Um é Pouco, Dois é Bom, Três é Demais!

Há muito tempo ouço falar, no campo da psicanálise, do mais que famoso ‘terceiro’. Folcloricamente, o ‘terceiro’ é aquele outro elemento humano que, de fora, invade o espaço da díade mãe-filho, quebrando ou ao menos esgarçando o vínculo primário, e provocando desse modo a reação adversa da criança (geralmente, embora possa existir também a oposição da figura materna, não desejosa de perder o seu espaço de onipotência junto ao rebento simultaneamente endeusado e tiranizado). Teoricamente, o ‘terceiro’ é na verdade uma função, que pode ser chamada de ‘função paterna’, pois teria a missão de realizar essa separação.

A figura do ‘terceiro’, conforme o apelidam, é personagem constante e quase inevitável nos escritos e relatos psicanalíticos que seguem de um modo ou de outro uma orientação à qual se aplica o adjetivo ‘continental’ – por oposição à orientação conhecida como ‘britânica’ (de fato, não me lembro de ter ouvido essa expressão – o ‘terceiro’ – num contexto kleiniano ou pós-kleiniano). Não é preciso explicar à exaustão do que se trata. Poucas expressões psicanalíticas são tão unívocas quanto esta. O ‘terceiro’ é o pai, é o portador da lei, é o que desfaz a relação simbiótica, é o que promove a castração, o fim da onipotência, o crescimento, a entrada na cultura, no simbólico, etc., etc.

Repentinamente, enquanto pensava em algo inteiramente diferente, fui abalroado pela idéia de que de ‘terceiro’ esse ‘terceiro’ nada tem, e daí decorreram várias outras idéias. Trata-se de um ‘segundo’, e não de um ‘terceiro’, e gostaria de explicar o meu insight, embora suspeite que a explicação já não seja mais necessária.O fato é que, conforme sabemos, na díade, ou relação simbiótica, ou relação fusional, não há um ‘primeiro’ e um ‘segundo’. As duas partes da relação NÃO se percebem como indivíduos, como entidades separadas, como pessoas inteiras por direito próprio. Nenhuma das duas figuras vê a outra como ‘outra’, e isto tudo faz parte da própria definição dada a idéias tais como ‘díade’, ‘relação simbiótica’, ‘relação fusional’, etc. Neste tipo de configuração humana percebe-se duas pessoas (do ponto de vista do observador, como diria Winnicott) que não se percebem como duas pessoas, e sim uma espécie de gêmeos siameses, entre as quais existe um istmo (necessariamente invisível), como se fosse um cordão umbilical fantasma, que as une e as impede de existirem independentes (fisicamente) uma da outra.

Esta condição ‘física’ torna-as psicologicamente inseparáveis, e portanto inexistentes enquanto unidades individuais. ‘Individual’, nesse caso, é a díade, indivisa e indissolúvel.O efeito de uma separação acidental é o de reduzir cada uma das partes da díade (ou o elemento sobrevivente, no caso de morte do outro elemento) a uma espécie de ‘metade’ de algo, uma ‘metade’ que não pode existir por si mesma. (‘Ó metade de mim…’ e por aí vai.)A meu ver, não se trata aqui desde o início do produto de uma fantasia, da forma como concebemos a idéia de ‘fantasia’ no contexto psicanalítico. Creio que esta situação se deva a algo mais profundo e anterior à noção de ‘fantasia’. Não creio que se possa falar de ‘fantasia’ do feto que, no útero, sente-se (se é que ele sente alguma coisa) ligado à mãe, nem creio que se possa falar de uma ‘fantasia’ da mãe que se sente ligada ao feto. O parto, embora provoque uma mudança física na situação, está longe de implicar uma mudança também psicológica (da ordem da percepção), e disto temos prova através das expressões ‘psicose puerperal’, no caso maligno, e ‘preocupação materna primária’, no caso benigno, etc. Aliás, a idéia da psicose pós-parto indica justamente que a ruptura física provocou um desastre psicológico. A ‘distorção’ perceptiva de que haveria apenas uma pessoa naquela situação – ‘mãe-bebê’ – uma parte da qual (o bebê) morreu ou desapareceu, não é realmente uma distorção, se agora a enxergarmos deste novo ângulo. NÃO havia duas pessoas ali, e sim uma só.

