O que fazer? Não se pode suportar todo o caos criado por essa pessoa. Ela própria não o pode suportar. Temos que impedir que ela destrua o mundo (pelo menos o mundo à sua volta…). Mas como? Se a castigarmos será pior, porque confirmaremos para ela que confiança e segurança são impossíveis de alcançar. Confirmaremos que ela está diante de inimigos, e que portanto suas fantasias têm razão. Se não a castigarmos ela se sentirá ainda mais desprotegida, e tenderá a criar um caos ainda maior. O remédio – diz Winnicott – está na contenção – no ato de tolher os movimentos do indivíduo, impedindo-o de agir do modo que lhe seria característico. Conter é a palavra chave do ‘tratamento’. Segurar, tolher, impedir, enfim, que o caos se instale. E isso é difícil. Não porque a força necessária seja inviável, mas porque a tendência humana geralmente é a da vingança, da retaliação. Essa é a grande questão em relação à tendência anti-social.

Aqui, temos que inverter a célebre frase de Nietzsche: ‘Tudo aquilo que não me esmaga, me fortalece’, e dizer: Tudo aquilo que não é remédio para a t.a.s, é veneno, e só a leva a piorar. Daí o apelido, na prática, das prisões e reformatórios: universidades do crime.Para Winnicott há uma continuidade entre a Tendência Anti-Social e a delinqüência propriamente dita. Esta última é o desenvolvimento da Tendência Anti-Social não tratada num tipo de comportamento em que o outro é sempre instrumento ou objeto, quase nunca um sujeito por direito próprio. (Olha a ‘mãe objeto’ aí de novo!) Isto implica em que, para que haja alguma mudança seja na Tendência Anti-Social seja na delinqüência propriamente dita, o indivíduo terá que ser visto e tratado como sujeito, mesmo que seu comportamento manifesto seja cerceado. Tratar esse tipo de indivíduo como objeto apenas confirma, para ele, que o seu próprio modo de ver os outros é o verdadeiro.É claro, ainda assim, que dificilmente alguém perde completamente a percepção do outro como sujeito. A volta total à época do incompadecimento é muito difícil de ocorrer, e geralmente implica em loucura. Mas quanto mais próximo está o indivíduo desse estágio primitivo do desenvolvimento, mais tendemos a considerá-lo ‘incorrigível’. Daí a idéia da pena de morte – descarta-se uma pessoa que não se pode consertar.Tudo isto traça uma linha entre o desenvolvimento emocional primitivo segundo Winnicott e o bandido profissional e assumido, e desenha uma ‘teoria’ da delinqüência.

A tendência Anti-Social

De um modo geral, Winnicott procurou sempre partir da saúde para entender a doença. Desde o seu trabalho sobre o jogo da espátula (um dos primeiros artigos psicanalíticos escritos por ele) nós o encontramos examinando o bebê emocionalmente saudável para entender como ele ‘funciona’. No entanto, relendo o que já estava escrito abaixo, pareceu-me possível descrever praticamente toda a contribuição psicanalítica de Winnicott partindo do tema ‘a tendência anti-social’. Para que ocorra o fenômeno ao qual ele deu esse nome, é preciso que uma parte muito grande do percurso do desenvolvimento emocional primitivo já tenha se realizado, sendo necessário descrever tanto isso quanto as suas alternativas – o desenvolvimento deficiente e todas as suas conseqüências, que podem ser listadas ponto a ponto. Assim, pela primeira vez ocorre-me a idéia de que logicamente é possível, na obra de Winnicott, partir da doença (ainda que ele explicitamente afirme que a tendência anti-social não é uma doença) para falar da saúde, o exato oposto do que ele próprio sempre procurou fazer. ‘Tudo ia bem até que algo aconteceu.’

