A Violência doméstica como forma de comunicação

No meu trabalho realizado na Delegacia da Mulher, enquanto estagiária, pude notar que muitas famílias têm a violência como forma de estabelecerem vínculos. No ponto de vista destas famílias, não existiria outra forma de se comunicarem, e, em decorrência desta forma de comunicação, percebemos muitas vezes que, ao re-contextualizarmos e ao resumirmos os fatos, muitas pessoas se surpreendiam com a própria raiva que demonstravam ter do cônjuge, do indiciado, no caso. Isto normalmente acontece porque todo sistema tende à um equilíbrio como forma de manter sua existência. Há uma resistência à mudança.
A mudança é ameaçadora, geradora de insegurança e desconforto, visto que o sistema funciona daquela forma a muito tempo, independentemente de ser uma mudança positiva ou não. Nos discursos das pessoas que atendíamos, ouvíamos com freqüência frases como “eu vivia bem com ele, apesar disto”(sic), ”pensando bem, ele tem o lado bom”(sic). E quando estas pessoas nos diziam isto, percebia-se claramente o temor à mudança, às conseqüências que ocorreriam para este sistema que já estava organizado desta forma, que, sendo nociva ou não, era o jeito que estas pessoas se organizaram para viver, pois era seu estilo de interação familiar que estaria sendo ameaçado. Se uma pessoa participante deste ciclo (levando-se em consideração o conceito de circularidade que a teoria sistêmica propõe) resolvesse mudar o comportamento e os outros não concordassem, a tendência seria de que a pessoa desistisse de mudar e permanecesse no circulo vicioso, porque precisaria existir um compromisso de mudança do conjunto dos elementos, de todos os participantes do ciclo, e não só de uma pessoa.

Percebíamos claramente as resistências nas falas das pessoas, que nos diziam em tom de voz amargurado, como era difícil pensar em qualquer mudança. Outro fato percebido na fala das pessoas era o fato de que não compreendiam como suas relações estavam desgastadas já há bastante tempo. Estas pessoas puderam refletir a respeito e conseguiram nos contar a quanto tempo estavam vivenciando este contexto de violência, a partir de nossas colocações.

A partir daí conseguíamos fazer com que estas pessoas organizassem melhor suas idéias a respeito de suas próprias relações com a família e o quanto estas relações originavam a violência. Em alguns casos, foi possível verificar o quanto a história de vida pregressa da pessoa contribuiu para o surgimento da violência como forma de comunicação na família e então, nestas descobertas feitas no diálogo breve, visto que estávamos em plantão psicológico, era possível mobilizar recursos internos, identificar reações e sentimentos que surgiam ao longo da história e também explorar qual seria a expectativa que estas pessoas tinham diante destas novas descobertas e diante da situação que nos relatavam. Houve muitos casos em que as pessoas não se escutavam e não sabiam escutar uns aos outros. Através da nossa conversa, puderam perceber que sua situação não passava de um mal entendido por falta de comunicação. Ao nos relatarem os casos, com nossas intervenções, muitas vezes aconteciam reflexões que levavam as pessoas a enxergar a situação sob um novo contexto não analisado anteriormente. Pudemos notar então que a presença e a escuta das estagiárias foi de grande utilidade para que muitos chegassem à novas conclusões, se reposicionando, ou pelo menos, entendendo as razões de estarem com aqueles sentimentos confusos e contraditórios que nos apresentavam em um primeiro momento.

Maria Silvia Kolzer Navarro – Psicóloga

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