Para Winnicott, a palavra ‘psicose’ descreve uma situação onde o sujeito se percebe incompleto, faltando-lhe um pedaço do corpo (a boca, por vezes o corpo todo, metade dele, etc.) Assim sendo, quando falamos de ‘psicose’ no sentido de uma condição patológica, estamos nos referindo à fantasia da falta de um pedaço do corpo (e, por extensão, à falta de um pedaço do eu). Mas aqui, enquanto falamos da díade mãe-bebê, não podemos usar a noção de ‘fantasia’, pois na verdade enquanto não se dá o nascimento psicológico, o que existe é realmente um corpo formado por duas metades, que funcionam cada qual como condição sine qua non para a existência da outra.Obviamente, podemos especular sobre a diferença entre as personalidades das várias mães, e dizer que se uma delas percebe a si mesma como uma pessoa inteira antes do parto, a pessoa do bebê existirá para ela como algo evidente já bastante antes do parto, enquanto que se uma outra mãe não se percebe antes da gravidez como pessoa inteira, o bebê continuará a fazer parte do seu esquema corporal (e portanto egóico) mesmo depois do parto.O fato é que não se pode, a meu ver, falar aqui de fantasia, pois até um certo momento (digamos até o sétimo mês da gestação) realmente não existem duas pessoas em condições de sobreviverem fisicamente se forem separadas uma da outra. (Obviamente, uma delas sobreviverá fisicamente, mas a consequência psicológica não será uma surpresa.)Uma vez colocadas as coisas desta forma, o restante revela-se quase óbvio.

O ‘terceiro’ não é um ‘terceiro’, mas um ‘segundo’, pois antes não havia ‘dois’, e sim ‘um’, ainda que um ‘um’ complexo, composto. Algo como o que ocorre na química, onde há um bom tempo descobriu-se que os elementos não existem em sua forma atômica, e sim na forma molecular – em que a ‘unidade’ da substância é composta por pelo menos dois átomos. Estes estão ligados entre si pelos vínculos da ‘valência’ – a ausência de um número suficiente de elétrons para completar a última camada esvoaçante em torno do núcleo. Pelo fato de isto acontecer, dois ou mais átomos interligam-se, emprestando uns aos outros os elétrons que faltavam e assim criando uma unidade estável.Só alguns elementos existem na forma atômica pura – são os chamados ‘gases nobres’, que, por não precisarem de ninguém que os complete (em sua última órbita não falta elétron algum) existem em forma de indivíduos – palavra sinônima, por sinal, de ‘átomo’, ‘o que não pode ser dividido’ (e portanto está inteiro…).No caso dos átomos dos elementos comuns, ‘plebeus’, acontece que, por não saberem psicanálise, o crescimento e a posterior separação não lhes acontecem jamais. No caso dos seres humanos, mesmo antes de descobrirem a psicanálise já eles cresciam e se separavam de seus parceiros moleculares, embora não seja fácil saber até que ponto houve, no passado, indivíduos de pleno direito. Num artigo (em Explorações Psicanalíticas) – ‘O Uso do Objeto em ‘Moisés e o Monoteísmo, de Freud’’, Winnicott diz que Moisés talvez teria sido o primeiro ‘indivíduo’ digno desse nome, na História… (Sei que existe um livro sobre a História do ‘Eu’, mas não o li.)

