“Pode alguém comer seu próprio bolo e continuar a possuí-lo?”Reflexões sobre a agressividade da infância a partir do olhar de Winnicott

“Pode alguém comer seu próprio bolo e continuar a possuí-lo?”1Reflexões sobre a agressividade da infância a partir do olhar de Winnicott[i] Maria Vitória Mamede Maia[ii] Winnicott (1996) instiga a nossa reflexão sobre a agressividade ao nos perguntar em seu artigo “Agressão, culpa e reparação”: “Pode alguém comer seu próprio bolo e continuar a possuí-lo?” (p.70). Tentando responder a esta questão, se é que isso é possível, começo a pensar sobre a agressividade a partir da definição de Laplanche, já que nesta definição se encontram os elementos que nortearão nossa reflexão sobre agressão na teoria de Winnicott e sua importância para o estudo da agressividade da infância. Diz Lapanche (1983) que agressividade seria“a tendência ou conjunto de tendências que se atualizam em comportamentos reais ou fantasmáticos, estes visando prejudicar outrem, destruí-lo, constrangê-lo, humilhá-lo. A agressão conhece outras modalidades além da ação motora violenta e destruidora. Opera desde cedo no desenvolvimento do Indivíduo e possui um mecanismo complexo da sua fusão e da sua difusão com a sexualidade. Na agressividade haveria um substrato pulsional único e fundamental na noção de pulsão de morte (…) O que define o comportamento agressivo seria o conceito de fusão-desfusão, sendo a desfusão o triunfo da pulsão de destruição na medida em que esta visa os conjuntos que Eros tende a criar e manter. A Agressividade seria exatamente uma força radicalmente desorganizadora e fragmentante.” (p.37/38)
A primeira idéia que deve ser aqui ressaltada é que, antes de Laplanche enfatizar que há outras formas de expressão da agressividade que não seja o ato agressivo que visa infligir dor ou medo, é exatamente esta a vertente da agressividade que abre o seu verbete: “a tendência ou conjunto de tendências que se atualizam em comportamentos reais ou fantasmáticos, estes visando prejudicar outrem, destruí-lo, constrangê-lo, humilhá-lo.” (p.37) Deste fato podemos perceber a dificuldade que é se ver a agressividade por um outro olhar que não seja o associado à violência ou à patologia do excesso. Tanto Freud quanto Winnicott colocam esta dificuldade de lidar com esta face mais comum ou atuada da agressão. Mas Winnicott, discordando de Freud quanto à questão da pulsão de morte irá defender o lado criativo da agressividade, o prisma do encontro com o meio, que no caso, seria a mãe. Desta forma, para Winnicott, há o ato agressivo, mas também há o ato agressivo criativo que foge em muito da destruição estudada por Freud. Vale a pena aqui se colocar as citações para que possamos compreender de que parte da definição está-se discutindo agora nesta introdução e de que outras visões poderemos mais tarde desenvolver quanto a esta questão.

Em O mal estar na civilização (1930) Freud coloca que “que outros tenham demonstrado, e ainda demonstram a mesma atitude de rejeição, surpreende-me menos, porque “ as criancinhas não gostam ” quando se fala na inata inclinação humana para a “ruindade”, a agressividade e a destrutividade, e também para a crueldade.” (p.124) Antes, neste mesmo artigo, Freud (1930), mais uma vez utilizando-se do recurso da ironia estilística, reafirma a dificuldade de se estudar este tema sem levantar objeções sobre ele:

