Filmes e Psicanálise – Parte II

Denise Deschamps e Eduardo J.S. Honorato

Muitas considerações nos tem sido encaminhadas a partir da abordagem do tema, muitos relatos de seu uso e pedidos de indicações para mobilização de temas, seguimos então na pesquisa das questões que envolvem essa temática.

Temos também obtido excelentes resultados em sua aplicação em grupos onde coordenamos cursos sobre a matéria, na prática tem se demonstrado uma ferramenta bastante interessante a utilização de filmes para construir trabalhos, tanto no que diz respeito à aprendizagem, assim como na mobilização de conteúdos para trabalhos psicoterápicos(com leitura a partir dos constructos psicanalíticos).

Recentemente entrou na pauta jornalística a discussão em torno do livro “Clube do filme” do crítico de cinema e escritor premiado, David Gilmour. A colunista do Jornal “O Globo”, Martha Medeiros, escreveu recentemente sobre ele, chamando a atenção da proposta dele, abordagem muito interessante, vale conferir.

Esse livro nos chamou a atenção em particular por propor algo exatamente na linha que abordamos, a utilização do filme como possibilidade de encaminhar mudanças internas importantes. Conta a experiência de um pai, frente ao filho de 15 anos apresentando profundo desinteresse pelo modelo de aprendizagem formal e também referente a algumas das questões que envolviam as suas vivências de adolescente.

A proposta desse pai é no mínimo muito ousada, interessante e estimulante, caminha no sentido de nos fazer pensar naquilo que queremos e priorizamos na formação dos filhos. Através de escolhas aleatórias de filmes clássicos, mesclados com suas vivências (pai) como profissional de TV e Cinema, ao final de cada filme ele procura um gancho, uma metáfora, uma linha de ensinamento, que possa suprir as necessidades do filho e ao mesmo tempo sanar suas dúvidas em relação a vida adulta. Uma forma de estimular o crescimento pessoal do filho adolescente. Acreditamos ser essa uma boa forma de utilizar a sétima arte, independente da troca de tarefas que foi feita por esse pai com seu filho.

Acreditamos, também, e é essa nossa proposta aqui apresentada de que seja possível, uma sistematização e compreensão, no uso dessa ferramenta, que por enquanto nomeamos como tem sido feito em outros países, cinematerapia(cinemateraphy). Publicamos recentemente obra sobre o assunto voltada para o grande público, não pretendemos um livro técnico, embora nele existam ao longo do seu desenvolvimento, explicações teórico-técnicas, voltadas também, para os estudantes e profissionais do campo psi.

Propomos nesse livro três modalidades de aplicação:

· Cinematerapia reflexiva – falando de um uso pessoal e de auto-ajuda, seja individual ou mesmo em grupos;

· Cinematerapia acadêmica – voltada para o uso relacionado a aprendizagem, que sabemos já ser utilizado com bastante freqüência por professores;

· Cinematerapia psicoterápica – utilizada por psicoterapeutas na condução de grupos ou ainda como indicação dentro de um processo psicoterápico.

Para o debate desses aspectos sugerimos o belo filme “Clube de Leitura de Jane Austen”.

Recentemente(25 de junho 2009), o psicanalista Contardo Calligaris, escreveu em sua coluna, sobre o filme “Last Chance Harvey” (Última chance Harvey), filme denso e belo com as magníficas atuações de Emma Thompson e Dustin Hoffman. Nos propõe a partir do seu texto sobre o filme uma reflexão acerca das possibilidades que a vida nos oferece todo tempo, ou em raras vezes. O filme traça uma delicada forma de nos fazer pensar em uma palavrinha que anda um bocado esquecida, esperança, não a esperança da espera passiva, mas aquela que mobiliza ação e busca constante. Há uma fala da personagem no final do filme que é por si só toda uma construção em termos de técnica psicanalítica. A personagem representada por Emma Thompson, a Kate Walker, diz para Harvey Shine (Dustin Hoffman) que talvez sinta raiva dele por querer tirá-la do seu “conforto” da solidão.

Isso nos remete a algo muito próximo aos chamados “refúgios psíquicos”, conceito proposto por Anne Alvarez(vide). Como pensar em assistir a abordagem tão bem construída a partir desse filme sem nos sentirmos tocados e modificados?

