Daseinsanalyse psicológica: surgimento e método

Em meados dos anos de 1930, a ciência psicologia experienciou momento de crise provocado por sua própria ferramenta de trabalho, caracterizada por insatisfação interna que veio a conduzir o questionamento daquilo que era essencial à sua prática, o método terapêutico. A psicanálise de Freud e a psicologia analítica junguinana traziam incomodo a seus praticantes e estudiosos, sujeitos a interpelações acerca da validade dos tratamentos psicoterápicos realizados.

A perspectiva causal freudiana, o inconsciente como instância primordial no existir humano de um lado, e as considerações feitas por Jung em relação a arquétipos e complexos de outro, traziam inquietude aos analistas que indagavam: o que é o homem e o que pode a psicoterapia fazer por ele? A interpelação vinha, sobretudo, evidenciar a vulnerabilidade de se fazer uso de explicações teóricas prontas e acabadas com o propósito de tornar compreensível a existência humana e seus distintos sofrimentos. O contexto da época motivou dois psiquiatras, psicanalistas e clientes de Freud, a buscar respostas no estudo da filosofia heideggeriana, mais precisamente na obra Ser e Tempo (2006[1927]). O presente texto pretende se referir às questões que Ludwig Binswanger e Medard Boss vieram a equacionar a partir da ontologia fundamental de Martin Heidegger, pontos que fizeram surgir a Daseinsanalyse e, consequentemente, o método analítico que lhe é inerente. Ou seja: tal compósito teórico veio a fundamentar a reflexão sobre como chegar à recuperação do sentido existencial, que fora desviado, em consonância com a metodologia que vai distinguir. O método daseinsanalítico retorna ao seu significado primeiro – etimologicamente, met' hodos, do grego, “caminho para chegar a um fim” – e, assim, encaminha a reflexão sobre aquilo que se pretende alcançar por meio do processo terapêutico, a saber, promover a recuperação de potencialidades próprias, o que compreende um legitimo sentido existencial: “(…) sempre e cada vez meu” (Heidegger, [2006]1927.:77).

Sequencialmente, no início da década de 1940, após descrições de casos de esquizofrenia, Ludwig Binswanger estabelece uma primeira proposta da Daseinsanalyse, não como um novo método de análise terapêutica, mas como uma fenomenologia antropológica dedicada ao estudo do homem enquanto existência, o que quer dizer, ou até, dando idéia de instrumental para investigação e observação das síndromes e dos sintomas manifestados e perceptíveis até em modos mais sutis em terapia. Nesses termos, a apreensão do método fenomenológico de investigação somada à concepção de homem já proposta por Heidegger veio a dar base ao pensamento de Binswanger, ainda não reconhecido como ciência psicológica. O psiquiatra tinha a intenção de se ater às investigações dos modos de existir humano, o que, por sua vez, viria a proporcionar um conhecimento mais abrangente da condição de incompletude deste ente que nós mesmos somos (Heidegger, [2006]1927). No entanto, o que era este novo homem estudado por Binswanger? Qual o entendimento da expressão “homem existêncial”?

A compreensão fenomenológico-existencial de homem rompe com certezas baseadas nas acepções da teoria do conhecimento que vigiam até aquele momento. Isto é, o “homem existencial”, por assim dizer, não é mais sujeito absoluto – “faculdade cognoscente” – em relação aos objetos e tão pouco se encontra separado deles a priori em uma distância inatingível e, assim, privado da capacidade de pensar sua intocável e cristalizada essência na medida em que sua existência não vem a ser concebida e/ou definida por aquilo que era próprio a consciência até ali apresentada como plena e acabada (Descartes, [1983]1641). Em outras palavras, a visão de homem atribuída à fenomenologia-existencial rompe com o paradigma até então utilizado pelas ciências humanas, em cujo modelo o homem é governado pela faculdade do pensar, e está sempre direcionado a conhecer os objetos e a sentir as coisas em função desta capacidade que o torna superior, mesmo levando-se em a separação entre estes dois pólos.

O “novo homem”, no dizer de Heidegger ([2006]1927), existe, em relação com as coisas, – objetos e mundo -, e foi por ele nomeado ser-no-mundo. A nomenclatura abarca o entrelaçamento entre todos os entes em uma cadeia de significados, ou melhor, em uma teia de significações. Isto é, fazendo uso da forma nominal do verbo ser, Heidegger faz com que caia por terra a estatificação presente na tradição filosófica, conferindo movimento ao projeto existencial deste ente presente, que,pela experiência existencial é sendo. O homem, nesta relação, inventa a cada vez que se re-inventa na intenção de acontecer em processo, ciclos – em tempos durante o qual ocorre e se completa em seqüências.

