O ambiente de trabalho e efeitos psicossomáticos na saúde do indivíduo

Em um trabalho que desenvolvi sobre saúde psíquica do trabalhador, onde foram feitas algumas entrevistas com trabalhadores de diversas categorias, pude identificar algumas mudanças significativas na relação saúde –trabalho ao longo dos séculos.Entendemos que o ambiente de trabalho, devido à grande possibilidade de experiências que proporciona, é um local no qual o sujeito pode se desenvolver material, cultural e mentalmente. Assim como, pode propiciar o adoecer físico e psíquico.
Compreendemos que as empresas buscam, desde o inicio do capitalismo industrial, a produção / lucro e é possível afirmar que os métodos para se atingir estes objetivos, nem sempre estão associados ao bem-estar do trabalhador. Podemos observar este fato através do estudo de Dejours (1992) que, em seu relato, mostra que o século XIX foi caracterizado pelo crescimento da produção industrial e que as condições de trabalho oferecidas ao operário nesta época eram extremamente nocivas ao trabalhador. Porém, tais condições acabavam sendo desconsideradas pelos trabalhadores devido à necessidade de assegurarem a obtenção de recursos para sua sobrevivência. Percebemos que duas das condições mencionadas por Dejours como prejudiciais ao trabalhador no século XIX, podem ser identificadas atualmente no relato das entrevistas realizadas, sendo elas: a carga horária de trabalho elevada e o baixo valor salarial. Mas com o desenvolvimento das ciências, ocorreu uma mudança significativa na relação saúde-trabalho: as exigências sobre o trabalhador que eram físicas, passaram a ser também psíquicas. Ou seja, o controle do operário não se restringe mais apenas a seu corpo, agora também se manifesta em seu pensamento, criatividade e até mesmo em seu sofrimento.

O que, conseqüentemente, permitiu o desenvolvimento de novos fatores para o adoecimento, agora não somente físico, mas também mental.  Supomos que um dos principais fatores para o adoecimento na contemporaneidade permanece associado ao desejo humano, ou mais precisamente ao destino do desejo dos indivíduos quando se encontram no trabalho.   Segundo Santiago & Hashimoto (2006), as organizações são um lugar de aprisionamento psíquico, em que se estabelece um conflito entre Individual X Coletivo, Sujeito X Organização, Lei X Desejo”. 

À medida que aparenta oferecer aos trabalhadores, condições para satisfazerem seus  desejos, ao mesmo tempo agem como limitador dos mesmos.Podemos observar os conflitos descritos acima em diversos relatos dos entrevistados, que em vários momentos citam o fato de que a vontade da “instituição” ou dos superiores prevalece sobre os desejos dos funcionários, causando a imposição de uma postura submissa, desprovendo-os de qualquer poder sobre o ambiente e inclusive sobre si próprio. Dejours (1994), também faz menção sobre este aspecto, relata que na base da hierarquia de uma organização o trabalho não pode propiciar uma sublimação e que, se o desejo do trabalhador se manifestasse, ele entraria em conflito com o próprio trabalho sugerindo a fuga do mesmo.       

Associando um dos sentidos atribuídos ao trabalho o fato dele ser indispensável à sobrevivência dos indivíduos, se o sujeito optar por ser levado por seus desejos e deixar o trabalho, estaria ao mesmo tempo colocando em risco sua própria sobrevivência o que o leva a outro conflito, desejo X sobrevivência. Diante de tal situação, observamos que o fator sobrevivência prevalece sobre o desejo, como podemos observar em nossas entrevistas, pois ainda que o trabalho cause mal-estar ou alguma enfermidade, o sujeito permanece na sua função. O que nos remete novamente ao argumento de Dejours (1992 pag. 14) sobre o século XIX em que ele relata que “Viver para o operário é não morrer”, “antes é preciso que seja assegurada a subsistência independente da doença”.Se analisarmos esta frase com base em nossa pesquisa, diríamos que para o trabalhador, é necessário preservar a sobrevivência, independente do mal-estar vivido.  O trabalhador sofre pressão de pessoas que já trabalham há mais tempo na empresa e que com certeza tem um certo receio de se depararem com novas cabeças que possam vir a desestruturar o trabalho delas, de alguma forma.Mas, apesar da sobrevivência preponderar, o desejo não se dissipa ou desaparece. Como afirma Dejours (1994), ele é reprimido ou suprimido. 

Pressupomos que esta repressão e  suas conseqüências sejam um dos principais fatores causadores de mal-estar e adoecimento no trabalho, pois citando novamente Dejours (1994 p. 40): “O Desejo está precisamente situado entre a necessidade (no sentido fisiológico do termo) e a demanda (no sentido da demanda de amor) para que se compreenda que se atacando o desejo, se ameaça o regulador natural do equilíbrio psíquico e somático”. Podemos entender que toda relação de trabalho, segundo Dejours e pelo que identificamos na nossa pesquisa, todo e qualquer laço criado na organização, desde relações com a hierarquia, chefias, são as vezes desagradáveis e chegam a ser insuportáveis, causando um mal estar para o trabalhador.Portanto, a repressão do desejo do trabalhador pode desencadear um desequilíbrio psíquico somático no trabalhador, sendo mal-estar assim como o adoecimento, a própria manifestação desse desequilíbrio.Outro aspecto que pressupomos agravar este desequilíbrio é a posição dos entrevistados sobre as mudanças no trabalho, pois se referindo novamente a seus relatos, o mal-estar no trabalho está relacionado a três fatores: organização / estrutura do trabalho; fluxo do trabalho e relacionamentos. Mas maioria não vê possibilidades de mudanças nos aspectos causadores desse mal-estar. Assim, nos baseando em Dejours, podemos dizer que os participantes desta pesquisa apresentam um tipo de sofrimento patogênico, uma vez que eles não estão vendo possibilidades de transformação e aperfeiçoamento no modo de organizar o próprio trabalho, restando apenas um ambiente repleto de exigências e pressões rígidas, repetitivas e frustrantes, sem espaço para ele e seus desejos, gerando sentimentos de incapacidade, tensão e estresse.

Os trabalhadores entrevistados mostram que existe uma ansiedade resultante destas relações de trabalho, que são impregnadas pela própria organização.Se nos basearmos na relação entre o trabalho e o sofrimento psico-afetivo, na visão do próprio trabalhador, a maioria faz esta associação e reconhece a importância do sujeito enquanto um ser livre, ativo e participante dentro do contexto organizacional. Caso não seja esta a realidade vivida pelo trabalhador, fica evidenciada a elevada carga psíquica do sujeito em relação ao trabalho, a qual nem sempre tem uma saída apropriada, geralmente por causa de uma relação autoritária no modo de organização do trabalho, e acaba se transformando em sofrimento, com sentimentos de angústia, incapacidade, frustração, tensão, estresse e sintomas depressivos. Esta relação autoritária no modo de organização do trabalho provoca ansiedade e traz sentimentos de frustração, conforme citado acima, desencadeando efeitos na saúde do sujeito que acaba sendo uma briga constante que o sujeito enfrenta entre satisfação e ansiedade.

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