A Obesidade sob uma ótica Psicanalítica

Entre as inúmeras pessoas que conheci, que procuraram acompanhamento terapêutico para redução e controle de peso, não havia uma sequer, que considerasse o ato de "comer", exclusivamente como prazer ou necessidade orgânica/ física. Quero dizer com isto, que quem sofre com este tipo de distúrbio alimentar, quase sempre, possui razões muito mais profundas que mera "gula". E infelizmente, com a mesma freqüência, é julgado injustamente.
No Brasil, 40% da população têm o diagnóstico de excesso de peso, a maior incidência está entre os adultos, e entre estes, as mulheres. As maiores causas apontadas: sedentarismo, comilança e stress, depois em menor escala: distúrbios orgânicos que levam involuntariamente ao aumento de peso. A Psicanálise não se atém ao ponto de vista estético, físico/ patológico, mas sim a representação simbólica da obesidade e os fatores psicoemocionais que levam a ela. Hoje (nem sempre foi assim) a sociedade sugere que o modelo idealizado é ser magro, e isto coloca esta população de 40% numa condição marginal aos padrões ideais.

No entanto, para a Psicanálise a obesidade só se classifica como um sintoma, a partir do momento que incomoda ao próprio sujeito, do contrário, não. “Comer somente o necessário” está na contramão da programação genética humana, quando pensamos que descendemos de uma civilização primitiva, em que a regra máxima era comer, armazenar energia, para garantir a sobrevivência até a próxima oportunidade de refeição.  É muito importante explicar que traçar o vínculo acima não deve servir para legitimar a compulsão pela comida, mas sim para reforçar que a luta contra a compulsão deve ser intensificada porque estamos enfrentando, inclusive nossa própria natureza, obsoleta para nossa realidade, já que hoje o alimento está disponível em maior escala que na pré-história dos antepassados. A grande questão para quem sofre deste tipo de compulsão, ou seja, para quem sente a necessidade “desnecessária” de comer, é perguntar-se: por que estou comendo, o que estou tentando saciar, já que a fome não é? Parece uma disposição óbvia e por isto ineficaz, e admito que para uma grande maioria, de fato é.

Mas questionar-se é o mais importante e o primeiro passo para a compreensão deste “sintoma psicológico”. Dentre as respostas sob a ótica Psicanalítica podem estar (alguns exemplos hipotéticos): – um mecanismo de defesa, criado a partir de um evento traumático, quando há a necessidade de se pôr a margem desta sociedade, a negação em fazer parte dela;- autopunição, usar o próprio corpo como forma de castigar-se inconscientemente por algo;- tentativa de saciar uma fome não orgânica, mas emocional. Comer para tentar preencher um “espaço vazio”;- comer como forma de prazer, porque outras formas são ineficazes ou inexistentes;- conflito inconsciente, arraigado a partir da infância, já que quando se é bebê ou até poucos anos de idade, ser “gordinho” é bonito e “sinal de saúde”, de repente, deixa de ser, e vêm os regimes. Isto, além de ilógico, é cruel. Um exemplo prático, dos exemplos acima é: quando se faz uma cirurgia para redução de estômago, é imprescindível o acompanhamento psicológico, não só para ajudar na elaboração (idéia de si mesmo) da nova forma física, mas para impedir que outros transtornos tenham início.

Se, comer constitui a principal fonte de prazer e ela é inibida, isto pode resultar numa inexplicável depressão. Bem, as abordagens acima, são apenas para ilustrar como os fatores  psicoemocionais podem influenciar, quando o excesso de peso é indesejado pelo sujeito. Diferentemente dos preceitos sociais, a Psicanálise não classifica padrões e nem julga modelos, ela busca fazer com que o sujeito tome contato, identifique-se e harmonize-se com seus próprios desejos, neste caso, sejam eles: “gordo ou magro”.

Lindalva Moraes
Psicanalista/ Psicoterapeuta

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