Ensaio Teórico: A inteligência do corpo

Francinaldo do Monte Pinto
Profº Psicologia do Trabalho/UEPB
Doutorando em Psicologia Social/UERJ

  

Resumo:

Neste ensaio, apresento dois pontos de vista sobre a inteligência do corpo, saber: a inteligência prática e o corpo como suporte de criações técnicas. O primeiro, estudado pela psicodinâmica do trabalho, objetiva compreender e analisar a inteligência em ação. O segundo analisa a relação técnica e instrumento e para falar de um corpo subjetivo: corpropriação. No final, são tecidas algumas considerações sobre as duas idéias a respeito da inteligência do corpo.

Palavras-chave: corpo, inteligência prática, técnica, instrumento, artefato

1. A inteligência Prática

O estudo da inteligência prática tem como ponto de partida o trabalho de investigação clínica, junto aos trabalhadores, realizado pela Psicodinâmica do Trabalho (DEJOURS, 1993), visando compreender e analisar a inteligência em ação. Essa inteligência, no dizer de Dejours (2004), é produzida no desempenho do trabalho, da profissão, visto que é o trabalho que produz a inteligência e não a inteligência que produz o trabalho.

Deste modo, os processos psíquicos mobilizados pelos trabalhadores nos ajustamentos, na iniciativa, na inventividade e na criatividade podem estar combinados a uma maneira específica de inteligência prática. Trata-se especificamente de uma inteligência que tem raiz no corpo, nas percepções e na intuição sensível: uma inteligência astuciosa. Esta leva em conta que a atividade exige ajustamentos das relações entre as prescrições das tarefas e os empecilhos impostos pela organização do trabalho e a inteligência originada da experiência real do trabalhador e da sua concepção sobre a atividade (Dejours, 1993; Dejours & Abdoucheli, 1994).

O modelo da inteligência prática estudada em psicodinâmica do trabalho¹ é fornecido por uma divindade da Grécia Antiga chamada mètis. Esta tem por objetivo alcançar a eficácia prática na relação do homem com a realidade.
Designa uma inteligência que, em vez de contemplar essências imutáveis, se encontra directamente implicada nas dificuldades da prática […] confrontada com obstáculos que é preciso dominar com astúcia para obter sucesso nos domínios mais diversos da ação [inclusive nas situações de trabalho]. (JOUBERT, 1999, p.230).

Dentre as características fundamentais da inteligência astuciosa, imprescindível para nossa compreensão dos mecanismos de regulação efetuados pelos trabalhadores em decorrência das injunções da organização prescrita do trabalho, variabilidades e necessidades pessoais, destacamos àquela que possui propriedade enraizada diretamente no corpo. Assim, em todo sistema sensorial, o corpo é sinalizado quando se encontra em uma situação ou em um evento que quebra a rotina, gerando desagrado ou desconforto. O comprometimento das sensações do corpo pode fazer sentir na troca com outros através dos gestos, ritmos, movimentos, etc.; e na relação com objetos como: barulho, vibração, odor, sinal visual que podem despertar a atenção do sujeito, chamando antes a atenção do corpo. É, portanto, a desestabilização do corpo em seu conjunto, sua situação a partir da reação a determinado estímulo que dá início e passa a acompanhar o jogo dessa inteligência prática (DEJOURS, 2004, p.282).

Essa desestabilização que confere a inteligência prática não deve ser vista, sobretudo em relação aos operadores, como uma forma de sujeição de inteligência, ou um processo completamente separado da racionalidade (JOBERT, 1999). Ao contrário, como mostra Dejours (2004), no modo que instiga o operário a atuar sobre o planejamento de sua tarefa, os dados técnicos e científicos são continuamente aplicados em uma temporalidade oposta daquela que frequentemente demarca a lógica científica ou experimental. Por meio do sistema sensorial do corpo o operador traça rapidamente uma interpretação, um diagnóstico ou uma forma para corrigir uma ação. Posteriormente utiliza a técnica para comprovar, operacionalizar ou mesmo universalizar o ato proposto pela intuição, guiada pelos sentidos.

