A Perda

A morte de um ente querido é um acontecimento que nos afeta de maneira intensa; nossa vida deixa de ter sentido e nossas referências se perdem. Sentimos dor, e esta parece não ter fim; não conseguimos entender nossos sentimentos: hora estamos com raiva porque a pessoa se foi, hora ficamos intensamente tristes. Vivemos muitos momentos de solidão; em outros, queremos ter muitas pessoas ao nosso lado, para preencher uma lacuna que parece não ter fim. 
“Como lamentamos e como, ou se, nossa lamentação vai terminar depende do modo como sentimos nossa perda, depende na nossa idade e da idade de quem perdemos, depende de o quanto estamos preparados para isso, depende de como a pessoa sucumbiu à mortalidade, depende das nossas forças interiores e do apoio externo e, sem dúvida, depende da nossa história – nossa história do lado da pessoa que morreu e nossa história individual de amor e de perda”. (Viorst, 1988, p. 244).

As formas de expressar a dor são individuais e estão relacionadas a vários fatores; quanto mais ligados estamos a alguém, mais difícil será o desligamento. Não sabemos o quanto estamos preparados até que ocorra a perda, e quando ela ocorre temos a impressão de que isto é doloroso demais e que não vamos sobreviver.

Bowlby (1973/1993) enumera quatro fases no processo de luto, entretanto não afirma que todos nós necessariamente passamos por elas ou que não há oscilações; apenas enfatiza que estas são apenas reações esperadas. São elas:

A fase de entorpecimento, que geralmente dura de algumas horas a uma semana e pode ser interrompida por explosões de aflição e/ou raiva extremamente intensas. Esta fase se segue à noticia da morte; é a sensação de que isto não é verdade, de que a notícia não é real. Nossa mente entende, mas nosso coração não quer aceitar tal fato.

A fase do anseio e busca da figura perdida, que dura alguns meses e por vezes anos. Nesta fase procuramos aquele que perdemos, esperamos por sua aparição, que surja na porta de entrada ou que esteja em seu quarto como de hábito. Esta procura pode se dar sem que tenhamos consciência dela; quando nos percebemos, já estamos à procura do ente querido. Isto pode também ocorrer de forma consciente, ou seja, procuramos deliberadamente a pessoa perdida.

A fase de desorganização e desespero. Nesta fase a pessoa já começa a perceber a realidade da perda; conseqüentemente, se desorganiza em seus sentimentos, sente raiva pela pessoa que partiu, pois considera que foi abandonada, sente-se deprimida por se dar conta de que não há o que fazer. Estes sentimentos se alternam com movimentos de avaliação da nova situação e a redefinição do papel atual.

Por fim, a fase de maior ou menor grau de desorganização. Geralmente após um ano da morte, a pessoa enlutada consegue dar continuidade à sua vida, apesar da saudade; ela ainda se sente triste, mas está mais bem organizada para realizar suas tarefas.

Cada indivíduo vivencia estas fases a seu modo e, depois da dor, volta a investir na sua vida e nas pessoas que continuam a seu lado. Viver o processo do luto não tem como objetivo esquecer aquele que nos foi importante; o objetivo é o de viver, apesar da perda. Continuaremos sentindo a falta daquele que partiu em datas importantes e desejaremos estar ao seu lado, mas agora sabemos que podemos retomar a trajetória da nossa vida.

Muitas pessoas não conseguem reinvestir em suas vidas, pois continuam acreditando que podem voltar a conviver com a pessoa perdida; assim, vivem uma depressão e, conseqüentemente, um luto crônico. Parkes (1970 apud Bowlby, 1969/1993) afirma que os fatores de risco que podem ter como conseqüência um agravamento do processo de luto e até mesmo torná-lo crônico são divididos em quatro categorias: os fatores predisponentes no enlutado; os fatores de relação com o morto; o tipo de mote; e os suportes sociais.

