Ciberos

É com a força e a velocidade da virtualização que afeta os corpos, que testemunhamos os vários possíveis relacionamentos afetivos existentes na contemporaneidade. Certamente, essas mudanças provocadas por esse mundo virtual foram tão rápidas e desestabilizantes como nenhuma outra mudança já acontecida.
Dessa maneira, apresentaremos ao longo desse trabalho, um estudo exploratório sobre os relacionamentos afetivos virtuais sob a perspectiva da psicanálise, tentando analisar alguns pontos de vista a respeito desse tema.

Assim como a Revolução Industrial causou novas formas de organização do ser humano na sua vida em sociedade, com o surgimento da Internet não foi diferente, pois se trata claramente de uma nova Revolução. Uma alteração radical na forma de conceber o tempo, o espaço, e mesmo os relacionamentos.

A internet é uma tecnologia revolucionária que produz a todo momento alterações no tecido social, e por isso é uma área de interesse da psicologia, já que essa inovação tem como conseqüência uma nova organização psíquica e social. Sendo assim, afeta diretamente o psicológico do homem.

A primeira constatação a que se chega quando se examina o que já foi produzido sobre a Revolução da Internet é a de que a história se repete. Tal como aconteceu antes, as novas formas de organização social (em rede) e o novo espaço (virtual, porém vivido como concreto) geraram (e ainda vêm gerando) alterações não somente nos comportamentos, mas também na constituição psíquica dos homens, mulheres e crianças dos nossos dias.

Em seu famoso trabalho “O mal-estar na civilização", Freud (1.930) delatava a difícil relação do homem consigo mesmo e com o próximo. Ele apresenta como idéia principal a repressão que é imposta pela sociedade. Diante disso, estamos expostos a um policiamento, e a alienação diante das regras inibe o desenvolvimento do ser humano. E quando é liberto desse sistema repressivo, a tendência é a destruição do meio em que vive. Mas o desenvolvimento do indivíduo, bem como de sua civilização, só são possíveis com o controle das pressões impostas ao homem.

Diante dessa sociedade, sem a possibilidade de um ambiente que permita total liberdade e por encontrar-se alienado ao meio em que pertence, o ser humano não encontra formas para a liberação das energias instintivas, ou seja, a felicidade. Há somente momentos de satisfação temporária e conseqüências de impulsos sexuais, pois nada supera o cerne da felicidade, contudo a plenitude não existe.

Ante ao conflito entre o princípio do prazer – que interage na civilização de forma a aproximar os indivíduos, a favor da vida comunitária – e o princípio da realidade – age contra a civilização, a principal análise a ser considerada é a relação existente entre o amor (induz ao indivíduo a necessidade de não querer privar-se do objeto de desejo) e a dor (a desagradável sensação de não conseguir concretizar uma relação interpessoal). Enquanto o amor é visto como instinto de vida e se manifesta pelo desejo e afloração da sexualidade, a dor está no que Freud (1.930) chama de princípio de morte, ou pelas manifestações de agressividade decorrentes da insatisfação e da incapacidade de concretizar o amor. E como fuga dessa dor, percebemos que a internet, através dos sites de relacionamentos, tem contribuído, e muito, para essa manifestação do desejo e busca de satisfações temporárias.

Não há dúvida de que a Internet provocou uma grande revolução na educação, comércio e comunicação. A diversidade de imagens, fatos e pessoas atraem todos para este “mundo virtual”. A partir dessa inovação, os grupos passaram a se organizar de forma diferente, seja no trabalho, na escola ou dentro de suas famílias. Assim também acontece com os relacionamentos afetivos contemporâneos, que possuem especificidades na forma de interação uns com os outros, como e-mail, MSN, ICQ, Web cam, sites de relacionamento e Orkut. Estes são meios de comunicação novos cujo uso está se tornando essencial para o homem contemporâneo.

Hoje em dia, o MSN substituiu o ICQ, sendo um importante canal de bate papo na rede. É utilizado pelas pessoas no trabalho, no meio acadêmico e para relacionamentos afetivos em geral: namorar, paquerar, conversar com os amigos e parentes. Pode ser visto como um aspecto positivo em nossa sociedade contemporânea onde não há tempo para quase nada, sendo uma forma de se relacionar com todos, estando ao mesmo tempo fisicamente distante.

Na internet em geral e principalmente nos chats, o que vale é a escrita e a leitura, como as pessoas não estão se vendo, a única manifestação possível é o texto. Assim quanto mais adequada a capacidade de expressão escrita do indivíduo, provavelmente mais facilmente este conquistaria novas amizades e estabeleceria novos contatos afetivos.
A escrita passa então por um processo de revalorização. No entanto, o português usado nesse novo espaço não é transcrito de forma correta, ele assume uma nova configuração, tornando-se uma linguagem codificada, tais como: ñ (não), vc (você), o q?(o que?), tbém (também), ksa (casa).

Outro fator que facilita a comunicação entre os usuários na internet é que estes utilizam nicknames (apelidos), que servem para se identificarem na rede. Raramente alguém usa o próprio nome, por isso, os usuários estão protegidos pelo anonimato. Esse ciberamor trata-se de um amor restrito ao virtual e que, sempre que possível, leva a encontros físicos.

