Relacionamentos pouco duradouros

Hoje em dia, graças ao divórcio, este fenômeno é mais aceito em todos os níveis. Ocorre que o fim de um casamento (seja ele por culpa de ambos, de uma das partes ou sem culpa) é mais amplamente admitido e a separação passa a ser comumente a solução de um problema e não mais o ato final de uma situação trágica. É aceito com mais facilidade que viver em um ambiente de tensão e incompreensão prejudica mais que uma separação.
Não tenho a pretensão de descrever porque um relacionamento afetivo efetivamente chega ao fim, haja vista que os fatores são singulares, situacionais e com suas complexidades particulares, não podendo ser descrito de forma generalista e plausível. Não existe um roteiro estabelecido, mas é válido salientar alguns pontos chaves que levam ao detrimento de uma união premeditada como eterna.

Para uma melhor compreensão das causas que levam a necessidade de uma quebra do vínculo do matrimônio é indispensável que analisemos as motivações (ou falta delas) existentes nesta união.

Uma das causas eminentes e freqüentemente vista nos dias de hoje norteia a inexperiência devida à juventude e a imaturidade do casal, que provoca surpresas desagradáveis no curso de sua vida em comum, principalmente quando saem da casa dos pais e deparam-se diretamente com a vida conjugal. As duas pessoas percebem que têm personalidades diferentes, divergências de interesses e de opiniões e os desejos de cada um crescem de modo distinto e em direções opostas. Para evitar atritos, há necessidade de desenvolver um certo grau de inteligência emocional e vontade para fazer com que uma relação seja sustentada por atos de ambas as partes, afinal, muitos confundem que ao se tratar de emoções, o amor deve caminhar por si só, de forma espontânea. Esta premissa, nada mais é do que um grande equívoco.Outro fator também importante é o fato de as pessoas se casarem por motivos socialmente impostos pela cultura vigente. Casam-se simplesmente porque é assim que se espera que aconteça em determinada fase da vida. Se duas pessoas se casam simplesmente para serem socialmente aceitas, acabam iludidas por um conformismo e apego patológico que nos dá uma idéia previamente estabelecida de uma união instável, pouco feliz e sem grandes e significativos ideais a serem alcançados.

As obrigações criadas pela promessa de viver juntos na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe gera uma certa ansiedade a qual só se pode enfrentar com um bom equilíbrio psicoafetivo.

No início de toda a relação, seja esta de namoro, união estável ou casamento, existe um afeto, uma comunicação facilmente fluída, atração sexual, respeito e, na maioria das vezes, estima confiança recíproca. Nesta troca de admiração, são levados a crer que fazem parte de um encaixe perfeito, quase que uma designação divina. Com o passar do tempo, o período de encantamento diminui ou até mesmo passa, emergindo um outro aspecto da relação que nem todos estão preparados para encarar juntos.

Isto normalmente ocorre, porque ninguém pode deixar de levar para o casamento os próprios problemas e limitações. Pelo contrário, existe uma grande probabilidade de que as dificuldades pessoais se multipliquem em vez de desaparecerem, uma vez que cada um tem sua carga de problema somada à do companheiro(a). Resultando assim, em uma soma de dificuldades inesperadas, imprevistas e em alguns casos, inaceitáveis.

Há uma forte tendência em ignorar o fato de que um bom relacionamento se instaura somente entre indivíduos que são capazes de cuidar de si mesmos, aceitando os próprios traços e características. Trata-se de aceitar-se tal qual é!
Entramos então em um patamar desconhecido, onde se faz necessário aproximar a imagem idealizada à natureza real de cada um. Só assim é possível estabelecer as verdadeiras necessidades e também, aquilo que temos e queremos oferecer ao outro. Freqüentemente, nossos pedidos são diferentes daqueles que pensamos estar fazendo e caminha-se para uma desgastante busca de respostas satisfatórias para as promessas e pedidos que se fizeram e não se cumpriram.

A tentação de ver apenas o lado romântico da relação é substituída pela interpretação da realidade, um tanto distante do que normalmente idealizamos. Rancores, incompreensões, repreensões, lamentos, incompatibilidades, dificuldades que vêm à tona simultaneamente e, se não administradas, tornam a vida a dois pesada e amarga. Neste momento, inúmeros questionamentos nos levam a pensar “o quanto tal pessoa mudou, não se parece em nada com a pessoa com a qual me casei” e na verdade, alimentam uma ilusão de que o outro se transformou em outra pessoa, a qual você literalmente não reconhece. O que acontece é que no sentido natural da vida, as pessoas amadurecem, mudam e mudam-se suas exigências, seus pontos de vista, opiniões, sem que haja uma mudança correspondente no outro. Trata-se de uma mobilidade em todos os sentidos e todos os campos que, muitas vezes, elimina uma possibilidade real de se manterem raízes sólidas e inertes ao comportamento.

Em determinados casos, estas mudanças naturais revelam que algumas das expectativas não foram satisfeitas e talvez nunca serão. A pessoa que escolhemos para dividir a vida, simplesmente não pode carregar o ônus de não ser capaz de satisfazer sozinho todas as nossas necessidades afetivas mais profundas. Talvez, ela nem saiba o que você realmente deseja e vou além, quando satisfeita uma necessidade, surgem outras e assim sucessivamente. Temos grande parcela de responsabilidade sobre os nossos anseios e formas de concretizá-los e os fracassos de uma relação não devem ser atribuídos a um ou ao outro sem que cheguem de fato à raiz do problema. Sentir-se plenamente realizado é, antes de mais nada, ter um bom relacionamento consigo mesmo e com o ambiente circunstante. Somente a partir da convicção de que a maioria dos erros remete a ambos, é que podemos rever os fatos e evitar cicatrizes desagradáveis.

Contudo, a “relação ideal” com que muitas vezes sonhamos não existe. Existem por outro lado, muitas relações que funcionam bem. E dentre esses fatores podemos destacar:

– Uma continuidade de presença, mesmo que haja necessidade de estar mais ausente do que presente. Existem formas diferenciadas de estar a postos;

– Possibilidade sempre aberta a uma boa conversa, o que não significa trocar informações, mas expressar pensamentos, sentimentos e emoções;
– Saber ouvir a voz do outro;

– Saber ler a expressão do rosto, dos gestos ou subentendidos do outro;

– Contato afetivo, o que inclui carinho, atenções concretas, olhares, etc.

– Saber colocar-se no lugar do outro;

– Ter vivos interesses em comum que permitam enriquecer fazendo algumas coisas juntos;

– Respeito à individualidade e à autonomia do outro;

– Viver com criatividade, fazendo com que o presente não seja uma repetição obrigatória do passado;

– Reciprocidade, cumplicidade, entre outros.Hoje, vivemos um momento que nos permite atravessar uma “experimentação de casal” antes de casar-se de fato. E começar uma vida matrimonial não significa ter de percorrer um caminho já traçado pela tradição, mas percorrer uma busca de equilíbrio e novas maneiras de ser. Sendo esta “experimentação” uma situação imposta de forma tolerante pela sociedade, é possível que as escolhas sejam livremente feitas de acordo com a afinidade ou desavenças de comportamentos difundidas entre o casal nesta fase de preparação para o casamento e evitam implicações futuras negativas do vínculo a ser estabelecido pelo casal.

Ana Paula Polato
Psicóloga Clínica
CRP: 038361/14

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