O que é o autismo?

De acordo com a American Psychiatric Association (2002), Desordens do espectro do autismo (Autism Spectrum Disorders – ASD), incluindo autismo, síndrome de Asperger, e outras desordens do desenvolvimento não especificadas, são um grupo de desordens caracterizadas por problemas nas interações sociais, déficit de comunicação, e restrição e repetição de classes de comportamento.

Contudo, antes de chegar a essa caracterização de autismo, diversos autores tentaram definir o que é o autismo ligando este quadro a diferentes conceituações e definições ao longo das décadas.

O termo autismo, utilizado por Bleuler, era ligado à sintomatologia abrangente que ele havia estabelecido para unificar, através da esquizofrenia, o campo das psicoses. Nesse contexto o autismo era designado como uma dissociação psíquica que se referia ao predomínio da emoção sobre a percepção da realidade.

Outro autor que procurou definir o que é o autismo foi Leo Kanner. Em 1943, Kanner descreveu 11 casos do que ficou denominado distúrbio autístico do contato. Nesses casos descritos por Kanner havia uma incapacidade de relacionar-se de formas usuais com as outras pessoas desde o início da vida. Observaram-se, nesses casos, respostas incomuns ao ambiente, que incluíam desde maneirismos motores estereotipados, resistência à mudança ou insistência na monotonia, até aspectos não-usuais das habilidades de comunicação da criança, tais como a inversão de pronomes e o eco de linguagem, conhecido também como ecolalia.
    
De acordo com Klin (2006):

Kanner foi cuidadoso ao fornecer um contexto de desenvolvimento para suas observações. Ele enfatizou a predominância dos déficits de relacionamento social, assim como dos comportamentos incomuns na definição da condição. (p.4.)

Neste momento, o autismo estava relacionado a fenômenos esquizofrênicos, apresentando como sinal um alheamento extremo antes mesmo dos três anos de vida, uma vez que se acreditava não haver respostas aos estímulos externos. A criança autista era considerada como alguém que vivia “fora do mundo”, mantendo relação “inteligente” com os objetos, porém, sem apresentar alteração em seu isolamento.

Em 1944, Hans Asperger publicou artigos com descrições de casos de autismo que evidenciavam um dano orgânico severo, apesar do autista transitar para a normalidade. Segundo López (2000), essa definição seria mais ampla que a de Kanner. Atualmente, o termo Síndrome de Asperger é reservado para raras crianças autistas que são quase normais, inteligentes e altamente verbais.

Em 1949, Kanner caracterizou o Autismo Infantil Precoce segundo os seguintes critérios: dificuldade profunda no contacto com as pessoas; um desejo obsessivo de preservar as coisas e as situações; uma ligação especial aos objetos; e a presença de uma fisionomia inteligente. Porém, o Autismo Infantil Precoce ainda está intimamente relacionado com a Esquizofrenia Infantil, podendo ser uma manifestação precoce desta.

Somente em 1956 observa-se um distanciamento do autismo em relação à esquizofrenia, quando o autismo passa a ser visto como um problema psicológico que requeria estudos decisivos para a compreensão do fenômeno a níveis biológico, psicológico e social. Com o advento desse distanciamento do autismo em relação à esquizofrenia, as reflexões acerca da conceitualização do quadro autístico continuaram nos anos seguintes.

De acordo com Klin (2006), havia muitas dúvidas em relação à natureza do autismo e sua etiologia. A crença mais comum nas décadas de 50 e 60 era a de que o autismo era causado por pais não responsivos emocionalmente a seus filhos, hipótese que ficou conhecida, de acordo com a autora, como a hipótese da “mãe geladeira

Com os avanços científicos obtidos na década de 60, um crescente corpo de evidências começou a ser acumulado, sugerindo que o autismo era um transtorno cerebral presente desde a infância e encontrado em todos os países e grupos socioeconômicos e étnico-raciais investigados. Essas evidências fizeram com que muitas hipóteses referentes à origem do autismo, como a hipótese da “mãe geladeira”, fossem abandonadas, ainda que possam ser encontradas nos dias de hoje em partes da Europa e da América latina.

A partir dos anos 60 diversos autores estudaram os critérios diagnósticos do autismo, dentre eles destacam-se O¢Gorman; Clancy, Dougall e Rendle-Short; Ritvo; Rutter; e Guilberg.

