A família como coterapeuta na clínica psicológica

Em se falando ou tratando de crianças e adolescentes com algum tipo de transtornos mental ou comportamental, é de grande importância avaliarmos as relações estabelecidas no seio de sua família, pois a prática psicoterápica reconhece que os sintomas que levaram o cliente ao tratamento, estão imersos numa subjetividade que é construída, primordialmente, nas relações familiares.
Famílias estruturadas ou não, conflituosas ou harmoniosas; famílias cujos os membros compartilham, muitas vezes, dos mesmos sintomas, da mesma fragilidade e de uma expressiva necessidades de apoio para romper com um ciclo intermitente de comportamentos inadequados, déficits cognitivos e outros sintomas que são acompanhados de sofrimento.

A posição de destaque da família é respaldada pela teoria psicanalítica desde a defesa do discurso de Sigmund Freud sobre a importância da relação mãe-bebê no processo de estruturação psíquica, esta compreendida como condição si ne qua non na constituição do sujeito.

A identificação dessa interação permitiu um melhor entendimento nas condições que permeiam os arranjos familiares, trazendo a possibilidade de conhecer o meio primário de absorção do sujeito, e de evidenciar as diversas possibilidades de intervenções no mesmo.

Assim, a família serve de espaço para que o indivíduo re-signifique as suas experiências vividas. Crescer significa estar em um lugar que favoreça esse crescimento e que possibilite a singularização diante dos modelos e/ou exigências familiares. Quando a família vai a terapia é quando sua dinâmica está prejudicada ou quando um dos membros apresenta alguma dificuldade relacional, escolar e/ou familiar. O terapeuta deve compreender assim, as verdadeiras razões que levaram ao encaminhamento, entendendo o vocabulário, o modelo conceitual, a dinâmica e as expectativas da fonte de encaminhamento. O terapeuta precisa compreender os ditos que são claramente trazidos na demanda como também os não ditos, que muitas vezes, trazem informações privilegiadas sobre a psicodinâmica do cliente.

A integração deste encaminhamento com serviços psiquiátricos, medicina geral, contexto legal ou educacional, clínicas psicológicas, devem ser feito com um objetivo comum, ou seja, proporcionar o desenvolvimento da personalidade, a participação ativa na vida social, assim como uma melhor integração entre os membros da família, levando a criança e o adolescente a alcançarem maior autonomia.

Desta forma, auxiliar os familiares requer conhecimento adequado que permita aliviar a ansiedade, diminuir as dúvidas, sentimentos de culpa e de vergonha, reduzindo a vulnerabilidade emocional, as tensões sofridas e aumentando a capacidade de tolerância entre seus membros. Assim como o cliente que busca o atendimento, a família deve ser acolhida, integrada ao tratamento e pode até funcionar como uma co-participação, uma vez que deve ser informada sobre as perspectivas do tratamento, os possíveis ganhos e progressos e como pode contribuir, efetivamente, para consolidá-los como uma verdadeira re-significação dos conflitos, sintomas e modos de se relacionar.

Uma família facilitadora do crescimento emocional e promotora de saúde não é aquela com ausência de conflitos. Segundo Féres-Carneiro (1996), o potencial de saúde centra-se na possibilidade que o sistema familiar tem de encontrar alternativas para a solução dos seus problemas e de conseguir conter seus efeitos destrutivos. Bons níveis de saúde familiar, muitas vezes, encontram-se associados a núcleos que favorecem tanto a expressão de agressividade, de raiva e hostilidade, quanto de carinho, ternura e afeto.

Daí a necessidade da escuta clínica destas formações familiares, pois, se a família está em crise, é necessário intermediar suas mudanças para que seja possível o resgate clínico da estrutura familiar. Os transtornos mentais e comportamentais são condições clinicamente significativas caracterizadas por alterações do modo de pensar e do humor (emoções) ou por comportamentos associados com angústia pessoal e/ou deterioração do funcionamento. Esses transtornos exercem considerável impacto sobre os indivíduos, as famílias e as comunidades. As crianças e os adolescentes não só apresentam sintomas inquietadores de seu distúrbio como sofrem também por estarem incapacitados de participar em atividades escolares e sociais, muitas vezes em virtude de discriminação.

O objetivo principal é ajudar pessoas a lidar mais adequadamente com os problemas decorrentes das deficiências e no aconselhamento alguns pontos são importantes: ouvir as dúvidas e questionamentos, utilizar termos mais fáceis e que facilitem a compreensão, promover maior aceitação do problema, aconselhar a família inteira, trabalhar os sentimentos e atitudes, e facilitar a interação social do portador de necessidades especiais.

[1] Psicóloga Clínica, Mestre em Psicologia Social na Área de Altas Habilidades, Neuropsicóloga e Especialista as Saúde Mental e Desenvolvimento Infanto-Juvenil – CESANTA / RJ.

Para saber mais:

FÉRES-CARNEIRO, T. (1996). Família: Diagnóstico e terapia. Petrópolis, RJ: Vozes.

WAGNER, A. Configuração familiar e o bem-estar psicológico dos adolescentes. Revista Psicologia Reflexão e Crítica. v. 10. n. 1. Porto Alegre. 1997.

WAGNER, BM e COHEM, P – Adolescent sibling differences im suicidal semptoms: The role of parent-childe relationships. Journal of Abnormal Childe Psechologe; 1994, Vol. 22(3) 321-337.

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