É impossível, porém, ir adiante nesta breve discussão sem passar pela idéia do paradoxo, e portanto da transicionalidade. Quando dizemos que todas as mães iniciam os seus processos de gestação na condição de unidades mãe-embrião e depois mãe-feto, somos obrigados a aceitar a idéia de que o termo ‘fantasia’, aplicável à percepção de que a genitora e o gerado constituem um ser único e indivisível, somente pode ser empregado a partir de um certo momento no processo de desenvolvimento desse que aqui chamei de ‘gerado’.Mas que momento é esse? Será o momento do sétimo mês, quando o feto já passa a poder sobreviver (na maioria dos casos) se for retirado do útero? Será o momento do parto, quando o cordão umbilical é cortado e ocorre a separação física e, até certo ponto, biológica? Será o momento do desmame, quando o bebê deixa de depender do alimento produzido pelo corpo da mãe? Será o momento de ir para a escola? Ou o momento da puberdade, segundo o ditado que diz: “Criança que faz criança não é mais criança”? Ou o momento da maioridade civil, aos dezoito ou vinte e um anos? Ou o momento do casamento? Ou da formatura?Seja como for, para a mãe considerada ‘normal’ há um momento, cedo ou tarde, em que o ‘gerado’ não é mais visto como uma parte dela mesma, mas não é correto dizer que essa percepção algum dia se completa inteiramente.

Talvez se deva utilizar aqui a figura da curva assintótica, da matemática, em que a ponta de uma reta que se prolonga em direção a uma outra descreve um movimento de aproximação gradual que nunca se completa, a não ser talvez no infinito. O fato é que a mãe considerada ‘saudável’ é aquela em quem percebemos uma consciência não muito atormentada de que há um mínimo de independência entre ela e o ser que ela gerou (filho ou filha). A meu ver, para dar conta desse fenômeno paradoxal – a mãe ao mesmo tempo percebe o filho como parte dela, e como um todo por direito próprio (isto, como assinalado acima, no melhor dos casos) -, temos que recorrer não à lógica linear, pela qual ou o filho é parte ou não é parte, mas usar – et pour cause – a lógica paradoxal da qual Winnicott fez seu principal instrumento epistemológico.

O filho é e não é parte da mãe, pois se não fosse, como é que ela se daria a tanto trabalho em benefício dele? E se for, como poderá ele ter uma vida à qual poderá chamar minimamente de ‘própria’?Da idéia central, no esquema do desenvolvimento proposto por Winnicott, faz parte aquele item de que a mãe deve ir, com o tempo, diminuindo aos poucos o grau de sua adaptação às necessidades egóicas iniciais do bebê.

De um certo momento em diante, é preciso que ela permita a ocorrência (de modo não deliberado, obviamente) de pequenas frustrações no dia a dia do bebê, pois esta será a única maneira de ele desenvolver um contato com o mundo em que terá de viver que não se caracterize por hostilidade e receio. Uma quantidade crescente de pequenas frustrações estimula a mente do bebê a dar conta da diferença entre ser atendido imediatamente e ter de esperar um pouco pela satisfação. A consequência disso é que surge, para ele, a possibilidade de vivenciar muitas e muitas vezes o fato de haver sobrevivido a essas frustrações, coisa para a qual ele não estava, digamos, ‘preparado’. Esse é um novo aprendizado na vida do bebê: do mesmo modo como a integração o levou a dar-se conta de que, nas inúmeras experiências por ele vividas até certo momento, há um denominador comum, um ‘personagem’ constante, a que mais tarde ele chamará ‘eu’, assim, das muitas experiências de sobreviver à frustração (inicialmente muito assustadoras, por motivos óbvios) surgirá um aspecto novo e importante desse ‘eu’ – a sua, eu diria, solidez ou, como a chamam hoje em dia, ‘resiliência’: ‘Olha só – ‘constata’ o bebê – cá estou eu, inteiro, apesar da sensação horrível de sumir porque a mamãe havia desaparecido…’. Pois para o bebê, se ele parte do ‘ponto de vista’ de que não é ele que existe, e sim um conjunto ‘bebêmãe’, se não há ‘mãe’, não pode haver ‘bebê’. Para nós, observadores, tudo isso é muito óbvio.

