O Papel dos Pais na Formação dos Filhos

As mudanças sociais ocorridas no século passado alteraram o antigo "desenho" da família. Os papéis dos componentes do casal já não são bem definidos. A família nuclear se distaciou de parentes e as informações que eram passadas "de mãe para filha" já não ocorrem. A família composta apenas de mãe e filho(s) se tornam cada vez mais numerosas. A criança se desenvolve compartilhando o afeto com dois ou mais "adultos significativos".
Dessa forma disfunções emocionais, na maioria das vezes de origem relacional, vêm ocorrendo: ansiedade, depressão, distúrbios variados (atenção, aprendizagem). A antiga "disciplina" e obediência, que já não cabem nesse contexto, vem sendo lembrada como tábua de salvação.

Há dessa forma uma demanda de profissionais da Psicologia, para uma atuação profilática.

Todos os pais querem o melhor para seus filhos. Um filho seria como uma obra-prima, aquela que orgulha a quem a “criou”, porém incontáveis talentos não estão sendo desenvolvidos.

Vivemos um paradigma do qual não conseguimos desvencilhar-nos: aprendemos que a “natureza” se incumbe da formação dos nossos filhos! Não é assim que ocorre; a natureza faz o desenvolvimento físico básico, inclusive o cérebro, mas são as vivências que formam a mente, e aí está a importância fundamental dos pais.

Não pensamos dessa forma porque o século XX foi generoso para a formação das crianças: o homem era o “chefe” da família, o provedor, e a mulher se dedicava à formação dos filhos. Mesmo sendo um desenho social politicamente incorreto, o fato é que ele possibilitou uma formação satisfatória para as crianças já que havia alguém que se preparava e se responsabilizava por essa tarefa (a mulher), como também propiciava o estabelecimento de vínculos emocionais fundamentais ao desenvolvimento da criança, e a internalização de um modelo de sociedade bem organizado (o pai representando as regras sociais).

Os movimentos libertários ocorridos na segunda metade do século alteraram significativamente esse quadro. A chegada da pílula anticoncepcional, a lei do divórcio (1975 no Brasil) e a conquista feminina do mercado de trabalho (gerando uma real universalização do ensino) geraram a partilha do poder intrafamiliar, a redução desta ao casal e filho(s) e o distanciamento físico entre si por boa parte do dia. Isso indica que a família do século XXI é muito diferente da existente no século passado e que a “natureza” não fará de nosso filho uma obra-prima se apenas oferecermos boas escolas e um bom plano de saúde. Por essa mesma razão, diante da inexistência da antiga divisão de papéis, a equiparação dos componentes do casal coloca-os diante de atividades que nenhum deles quer assumir e outras sobrepostas, gerando indefinições, disputas, julgamento e críticas que no mais das vezes transformam-se em conflito, principalmente diante de uma gravidez ou após o nascimento do primeiro filho. Com isso não só o casal sofre como também o desenvolvimento da criança pode ficar comprometido. Os últimos dados do IBGE revelam um quadro mais que preocupante.

Uma criança começa seu desenvolvimento emocional e intelectual ainda no útero; primeiro “sente” e esse é o estímulo para que desenvolva o “pensar”; precisa se vincular a um adulto significativo que será seu guia, e internaliza seu modelo-básico de relações (matriz de relação) na fase intra-uterina e primeira infância. É esse modelo que como um programa de computador, realizará as operações sempre da mesma forma, definindo todo o restante da sua formação. Se há uma falha nesse programa, os resultados de suas operações serão falhos, invariavelmente, o que define um “destino” ao indivíduo, senão preciso, ao menos um esboço bem aproximado.

– “Como “criar” uma pessoa segura, com boa auto-estima e estabilidade emocional?”

– “Como otimizar seu desenvolvimento intelectual e possibilitar que ele realize o máximo possível do seu potencial (construtivamente)?”- “Como construir, na gestação e primeira infância, o alicerce sólido e preciso do edifício que se erguerá mais tarde sobre ele?- “Como fazer para desenvolver um sentimento de “pertinens” consistente se está ocorrendo a partilha do afeto entre a mãe, a babá ou empregada e a “tia” da escolinha/berçário?

Apesar dessa questões fundamentais, muitos futuros pais (pais e mães) têm como quase únicas preocupações o preço do leite e fraldas descartáveis, o enxoval, o quarto do bebê e o plano de saúde. Há, desta forma, uma demanda reprimida de profissionais que possam atuar na profilaxia psíquica, prevenindo futuras disfunções sócio-emocionais:

Na orientação de adolescentes do Ensino Médio quando ao Desenvolvimento Humano (desenvolvimento emocional, cognitivo – relacional) e relações sexo-afetivas e papeis sociais.

Na orientação de futuros pais, gestantes, quando a esse mesmo desenvolvimento.

Na orientação e aconselhamento de casais.

A Psicologia deve oferecer essa contribuição profilática à saúde emocional individual e por extensão, à saúde social.

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