Baseado na escola psicanalítica inglesa, O¢Gorman organizou, em 1967, critérios diagnósticos para caracterizar o quadro autístico. Segundo López (2000), os critérios diagnósticos são:

Retração ou fracasso frente à realidade; dificuldades no relacionamento com pessoas; sério retardo intelectual, com ilhotas de normalidade ou habilidades especiais; dificuldades na aquisição da fala ou na manutenção da fala já aprendida; respostas anormais a estímulos sensoriais (especialmente os sons); maneirismos ou distúrbios do movimento (excluindo tiques) e resistência psicológica a mudanças. (2000, p. 2)

Já em 1969, Clancy, Dougall e Rendle-Short formularam novos critérios diagnósticos que são muito semelhantes aos critérios propostos por O¢Gorman. Os critérios são:

Grande resistência em agrupar-se; agindo como se fora surdo; resistência a situações novas; ausência de medo frente a perigos reais; resistência a novos aprendizados; indicação das necessidades através dos gestos; riso sem motivo aparente; não abraçar afetivamente as pessoas; hiperatividade física acentuada; evitar olhar de frente; girar ou rodar objetos incansavelmente; afeto incomum a objetos especiais; jogos ocasionais de forma repetitiva; comportamento indiferente, isolado, retraído e não participante. (López, 2000, p. 2)
 
Ritvo propôs, em 1976, o autismo com sendo um problema de desenvolvimento, considerando assim as crianças autistas como possuidoras de déficits cognitivos. Para este autor, a síndrome autística seria decorrente de uma patologia do Sistema Nervoso Central, caracterizando uma visão organicista do quadro autístico. A detecção dos déficits seria feita a partir do momento em que ocorrem os primeiros sinais observáveis, e por meio das características comportamentais representadas por: distúrbios de percepção; distúrbios de desenvolvimento, principalmente nas seqüências motora, de linguagem e social; distúrbio de relacionamento social caracterizado por pobreza no contato através do olhar, ausência de sorriso social, ausência de movimento antecipatório, aparente aversão ao contato físico, tendência a relacionar-se com partes da pessoa, desinteresse em jogos, ansiedade estranha e exagerada; distúrbios da fala e da linguagem que se estendem desde um mutismo até a ecolalia e a inversão pronominal; distúrbios da motilidade, observados através da atitude estranha e bizarra com maneirismos e estereotipias, principalmente de mãos e dedos.
    
Em 1978, Michael Rutter propôs uma definição do autismo com base em quatro critérios, a saber: atraso e desvios sociais não só como função do retardo mental; problemas de comunicação, novamente, não só em função do retardo mental; comportamentos incomuns, tais como movimentos estereotipados e maneirismos; e início antes dos 30 meses de idade.

Esta definição do transtorno autístico proposta Michael Rutter foi um marco porque, ao lado de outros trabalhos sobre o autismo, influenciou a definição desse transtorno no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM III), em 1980.

Com essa definição, pela primeira vez o autismo foi reconhecido e colocado em uma nova classe de transtornos, denominados transtornos invasivos do desenvolvimento (TIDs). O termo TID foi escolhido porque reflete o fato de que múltiplas áreas de funcionamento são afetadas no autismo e nas condições relacionadas a ele. O termo TID também foi adotado na décima revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10).

Outro autor que buscou caracterizar o autismo foi Gilberg. Em 1990, ele caracterizou o autismo como sendo uma síndrome comportamental com etiologias múltiplas, associada a um distúrbio no curso do desenvolvimento, caracterizada por um déficit na interação social observável através da inabilidade em relacionar-se com o outro, usualmente combinado com déficits de linguagem e alteração de comportamento.

Em meados da década de 90, com o intuito de evitar confusões entre pesquisadores clínicos de diferentes partes do mundo que norteiam seu trabalho pelas definições do CID-10 e do DSM IV, os sistemas de classificação de ambos os sistemas nosológicos já citados foram tornados equivalentes. Na mais recente versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM IV-TR, foram incluídos textos atualizados sobre autismo, síndrome de Asperger e outros TIDs. A inclusão desses textos, contudo, não alterou os critérios diagnósticos, que permaneceram os mesmos dos encontrados no DSM IV.

