Alterações vasculares cerebrais são maior causa de demência no país

No Brasil, alterações vasculares cerebrais são mais importantes do que Alzheimer no desenvolvimento de demência, mostra um estudo inédito que será apresentado hoje no Icad (Congresso Internacional da Doença de Alzheimer), em Viena, pelo Grupo de Estudos em Envelhecimento Cerebral da Faculdade de Medicina da USP.

No Brasil, alterações vasculares cerebrais são mais importantes do que Alzheimer no desenvolvimento de demência, mostra um estudo inédito que será apresentado hoje no Icad (Congresso Internacional da Doença de Alzheimer), em Viena, pelo Grupo de Estudos em Envelhecimento Cerebral da Faculdade de Medicina da USP.

O trabalho, que avaliou 137 cérebros de pessoas que manifestaram demência moderada e grave, constatou que 30% dos casos tinham origem somente vascular, contra os 25% que foram causados apenas por doença de Alzheimer. Foram excluídos casos de derrame cerebral.

A confirmação de um possível diagnóstico de Alzheimer e de demência vascular só pode ser feita por autopsia. Algumas alterações nos vasos cerebrais, no entanto, podem ser apontadas em exames de ressonância magnética em vida.

A pesquisa também apontou que somente metade dos casos de demência vascular havia sido diagnosticada clinicamente. Entre os casos de demência estudados, 17,5% tinham sido considerados (ainda em vida) decorrentes de alterações vasculares. Depois de análise neuropatológica dos cérebros (após a morte), viu-se que 33,3% eram demência vascular.

Editoria de Arte/Folha Imagem

"Isso mostra que comemos bola no diagnóstico de demência vascular. São casos que nem sabíamos que seria possível prevenir", afirma a neuropatologista Lea Grinberg, coordenadora do Banco de Cérebros da USP. Para ela, 40% dos casos de demência poderiam ser ao menos adiados com controle de fatores de risco vascular.

Desses fatores, o mais importante é a hipertensão arterial, que pode levar a microinfartos em vasos pequenos no cérebro (arteríolas), o que prejudica a oxigenação e a chegada de nutrientes à região. Com isso, prolongamentos celulares se degeneram e dificultam a circulação de informações. Se as lesões ocorrem cumulativamente, há grandes chances de haver algum declínio cognitivo.

"Com o envelhecimento da população brasileira, acho que vai haver uma epidemia de demência, e há uma parte que pode ser prevenida. Não existem políticas de prevenção da hipertensão, e esse é um ponto fundamental para alertar a população: todo mundo tem medo de Alzheimer, mas ninguém controla direito seus problemas vasculares", diz Grinberg.

Além das demências causadas por somente um fator, existem ainda as mistas, manifestadas por alterações vasculares e Alzheimer. Nesses casos (14% no estudo da USP), os problemas nos vasos sanguíneos contribuem para acelerar os sintomas. "Sem a questão vascular, o Alzheimer poderia se manifestar até dez anos mais tarde, dependendo da escolaridade do indivíduo", afirma Grinberg.

Os demais cérebros analisados (31%) apresentavam outros causadores de demência.

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Diferentes perfis

No Brasil, estima-se que de 8% a 12% da população com mais de 65 anos apresente algum grau de demência.

Em países desenvolvidos, ao contrário do que ocorre aqui, o Alzheimer responde por mais casos de declínio cognitivo do que as alterações vasculares.

"Aqui, as alterações vasculares são mais importantes porque nossa população come mal, tem baixa escolaridade, não faz exercício e não tem um bom acesso à saúde", alega Grinberg.

Já se sabe que o nível de escolaridade é um dos fatores que ajudam a postergar ou reduzir riscos de demência.

Outra hipótese para explicar o fato está na idade da população estudada. No Brasil, ela é cerca de dez anos mais jovem do que a avaliada em países ricos. E a manifestação de demência vascular é mais precoce do que o Alzheimer.

"A demência vascular é talvez tão agressiva quanto o Alzheimer e pode atingir o indivíduo em uma fase precoce da vida, em fase ainda produtiva", alerta o geriatra José Marcelo Farfel, do hospital Albert Einstein e também membro do grupo de estudos da USP. Se os brasileiros tivessem maior expectativa de vida, talvez desenvolvessem doença de Alzheimer em maior proporção.

Os sintomas manifestados por indivíduos com demência causada por problemas vasculares são semelhantes aos do Alzheimer. No entanto, os estudos sugerem que, a cada novo microinfarto, o paciente tenha uma queda mais brusca na cognição. Já no Alzheimer, o declínio é mais suave.

Fonte: BOL Notícias

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