Segundo a professora na Universidade Federal do Paraná (UFPR) da disciplina "Relacionamento Amoroso: Teoria e Pesquisa", Lídia Weber, a atração física parece não ter mais tanta importância para um contato inicial. "É possível sim se apaixonar por idéias inventadas, sem dono, ou cujo dono não é o mesmo corpo que as tecla no microcomputador. Podemos inventar uma outra identidade ou utilizar frases de outras pessoas. Vivemos numa nova era, onde encontrar-se no ciberespaço, trocar idéias com pessoas do outro lado do mundo sem nunca tê-las encontrado fisicamente, fazer sexo e apaixonar-se através de um chat não é mais ficção-científica. É realidade", diz ela.

As pessoas ficam em frente ao computador – teclando e se deixando teclar, por pessoas de origem desconhecida, de procedência absolutamente aleatória e de caráter imprevisível.

É nesse sentido que Freud (1.930), no mesmo trabalho, escreve sobre a dor tendo como causa a ausência de relações ou a insatisfação dela, e trazendo ainda o prazer alternativo (por exemplo, os relacionamentos afetivos virtuais) como satisfação temporária. Segundo ele, o amor é uma das formas mais eficientes para a realização dos desejos, e a ausência de uma relação ou a insatisfação do desejo conduz à dor. Freud refere-se à dor basicamente como sentimento moral em vez de física, a qual se origina no próprio corpo e pode ser combatida pela química. Voltando à dor enquanto sensação ligada à moralidade e à busca da felicidade, Freud explica sua proveniência a partir das relações entre os indivíduos, sejam de caráter apenas afetivo ou tomadas por impulsos sexuais, e é justamente esse tipo de dor que tem a maior capacidade de ferir e atingir o ego do indivíduo. Como “remédio”, ou melhor, saída para a dor, aponta algumas alternativas: a desistência do desejo, a procura de algum prazer alternativo que possa saciar essa ausência, e ainda a fuga da realidade por meio da loucura, a criação de um universo íntimo.

Dentro dessa busca de prazer alternativo, encontramos o “novo”, e todos sabemos da grande atração que a novidade exerce sobre o homem. É grande o interesse do homem pelos novos objetos da ciência, pelas rápidas, interessantes e atraentes invenções da ciência, pelos objetos modernos que o discurso capitalista não pára de inventar. A Internet é uma delas, é útil, engenhosa e eficaz para o sujeito engajado na modernidade, para todo sujeito identificado com o mundo contemporâneo, contudo, essa eficácia depende do modo e da finalidade como cada um dela faz uso. Por um lado, temos o “prejuízo” que traz o uso do computador, que reside, justamente, na finalidade do seu uso, se assim podemos falar. Numa palavra – o prejuízo é quando o sujeito se isola e confina-se, dedicando grande parte do seu tempo à Internet, quando “personaliza” a relação amorosa virtual. Por outro lado, podemos explorar as potencialidades mais positivas deste espaço no plano econômico, político, cultural e humano.

O filósofo Pierre Lévy (1.997}em seu livro “Cibercultura”, trata do impacto social e cultural de todas as novas tecnologias, mas relata especificamente da implicações culturais do desenvolvimento do ciberespaço (novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores), esboçando ainda, o retrato da cibercultura (conjunto de técnicas, de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço). Querendo ou não, tudo isso gera implicações nas relações afetivas, sobretudo nas virtuais, pois é no ciberespaço que estabelemos vínculos com várias pessoas ao mesmo tempo e contatos de todos os tipos. E mais. Em um outro livro chamado “O que é o virtual”, Pierre Lévy (1.995) diz: “A virtualização, em geral, é uma guerra contra a fragilidade, a dor, o desgaste. […] Em seus jogos, contém e libera a energia afetiva que nos faz superar o caos”.

Eis o ciberamor, uma nova forma de se relacionar afetivamente. Não é um mundo falso nem imaginário, mas é onde compartilhamos a realidade. É uma verdade lógica que depende da linguagem e da escrita (dois instrumentos de virtualização), mas acima de tudo, uma verdade que cada um de nós testemunha em sua existência cotidiana.
A internet não é um mal em si; é um instrumento como qualquer outro. Ela apenas inverte o roteiro de conquista, colocando as palavras em primeiro lugar.

Independentemente do balanço negativo ou positivo, as pessoas vão continuar se lançando aos encontros virtuais, vão continuar se entregando sofregamente porque é inevitavelmente a lógica da satisfação temporária que predomina enquanto houver a dor.

Se, de repente, contamos com uma "porta", que se abre da nossa casa (ou da nossa estação de trabalho), na qual podemos anonimamente penetrar (sem riscos, portanto), encontrando um monte de gente interessante (ou nem tanto), por que vamos nos negar essa possibilidade?
 

Referência Bibliográfica
 
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FREUD, Sigmund. 1976 (1930). O mal-estar na civilização. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. XXI. Imago, Rio de Janeiro.

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