Explosões Criativas

Introdução

A psicanálise, ao teorizar sobre a clínica da psicose, parte da indagação da relação do sujeito com a realidade. As elaborações psicanalíticas freudianas fornecem contribuição ímpar a essa teorização e direção do tratamento nessa clínica. Freud emprega este termo -psicose- para designar a reconstrução inconsciente, por parte do sujeito; de uma realidade delirante ou alucinatória. Quando a realidade é demasiado forte para o sujeito, quando o sujeito não encontra ninguém para ajudá-lo a tornar real o seu delírio, este se torna um louco.

Através de um remodelamento delirante da realidade, o sujeito tenta obter uma proteção contra o sofrimento, esforçando-se para: a manutenção de algum sentido mesmo que fragmentário. O paranóico, por exemplo, corrige algum aspecto do mundo que lhe é insuportável pela elaboração de um desejo e introduz, via projeção, esse delírio na realidade. Por que os homens sofrem? A teoria psicanalítica de Freud já estudava a dor humana. Para Freud, o sofrimento poderia brotar de três fontes: do corpo, do mundo externo e das relações com os outros.  Nos estados de mania, Freud lembra-nos deste estado patológico, como aquele que independe de qualquer substância, numa condição semelhante à intoxicação surge sem a administração de qualquer droga intoxicante: “… é possível que haja substâncias na química de nossos próprios corpos que apresentem efeito semelhante, pois conhecemos pelo menos um estado patológico, a mania,…”. 

Na sociedade contemporânea, o sofrimento incomoda. Surgem novas formas de sofrimento na contemporaneidade impondo desafios a psiquiatras e psicólogos, ocupados em tentar entender, na atividade clinica, a origem desse sentimento.  O sujeito em crise busca soluções mágicas para a cura da dor, dor que provoca incomodo e mal-estar na sociedade considerada normal. A crise psicótica provoca intenso sofrimento e desconforto. Destes estados podem surgir formas de explosão, chamarei de explosões criativas, titulo deste trabalho, como o que venho observando enquanto possibilidade de construção de sentido, nas expressões artísticas, dispositivo que funciona como  auxilio terapêutico possível. 

A pintura, como expressão artística, pode ser uma possibilidade de comunicação deste sofrimento. O trabalho em tela como expressão do delírio, expressão máxima do sofrimento, apresenta ao analista um destes dispositivos que auxiliam a interpretação deste sofrimento junto ao sujeito que a produziu. Dejour distingue dois tipos específicos de sofrimento, sendo o primeiro o patogênico e o segundo criativo. O patogênico se inicia no momento em que foram explorados todos os recursos defensivos do indivíduo. Esse tipo de sofrimento é uma espécie de resíduo não compensado, que leva a uma destruição do equilíbrio psíquico do sujeito, empurrando-o para uma lenta e brutal destruição orgânica. No momento em que a organização do trabalho se torna autoritária, ocorre um bloqueio da energia pulsional, que se acumulam no aparelho psíquico do indivíduo, gerando desta forma, sentimentos de tensão e desprazer intensos. 
 
“A carga psíquica do trabalho resulta da confrontação do desejo do trabalhador, à injunção do empregador contida da organização do trabalho. Em geral a carga psíquica do trabalho aumenta quando a liberdade de organização do trabalho diminui”. (Dejours, 1994, p. 28).
 
Quanto ao segundo tipo, Dejours denomina de sofrimento criativo pelo fato de o indivíduo elaborar soluções originais que favorecem ou restituem sua saúde. O sofrimento criativo chega a adquirir um sentido, pois favorece ao indivíduo um reconhecimento de uma identidade. Neste contexto o indivíduo se propõe a ação criativa que promove descobertas, fazendo com que este experimente e transforme, de maneira criativa, prática e engenhosa, soluções inéditas frente às situações móveis e cambiantes de seu trabalho. A competência e a engenhosidade, promovida pela inteligência coletiva ou individual, proporcionam o surgimento de estratégias defensivas, que aliviam ou combatem o sofrimento psíquico. Os indivíduos, quando diante de uma situação de angústia e insatisfação decorrente de seu trabalho, elaboram estratégias de defesa que acaba por tornar o sofrimento um aspecto velado. Logo, o sofrimento disfarçado encontrará como meio de eclodir uma sintomatologia, a qual às vezes apresenta-se com certa estrutura própria a cada profissão ou ambiente de trabalho. Isso porque, a vida psíquica perpassa pelo funcionamento de todo sistema corporal integrando-o, desta forma manifesta-se as doenças.
 
O presente trabalho pretende apresentar uma possível articulação com arte, enquanto recurso terapêutico.
  

Metodologia

O material clinico discutido a seguir é fruto do trabalho profissional, vinculado a instituição psiquiátrica, Clinica de Repouso Parque Julieta na cidade de São Paulo.
 
Nesta instituição, iniciou-se a mais de dez anos uma oficina de arte para os pacientes que ficam ali internados durante períodos curtos, que podem variar de uma semana a um mês, inicio, meio e fim de uma crise aguda. Este espaço, denominado como sala de artes, foi construída a partir da demanda destes mesmos pacientes. Faz parte e incorpora-se ao trabalho multidisciplinar ali realizado.
 
O material coletado é fruto das produções do paciente em destaque neste trabalho, sobretudo a partir de suas próprias verbalizações.
 
