Emoções e Sentimentos no Behaviorismo Radical: Um Esclarecimento Conceitual

A conceituação behaviorista radical acerca dos sentimentos foi brevemente explanada em um texto publicado nesta coluna há dois anos (Leonardi, 2007). Entretanto, aquele trabalho não apresentou a diferença que existe entre sentimentos e emoções no Behaviorismo Radical. O presente artigo tem como objetivo explicar a teorização de Skinner sobre as emoções e mostrar como elas se diferenciam dos sentimentos.

Os sentimentos são comportamentos respondentes (incondicionados ou condicionados) subprodutos de contingências operantes, isto é, são alterações nas condições corporais – como mudanças no ritmo cardíaco, na pressão sanguínea e na freqüência respiratória – eliciadas por estímulos na interação do organismo com o ambiente. Desta forma, há correlação direta entre os diversos sentimentos e as diferentes contingências em vigor e, conseqüentemente, o que um indivíduo sente se modifica quando sua interação com o mundo se transforma (Leonardi, 2007).

Com isto, é possível notar que os sentimentos são fundamentais em uma intervenção psicológica embasada na Análise do Comportamento, uma vez que fornecem informações preciosas sobre as contingências às quais o indivíduo está submetido. Skinner (1987a/1989) resume: “como as pessoas se sentem é freqüentemente tão importante quanto o que elas fazem” (p. 3).

É importante observar que a palavra “sentimento” é aqui empregada como tradução da palavra inglesa “feeling”, que, no sentido utilizado por Skinner, seria melhor traduzida por “sensação”. Em português, os termos “sentimento” e “emoção” se confundem, o que gera confusão conceitual.

As emoções são predisposições que alteram a probabilidade de o indivíduo se comportar de determinada maneira em uma dada situação devido a conseqüências específicas em comum. Elas modificam o organismo como um todo e envolvem uma grande mudança em todo o seu repertório comportamental. Dizemos que alguém tem uma emoção quando está propenso a agir de determinada forma. É fundamental apontar que essa disposição não deve ser entendida como causa de comportamentos, uma vez que ela descreve apenas uma probabilidade de ação. Nas palavras de Skinner (1953/1965):

“Definimos uma emoção (…) como um estado particular de força ou fraqueza de uma ou mais respostas induzidas por qualquer uma dentre uma classe de operações
(p. 166). (…) O homem ‘raivoso’ mostra uma probabilidade aumentada de lutar, insultar ou de algum modo infligir danos e uma probabilidade diminuída de auxiliar, favorecer, confortar ou amar” (p. 162).

Desta forma, os sentimentos (relações respondentes) fazem parte das emoções, mas não se reduzem a elas. Por conseguinte, a identificação das alterações corporais pode ser importante para a caracterização das emoções (Skinner, 1953/1965; Darwich, 2005). Skinner (1953/1965) explica que:

“As respostas reflexas que acompanham muitos desses estados de força não devem ser completamente desprezadas. Elas podem não nos ajudar a refinar nossas distinções, mas adicionam detalhes característicos ao quadro final do efeito de uma dada circunstância emocional” (p. 166).

Skinner (1953/1965) designa essa mudança completa do organismo, na qual diferentes condições corporais são eliciadas e o repertório comportamental operante tem sua probabilidade alterada, de “emoção total”. Um caso ilustrativo de uma “emoção total” é o modelo experimental da supressão condicionada.

Em um trabalho clássico, Estes & Skinner (1941) demonstraram os efeitos da supressão condicionada, um modelo animal representativo da ansiedade. Inicialmente, respostas de pressão a barra de ratos privados de alimento eram reforçadas com pelotas de comida em esquema de VI 4 min. (esse esquema de reforçamento especifica que o estímulo reforçador será liberado após a emissão da primeira resposta que ocorrer após um intervalo temporal que varia a cada reforçamento, mas cuja média é quatro minutos). Quando a taxa de respostas estava estabilizada, um tom era apresentado por um período de 3 minutos e, no momento em que este terminava, um choque inescapável era apresentado ao sujeito através do assoalho da caixa experimental. Após a sucessiva repetição do pareamento do tom com o choque, a taxa de respostas de pressão a barra durante o período de apresentação do tom diminuiu em cerca de 70% em comparação com a taxa de respostas no mesmo período antes da associação som-choque. A relação entre o tom e o choque é um procedimento de condicionamento respondente – o tom é o estímulo condicionado que contingente e sistematicamente acompanha o estímulo incondicionado choque – e a diminuição na freqüência de respostas é a modificação do repertório operante do sujeito.

O modelo da supressão condicionada é um exemplo prototípico da influência do comportamento respondente no comportamento operante e evidencia a importância de compreendermos como as contingências respondentes afetam as operantes, especialmente na prática da psicologia clínica (Blackman, 1977; Schwartz & Robbins, 1995).

O entendimento das emoções e dos sentimentos é essencial para a Psicologia, uma vez que estão envolvidos no comportamento humano complexo e são centrais para a compreensão de uma série de questões clínicas. Espera-se que o presente texto ajude a esclarecer a conceituação behaviorista radical acerca desses importantes processos comportamentais.

Referências:

Blackman, D. (1977). Conditioned suppression and the effects of classical conditioning on operant behavior. Em: W. K. Honing & J. E. R. Staddon (orgs), Handbook of Operant Behavior (pp. 340-363). New Jersey: Prentice-Hall.

Darwich, R. A. (2005). Razão e emoção: uma leitura analítico-comportamental de avanços recentes nas neurociências. Estudos de Psicologia, 10, 215-222.

Estes, W. K. & Skinner, B. F. (1941). Some quantitative properties of anxiety. Journal of Experimental Psychology, 29, 390-400.

Leonardi, J. L. (2007). Qual é a importância dos sentimentos na Análise do Comportamento? RedePsi. Acesso em 01/02/2009. Disponível em: http://www.redepsi.com.br/portal/modules/soapbox/article.php?articleID=98

Schwartz, B. & Robbins, S. J. (1995). Psychology of learning and behavior (4a ed.). New York: W. W. Norton.

Skinner, B. F. (1953/1965). Science and human behavior. New York: Free Press.

Skinner, B. F. (1987a/1989). The place of feeling in the analysis of behavior. Em: B. F. Skinner (org), Recent issues in the analysis of behavior (pp. 3-11). Columbus: Merrill.

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