Esta é a frase que poderíamos dizer ao observar a criança ou o adolescente com tendência anti-social. Isto quer dizer que o bebê, em seu desenvolvimento, encontrou um ‘ambiente facilitador’ ‘suficientemente bom’, principalmente na decisiva fase da ‘dependência absoluta’. Mais tarde, na fase da ‘dependência relativa’, onde já tinha consciência da existência do ambiente, sofreu uma ‘deprivação’, a perda abrupta de algo que era sentido como bom. Por contraste, o que ele chama de ‘privação’ refere-se a uma situação em que a falha do ambiente era constante e começou bem mais cedo. Na privação o ambiente é falho, inadequado: sua tarefa de adaptar-se às necessidades (egóicas) do bebê é realizada de modo insatisfatório. Trata-se de um ambiente que não consegue ser nem mesmo ‘suficientemente bom’. Como a onipotência está ainda em pleno vigor, a falha é sentida como sendo do próprio bebê. Na deprivação o ambiente é suficientemente bom, e sua falha consiste em revelar-se destrutível (do ponto de vista do bebê), quando uma das figuras importantes desaparece ou entra num estado em que a criança não recebe (por um tempo prolongado demais) as respostas emocionais necessárias (casos de doença prolongada, depressão, etc.). Conhecemos a célebre frase de Winnicott: ‘O bebê é um ser eternamente à beira da angústia impensável. A tarefa primordial da mãe é mantê-lo afastado dali’. Isto equivale, nos termos do próprio Winnicott, a dizer que a mãe proporciona à criança pequena uma ilusão de segurança ou mesmo de imortalidade. Quer dizer, a mãe prega à criança uma tremenda mentira (‘Está tudo bem, meu filho. Nada vai lhe acontecer’). Quando tudo felizmente corre bem, a criança pequena torna-se um menino ou menina convencidos de que ‘segurança’ é algo totalmente confiável, e ‘confiança’ é algo perfeitamente possível.

A mãe (e em seguida o pai) confirmaram que aquela ‘mentira’ era verdade, e que a grande verdade da vida (o perigo sempre possível do desastre ou da morte) era uma mentira. Um grande sociólogo (Peter L. Berger, no livro Um rumor de anjos) mostrou que este é um dos fenômenos que apontam para a existência, no ser humano, da dimensão do sagrado, da transcendência, independentemente de qualquer educação religiosa.É esta a razão pela qual a ‘deprivação’ tem um efeito tão devastador: Ela destrói a ilusão de que o ambiente é indestrutível, de que os pais sabem realmente do que estão falando, de que a segurança é algo alcançável e de que a imortalidade pode ser realmente experimentada. Ocorrendo a deprivação, tudo que estava sendo construído pela criança desaba. A confiança se transforma em descrença, a segurança se revela uma ilusão (agora no sentido negativo do termo), e o ambiente seguro e tranqüilo é, agora, uma selva cheia de predadores. A própria criança, que estava em vias de adquirir uma identidade própria, não pode mais acreditar no que está acontecendo dentro dela. Como disse Marx, ‘tudo que era sólido desmanchou-se no ar’. (Ver, a esse respeito, o importante trabalho ‘A Mãe Morta’, de André Green, no livro Narcisismo de Vida, Narcisismo de Morte.) Winnicott distingue duas formas de deprivação: Deprivação da figura materna (o objeto primário) e da figura paterna (do limite). A primeira, ligada à perda da adaptação do ambiente (mãe) às ‘necessidades egóicas’, é representada a posteriori pelo roubo (tecnicamente, ‘furto’ seria o termo mais preciso), indicando que há uma busca inconsciente do objeto; e a segunda, em um tempo posterior, ligada às necessidades instintivas, ao ser perdido o ambiente (pai), julgado, ilusoriamente, indestrutível, é representada pela destrutividade, desencadeada para obrigar o ambiente externo a reagir (que seria a função do pai). Aqui caberia, talvez, falar de ‘fúria narcísica’, um ataque que visa vingar-se de uma ferida narcísica. Nos dois casos, a criança comporta-se como se estivesse se ‘vingando’ do fato de que algo que ela considerava vital lhe foi ‘roubado’.A deprivação ocorre geralmente entre cerca de um ano e os quatro, cinco anos de idade.