Os fatores predisponentes no enlutado que podem agravar o luto são: sofrer a perda de uma pessoa jovem (em especial crianças); ter baixa auto-estima; ter dificuldade nos relacionamentos, especialmente com os pais; e ter tido muitas perdas anteriores.

Relações com o morto que também podem agravar o processo de luto são: ser o cônjuge (particularmente a viúva); ser um dos pais, principalmente no caso de filho pequeno; ser um dos pais de adolescentes; ser enlutado dependente financeira e/ou emocionalmente do morto; ser filho pequeno, especialmente até 5 anos de idade.

Outro agravante importante do processo de luto é o tipo de morte: inesperada e prematura; após doença muito longa; suicídio; e assassinato. Igualmente importante é o fato de o enlutado ter desconhecido o diagnóstico e/ou prognóstico da doença que acometeu o morto; e o enlutado que se encontrava fisicamente distante por ocasião da morte.

Os suportes sociais, por sua vez, são fatores predisponentes para um luto mais ou menos complicado: o indivíduo enlutado sem filhos ou familiares próximos poderá ter seu processo de luto agravado.

Parkes (1970 apud Bowlby, 1973/1993) verificou em seus estudos que as pessoas que passam pelo luto crônico mostram pouca ou nenhuma reação durante a semana que se segue à perda, ou apresentam perturbação aguda na forma de um ou mais sintomas, tais como anseio excepcionalmente intenso e continuado, desespero expresso no desejo de morte, raiva e amargura persistentes, culpa e auto-acusação acentuadas. Muitos desses indivíduos, durante o curso do primeiro ano da morte, também se mostram deprimidos e desorganizados. O sofrimento da perda se torna crônico quando não conseguimos nos libertar dele. Muitos têm medo de esquecer a pessoa perdida; é como se estivessem traindo o ente querido, e assim permanecem sofrendo por meses ou mesmo anos.

Nos casos em que a pessoa vive um luto crônico, é necessária uma ajuda especializada. A terapia é a melhor indicação para este caso. No processo terapêutico, a pessoa terá a oportunidade de expressar a saudade, a raiva e o medo, o horror ante a perspectiva da solidão, o choro impotente. São sentimentos que a sua rede de apoio (familiares e amigos) tem dificuldades de compreender porque também lhes causa dor. Além disso, terá o ambiente propício para validar seus sentimentos sem julgamentos, o que o ajudará a transpor esse período de luto, até dele emergir. Mascarar ou fugir do luto causa ansiedade, confusão e depressão. Se, em contrapartida, a pessoa enlutada receber pouco ou nenhum reconhecimento social por sua dor, poderá temer que seus pensamentos e sentimentos sejam anormais, que não há motivo para se sentir assim, o que causará ainda mais sofrimento. A terapia auxiliará o enlutado a aceitar a realidade da morte, a vivenciar o pesar, a ajustar-se ao meio no qual o falecido não mais se encontra e a reinvestir sua energia em novas relações. Assim como o luto é um processo, a terapia para o luto crônico também o é; assim, ela se desenvolve de acordo com o tempo do paciente, entendendo a sua dor e seus medos. A terapia se propõe a ajudar e não a impor uma forma correta de viver o luto, mesmo porque esta forma não existe; o que existe é um ser humano que expressa sua perda e esta expressão é única, peculiar a cada um de nós.

Referências Bibliográficas

BOWLBY, J. (1969/1993). Apego. São Paulo, Ed. Martins Fontes.

________. (1973/1993). Perda: Tristeza e Depressão. São Paulo, Ed. Martins Fontes.

PARKES, C. M. (1970). Variantes em Distúrbios. Em: BOWLBY, J. (1973/1993). Perda: Tristeza e Depressão, cap. 9. São Paulo, Ed. Martins Fontes, pp.165-166.

VIORST, J. (1988). Perdas Necessárias. São Paulo, Ed. Melhoramentos.

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