Para o bebê não: trata-se de uma verdadeira revolução.Do ponto de vista da proposta que estou apresentando, quem promove essas pequenas e crescentes frustrações não é uma terceira pessoa ou uma terceira função, mas a própria mãe, cuja condição de sujeito por direito próprio deve voltar a funcionar assim que a ‘preocupação materna primária’ começar a declinar. (E esta, por sua vez, declina na medida em que a mãe começa a perceber que seu bebê já está ficando ‘grandinho’, já começa a sair da condição de vulnerabilidade em que estava nos primeiros tempos depois do parto). É o ‘eu’ da mãe que, retomando aos poucos a sua existência anterior, temporariamente substituída pela necessidade de adaptar-se às necessidades do bebê, que pelo simples fato de relembrar-se de si mesmo passa inevitavelmente a frustrar o bebê. A demorar cada vez um pouco mais em atendê-lo.

Creio que se pode afirmar, portanto, que a saída da simbiose depende na verdade daquele que agora vai se tornando o ‘segundo’ da relação, e não de um ‘terceiro’. (Relembremos: antes não havia ‘primeiro’ nem ‘segundo’, pois no estado de fusão havia apenas ‘um’.) Mas Winnicott acentua o tempo todo a idéia de que esse processo de tolerância crescente à frustração – até perceber que se trata de uma ‘nova’ realidade, não de uma ameaça ou de uma ofensa – só pode ocorrer quando houve anteriormente uma quantidade suficiente de ilusão – a ilusão de onipotência, pois a mãe confirmava, com sua adaptação ao bebê, que este podia fazê-la funcionar como ele ‘queria’, aparecendo quando ele a evocava, e sumindo quando ele não precisava mais. Então nos vemos ante o paradoxo segundo o qual a aceitação da realidade externa (a mãe ‘real’) depende essencialmente de uma prévia despercepção total – crescentemente decrescente – dessa mesma realidade. Assim sendo, não há por que espantar-se com a idéia de que, a partir de Winnicott, todos os assuntos humanos talvez devam ser entendidos segundo a lógica paradoxal, e não mais segundo a lógica linear, boa para administrar armazéns (estoques) e fábricas (máquinas e processos de produção), construir arranha-céus, criar gado e montar programas de computador, mas péssima (e o neo-liberalismo – última trincheira do mecanicismo impessoalizador – o deixa bem claro) para gerir vidas humanas (mesmo no interior de empresas, e as empresas mais sofisticadas – justamente as mais ‘neo-liberais’ em relação ao mundo que as cerca – são as que mais prezam a administração de seus recursos humanos em termos paradoxalmente humanos, e não mais em termos mecânicos ou impessoais).

Pois poderíamos dizer que as coisas não precisam de ilusões, nem nascem onipotentes. Já os seres humanos…Retomando: O famoso ‘terceiro’ da psicanálise não é um terceiro, portanto, mas um ‘segundo’, e sem dúvida podemos identificá-lo com o famoso ‘outro’, esse que, para Sartre, era ‘o inferno’. Winnicott explica: A fase da fusão tem duas etapas.

