Clube da Luta – A necessidade de sentir

Análise do filme Clube da Luta sob um ponto de vista psicossomático

Ao assistir Clube da Luta fiquei fascinado com as inúmeras idéias e questionamentos que o filme oferece. A primeira e, acredito, questão fundamental é a crítica social. A rotina maçante, a falta de sentido e de sentimentos que caracterizam a sociedade consumista foram os aspectos que guiaram o desenrolar da trama e que corroboram para tantos absurdos que presenciamos hoje em dia.

A insônia do personagem principal, Jack[1] (Edward Norton), refletia sua angústia existencial e fez com que um médico lhe indicasse a visita de grupos de apoio que conviviam, segundo ele, com sofrimentos muito maiores. Jack, então, passou a freqüentar grupos que compartilhavam dos mais variados problemas: quanto mais terminal a doença melhor – tornou-se dependente. No final das sessões ocorriam trocas de abraços calorosas e os participantes podiam chorar sem constrangimento.

Em tais encontros Jack podia se conectar com sua tristeza e com as outras pessoas sem julgamentos. Este contato com o a dor o fazia sentir-se melhor e mais. A necessidade de ele, um trabalhador “médio”, vivenciar alguma humanidade o transformou num “freqüentador impostor”, já que não possuía nenhuma das doenças.

Mas ainda havia a outra sensação que não tinha sido desvelada: a raiva. E a agressividade reprimida surgiu de uma maneira mais doentia. Jack construiu uma dupla personalidade; um eu que ele desconhecia, um alter ego, que de tão sufocado, surgiu à sua realidade. Pode-se dizer que ele tinha três tempos: o da sua rotina normal, como Jack; os momentos em que se relacionava com seu lado B, Tyler Durden (Brad Pitt); e o terceiro, desconectado da sua consciência, em que encarnava totalmente Tyler. Ele dormia, sem saber, 3 horas ao dia – a insônia continuava. Tyler trouxe à tona o lado animal, revoltado, sexual, poderoso, agressivo e conquistou totalmente Jack.

Tyler criou o Clube da Luta, um clube underground no qual homens se encontram para brigar: bater e apanhar. Os princípios de Tyler primavam por uma lealdade entre os membros. Lá, apanhar também era honroso e todos eram respeitados da sua maneira.

Tyler algariou adeptos, muitos adeptos, cidadãos de todos os nichos e de diferentes cidades, homens que no fundo precisavam sentir algo. Os Clubes da Luta se espalharam sorrateira e rapidamente pelo país. A possibilidade de esses homens sentirem-se mais vivos fez com que cultuassem Tyler/Jack como um Deus.

Este filme causou um forte impacto social, sendo acusado de incitar o surgimento de tais clubes nos Estados Unidos, apesar de o criador da obra afirmar que o fenômeno já existia antes do lançamento do filme. É mais um retrato da nossa cultura e, principalmente, do nosso contato; ou a falta de.

É interessante perceber as formas como as pessoas em geral dão vazão aos sentimentos. Não é fácil se abrir, se expor, se aceitar. Tristeza e raiva – sentimentos que todos temos, mas de tão condenados e reprimidos socialmente (“não chora; te comporta, fica quieta”) acabam vindo à tona na forma de explosão, descontrole ou um colapso dos mais variados: depressão, pânico, fobias, etc. Negá-los não ajudará. É fundamental acessá-los e aceitá-los. Se isso não ocorrer, haverá bloqueios também no amor, na alegria e em tantas outras emoções que nos movem (perdão pela redundância).

Mas, como fazer isso? Um dos instrumentos que acredito que seja bastante benéfico para lidar com as emoções é a Bioenergética. A Bioenergética é uma terapia que, através de exercícios corporais, facilita o contato e vazão de emoções reprimidas. Tais exercícios atuam nas couraças musculares (tensões crônicas e inconscientes que bloqueiam os sentimentos e a auto-expressão), proporcionando o contato com emoções que ficaram “presas” no nosso corpo ao longo da vida. A idéia de que o oposto da depressão é a expressão define bem a Bioenergética, fundada por Alexander Lowen. Lowen coloca que: “Quando os sentimentos são reprimidos a pessoa perde a capacidade de sentir, que é a depressão, um estado que infelizmente pode se tornar um modo de vida. (…) reprimir um sentimento é reprimir todos os outros”.

Por que concentrar tanto no corpo e emoções? Porque estamos distantes da nossa essência. O racional, o intelectual, a mente tende a encontrar alguma explicação, alguma justificativa para nossos atos. E, de fato, podemos criar inúmeras. Entretanto, nosso corpo (olhar, postura, pele, rosto, etc) não mente. Ao fazer um exercício de Bioenergética, por vezes, entramos em contato com sentimentos que nem imaginaríamos que estavam ali guardados e que, de alguma forma, dificultam-nos a tomar os passos que realmente gostaríamos. Com o suporte do terapeuta, tornamo-nos mais conscientes e menos “Jacks”, como o personagem do filme. A percepção e o desbloqueio desses sentimentos reprimidos permitem-nos um movimento mais vibrante e fluido na vida.
 

Referência:
 
Lowen, Alexander. Alegria: a entrega ao corpo e à vida. São Paulo: Summus. 1997.
 
Autor: Roberto Goulart Chiodelli
Psicólogo, com formação em terapia Bioenergética

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