“Por que necessitamos de tempo tão longo para nos decidirmos a reconhecer um instinto agressivo? Por que hesitamos em utilizarmos, em benefício de nossa teoria, de fatos que eram óbvios e familiares a todos? Teríamos encontrado provavelmente pouca resistência, se quiséssemos atribuir a animais um instinto com uma tal finalidade. Todavia parece sacrílego incluí-lo na constituição humana; contradiz muitíssimas suposições religiosas e convenções sociais (…) Infelizmente, o que a História nos conta e o que nós mesmos temos experimentado, não fala nesse sentido, mas antes, justifica a conclusão de que a crença na “bondade” da natureza humana é uma dessas perniciosas ilusões com as quais a humanidade espera seja sua vida embelezada e facilitada, enquanto, na realidade, só causam prejuízos.” (p.106) Em Privação e delinqüência (1987), Winnicott nos diz de igual forma que “De todas as tendências humanas, a agressividade em especial, é escondida, disfarçada, desviada, atribuída a agentes externos e quando se manifesta é sempre tarefa difícil identificar suas origens” (p.89).Acreditamos que essas idéias continuam atuais no que diz respeito ao tema agressividade. Poucas pessoas admitem serem cruéis em atos e em pensamentos. Aqui temos todo um trabalho de civilização que nos “educa” a tolhermos e ocultarmos essa vertente de nossa fisiologia e, para Freud (1930), é este o preço alto que pagamos em nome da civilização, até porque não há como eximar a agressividade do ser humano. Quando ela não parece de uma forma explicita, ela aparece de forma implícita e se volta para o próprio homem que a negou. “A agressividade pode não conseguir encontrar satisfação no mundo externo, porque se defronta com obstáculos reais. Se isto acontece, talvez ela se retraia e aumente a quantidade de auto-destrutividade reinante no interior. A agressividade tolhida parece implicar um grave dano.

Realmente parece necessário que destruamos algumas coisas ou pessoa, a fim de não nos destruirmos a nós mesmos, a fim de nos protegermos contra o impulso da autodestruição”.(p.108) Com uma ironia que lhe é peculiar, em O mal-estar na civilização, Freud (1930) coloca que “é sempre possível unir um considerável número de pessoas no amor, enquanto sobrarem outras pessoas para receberem as manifestações de sua agressividade”. (p.119)Este perfil egoísta do ser humano que aparece na agressividade é retomado por Ridley (2000) em seu livro As origens da virtude: um estudo biológico da solidariedade. Ridley (2000) coloca o quanto os homens são virtuosos na razão direta em que ganhem algo para si: “a cooperação e o progresso inerentes à sociedade humana resultam não da bondade, mas da busca do interesse próprio. A ambição egoísta leva à indústria; o ressentimento desestimula a agressão; a vaidade pode ser a causa de gestos de bondade.” (p.55)Retornando a Freud (1933), em outro artigo, mais especificamente uma resposta a Einstein, Por que a guerra?, este nos adverte que “é pois um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência. É isto que se passa em todo o reino animal, do qual o homem não tem motivo por que se excluir.” (p.198).

Tanto para Freud (1930), assim como para Ridley (2000), é a sociedade que gera, mas que também restringe, a expressão da agressividade individual, mesmo que jamais a extinga. Para Freud, o superego seria a instância que conformaria o homem a se submeter a lei social por esta ter-se tornado uma lei internalizada através dos mecanismos de identificação e introjeção. Para Ridley (2000) os seres humanos restringem a violência e a agressão da mesma forma que os demais animais, pela “lei social.” Várias partes de seu livro As origens da virtude: um estudo biológico da solidariedade colocam esta idéia, de que a agressividade é inata, mas que a sociedade pode educar os homens a não expressá-la de forma tão destrutiva, já que ela, a sociedade, não é invenção de pensadores e sim uma evolução como parte de nossa natureza:“Os seres humanos são bons uns com os outros apenas devido a uma inerente xenofobia aprendida durante milênios de mortal violência entre grupos (…) Diferentemente, bandos de estorninhos não guardam qualquer ressentimento contra outros bandos. É uma regra da evolução, à qual estamos longe de ser imunes, que quanto mais cooperativas são as sociedades, mais violentas são as guerras entre ela. Talvez estejamos entre as criaturas mais sociais do planeta, mas somos também as mais beligerantes. Este é o lado sombrio do grupismo dos seres humanos”.(p. 219) “Os seres humanos têm alguns instintos que fomentam o bem comum e outros que favorecem o comportamento egoísta e anti-social,. Precisamos planejar uma sociedade que estimule aqueles e desencoraje estes.” (p.293)