Dito em outros termos, se move em direção às coisas, que também vêm ao seu encontro de modo ininterrupto (Heidegger, [2006]1927) É esse movimento que confere ao homem condição primordial: a indeterminação incompleta frente à sua existência. Ou seja, existir mostra-se como um por-vir frente às possibilidades que o acometem por natureza. Desse modo, o homem existe zelando (Sorge) por seu caráter de indeterminação, cuidando de seu próprio projeto, das coisas que o cercam (Bersorge) e dos outros que estão a sua volta (Fürsorge). Atento ao trajeto rumo à finitude conhecida (ser-para-a-morte), o homem está aí no mundo e, como tal, tem potencial para administrar tal permanência em função do tempo e de seu próprio tempo (Heidegger, [2006]1927)

Heidegger define esta condição existencial do ente homem como o Dasein, a relação do ente humano com seu ser, com sua essência, a própria existência de fato:

”(…) A pre-sença não é apenas um ente que ocorre entre outros entes. Ao contrário, do ponto de vista ôntico, ela se destingue pelo privilégio de, em seu ser, isto é, sendo, estar em jogo seu próprio ser. Mas também pertence a essa constituição de ser da pre-sença a característica de, em seu ser, isto é, sendo, estabelecer uma relação de ser com seu próprio ser.”
(Heidegger, [2006]1927.:38)

Isto é, Dasein existe; é na capacidade de ser e estar em relação com a existência, a partir e do modo em que é homem; existindo. Logo, o ser- aí não é somente um ente como os outros, mas é aquele que existe imerso na sua forma única de ser, transitando no sendo, jogando com a existência. Logo, Dasein é existência, ponto essencial de sua própria qualidade de ente detentor da significação de seu ser enquanto subjetividade única, particular e individual. Ainda se poderia dizer que, ao portar a significação de seu ser, Dasein carrega sua existência de modo livre e com condição de se ver na necessidade de concretizar a sua existência em meio à admissão de diversas possibilidades (Heidegger, [2006]1927). Com isso, se Dasein é existência, e existência pode ser compreendida como projetar-se para fora rumo a possibilidades indefinidas (ek-sistência), por derivação, um novo entendimento de homem ganha lugar.

Diante desta nova visão de homem, os estudos de Binswanger modificaram-se, recaindo em uma antropologia fenomenológica de orientação heideggeriana (Gomes, 1986), modo como, em 1940, havia chegado a sistematizar sua reflexão.

“Binswanger não vê na sua ‘Daseinsanalyse’ um novo sistema terapêutica, mas uma abordagem científica para estudar o ser humano enquanto existência. Ele critica a psicanálise como sendo uma doutrina homo-natura, que simplifica a realidade humana, e modifica a ontologia existencial de Heidegger (a analise do sentido do Ser em geral) numa análise antropológica e fenomenologica onde o ser humano é abordado na sua existência concreta: (1) num mundo biológico (Umwelt); (2) num mundo social (Mitwelt) e num mundo existencial (Eigenwelt).” (Gomes, 1986.:2)

Foi a partir da inversão desta primeira proposta de renovação, qual seja, antropologia fenomenológica de orientação heideggeriana, mediante a intervenção de Medard Boss, que a Daseinsanalyse se instituiu enquanto escola psicoterapêutica, alicerçada, então, na ontologia fundamental de Martin Heidegger e seus existenciais (Heidegger,[2006]1927). Com isso, o olhar fenomenológico-existencial passa a ser fundamentado pelo método de análise psicológica feita.

“A Daseinsanalyse foi proposta por Medard Boss, prioritariamente, como um novo acesso apara o entendimento do homem, como um modo particular de aproximar e compreender tanto os fenômenos sadios e patológicos do existir humano quanto o contexto terapêutico. Boss afirma em seus trabalhos que a Daseinsanalyse não deveria ser considerada apenas, como mais uma escola na Psicologia, pois trilha um caminho específico, que é o fenomenológico” (Cardinalli, 2000.:11)

O caminho fenomenológico a que se refere Cardinalli é o que vem a caracterizar o processo daseinsanalítico, o qual não se contrapõe às práticas psicanalíticas e junguianas predominantes no momento histórico em que a proposta terapêutica de Boss surgiu na comunidade psicológica. A Daseinsanalyse veio a priorizar, isso sim, o entendimento e a compreensão do paciente a partir dele mesmo e de suas manifestações enquanto ser-no-mundo; na sua (como) existência. Dessa forma, pode-se apreender o paciente de modo singular e concreto, ao ler o concreto paciente; aquilo que lhe singular e intransferível e se clarifica ao outro (terapeuta) (Cardinalli, 2000.:12). Heidegger fundamenta essa diretriz na obra Seminários de Zollikon, um apanhado de palestras e cursos dados pelo filósofo (1959-1969) aos alunos de Medard Boss, com o objetivo de tornar sua filosofia compreensível, apresentando-a ao diálogo com a Daseinsanalyse, “ainda tão jovem”. “É decisivo que cada fenômeno concreto que surge na relação do analisando e analista seja discutido em sua pertinência ao paciente concreto em questão a partir de si em seu conteúdo fenomenal e não seja simples e genericamente subordinado a um existencial.” (Heidegger, 2001.:150)