O exemplo de uma pesquisa realizada por Dejours, na França, numa indústria petroquímica é significativo para o que está sendo explicado. Trata-se da prática do jogo de palavras cruzadas pelos operadores enquanto supervisionam as instalações numa sala de controle nos momentos de funcionamento “em piloto automático”.

O jogo de palavras cruzadas, como elemento de análise da pesquisa, evidenciou que o silêncio imposto pelo jogo quebra o tédio e a angústia, além de afinar a acuidade visual favorecendo a percepção quanto à nitidez do barulho de que os operários necessitam estar atentos. É preciso salientar aqui a importância atribuída ao corpo que pode ser equivocadamente descrito como estritamente intelectual.

A segunda característica da inteligência prática consiste em atribuir maior interesse pelos resultados do que pela maneira de alcançá-lo. O que predomina no uso da inteligência prática é a astúcia. O desafio frente aos impasses requer deste tipo de inteligência, astúcia e engenhosidade para driblar situações e gerar mudanças face ao estabelecido.
A métis permite uma abertura a uma conivência com o real que garante a sua eficácia […] e lhe dá uma vitória em domínios em que não existem, para o sucesso, regras já feitas, receitas imobilizadas, mas em que cada prova exige invenção de uma parada nova, a descoberta de uma saída escondida. (JOBERT, 1999, p.231)

Um aspecto relevante da mètis consiste em sua capacidade de encontrar o caminho mais curto (desvio) para alcançar um objetivo. Ademais, permite a superação de padrões estigmatizados, buscando saídas inusitadas e criativas. É neste contexto que tanto a engenhosidade quanto a astúcia estão intrinsecamente relacionadas ao corpo.

O foco principal atribuído a terceira característica da inteligência prática é encontrar-se presente em todas as tarefas e atividades do trabalho. É neste sentido que ela não está somente na superfície da atividade manual, mas também no trabalho intelectual. A engenhosidade, as astúcias da inteligência, a metis aparecem na própria arte da demonstração, na habilidade, na elegância, às vezes no estilo que se conjugam na vertente retórica de todo discurso teórico e científico (DEJOURS, 2004, p.288).

Essa colocação é fundamental para esclarecer que a inteligência prática e as vinculações com a mètis – a engenhosidade e as astúcias – não se referem somente às atividades manuais, mas também às intelectuais. Com isso, se conclui que todo trabalho, tido como estritamente teórico é atravessado por essas características, neste caso em específico, pela engenhosidade.

Outra característica deste tipo de inteligência refere-se a sua dimensão criativa. A capacidade criativa incutida na inteligência prática é avaliada pela astúcia e pela engenhosidade.

A quinta e última característica da inteligência prática é extensamente difundida entre os homens a partir do momento em que estão de boa saúde. É praticamente uma continuidade da característica anterior, uma vez que concebe o estado do corpo como uma variante tão relevante quanto à própria inteligência. Neste sentido, um corpo fatigado, doente, fraco responsabiliza a inteligência astuciosa e a criatividade. O contrário faz com que a inteligência opere favoravelmente a uma solicitação dada.

Essa operacionalidade da inteligência outorga uma marca “pulsional” quando se trata de boa parte das pessoas em bom estado de saúde que deseja espontaneamente exercitar essa inteligência. Quando essa inteligência não é exercida, cede lugar ao subemprego potencial da criatividade, sendo, portanto, fonte de sofrimento contínuo, de desestabilização e de doença.

De um modo geral, Dejours (2004) conclui que a inteligência prática é uma inteligência do corpo, sua força é sua astúcia. Está presente em qualquer profissão desde a atividade manual a atividade intelectual; é essencialmente criadora e subversiva e amplamente compartilhada entre os homens. É, também, pulsional e seu contraponto resulta numa condição patógena.

Conviria, neste momento, um extenso debate para explanar as múltiplas relações entre inteligência, atividade de trabalho e o corpo. É certo que o corpo inteiro — e não apenas o cérebro — constitui a sede da inteligência, (da virtuosidade e da sensibilidade técnica) e da habilidade no trabalho (DEJOURS, 2004, 29). Daí a primazia do corpo como instrumento e técnica simultaneamente, na fabricação de artefatos e na apropriação (corpopropriação) com o mundo..