Freud (1930) reflete sobre esta ambigüidade de instintos no ser humano ao nos colocar que há em nós dois impulsos, o de vida ou Eros, e o de morte, Tanatos e que um não aparece no ser humano sem que o outro também apareça, porém a destrutividade, conseqüência direta da pulsão de morte, vista com força disjuntiva, atuaria de forma silenciosa. Também as distingue quanto ser Eros uma força que congrega a humanidade em algo único, tentando conjugar e configurar o ser humano em seus comportamentos e sentimentos; já a pulsão de morte seria a força disjuntiva e por assim ser criativa da vida psíquica por não permitir a homogeneização da vida humana.

“São estes (os instintos agressivos) acima de tudo, que tornam difícil a vida do homem em comunidade e ameaçam sua sobrevivência. A restrição à agressividade do indivíduo é o primeiro e talvez o mais severo sacrifício que dele exige a sociedade. A instituição do superego, que toma conta dos impulsos agressivos perigosos introduz um destacamento armado, por assim dizer, nas regiões inclinadas à rebelião. Mas por outro lado (…) devemos reconhecer que o ego não se sente feliz ao ser assim sacrificado às necessidades da sociedade, ao ter que se submeter às tendências destrutivas da agressividade, que ele teria satisfação de empregar contra os outros. É como um prolongamento, na esfera mental do dilema “comer ou ser comido “que domina o mundo orgânico animado. Felizmente os instintos agressivos nunca estão sozinhos, mas sempre amalgamados aos eróticos.” (p.112) Ridley (2000), muitos anos depois, reafirma Freud ao colocar: “Tanto temos instintos sinistros como instintos luminosos. A tendência das sociedades humanas a se fragmentar em grupos rivais fez-nos exageradamente propícios aos preconceitos e as disputas genocidas”.(p.282)A segunda idéia contida na definição de Laplanche (1981), que introduz outro aspecto de análise do tema agressividade, diz respeito à prematuridade da agressividade na vida instintual humana e as outras formas de ela se expressar no mundo interno e externo:“A agressão conhece outras modalidades além da ação motora violenta e destruidora. Opera desde cedo no desenvolvimento do Indivíduo e possui um mecanismo complexo da sua fusão e da sua difusão com a sexualidade”.(p.38)

Winnicott (1987), ao estudar as raízes da agressividade, irá trabalhar este viés de forma interessante, por estudar e observar bebês e não o adulto. Para mostrar o quanto este comportamento agressivo faz parte da vida humana e é algo que deve ser encarado a princípio como normal, ele coloca que “até a criança mais novinha consegue exaurir os pais. No começo, ela os esgota sem saber, depois, espera que eles gostem que ela os esgote, finalmente, esgota-os de cansaço, quando está furiosa com eles”.(p.91)

Ainda mais à frente, no mesmo artigo sobre as raízes da agressividade, Winnicott (1987) focaliza que é importante para a criança se encolerizar sem sentir culpa por isso, ou sentir remorso. Para ele, a agressividade primária, aquela que advém “com parte do apetite ou de alguma outra forma de amor instintivo” é vital para que haja a fusão do Self desta criança. A agressividade primária estaria amalgamando afetividade e agressividade, fundindo e desfundindo a sexualidade que ela vivencia pela boca, a partir do ato de mamar. O bebê precisa poder odiar ou retaliar sem medo, para poder mais tarde reparar o dano que acha ter cometido. Assim para Winnicott (1987) a agressão, no início, é um simples impulso que leva a um movimento e aos primeiros passos de uma exploração no bebê. A agressão está sempre ligada ao estabelecimento de uma distinção entre o que é e o que não é o eu e deve passar da sua manifestação primitiva ou mágica para ser percebida objetivamente. Para que essa passagem ocorra, segundo a teoria de Winnicott, deve a mãe ser suficientemente boa para suportar as crises de agressividade do bebê e conseguir ser instrumento de frustração a ele, para que ele consiga lidar com sua agressividade.