A primeira, do narcisismo primário ou dependência absoluta. Não há ‘outro’ nessa fase, nem mesmo esse semi-outro que é a própria mãe. A mãe só se torna ‘mãe’ na segunda fase, que ele chama de ‘ruthlessness’, ou da dependência relativa, na qual não há compaixão nem há empatia, na qual há ainda fusão e a qual se situa a meio caminho entre o narcisismo primário (ou absoluto) e a terceira fase, do concern, em que há compaixão, há empatia, e o ‘outro’ começa a ser aceito de bom grado, quando todo o processo anterior transcorreu favoravelmente. Nessa segunda fase, o ‘outro’ que começa a surgir é execrado justamente por sua ‘outridade’, o que não deveria nos espantar se nos dermos conta de que faríamos exatamente a mesma coisa no caso de, por exemplo, uma de nossas pernas começar a ir para a direita quando temos intenção e mesmo necessidade de ir para a esquerda…Essa fase intermediária é aquela em que surge uma incipiente consciência do ‘eu’, e também de tudo aquilo que ‘não é eu’. Nessa fase o ‘não-eu’ não é tolerado, porque o bebê ainda vive a ilusão de onipotência, ainda não passou pela desilusão em relação à existência do mundo anterior a ele, e qualquer coisa que não pareça fruto da sua criatividade (nesse caso, igual a ‘vontade’? É por isto que Lacan fala de ‘imaginário’?) é percebida como uma coisa intrusa e intolerável. Nessa fase podemos falar com justiça de ‘simbiose’, pois na fase anterior havia ‘fusão’, mas uma fusão sequer percebida. Agora há ‘fusão’ entre dois corpos. Agora há sim-biose (vida em harmonia…). Agora há dependência percebida como dependência, e combatida enquanto tal, pois depender implica em submeter-se, e para a onipotência não há nada mais horrível que isso.

Arma usada no combate: A onipotência, que pouco antes era sentida como um fato incontestável e agora, justamente porque está sendo contestada, reage muito ferozmente.Então, nessa segunda fase já podemos falar de díade propriamente dita, pois há duas pessoas que se percebem como uma só. Isto a partir da situação anterior, em que uma das pessoas (o bebê) nada podia perceber. Mas agora ele percebe, e vai relutar muito até aceitar (se tudo correr bem, como diz Winnicott) que aqui há duas pessoas, e não uma, composta por um senhor e sua escrava. E vai fazer o possível para que tudo continue como antes, pois a mudança parece forçosamente assustadora. (Balint, ao descrever o que chamou de ‘relação de amor primitivo’, disse que esta é uma relação em que ‘apenas uma das duas pessoas tem o direito de fazer exigências’…)
Não nos esqueçamos, porém, que a dependência do bebê é real – inclusive no sentido lacaniano do termo! -, e que uma dependência não atendida implica mais ou menos rapidamente em desamparo (de acordo com o ponto do desenvolvimento em que o bebê está). Portanto, tudo aquilo que ameaçar o status quo ante parecerá ao bebê sumamente detestável, sumamente perigoso para o seu sentimento de segurança. E cá entre nós, ele tem razão.É a infinita (mas não eterna) paciência da mãe, diz Winnicott (e as mães também) que permite ao bebê ir aceitando o inevitável. E o inevitável é a percepção de que há duas pessoas na jogada, não duas metades que formam um todo.

O trabalho que Winnicott teve para descrever essa parte decisiva do desenvolvimento emocional infantil, jogando fora algo de Freud (pulsão de morte) e muito de Melanie Klein (inveja primitiva, destrutividade primária, a expressão ‘fase esquizo-paranóide’, por exemplo), é demasiado para ser resumido aqui. Um aspecto inteiramente novo (para mim) dessa situação ocorreu-me anteontem (3/12/2008), em conversa com uma paciente: é preciso considerar que, sim, já existe um não-eu bem antes do momento em que Winnicott situa a sua descoberta pelo bebê. É um ‘não-eu’ diferente, porém, pois não é a percepção que o registra, mas algo muito mais profundo e primitivo: o próprio instinto de sobrevivência, essa força telúrica que o homem compartilha com os outros seres vivos, pelo simples fato biológico de estar vivo. Esse outro tipo de ‘não-eu’ precisa ser chamado de ‘morte’, que é o nome que damos a tudo aquilo que, embora não o conheçamos, responde de um modo ou de outro pelo ‘fim da vida’ – seja de uma barata, de um hipopótamo ou de um ser humano.