Antes disso, a percepção do ambiente como externo ainda não é suficiente, e depois, é possível que a criança sobreviva (psicologicamente) ao desastre. (Quando Winnicott aponta limites de idade ele sempre acrescenta que está falando de ‘maioria estatística’ e não de limites reais.)Ao escolher o termo ‘tendência’, Winnicott tira do anti-social a categorização de uma doença, como a neurose ou a psicose. Quando a criança sofre a deprivação, ela entra num estado de angústia impensável, e aos poucos vai se organizando numa espécie de estado neutro (congelado, de insensibilidade). (Como foi dito acima: ‘O bebê é um ser permanentemente à beira da angústia impensável…) Esse ‘estado neutro’ é enganador, pois à primeira vista dá a impressão de uma adaptação perfeita ao novo ambiente externo. Na verdade, é possível dizer que essa criança passa a se comportar como alguém perdido numa horrível floresta: cada passo é perigoso, cada sombra esconde monstros terríveis. O mais importante, então, é não se mexer muito para não atiçar os monstros… Por baixo disso, no entanto, espreita a Tendência Anti-Social (a criança tem razão em projetar sobre o mundo externo o que se passa dentro dela mesma…)O comportamento anti-social se caracteriza por atuações (comportamentos compulsivos), que escondem dentro de si um pedido de socorro. Atrás de todo ato anti-social há uma esperança, diz Winnicott, a esperança de conseguir retornar ao estado anterior ao da perda, e de não sofrer mais a ameaça da ansiedade impensável. E se há algo que Winnicott talvez não tenha dito, é que a criança que sofre a deprivação não perde apenas as pessoas de quem ela depende: perde também, e talvez principalmente, a si mesma – na medida em que a identidade da criança não se ‘solidifica’ antes dos seis, sete anos.

A integração do self da criança só se completa de todo depois da adolescência, sendo que no início do que chamamos de ‘fase de latência’ ocorre um completamento parcial desse processo. Ao desaparecer a figura paterna ou materna (ou outra ‘figura de apego’, expressão cunhada por Bowlby – uma babá, por exemplo), ocorre uma ruptura no esquema interno da criança. O mundo e o eu-no-mundo, que englobavam (ou talvez melhor, que tinham como eixo) a figura de apego, deixam de existir – e em seu lugar surge algo desconhecido, necessariamente ameaçador: o retorno do caos primordial, ou o retorno da morte. Dois fenômenos podem ser mencionados aqui, para melhor descrever esse cataclisma: o primeiro é o que Winnicott chama de ‘não sobrevivência do objeto*’. Ao falar do objeto na fase anterior ao concern ele insiste incansavelmente na idéia de que a tarefa mais importante do objeto, nessa fase, é a de ‘sobreviver’, o que significa ‘continuar amando’, ou, como ele o chama, ‘não retaliar’. Se o objeto retaliar, isto é, reagir de modo hostil à agressividade do bebê, este perde a possibilidade de continuar confiando tanto no objeto quanto em si mesmo.

O gesto espontâneo (agressividade) do bebê recebe do objeto o significado de agressão, e instala-se no bebê a idéia de que ele é mau. (Trata-se na verdade de uma confirmação: o que é confirmado é a experiência do bebê com seus impulsos agressivos, suas raivas e frustrações – já existentes, nessa fase – pois sabemos que ainda levará muito tempo para que se confirme o contrário, a existência de algo bom na criança. A rapidez com que uma criança na primeira infância passa do bem estar para o mal estar não deixa dúvidas quanto à presença, nela, de suspeitas com relação a si própria – ver o que diz Winnicott sobre o ‘círculo benigno’ – em Natureza Humana, por exemplo).Mas este é só um lado da questão. O outro lado é aquilo que dá origem ao que Winnicott chama de ‘ansiedade (ou angústia) impensável’. Não há como fugir à idéia de que a melhor explicação para esse momento de terror é a formulação proposta por Lacan, do ‘Real’. Uma das características marcantes desse fenômeno, que, como sabemos, designa tudo aquilo que está para lá da experiência humana conhecida, da cultura, é sua capacidade de provocar um terremoto no solo psíquico do indivíduo. O encontro com o Real pode ser visto praticamente como um encontro com a morte. Uma pesquisa publicada na década de 70 nos Estados Unidos mostrou que os adultos sobreviventes a desastres de avião (que passaram, portanto, longos minutos encarando muito de perto a morte iminente, até descobrirem, depois, que não morreram…) não sofreram danos emocionais dignos de nota, salvo um: tornaram-se incapazes de trabalhar e de cuidar de si próprios. Abdicaram da capacidade de serem responsáveis. Ou seja, recuaram, em seu desenvolvimento emocional, a uma fase de forte dependência. No fenômeno da deprivação ocorre, é fácil deduzir, esse encontro com o Real.

