Depressão em oncologia: um desafio aos profissionais

O Transtorno Depressivo Maior – TDM vem recebendo crescente atenção em indivíduos com câncer. Por definição, a depressão é um termo genérico usado para descrever quadros psiquiátricos associados a sintomas depressivos encontrados principalmente nos transtornos do humor. Os transtornos do humor incluem uma variedade de distúrbios que afetam o humor, além de diversos outros aspectos clínicos, os quais estão descritos no capítulo “Transtornos do humor” do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-IV-TR (2003) e nos capítulos F30 a F39 do Código internacional de doenças – décima revisão (CID-10) (Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10, 1993).
É importante salientar que a associação entre câncer e quadros depressivos (e outros transtornos do humor) é muito freqüente e está relacionada a uma pior evolução clínica e à má qualidade de vida dos pacientes. Estudos ligados a essa questão têm sido um desafio aos pesquisadores, pois muitos dos sintomas relacionados são diagnosticados com imprecisão, confundindo-se com os demais sintomas desencadeados pela própria doença. O diagnóstico da depressão se torna ainda mais difícil devido às alterações do humor do paciente oncológico, que sente sua vida ameaçada, vivenciando a dor e momentos de intensa fadiga, principalmente ao se submeter aos tratamentos necessários (radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia, etc).

A importância do estudo da depressão na oncologia é reforçada pelas evidências da eficácia dos tratamentos, como o farmacológico e o psicológico. O tratamento farmacológico visa propiciar uma melhora no quadro depressivo pelo uso de medicamentos antidepressivos, estabilizadores do humor ou antipsicóticos, de acordo com o tipo de transtorno envolvido, e com cuidados especiais devido à alta probabilidade de ocorrência de efeitos colaterais e de combinações medicamentosas que podem “anular” um ou outro tratamento que deveria ser benéfico ao paciente. Já a intervenção psicológica pode ocorrer por meio da avaliação e da psicoterapia individual ou em grupo associadas ao tratamento medicamentoso, podendo promover melhora no ânimo, aumento da vontade de viver e, conseqüentemente, melhora na qualidade de vida.

Apesar de a depressão ser uma reação “esperada” em pacientes com diagnóstico de câncer, sendo ela uma “desmoralização” vivenciada pelo paciente e um forte agente estressor, não se pode permitir sua banalização, ou melhor, a ocorrência de um subdiagnóstico. Além disso, devem-se considerar o impacto significativo da multimodalidade de tratamentos oncológicos bem como a lentidão do processo e a dificuldade de adaptação à nova situação, que estão associadas ao crescente risco de síndrome psiquiátrica.

Talvez a questão mais importante no que concerne ao tratamento da depressão em pacientes com câncer seja exatamente a concepção errônea de ser “normal” que esses pacientes estejam deprimidos. Apesar de grande parte dos oncologistas freqüentemente não estar familiarizada com os transtornos de humor, o não-tratamento é injustificável.

A depressão não produz somente incapacidade e declínio na vida dos indivíduos, mas também pode interagir com outros sistemas corporais associados a doenças somáticas, muitas vezes concomitantes. Assim, a depressão atinge negativamente diversas esferas da vida dos indivíduos (social, ocupacional, física e emocional) e o desempenho de seus papéis, prejudicando a qualidade de vida.

Além dos efeitos devastadores da depressão, o câncer revela ao indivíduo um corpo finito e falível. Estigmas envolvem a doença, como a crença de que está ligada à resignação, aos sofredores e aos não sensuais, afligindo as pessoas e provocando uma inaceitabilidade social. Dessa forma, os pacientes com algum tipo de neoplasia se vêem fadados à dor, mutilação, deformação, desfiguração, apreensão com a auto-imagem, perda de peso e possibilidade de morte. Enfim, desenvolver um câncer pode ser equivalente a vivenciar um estresse perturbador ao indivíduo, o qual pode ser definido tanto pelos estímulos externos que o envolvem quanto pela sua maneira de encarar e enfrentar tal experiência.

Dessa forma, pode-se notar a importância do desenvolvimento de mais estudos na área para tornar o diagnóstico cada vez mais específico e evitar a superposição de sintomas somáticos e psíquicos que possam ocasionar equivocada atuações clínicas, postergando a melhora no quadro clínico dos pacientes. Essa insistência na importância de uma abordagem precisa e adequada está relacionada ao sofrimento dos indivíduos que se encontram diretamente vinculados às peculiaridades de uma doença (câncer) traiçoeira, mobilizadora de sentimentos de tristeza e angústia, desamparo, insegurança acerca do futuro e abalo na identidade pessoal e social. Neste contexto, a ocorrência da depressão pode ser perfeitamente compreendida e deve ser relacionada e tratada juntamente com a doença somática através do “olhar” de diversas ciências (medicina, enfermagem, psicologia, fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição, terapia ocupacional, entre outras), ou seja, de uma abordagem multidisciplinar.

Isso se torna ainda mais importante por haver todo um contexto em que o indivíduo se encontra inserido que pode influenciar na maneira como lida com o agente estressor. Os valores e as crenças culturais podem influir no modo como a pessoa percebe a depressão, bem como outro transtorno mental ou somático. Há casos em que o contexto cultural (ambiente externo) do indivíduo pode ser pouco tolerante às limitações funcionais, potencializando o problema de saúde em questão. Além disso, a sua personalidade e as experiências de doenças prévias também influenciam no modo de enfrentamento tanto dos sintomas somáticos advindos da neoplasia quanto dos psíquicos eliciados pela depressão.

Por fim, a problemática do diagnóstico surge como um desafio, assim como muitas outras questões que se encontram indefinidas, sugerindo um amplo leque de atuação para estudiosos da área. Apesar de tantos obstáculos, a Psico-Oncologia é exatamente uma das novas áreas que vêm emergindo e se consolidando como especialidade, permeando o campo entre a Medicina e a Psicologia. Tal ligação entre ambas as ciências parece significar um caminho no qual deve ser semeada uma rica comunicação, em que os saberes possam se somar e se multiplicar com o objetivo primordial de melhor atender as necessidades dos pacientes e lhes proporcionar, mediante um trabalho conjunto, uma melhor qualidade de vida durante as fases de diagnóstico e tratamento das mais variadas formas de câncer.
  
O presente artigo é um recorte da obra “Temas em Psico-Oncologia”, capítulo V “Aspectos psiquiátricos do paciente com câncer”, publicado em parceria com a equipe do Interconsultas, coordenado pelo Dr Chei Tung Teng – Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em Agosto de 2008.

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