2. Corpo: suporte de criações técnicasO domínio da técnica na ciência moderna é caracterizado pela busca de abstração da realidade. Deste modo, o valor da técnica, presente na ciência da matemática e da natureza, não apreende as singularidades do mundo sensível da vida. Este é um dos aspectos abordados no livro La Barbárie de Michel Henry (1987). Sobre a relação ciência e técnica, o referido autor é bastante enfático:A ciência que se crê única ao mundo e que se comporta como tal, torna-se a técnica, ou seja, um conjunto de operações e de transformações extraindo a sua possibilidade na ciência e no seu saber teórico, a exclusão de toda outra forma de saber, a exclusão de toda referência ao mundo-da-vida e à própria vida (tradução livre, p.77).

A noção fenomenológica de técnica, concebida pelo autor, designa de uma maneira geral um saber-fazer. Mas a essência original da técnica (tekhnê) não consiste num saber-fazer particular, mas num modo de fazer que traz consigo o próprio saber e o constitui. Este saber-fazer original é denominado práxis e possui relação íntima com a vida, pois é na vida que a práxis se conhece e, ao mesmo tempo, é o saber-fazer original que compõe a essência original da técnica. Essa práxis que tem a força de se afetar e ser afetada — determinar-se, individualizar-se, singularizar-se  — é o próprio corpo.

A este corpo imanente e absolutamente subjetivo, Michel Henry vai chamar corpopropriação. Trata-se de uma ligação entre o corpo e a terra que não advém de um dado exterior, a título de objeto, nem de uma explicação biológica, mas de um corpo apropriado pelo mundo, que se experimenta afetivamente no encontro com o outro, de um corpo com poder de afetar e ser afetado.

Em última análise, vimos que a essência original da técnica é o corpo subjetivo, imanente: o corpropriação. A visão de técnica, aliás, extraída por Fernandez (2001) a partir dos argumentos de Marcel Mauss (1934) e de Meyerson (2000), aparece como indissociável do instrumento. Desse ponto de vista, os autores reconhecem que o corpo é o primeiro instrumento do homem e que ele pode funcionar como técnica sem que obrigatoriamente tenha sido instrumento. Logo, pode-se falar de técnicas do corpo e do lugar de encontro do social. Com isso, Meyerson analisa a série de movimentos realizados pelas técnicas do corpo e atribui um sentido para o sujeito que é governado pelos motivos e sentimentos que lhes são provocados.

De posse destas argumentações, Fernandez (2001) conclui que o corpo é o ponto de encontro e de transformação do subjetivo no orgânico. Ele justifica e amplia esta asserção a partir de uma explicação neurobiológica. Do campo mesmo da neurobiologia vem a descrição dos mecanismos moleculares que suportam a plasticidade das conexões sinápticas, em particular sob a influência do sistema de valores (EDELMAN e TONONI, 2000), dando conta das possibilidades de aquisição e de aperfeiçoamento dos automatismos (Tradução livre, p.31).

É nessas condições, para retomar a concepção de Rabardel (1999), que o corpo emerge como um híbrido, exatamente como um artefato que incorpora simultaneamente instrumento e técnica na situação de trabalho. Para este autor, a elaboração de um instrumento a partir de um artefato consiste, para um sujeito, na função de meio adaptado em busca dos fins que ele persegue. Desta forma, a função de um objeto não é uma propriedade intangível deste sujeito, mas proveniente da sua atividade.

Seguindo a linha de raciocínio de Rabardel (1999), o artefato designa de maneira “neutra” toda coisa finalizada de origem humana, podendo ser tanto material quanto simbólica.² Depreende-se, assim, que um mesmo artefato pode ter diferentes status para o sujeito e se tornar um instrumento extremamente diferente de um sujeito para outro e, mesmo, para o próprio sujeito mediante as situações e os momentos vividos. Isto porque o instrumento como “entidade mista” vincula-se ao mesmo tempo com o objeto de um artefato e com os esquemas de utilização organizados pelo sujeito em torno da atividade humana.