O bebê tem uma ‘consciência não consciente’ da morte, pois não pode haver dúvida de que ele tenta evitá-la tanto quanto pode – assim como fazem as baratas e os hipopótamos. (Mesmo dentro do útero há evidências impressionantes de que isto ocorre de modo insofismável.) É verdade que esse ‘outro’ é apenas um fenômeno biológico, portanto nada tem a ver com o que chamamos ‘psicologia’. E tampouco tem a ver com a velha ‘pulsão de morte’ de Freud e Klein. É um fenômeno animal, não ‘humano’. Ainda assim, é preciso levar em conta que o ‘não-eu’, neste exato sentido, surge bem antes da existência do ‘eu’. E ocorreu-me também a idéia de que é isto que torna compreensível, por exemplo, o que Winnicott chama de ‘ameaça de aniquilação’, responsável pela ocorrência de ‘angústias impensáveis’ nos primeiros tempos de vida de um ser humano.

Ver, a esse respeito, as descobertas recentes da neurociência sobre o funcionamento de um pequeno fragmento do cérebro chamado ‘amígdala’.Mas neste momento, o que importa é dizer que a passagem da fusão (primeira fase) para a dependência que dali em diante vai decrescendo (terceira fase) leva à passagem do estado de natureza para o estado da cultura, à aceitação do ‘eu’ e da mãe, e posteriormente dos demais, como pessoas por direito próprio, é o surgimento de um ‘eu’ que se relaciona com o ‘não eu’, em vez de combatê-lo, é a derrota da onipotência como instrumento de administração do mundo, e sua transformação em instrumento de aperfeiçoamento desse mundo, é o início do ser propriamente humano, com toda a dignidade e todo o risco que isto implica. Assim sendo, o famoso ‘terceiro’ pode ser facilmente percebido como sendo na verdade um ‘segundo’, um ‘outro’ que não o ‘eu’, mas um ‘outro’ agora aceito e incluído, em vez de um ‘outro’ a ser submetido e escravizado, e quando isto não dá certo, rejeitado e excluído (ao menos temporariamente – sabemos o que acontece quando a mãe ‘some’ por um tempo suficiente para a criancinha rejeitá-la quando finalmente ela reaparece…).Dizer, então, que os grupos se organizam segundo o padrão de um ‘nós’ que promete a volta da onipotência pela exclusão dos ‘estranhos’, os ‘não-eu’ por excelência, agora não mais provocará qualquer estranheza.

Alguém já disse que ‘o patriotismo é a última trincheira dos covardes’, e a meu ver estava inteiramente certo, principalmente do ponto psicanalítico (segundo Winnicott). Pois o fundamentalismo (qualquer que seja) implica, primariamente, na exclusão do ‘não-nós’, substituto alcançável para os que têm saudade dos tempos da onipotência. (Ou seja, para os que não tiveram a sorte de contar com a infinita – mesmo que não eterna – paciência de uma mãe). A insegurança existencial radical provocada por um corte abrupto demais nessa longa passagem da dependência absoluta para a dependência mínima gera esse tipo de apego ao exoesqueleto da alma que é a ideologia fundamentalista (que talvez difira de qualquer outra ideologia apenas em grau, mas não tenho agora como discutir isto).Então, a exclusão do ‘outro’ é sinônima da exclusão do ‘terceiro’, e isto só pode fazer realmente sentido se pensarmos em termos de um ‘segundo’, não de um ‘terceiro’. Pois quem ameaça inicialmente o bebê com a perda abrupta da onipotência não é a figura paterna que se intromete entre mãe e filho, é a figura materna que se distancia demasiadamente rápido ou demasiadamente devagar, deixando o filho amargando o finzinho da ilusão que acabou cedo demais.