G.S., um homem de 39 anos, médico anestesista, é internado neste serviço após o que chamou de “esgotamento mental há uma semana”, crise desencadeada pela perda de um colega também anestesista que se suicidou. Sente-se abalado e afetado em seu estado de humor. Apresenta-se ultimamente irritado com a esposa, sente-se descuidado pela mesma. Com o sono alterado, vinha sem dormir a três dias, logorreico com discurso de cunho religioso e sexual. Pensamento bastante acelerado, humor exaltado, expondo sua vida sexual, desconfiado e ciumento da esposa com outros homens. Após seu restabelecimento, retoma suas atividades profissionais, recuperado da crise inicial.
  

Relato de caso e discussão

Meu contato com G. S. aconteceu no jardim da clinica, este me reconhece de outra internação e o vinculo é retomado.  G. não reconhece a necessidade de ter sido internado, não tem claras as razões de estar novamente ali. Conta que seus poderes têm aumentado e sua esposa num ato de “ciúmes” por recomendação médica, decide por interná-lo. G. diz: “Só porque pretendi (a tempo de ser impedido) dar alta a todos o pacientes da UTI”. Recentemente havia perdido um colega, também anestesista, por suicídio. Acredita que as pessoas poderiam escolher o que fazer das suas vidas e ele daria esta condição aos mesmos. Tem a crença de ser dotado de poderes. Em outra fala sua, diz: “Sou deus e o diabo, posso tudo”. Sua fala vinha acompanhada por um discurso delirante, de cunho religioso e sexual, naquele momento sente-se como representante de deus, mas também do diabo, dizia-se poderoso.
 
Após este primeiro contato, fortaleço o vinculo e aos poucos convido G. para me acompanhar à sala de artes, este sugere que tem o poder de transformar o que tocar, proponho que fique à vontade para expressar o que sente. G. observa a sala onde já estivera a princípio profere um discurso religioso ao que soma conteúdos sexuais aos pacientes ali presentes. Proponho que ele coloque aquilo que fala e sente em um desenho e ele opta por reaproveitar uma tela, forneço tinta e pincéis e então, inicia-se o que iriam durar alguns dias, e que inclui recuperações e transformações de uma mesma tela.
 
A pintura é a de um rosto dividido, cada parte representada segundo o sujeito, por aspectos diferentes. Era claro ali, naquela pintura, um processo de cisão, possibilitando interpretações do que vinha ocorrendo com G.
 
Não foi interpretado a ele o sentido de seu delírio, visto que interpretar enquanto busca de sentido está mais ligado a propiciar ao sujeito que faça com seu trabalho delirante este esforço – de atribuição de sentido, não cabendo ao analista competir com o trabalho do sujeito psicótico. Àquele rosto foi atribuído um sentido, conversamos sobre o mesmo, ali o sujeito estava falando de si mesmo e essa construção entra como uma “reconstituição do sentido lá onde o sujeito se perdeu quando da dissolução imaginária do mundo”, ou seja, quando entrou em surto.
 
O paciente começa a falar de si próprio, peço para que olhe para o que está fazendo, para a obra e pense sobre isso. Ele diz: que sente que tem dentro de si estes aspectos, como partes que representariam; bondade – maldade; masculino – feminino; vida e morte.
 
Passa a questionar suas crenças e começa a duvidar de que é possuidor de todos estes poderes. Aos poucos, reconhece suas limitações sobre o que pensou poder decidir: o direito sobre a vida e a morte.
 
G. resolve expor, pendurando na parede de entrada da sala, seu trabalho para que todos o vejam.  Diz que considerava finalizada aquela pintura e pede a atenção dos internos e psicóloga. Diz sentir-se satisfeito com a compreensão que pode extrair do que lhe ocorreu, diz reconhecer-se no que tentou representar e explica: “Este rosto representa a divisão que ocorre dentro de mim”.
 
Para o analista encontrou-se uma possibilidade de trabalhar com a arte enquanto recurso terapêutico. Fonte de prazer e sofrimento. Pode-se constatar como o dispositivo artístico ajuda a trabalhar as angústias mobilizadas pelo afastamento da realidade, do trabalho e dos vínculos afetivos.
   

Conclusão                                                                            
  
A arte, a priori, pode configurar uma direção do tratamento no sentido de promover uma catarse e uma resignificação. A produção do sujeito psicótico, somados ao acolhimento e escuta efetuada pelo analista pode sustentar a construção de um delírio que o ajudou no reencontro de um sentido de sua vida.
 
G. pôde retornar ao seu trabalho como médico anestesista.  Talvez tenha abandonado as telas e os pincéis. Da experiência do contato com a analista uma constatação, a de que a arte é uma das possibilidades de expressão do mundo imaginário do sujeito e a maneira como este representa para si mesmo sua história. A arte possibilitou a reconstrução inconsciente, por parte de G., de uma realidade antes delirante.

Referências Bibliográficas

FREUD, S. O mal- estar na civilização, Edição completa. Vol.XXI 
 
QUINET, Antonio. Teoria e clínica da psicose. Rio de Janeiro: Forense Universitária; 1999
 
ROUDINESCO, Elisabeth. Dicionário de psicanálise. Ed. Jorge Zahar 

DEJOURS, C. DEJOURS. C. ABDOUCHELI, E, JAYET, C. (1994). Psicodinâmica do trabalho: contribuições da escola dejouriana à análise da relação prazer, sofrimento e trabalho. Betiol, M.L.S (Coord). São Paulo: Atlas. 1994, pág., 28

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