O bebê cria sua mãe e acredita que a recria, tendo uma mãe suficientemente boa, cada vez que pensa que a destruiu. É esta constância de reaparecimento da mãe para o bebê que dará à agressividade um cunho de criação e positividade e não de patologia ou pura destruição. Vê-se aqui a importância do lar ou da mãe como suporte a essa passagem do mágico para a percepção da realidade objetiva da agressão:

“Ao acompanhar a criança, com sensibilidade, através dessa fase vital do início do desenvolvimento, a mãe estará dando tempo ao filho para adquirir todas as formas de lidar com o choque de reconhecer a existência de um mundo situado fora do seu controle mágico. Dando-se tempo para os processos de maturação, a criança se tornará capaz de ser destrutiva e de odiar, agredir e gritar, em vez de aniquilar magicamente o mundo. Dessa maneira a agressão concreta é uma realização positiva. Em comparação com a destruição mágica, as idéias e o comportamento agressivos adquirem valor positivo e o ódio converte-se num sinal de civilização, quando se tem em mente todo o processo do desenvolvimento emocional do indivíduo, especialmente em suas primeiras fases”.(Winnicott, 1987, p.102) Em outro artigo, Aspectos da delinqüência juvenil, Winnicott (1982) é ainda mais enfático quanto à importância do lar na constituição do sujeito:“Uma criança normal, se tem confiança no pai e na mãe, provoca constantes sobressaltos. No decorrer do tempo, procura exercer o seu poder desunião, de destruição, tenta amedrontar, cansar, desperdiçar, seduzir e apropriar-se das coisas. Tudo o que leva as pessoas aos tribunais (ou aos hospícios, tanto importa para o caso) tem o seu equivalente normal na infância, na relação entre a criança e o seu próprio lar. Se o lar pode suportar com êxito tudo o que a criança fizer para desuni-lo, ela acaba por acalmar-se através de brincadeiras”.(p.256/257) Interessante relacionar esta idéia de Winnicott com a de Ridley (2000) que, observando animais e seres humanos adultos vistos em sociedade e não bebês, percebe ser a família a parte social do homem que ficaria de fora do egoísmo do mesmo, porque na família não se precisaria reconhecer ou retribuir ao outro as atitudes vistas como generosas, está implícito que a família suporta o indivíduo e ele a defenderá em detrimento do grupo maior: “O único grupo de animais que tem precedência sobre o indivíduo é a família” (p.201) ou “Na natureza, todo ajuntamento que não seja a família é manada egoísta”.

Aplicando esta observação aos seres humanos a partir de programas de computador ou de jogos como o dilema do prisioneiro ou olho-por-olho, Ridley (2000) continua a demonstrar que a consciência da dívida social somente ocorre entre os indivíduos não aparentados porque para aqueles aparentados não haveria a necessidade de reconhecimento desta dívida:“Diz uma teoria, olho-por-olho é um mecanismo para obrigar os indivíduos não aparentados a cooperar. Os filhotes confiam na caridade da mãe e não precisam conquistá-la com atos de bondade. Irmãos e irmãs não sentem a necessidade de retribuir cada ato generoso. Mas indivíduos sem vínculo de parentesco têm aguda consciência das dívidas sociais”.(p.76) Desta forma Winnicott se reatualiza ao lermos este estudo de Ridley (2000) ao colocar, muito tempo antes, que a família deve ser capaz de suportar o indivíduo e sua agressividade e talvez por isso seja a família o lugar de referência e suporte ao adolescente que transgride o código social e também seja a referência ao bebê que aprende a lidar com sua agressividade. Como reflete Sonia Abadi (1998) sobre a importância do ambiente para os destinos da agressividade:“A agressão é inata, junto com o amor. No entanto a atitude da criança para com estes impulsos básicos marcará o destino da agressividade e a capacidade de amar de cada um. (…) É a oportunidade de reparar oferecida pelos pais que faz possível para a criança a confiança em sua atitude amorosa, favorecendo a aquisição da capacidade de preocupar-se com o outro, enquanto se faz responsável pelos próprios impulsos destrutivos. Aí aparece o interesse pelo autocontrole como maneira de preservar o que se ama”.(p.59)