O filho passa então a procurar outras fontes de ilusão de onipotência, e uma delas é certamente a exclusão dos diferentes, principalmente quando estes podem ser discriminados a partir de um consenso grupal: Quanto mais o indivíduo rejeita os ‘outros’, mais é aceito pelo ‘nós’, e isso é bom (para todos eles). Pois quando a exclusão ocorre sem essa sanção social, temos não o ‘patriota’, mas o simples louco, ou às vezes o reles paranóico. Outro modo de ‘recuperar’ a onipotência é o recurso às drogas. Ver Winnicott, O Brincar e a Realidade, artigo ‘Objetos Transicionais e Fenômenos Transicionais’. E ver também o que escrevi em outro lugar sobre a Obesidade Mórbida.Winnicott fala de dois territórios que se situam entre o real de Lacan e a fantasia inconsciente propriamente dita: Por um lado, o espaço da ilusão, que é o espaço da arte, da religião e da filosofia e por outro o que ele chama da ‘realidade compartilhada’ (Ver Da Pediatria à Psicanálise, ‘Objetos Transicionais e Fenômenos Transicionais’, e O Brincar e a Realidade, ‘O Lugar em que Vivemos’ e ‘A Localização da Experiência Cultural’).

Ele situa esse espaço da ilusão um pouco ‘aquém’ do segundo território, a ‘realidade compartilhada’.‘Realidade compartilhada’ é aquilo sobre o qual um grande grupo de pessoas concorda. É o dicionário comum de uma dada sociedade mediana, majoritária, comum. ‘Mesa’ é ‘mesa’, e quem disser que ‘cadeira’ é ‘mesa’ ou é poeta ou louco. Se é poeta, está no espaço da ilusão. Está brincando na terra de ninguém entre a fantasia e a realidade compartilhada. Se é louco, está perdido no espaço. Está fora da ‘realidade compartilhada’.Mas não é difícil entender que ‘realidade compartilhada’ é tudo aquilo que a sociedade sanciona como ‘realidade’, e sociedades diferentes têm realidades diferentes. (As sociedades psicanalíticas eram – e, quem sabe, ainda são – um ótimo exemplo para esta idéia). Portanto, a ‘realidade compartilhada’ é apenas um espaço um tanto maior que o da ‘ilusão’. A não ser que, numa dada sociedade (Alemanha nazista, por exemplo), o espaço da ilusão seja transformado em ‘realidade compartilhada’.

Neste caso, ai dos excluídos, pois não serão apenas rejeitados, serão aniquilados. (Ver situações em contextos religiosos, de todos os tipos, e políticos, idem. E ver, a esse respeito, meu artigo ‘Holocausto – a Mega-Fabricação do Desamparo’ – no site www.dwwinnicott.com)Então o bebê precisa ir aos poucos aceitando o ‘não-eu’ e deixar de considerá-lo inimigo do ‘eu’. Se a mãe lhe dá esse tempo, isto acontecerá. Caso contrário, ele continuará a buscar o ‘ideal’ perdido, e não é à toa que entre o ‘ideal’ e o ‘ilusório’ a fronteira é tão medonhamente tênue. (Dei-me conta, agora que estava relendo o trabalho para fins de revisão final, que Winnicott de algum modo parece que concorda a posteriori com a hipótese que acrescentei acima, pois em algum lugar ele escreve sobre uma ‘ilusão de imortalidade’, fruto muito bem vindo de um processo de desenvolvimento emocional primitivo suficientemente bom. Se essa ‘ilusão de imortalidade’ não implica num ‘terror da mortalidade’ anterior eu, como se diz, ‘sou mico de circo’…) Quais as doenças, pois, da contemporaneidade? Quais os ‘novos sofrimentos’? Uma ‘nova psicanálise’ é necessária?Já se falou o suficiente sobre as ‘novas doenças’ do homem contemporâneo. O excelente livro de Nahman Armony sobre a síndrome do Borderline (Borderline – uma Nova Normalidade, Revinter) basta como exemplo (por cobrir uma extensão de informações suficiente para quem quiser atualizar-se). A mim o que ocorre é que talvez as mais novas ‘doenças’ do ser humano atual sejam as doenças da transicionalidade, e não sou o primeiro a dizê-lo (mas não tenho referências sobre isto).

