Família sob as lentes da Teoria Sistêmica

À medida que a tendência organicista, seguida por um biólogo austríaco, chamado Karl Ludwig von Bertalanffy (1901- 1972) foi sendo associada à Teoria Geral dos Sistemas e a tendência mecanicista, seguida pelo matemático alemão, Norbert Wiener (1894- 1964) associada à Teoria Cibernética, ambas foram se desenvolvendo e se complementando. Com o passar do tempo e muitos estudo, surgiu um novo olhar que tornou-se importante, pois […] a tendência a estudar os sistemas como uma entidade e não como um aglomerado de partes […] que não isola mais os fenômenos em contextos estreitamente confinados, abre-se ao exame das interações e investiga setores da natureza cada vez maiores. (ACKOFF, 1959 apud BERTALANFFY, 1968, p.25).
Entre as considerações que conduziram a teoria sistêmica a uma disciplina científica, segundo Bertalanffy (1968), foi o fato de ter encontrado leis gerais que se aplicam a qualquer sistema, remetendo esta a uma ciência geral, da totalidade, pois as mesmas tendências são aplicáveis a diversas áreas, contudo sem se tratar de redução ou transferência de conceitos.

Estas tendências apareceram mais tarde no campo psi, que de modo geral compartilhava a visão do homem como um robô reagente, visão esta que cedeu lugar a uma outra perspectiva, a sistêmica. Assim, o homem passou a ser considerado como um sistema de personalidade ativa, que deve ser analisado como um todo unificado, incluindo os contextos em que está inserido, bem como suas interações.

Bertalanffy (1968) considerou que a mudança em uma das partes do sistema geraria mudança nas demais, deste modo, as psicopatologias também encontraram fundamento nessas considerações e passaram a ser consideradas como desordens nas funções sistêmicas do organismo, onde os sintomas e síndromes isolados não poderiam definir a patologia, surgindo então a necessidade de analisar o todo, que inclui o sistema e os subsistemas nos quais o homem esta inserido, como o social, o cultural, o político, econômico, parental, marital, entre outros. Pelo fato de o sistema familiar e seus membros serem entendidos como sistemas e também como subsistemas de sistemas mais amplos, se torna necessário que os terapeutas auxiliem aos membros das famílias a estabelecerem as fronteiras entre os papéis e funções (parental, marital), garantindo assim a diferenciação de self dos membros.

Neste sentido, os pressupostos sistêmicos passaram também a fornecer subsídios para a psicologia entender as famílias e suas construções subjetivas. Segundo Nichols e Schwatz (1998), estudiosos como Ackerman, Bateson, Moreno, Bowlby, Laing, já destacavam a importância do contexto familiar e assim impulsionaram o movimento rumo ao campo da Terapia Familiar, nascida na década de 1950, se desenvolveu na década de 1960 e chegou à maturidade na década de 1970.

A terapia familiar era um campo aberto a modalidades de intervenção, assim o paradigma sistêmico passou a oferecer base para a mesma. De acordo com Souza e Nunes (1998), a aplicação do modelo sistêmico a prática clínica da psicoterapia familiar teve como perspectiva central o olhar do antropólogo Bateson, que ao trabalhar com psicólogos os aproximou da Teoria Sistêmica. Pensar nas relações do grupo familiar segundo esta teoria, implica entender a família como um conjunto funcionando como uma totalidade, regido por alguns princípios.

Cerveny (1994) expõe alguns destes princípios. A família é entendida como um grupo de muita especificidade, o qual não pode ser visto como um simples somatório de suas partes, se seus membros, assim a análise total não se constitui da soma de análises individuais dos membros, mas engloba todo o contexto interacional, aspectos que constituem o princípio da não-somatividade. Que está relacionado aos circuitos de retroalimentação, ou seja, de comunicação entre os membros, onde o comportamento de cada sujeito afeta e é afetado pelo comportamento dos demais, assim um elemento do sistema afeta aos demais e a todo o sistema, aspectos que correspondem ao princípio da circularidade. Percebe-se, a partir destes princípios, a importância de os terapeutas sistêmicos incluírem todos os membros do sistema familiar na participação do processo psicoterapêutico.