Para Winnicott (2000), a agressividade pode tomar vários caminhos, e estes caminhos estarão em estreita relação com a resposta ambiental: o desenvolvimento normal da capacidade de inquietude e duas alternativas patológicas que seriam a não-capacidade para a inquietude e a questão da formação do falso-self, ligado à questão da tendência anti-social.

No seu artigo “A agressividade em relação ao desenvolvimento emocional” Winnicott (2000) focaliza a agressividade como motilidade em um primeiro momento e postula que é a resistência do meio que dá ao bebê a dimensão do normal de sua agressividade ou não. “Na saúde, os impulsos do feto levam à descoberta de que existe um ambiente, sendo este último a oposição encontrada pelo movimento e sentida durante o movimento, A conseqüência aqui é um reconhecimento precoce de um mundo Não-eu, e uma instauração precoce do Eu.”(p.303)Para Winnicott (2000) haveria três maneiras de lidar com essa motilidade ou expressão de agressividade primária com relação ao ambiente: em uma haveria a saúde acima descrita, nas outras duas haveria a doença devido a intrusão do ambiente se impondo ao feto, não havendo a sólida constituição do Eu, segundo suas palavras neste mesmo artigo. Ou seja,“num dos padrões o ambiente é constantemente descoberto e redescoberto a partir da motilidade (…), sendo uma experiência do indivíduo; num segundo padrão, o ambiente impõe-se ao feto (ou bebê), e em vez de uma série de experiências individuais, temos uma série de reações à intrusão; num terceiro padrão, extremo, este último fenômeno é exagerado a um tal grau que já não resta nem mesmo um lugar para a tranqüilidade que permite a existência individual (…) – o indivíduo desenvolve-se mais como uma extensão da casca que como uma extensão do núcleo, ou seja, como uma extensão do ambiente invasor.” (p.297) Logo é “ o somatório das experiências motoras (que) contribui para a capacidade do indivíduo de começar a existir, através da identificação primária, rejeitar a casaca e tornar-se o núcleo.”(p.300) Quanto à normalidade do caminho da agressividade teríamos a questão da criatividade e da capacidade de inquietude, ou a capacidade de se preocupar com o outro.

Diz Winnicott (1998) “Não é o reconhecimento da própria destrutividade que produz a possibilidade de reparação, mas são as experiências construtivas e criativas que permitem reconhecer a própria destrutividade.” (p.98) Serão os diferentes modelos de família e de cultura que originarão a normalidade da agressividade transmudada no aspecto da responsabilidade, que segundo Abadi (1998) seria a palavra que sinonimamente representaria a capacidade de inquietação. Assim seria a aceitação e o suportar da agressividade do bebê que geraria um ser integrado e não a não capacidade de aceitar a agressão como parte constituinte deste bebê. Winnicott (1986) chama de criação sentimentalista esta que nega ao bebê o direito de agredir e nega a agressividade infantil porque o próprio adulto não seria capaz de reconhecer em si mesmo a agressividade. Segundo Sonia Abadi (1998) “essas atitudes “sentimentais” geram culpa na criança e a impedem de aceitar a agressão e a sua utilização construtiva”(p.101), não encontrando, assim, espaço para expressar e reconhecer a agressividade que ela possui e elaborá-la de forma construtiva ou reparatória. “Em seu lugar, pode mostra condutas destrutivas como uma provocação ao meio que parece negar e desconhecer a agressividade.”(p.101)Seria através da sublimação da agressividade através do espaço lúdico, o espaço do brincar, que o bebê poderia lidar com a agressividade e conseguir uma integração de seu Self a partir de uma tarefa criativa e do controle que seu ego passa a exercer sobre os impulsos agressivos. Conforme coloca Winnicott (1982) “finalmente, toda a agressão não negada e pela qual é possível aceitar responsabilidade pessoal pode ser utilizada para fortalecer as tentativas de reparação e restituição. No fundo de todo jogo, de todo trabalho e de toda arte existe um remorso inconsciente pelo dano realizado na fantasia inconsciente e um desejo inconsciente de começar a consertar as coisas.” (In Abadi, 1998, p.64) Assim, seria na área do brincar que haveria a possibilidade de se demonstrar sem dano a destrutividade inerente ao ser humano. Como coloca Winnicott, o bebê pode destruir a torre montada com os blocos de armar e, por um segundo, mostrar-nos a satisfação que isso traz a ele, somente porque antes houve a construção desta torre com os mesmos blocos de armar. O homem pode imaginar destruir o mundo em suas pinturas ou romances porque ele sabe que, quando quiser, pode retornar ao mundo real e notar que ele ainda está lá, que não sucumbiu à sua agressividade.