O que significam ‘doenças da transicionalidade’? Significariam, na verdade, o que eu aqui chamaria, com licença dos filósofos, de ‘distúrbios epistemológicos’.Por ‘distúrbio epistemológico’ refiro-me a todo aquele modo de percepção dicotômico e dicotomizante que caracteriza o homem ocidental (do oriental não posso falar no momento, mas sei que, tradicionalmente, as epistemologias orientais – ao menos as de natureza religiosa – tendiam a uma percepção mais holística que dicotomizante) e o torna nacionalista, etnocêntrico, chauvinista, xenófobo (homófobo, racista) e, em última análise, auto-referente.

A auto-referência seria a forma mais primitiva do distúrbio epistemológico, e a xenofobia a sua manifestação mais tardia e mais perigosa. Essa nova ‘doença’ (que na verdade de ‘nova’ nada tem…) vai desde uma separação nítida e radical entre o ‘bem’ e o ‘mal’, até a separação nítida e radical entre o ‘nós’ e os ‘outros’. Não vou me estender em discutir isto item por item, pois tudo isto já é demasiadamente conhecido. O que estou propondo como novidade é a classificação, não os fenômenos.A saída da onipotência, portanto, não pode ser feita pela via da castração (nem mesmo como metáfora, pois suas ressonâncias são violentas) mas pela via da empatia (o que Winnicott chamou de concern). Na reta final da infância inicial (quando o bebê já está andando com equilíbrio e falando com clareza), ou seja, lá pelos três anos e meio ou mesmo um pouco mais, o mundo ainda é um lugar de terror sempre que não se parecer com um paraíso (dicotomia essa típica do bebê até então). O recurso à onipotência como defesa contra o desamparo ainda é normal e inevitável, pois não há alternativa. Ao longo dessa época provavelmente instalam-se definitivamente ou a xeno-filia (aqui no sentido de ‘amor ao outro’, não no sentido de ‘adicção ao outro’) ou a xeno-fobia, dependendo de o quanto o indivíduo está em condições ou não de absorver a presença do ‘não-eu’ (e, sobre isto, ver meu artigo ‘Simbolização e Fundamentalismo’, no site acima citado).

É preciso lembrar que simultaneamente à presença da xeno-fobia teremos um agudo sentimento de desamparo, pois por definição (segundo as hipóteses acima) as defesas contra o desamparo são primariamente defesas contra a perda da onipotência (e, melhor ainda, segundo a hipótese que acrescentei há pouco, contra a ‘morte’), e têm como consequência a rejeição do ‘não-eu’ muito mais como um perigo mortal, a meu ver, e não como um ‘insulto à inteligência’, como dizia Winnicott… pois o insulto, na verdade, é à onipotência, e portanto muito mais grave.

O sofrimento contemporâneo talvez seja esse, então: O desamparo resultante de uma saída rápida demais do universo da fusão, ou o desamparo resultante de uma permanência demasiadamente longa dentro dele (que, por simetria, causa o mesmo estrago, pois a mãe que não percebe o desamparo do bebê e deixa que o mundo o invada, e a mãe que não percebe o crescimento do bebê e o afoga em seu amparo, roubando-lhe o acesso ao mundo, fazem a mesma coisa, deixam de perceber o bebê.) Ergo…Foi mais ou menos isto que Winnicott tentou dizer, e o que eu entendi a partir disso. E ao formular aquela última frase do parágrafo anterior, creio ter deixado claro que talvez não seja necessária uma ‘nova’ psicanálise, pois a de Winnicott está aí, e talvez ainda não tenhamos começado a utilizá-la verdadeiramente.

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