Trabalhamos em alguns dos grupos que demos curso, com um trecho do filme “Divinos segredos” que traz Sandra Bullock no papel principal, a seqüência que elegemos para o trabalho, se mostrou na prática, altamente mobilizadora e capaz de levantar trabalhos na linha psicoterápica com bastante profundidade.* Com isso queremos dizer que é possível compor um trabalho nessa direção, aliado a outras técnicas de grupo ou ainda como única ferramenta de mobilização.

Assistir a um filme propõe sempre uma tarefa de questionar-se, trazendo nisso, embutida, uma possibilidade de modificação. Se tomarmos o traço desse homem pós-moderno em sua leitura borderline, permeável, portanto, talvez possamos entender um pouco do como temos que ter como sublinhado, todos os espaços de uma possível reflexão, cada dia mais limitado em termos de tempo investido. Temos pressa, corremos todo tempo ao encontro das inúmeras tarefas que a contemporaneidade nos chama a desempenharmos em nosso cotidiano, assolados por inúmeras solicitações que sobrecarregam o psiquismo em suas elaborações.

Pensamos que a leitura sobre conceitos que versam sobre a virtualidade se mostra a cada dia mais importante na compreensão da nossa capacidade de investimento e desinvestimento dentro dos conceitos que a psicanálise em sua metapsicologia tanto sublinha. O prazer do estímulo oriundo do mundo externo é algo que se mostra enaltecido pelos traços bastante evidentes através da tecnologia que criamos. Mas temos como necessidade, também, a interação com esse externo, trazemos como também prazer a nossa possibilidade de modificar o mundo no qual vivemos e investimos. A relação entre aquilo que entramos em contato como externo, e àquilo que colaboramos na construção enquanto existência nesse externo, nos parece indicar o caminho da luta do homem hoje para se inscrever de alguma maneira com o que ele entra em contato, poderíamos então supor o caminho que constrói o que nomeamos de “interatividade”.

O que haveria em um filme de interativo? Essa pergunta embora sem possibilidade de uma resposta simples, nos mostra o caminho possível em pensá-lo não somente como a construção de uma equipe técnica, mas também como documento histórico daquilo que poderíamos chamar de “história da vida privada”, assim como em outras épocas os livros, as peças teatrais, os folhetins, músicas etc nos apontavam para o entendimento de um contexto histórico. O filme é a possibilidade de reunir tudo isso em um só instrumento.

Então supomos que ao assistir a um filme, teremos também o prazer de nos ver ali representados, passando pelo sentimento de pertencer a um grupo, a uma época, a um contexto histórico que determina nossas relações com o mundo.

Sabemo-nos de alguma maneira presentes naquele relato, e ao sentirmos tal inserção, nos reconhecemos ou desconhecemos naquilo que nos é apresentado, e talvez, seja justamente nesse jogo relacional, que os filmes se nos apresentam enquanto uma potência disruptiva, aquilo que desconstrói, dando-nos a possibilidade de reapresentar conceitos a nós mesmos e que faz com que ele possa ser encarado como uma ferramenta de mobilização. A relação que se estabelecerá é sublinhada por aspectos bastante históricos: individuais, coletivos, afetivos por natureza, com aspectos de vínculo.

Trazem em si características tanto de identificação quanto de projeção ou ainda de identificação projetiva(ver KLEIN, M.).

Procurar entender dentro da perspectiva do campo psi a entrada em contato com conteúdos individuais a partir da vivência de um filme, nos parece ser uma possibilidade muito interessante. O contrário já tem sido feito em larga escala, ou seja, a de entender a construção do filme enquanto projeção de conteúdos que falam do psíquico em seus aspectos da montagem da personagem, entendimento dos conflitos humanos e de leitura histórica. Mas ao fazer isso e ser apresentado em sua montagem técnica o filme despertará em cada um de nós, possibilidade de múltiplas leituras, de toda forma, cada uma delas, “afetada” por aquilo que nos diz sujeito nesse mundo.

Dessa forma encerramos deixando mais algumas sugestões para se pensar no tema e o convite para que continuemos o debate em torno dele.

Sugestão: Assista ao vídeo para finalização desse texto:

http://www.youtube.com/watch?v=Z-Rr_BtUBR4

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*No site: http://www.cinematerapia.psc.br/divinossegredos.php – encontrará a seqüência que foi utilizada.

About Denise Deschamps

Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “ Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro “Cinematerapia – Entendendo Conflitos”.

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