Quanto ao desvio do caminho normal da agressividade teríamos a não capacidade para inquietude e o falso-self além da tendência anti-social. Este desvio ocorre, segundo Winnicott (1982) porque o lar não conseguiu suportar a agressividade da criança, não suportou os diversos testes que ela naturalmente faz para ter a contenção necessária pelos pais, já que “no início, ela precisa absolutamente viver num círculo de amor e força (com a tolerância conseqüente), se não quisermos que tenha medo de seus próprios pensamentos de sua imaginação para realizar progressos em seu desenvolvimento emocional.” (p.257) Quando a criança perde a confiança no seu meio, ou seja, no seu lar, ela perde a liberdade por perder os limites que a conteriam. Diferente do que a maioria das pessoas pensa, diz Winnicott (1982), que a criança não é livre quando perde seus limites ou a estrutura de seu lar, muito pelo contrário, ela vai em busca desses limites, esticando cada vez mais seus braços para ver se encontra a sua mãe, aquela que um dia a conteve e não a contém mais. “Verificando que a estrutura de sua vida foi quebrada, ela deixa de sentir-se livre. Torna-se inquieta e angustiada, e se tiver esperança tratará de procurar uma estrutura algures, fora de casa. A criança cujo lar não conseguiu dar-lhe um sentimento de segurança procura fora de casa as quatro paredes que lhe faltaram; tem ainda esperança e busca nos avós, tios e tias, amigos da família e na escola o que lhe falta. Procura estabilidade externa sem a qual enlouquecerá”.(p.257) Para Winnicott (2000) há duas vertentes da tendência anti-social: aquela representada tipicamente pelo roubo, e a outra seria a destrutividade. “Em uma das vertentes a criança procura algo em algum lugar e, fracassando em seu intento, procura-o em outro lugar, quando tem esperança.