Atualmente, vem sendo difundida a noção de Desordens do Espectro Autista (Autism Spectrum Disorder – ASD), que se refere, segundo Sousa e Santos (s/d), a uma definição de autismo que inclui a forma clássica da perturbação (descrita por Kanner), bem como as incapacidades que lhe estão relacionadas. Os indivíduos com ASD apresentam uma elevada diversidade de capacidades e personalidades, além de poderem:

(…) exibir atrasos mentais graves ou ser extremamente dotados nas suas aquisições intelectuais e acadêmicas. Enquanto que muitos indivíduos preferem isolamento e tendem a evitar o contato social, outros mostram níveis elevados de afeto e prazer nas situações sociais. Algumas pessoas (…) parecem letárgicas e com respostas lentificadas, mas outras são muito ativas e parecem interagir constantemente com determinados aspectos do seu ambiente. (Dunlap, Pierce & Kay, 1999, p. 2)

Diante da variedade de definições, autores de diversas orientações teóricas propuseram procedimentos para o tratamento dos portadores de autismo. Dentre as teorias existentes sobre o quadro autístico destaca-se a teoria desenvolvida por Lovaas e Smith (1989).

Sob a perspectiva do Behaviorismo Radical, esses autores basearam-se em quatro princípios: 1) as leis de aprendizagem aplicam-se adequadamente ao comportamento de crianças com autismo e provêem a base para seu tratamento; 2) as crianças autistas apresentam muitos déficits comportamentais distintos, que podem melhor ser descritos como retardos de desenvolvimento e não como um déficit global em seus repertórios comportamentais; 3) as crianças autistas aprendem, desde que colocadas em ambientes especiais; 4) o fracasso de crianças autistas em ambientes normais e seu sucesso em ambientes especiais indicam que seus problemas podem ser vistos como um desajuste entre seu sistema nervoso e o ambiente, que pode ser resolvido através da manipulação do ambiente.

Para alcançar confiabilidade e eficácia, três decisões metodológicas foram tomadas pelos analistas do comportamento que trabalham com crianças autistas. A primeira foi dividir o constructo “autismo” em unidades menores, mais suscetíveis de serem medidas de modo preciso e confiável, pesquisando-se separadamente a multiplicidade de comportamentos-problema apresentada pelas crianças autistas. A segunda foi focalizar o ambiente imediato das crianças, em vez de procurar explicações na etiologia do quadro ou exclusivamente na relação com os pais. A terceira foi enfatizar a pesquisa indutiva.

Windholz afirmou, em 1995, que nos 30 anos anteriores foi usada uma variedade de tratamentos, baseados em orientações teóricas diversas e de diferentes níveis de abrangência (medicamentoso, terapia psicanalítica, terapia comportamental, terapia de orientação cognitiva, terapia de integração sensorial, terapia de contenção) para tirar a pessoa autista de seu isolamento. Segundo essa autora a terapia melhor desenvolvida, confiável e eficaz para o atendimento de uma pessoa autista é a terapia comportamental.
    
Os analistas do comportamento consideram o tratamento da pessoa com autismo uma tarefa árdua e complexa, que não deve ser restrito ao portador, mas a todos os familiares, à escola ou à instituição e outros ambientes freqüentados. Além da atuação direta do analista do comportamento, é preciso garantir treinamento especializado de todas as pessoas significativas na vida da criança (professores, pais, irmãos e amigos), uma vez que ela passa grande parte do seu dia em contato com estas pessoas.

Referências Bibliográficas

ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM IV-TR). Porto Alegre, Artmed, 2002.
 
DUNLAP; PIERCE; KAY. 1999. Autism and Autism Spectrum Disorder (ASD). Disponível em: <http://www.eric.ed.gov> Acesso em: 03 ago. 2008.

KLIN, Ami. Autismo e síndrome de Asperger: uma visão geral. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 28, p. 5-11, 2006.

LÓPEZ, Anna Lúcia Leão. Reflexões sobre a contribuição da psicanálise no entendimento do autismo infantil. Círculo Brasileiro de Psicanálise. 2000.

LOVAAS, O.I.; SMITH, T. A comprehensive behavioral theory of autistic children. Journal of Behavioral Therapy and Experimental Psychiatry, v.20, p. 17-29, 1989.

SOUSA, Pedro Miguel Lopes; SANTOS, Isabel Margarida Silva Costa. (s/d). Caracterização da Síndrome Autista. Disponível em: <http://www.psicologia.com.pt> Acesso em: 03 ago. 2008.

WINDHOLZ, Margarida H. Autismo infantil: terapia comportamental. IN. SCHWARTZMAN, José Salomão; et.al. Autismo Infantil. São Paulo, SP: Memmon Edições Científicas Ltda., 1995.

About Victor Nicolino

Graduado e bacharelado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), atua na área clínica atendendo crianças, adolescentes, adultos e idosos. Enquanto pesquisador, é estudioso de Análise do Comportamento, Psicologia Clínica, Psicologia na Educação, Geriatria, Neurologia e Neuropsicologia.
Comments are closed.