Vale ressaltar que estes dois componentes do instrumento (artefato e esquema) se encontram interligados um ao outro e que um mesmo esquema de utilização pode ser aplicado a um grande número de artefatos e vice-versa. Assim, pilotar um ônibus ou uma ambulância pode transmitir uma variedade de artefatos numa mesma série, ou seja: os esquemas realizados na pilotagem de um veículo poderão ser transpostos a outros veículos semelhantes. De outro modo, o mesmo esquema pode transmitir diferentes artefatos, como por exemplo, o conhecimento adquirido pela experiência de pilotagem do motorista com relação à mecânica do automóvel pode levá-lo a fazer regulagens em caso de defeito do veículo. Outro exemplo, relatado por Rabardel (1999), mostra como uma ferramenta de apertar (chave inglesa) pode ser utilizada como um martelo. Não obstante, as duas ferramentas possuem funções distintas, mas podem ser utilizadas para um mesmo fim de acordo com os esquemas que lhes são atribuídos.

Neste sentido, pode-se seguir a conclusão do autor de que o artefato não é em si um instrumento ou componente de um instrumento, mas se institui como instrumento para o sujeito que lhe concede o estatuto de meio para atingir os objetivos de sua ação. É nessas condições que os artefatos se incorporam ao seio da atividade de trabalho e produzem reorganizações.

A discussão que envolve os diferentes modos de apresentação dos artefatos, bem como a forma que adquirem na tomada do corpo na gestão da atividade, requer uma sinergia com outras disciplinas e saberes que contribua para fazer circular idéias e fomentar debates a respeito desta questão, particularmente no campo da atividade de trabalho.

Para finalizar este ensaio, gostaria de convocar uma questão filosófica do grande Spinosa: o que pode um corpo? Difícil de responder a tamanha questão. Mesmo porque ela re-envia todo um pressuposto filosófico que não caberia num espaço tão curto.

A indagação é puramente para uma reflexão sobre a inteligência prática que se incarnada no corpo e do corpo que se apropria e é apropriado pelo mundo.
  

Notas:
 
¹ O uso do termo psicodinâmica do trabalho amplia o domínio inicial da psicopatologia do trabalho. No entanto, a investigação da patologia continua prosseguindo o seu espaço de atuação e ampliando seus horizontes, visto que são usados conceitos que se propõem a dar conta tanto do sofrimento quanto do prazer, tanto da loucura, como da normalidade (DEJOURS, 2004, 94-101).
 
² A diferença entre artefatos materiais (aludido ao instrumento técnico como um elemento intermediário entre a atividade do homem e o objeto externo) e artefatos simbólicos (referido ao instrumento psicológico, extraído da obra de Vygotski, a exemplo da palavra), possui um caráter muito limitado. Por este motivo, Rabardel (1999, p.249-251) propõe, para dissolução do conflito, a construção de uma teoria instrumental alargada.

Referências 

DEJOURS, C. Inteligência Operária e Organização do Trabalho: a propósito do modelo japonês. In: Sobre o modelo Japonês.

HIRATA, H. (org.). São Paulo: Editora universitária de São Paulo, 1993. p.281-309.

________. DEJOURS, C. Da psicopatologia à psicodinâmica do trabalho. Rio de janeiro: Fiocruz, Brasília: Paralelo 15, 2004.
 
DEJOURS, C. ABDOUCHELI, E.. Psicopatologia do Trabalho e Organização Real do Trabalho em uma Indústria de processo. In: Psicodinâmica do Trabalho: contribuições da escola dejouriana à análise relação prazer, sofrimento e trabalho. et al., São Paulo: Atlas, 1994. p. 67-118.

FERNANDEZ, G. Le corps, le collectif et le développemente du métier. Estude clinique d’um geste de métier à la SNCF. (Clinique de l’actitivté et pouvoir d’agir). Education Permanente, 2001, p.30-31.

HENRY, M. La barbarie. Essai, Grasset, 1987.

JOBERT, G. A inteligência no trabalho. In: CARRE & GASPAR (orgs.). Tratado das ciências e das técnicas da formação. Lisboa: Instituto Piaget, 1999. p.223-239.

RABARDEL, P. Le langage comme instrument? Elements pour une théorie instrumentale élargie. In: CLOT, Y. (org.) Avec Vygotski. Paris, La Dispute, 1999. p.261-299.

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