No outra, a criança busca a quantidade de estabilidade ambiental necessária para suportar o embate do comportamento impulsivo. Trata-se da busca por uma provisão ambiental perdida, uma atitude humana que, por ser confiável, proporciona ao indivíduo a liberdade de mover-se e agir e exercitar-se. Ë principalmente na direção da segunda vertente que a criança provoca as reações totais do ambiente, como se buscasse uma moldura cada vez mais ampla, um círculo que teria como seu primeiro exemplo os braços ou o corpo da mãe. É possível perceber aqui uma série – o corpo da mãe, seus braços, o relacionamento dos pais, o lar, a família, incluindo primos e parentes próximos, a escola, o bairro com sua delegacia, o país e suas leis”.(p.411) Desta forma, olhando para essas duas vertentes da tendência anti-social, as expressões que surgem desta agressividade desviante são, segundo Winnicott (2000): o roubo com seu correlato, a mentira; a sofreguidão, juntamente com a inibição do apetite; o sair por aí sem destino, a vadiagem, que substituiria o “gesto centrípeto implícito no roubo”; a compulsão por “ir às compras”; a enurese, a encomprese, o acting-out. Estes seriam sinais de S.O.S. que gritam aos olhos da sociedade como um pedido de contenção que se perdeu, mas que houve em algum momento. Por isso Winnicott (2000), ao falar de tendência anti-social, diz-nos que ela é um sinal de esperança, porque a criança estaria buscando o limite perdido, mesmo que de forma que assuste tanto pais e professores em seus atos agressivos expressos de forma nada criativa e sem nenhuma responsabilidade para com o outro. “Não se trata, necessariamente, de uma doença da criança quando ela age anti-socialmente; o comportamento anti-social não passa por vezes de um S.O.S. para que a criança seja controlada por pessoas fortes, carinhosas e confiantes”.(p. 259)Interessante ressaltar que Winnicott (2000) coloca a tendência anti-social como um sinal de esperança por parte da criança porque ela consegue perceber que a falta não está nela e sim no ambiente que a cerca, que deveria estar cuidando dela e não está:

“Desejo enfatizar um ponto muito especial. Na base da tendência anti-social existe uma experiência inicial boa que foi perdida. Com toda a certeza, um dos aspectos essenciais é de que o bebê tenha alcançado a capacidade de perceber que a causa do desastre foi devida a uma falha do ambiente. A compreensão correta de que a causa da depressão ou da desintegração é externa, e não interna, provoca a distorção da personalidade e o impulso de buscar a cura numa nova provisão ambiental. O grau de maturidade do ego que permite uma percepção deste tipo determina o desenvolvimento de uma tendência anti-social em vez de uma doença psicótica”.(p.415)

Retornando à pergunta feita por mim a mim mesma no início deste artigo a partir de um questionamento do próprio Winnicott (1996) sobre a questão da agressividade da criança: “Pode alguém comer seu próprio bolo e continuar a possuí-lo?” (p.70) Acredito que a resposta, mais uma vez, dependa do ambiente que esta pessoa tiver encontrado ao longo de sua vida, principalmente no início desta:

Se a criança tiver tido um ambiente facilitador, que nos termos de Winnicott corresponderia a uma mãe suficientemente boa, que teria dado ao seu bebê não somente handling mas principalmente holding, tendo permitido ao bebê experienciar a mãe-objeto e a mãe-ambiente, esta criança poderá exercer a sua agressividade, vivenciá-la e sobreviver a ela, integrando-se com um ser total. Aqui ela teria podido comer o bolo (mãe) e continuar a possuí-lo (a mãe sobreviveu a todos os seus ataques e foi internalizada como objeto total).

Se o ambiente não tiver sido propício nem facilitador, muito pelo contrário, tiver sido intrusivo e ameaçador, a criança terá muito medo de “ter comido o bolo” e, de certo, o “vomitará” em seguida, sem vivenciá-lo como seu porque acreditará que o destruiu quando o comeu ou tentou comê-lo. Mas se Winnicott está certo (e na minha opinião ele está), esta criança continuará a procurar bolos até encontrar um que resista a seus ataques e ela possa comê-lo e internalizá-lo como sendo seu, e assim ela terá comido o bolo e continuará a tê-lo. Aqui Eros e Tanatos estarão unidos e a agressividade se transformará em algo criativo e criador de vida e não de uma casca, eco vazio de um ambiente que a criança tenta em vão se ajustar e agradar sem nunca conseguir, ou a atuar sua agressividade em forma de destrutividade.

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About Maria Vitoria Campos Mamede Maia

Prof Dr.UFRJ, Prof. Pós Graduação da Faculdade de Educação UFRJ, Doutora em Psicologia PUC-Rio,Mestre em Literatura PUC-Rio, Psicanalista -CPRJ, Psicóloga clínica,Psicopedagoga clínica, Pesquisadora convidada UFPR- Departamento de Psicanálise.

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