Em termos winnicottianos, isto implica não só a quebra do vínculo afetivo, como também uma forte ameaça de quebra da onipotência. As conseqüências de tudo o que foi dito acima estão descritas a seguir.Como a criança anti-social ainda não havia conseguido internalizar um controle (aqui se pode dizer que a tendência onipotente da criança ainda não havia feito inteiramente as pazes com o princípio de realidade), ela exige do ambiente que a cerca que exerça esse controle. A falha ocorreu quando o ego já estava relativamente desenvolvido. (Do contrário, como vimos, teríamos a psicose). Para Winnicott, uma das características da saúde é a possibilidade de brincar, que no indivíduo anti-social se perde, dando lugar ao ato compulsivo. O brincar, diz Winnicott, necessita, para ocorrer, que exista um mínimo de segurança em termos ambientais. O que surge, quando ocorre a deprivação, é uma atividade compulsiva, não criativa, destituída do devaneio e da fantasia. O tratamento do anti-social se dá em termos de manejo, de perceber a esperança que nele resta e estar lá para que o indivíduo possa resgatar a crença perdida no ambiente. Diz Winnicott que esse tratamento pode ser feito às vezes pela própria família, mas tanto nesse caso como na psicoterapia o manejo terá de ser adaptado, e a tolerância e a compreensão serão fundamentais (ou seja, a volta a um estágio de dependência anterior, em que as exigências feitas à criança são bem menores).Assinala ele a importância de o ambiente intervir antes que os atos anti-sociais tenham alcançado a capacidade de produzir um ganho secundário, tornando-se então aceitáveis para o self, pois aí passaríamos a nos ver diante da delinqüência, onde o trabalho de resgatar a ausência do sentimento de culpa (que se torna, no mínimo, reprimido) será muito mais árduo, requerendo um ambiente altamente especializado, em geral chamado de ‘reformatório’ ou, quando este também falha, ‘prisão’ (instituições capazes de fornecer os limites que o ego não internalizou).

Falando em termos de superego, o vínculo afetivo que se caracteriza pela confiança no ambiente leva a criança a integrar os controles ambientais – considerados normativos – ao seu instrumental de ação (o que antes chamamos de ‘a onipotência fazer as pazes com o princípio de realidade’). Ao ocorrer a deprivação, quebra-se o elo de confiança e surge a destrutividade compulsiva, levando a criança a provocar, no ambiente, o exercício do controle – assim restabelecendo, indireta e contraditoriamente, o sentimento de ‘estar em casa’. Entre as características marcantes da tendência anti-social está a insistência em agir de modo a provocar reações: o indivíduo não ignora, em absoluto, as conseqüências que seu ato provocará, o que leva a concluir que ele necessita induzir tais conseqüências, embora estas pareçam desfavoráveis a ele. O julgamento moral do comportamento anti-social é terminantemente denunciado por Winnicott, que desse modo propõe – explicitamente – um modelo inteiramente novo de educação e de intervenção social: conter é o verbo a ser empregado nessas situações, jamais castigar. Das inúmeras contribuições originais de Winnicott à psicanálise e ao entendimento da natureza humana (o que quer que esta signifique) e das relações sociais, sua descrição da tendência anti-social parece ser a mais revolucionária em termos sociais.

Seu alcance, sua importância vital e suas implicações para a administração escolar, social e jurídica ainda não foram compreendidas suficientemente, até hoje – e há que destacar o fato de que se trata de uma de suas primeiras descobertas pessoais, realizada logo após a Segunda Guerra Mundial.

[1] O dicionário Aurélio dá, entre outras, as seguintes acepções do verbo ‘realizar’: 4. Fazer, constituir, criar, acumular: 5. Anglicismo: Perceber como realidade. (N.T.)

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