A família como um sistema aberto interage e troca com o meio, contudo, através do princípio da morfogênese tem a capacidade de se autotransformar, já através do princípio da homeostase se auto-regular, mantendo assim uma estabilidade. Ao entender a família como uma organização onde se definem papéis e funções, é necessário pontuar também a existência de uma hierarquia que subjetivamente define as relações de poder entre os membros.

Diante do exposto, é possível perceber que modelo sistêmico permite visualizar a multiplicidade do sistema familiar, de cada membro e de suas interações, pois conduz a compreensão da família em seus distintos contextos, na sua pluralidade que inclui o social, o cultural, o econômico e o temporal, já que as múltiplas gerações deixam suas marcas na história familiar, transmitindo e perpetuando a repetição de padrões. (CERVENY; BERTHOUD, 2002).

Em relação a perpetuação dos padrões interacionais, Werlang (2000) em seus estudos, sobre repetições inter e transgeracionais, pontuou que

[…] as famílias desenvolvem uma estrutura característica, um padrão bem definido e repetitivo de papéis e regras, dentro dos quais os seus membros funcionam. Os valores e normas familiares são derivados das experiências de crescimento dos pais, em suas famílias de origem, dos derivativos internalizados dessas experiências, da influência atual da sociedade na qual estão vivendo e de suas historias desde que se uniram para criar uma nova família. (p.141).

Apesar das singularidades e especificidades de cada sistema familiar, Elkaim (apud CERVENY, 1994) afirma que toda família transmite seu modelo, mesmo aquelas que cuidam muito para não o fazer, assim certos modelos podem passar a geração seguinte de outra forma ou até pular uma geração, é a construção subjetiva de padrões de comportamento.

Estas repetições podem ser transmitidas através das regras familiares, que Cerveny (1994, p.55) pontua como “o conjunto de acordos explícitos e implícitos compartilhado e conhecido por um grupo familiar, que faz parte da história da família e se mantém por meio do uso”. Ou ainda, através dos mitos, que são implantados pela primeira geração, mantidos pela segunda e perpetuados pela terceira geração. A referida autora considera que é através do mito que a família faz sua leitura da realidade, na maioria das vezes o mito é sustentado por segredos familiares. Os segredos são acontecimentos ocorridos na família e que por algum motivo são mantidos como segredos, tornando-se algo característico no grupo, aquilo que os diferencia.

De acordo com Framo (1965 apud CERVENY, 1994), estes segredos familiares podem ser acontecimentos ou ações vergonhosas de algum membro cuja revelação teria conseqüências ruins para os demais, ou ações e acontecimentos não vergonhosos, mas que criam a união intrafamiliar e por isso são perpetuados. Estes princípios sobre a família, supracitados, podem se tornar funcionais ou disfuncionais, isto dependerá dos recursos de cada família para lidar com as demandas que surgem a partir das trocas interacionais. Desde que Wiener e Bertalanffy propuseram suas idéias estas foram passando por reformulações, com novas pesquisas e estudos agregaram-se e descartaram-se conceitos ao longo dos anos, assim como a família no que se refere às mudanças de sua configuração, função e conceito.

Segundo Cerveny (1994), o estudo da família mesmo realizado por vários segmentos da ciência, em diferentes dimensões, nunca será esgotado e nem responderá a todos os questionamentos, porém permitem o entendimento das evoluções da família e uma contínua evolução nas práticas dentro do campo da psicoterapia.

Referências:

BERTALANFFY, L.V. Teoria Geral dos Sistemas. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1968.

CERVENY, C. M. de O . A Família como um Modelo: Desconstruindo a Patologia. São Paulo: Artes Médicas, 1994.

CERVENY, C. M. de O; BERTHOUD, C. M. E. Visitando a Família ao Longo do Ciclo Vital. São Paulo: Casa o Psicólogo, 2002.

NICHOLS, M. P; SCHWARTZ, R.C. Terapia Familiar: conceitos e métodos. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 1998.

SOUZA, Y. S; NUNES, M. L. T. Famílias Organizações e Aprendizagem: Ensaios Temáticos em Psicologia. Porto Alegre: Instituto de Psicologia da PUC/RS, 1998.

WERLANG, B. G. Avaliação inter e transgeracional da família. In CUNHA, J. A. et al. Psicodiagnóstico -V. 5. ed. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

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