A Daseinsanalyse conduz a clinica a partir da expressão verbal, deixando de lado as técnicas corporais de massagem e/ou dramatizações, embora não as desvalorizando, tendo em vista a força que tais manejos psicoterápicos haviam assumido no decorrer da história da psicologia (Cardinalli, 2000.:14). No caso, o verbal veio a ter, como suporte, os estudos sobre a linguagem de Heidegger, mais precisamente teve apoio nas articulações por ele feitas a propósito do discurso. Ou seja, pela fala, o sentido do modo de ser mostra-se como ainda existente e pleno de significação, o que quer dizer que a linguagem é a morada do ser e, portanto, é no discurso que se encontram os significados subvertidos em palavras (Heidegger, [2006]1927).

“Nesta perspectiva, as palavras não são entendidas como dotadas de significado em si. Pois é da significação que brotam as palavras e não é o ser humano isolado que atribui os significados a tudo que está á sua volta, nem o mundo externo que determina a significação das coisas. É no entre o homem e o mundo que se articula como uma trama significativa, onde se situa o viver e o falar humano.” (Cardinalli, 200.:15)

Cabe notar que o discurso terapêutico compreende silêncio enquanto parte integrante do discurso, na medida em que difere do ficar calado ou simplesmente pouco falar, conforme Heidegger ([2006]1927). O silêncio é também expressão do ser; manifestação da linguagem na forma do não falado, isto é, daquilo que pode vir-a-ser falado, como a negação da fala pelo falante, que ainda tem o que dizer.

Ao retomar aquilo que se propôs a expor neste trabalho, faz-se oportuno voltar ao momento histórico em que se deu o aparecimento da Daseinsanalyse, para ressaltar não só a importância da inquietude e insatisfação com determinada prática clínica – a exercida na época -, mas, também, o resultado a que chegou o estudo sistemático do ideário de um filósofo – no caso, Heidegger – no surgimento de um novo posicionamento na clinica. A despeito da psicanálise de Freud e a clínica junguiana continuassem a existir, Binswanger e Boss buscaram apreender, no estudo de Ser e Tempo, de Martin Heidegger, sua filosofia a partir da formação psicológica que tinham. Binswanger, entretanto, veio a se distanciar da proposta puramente heideggeriana, deixando que a clínica daseinsanalítica de Boss viesse a emergir com maior força. Por conseguinte, a compreensão fenomenólogica da clínica psicoterápica veio a envolver uma mudança de paradigma, no que se refere à visão de homem e de mundo no âmbito das ciências humanas na época. O novo homem, Dasein, é tido como abertura à existência em relação e interação com o mundo, as coisas e os outros; ser-no-mundo. Essa abertura, ou leque de possibilidades, veio a permitir que a Daseinsanalyse viesse a tratar, no sentido de trabalhar, no âmbito das manifestações dos diversos modos de existir de cada ser-aí a partir do referencial fenomenológico, aplicado na singularidade e não no ou para o preenchimento teórico de cada existência analisada, fissura, ou melhor, naquilo que ainda era deixado em aberto, na época, tanto pela a psicanálise de Freud quanto pela clinica junguiana.

Em síntese, o presente texto procurou alçar o método da Daseinsanalyse para além de uma intersecção entre a filosofia de Heidegger e a psicanálise de Boss, o que, reitera-se, resultou em uma nova forma clínica de compreender o homem e seu sofrimento – o modo existencial baseado no método fenomenológico de investigação. Boss define a psicoterapia como uma pró-cura, isto é, algo destinado ao cuidar (Pompéia, 2000.:21), afirmação que assume paridade na sua prática psicoterápica. A pró-cura, na psicoterapia, é exercida como expressão do cuidado próprio de cada ser-no-mundo, que sofre e que teve o sentido de sua existência velado por e em algum momento. Em uma próxima vez, tenciona-se dissertar sobre o trabalho clínico e os aspectos da psicoterapia existencial daseinsanalítica com o detalhamento que o tema merece.

Referências bibliográficas
                                                                                                                                 
Cardinalli, Ida Elizabeth. Daseinsanalyse e psicoterapia. Revista da Associação Brasileira de Daseinsanalyse, n°9, São Paulo, 2000.

Descartes, René. Meditações Metafísicas. Tradução J.Guinsburg / Bento Prado Jr: São Paulo. Ed. Abril, 1983.

Gomes, William. Influências da fenomenologia e da semiótica na psicoterapia. Disponível no endereço eletrônico: http://www.ufrgs.br/museupsi/semi%F3tica.htm. Acesso em 20/07/2009.

Heidegger, Martin. Seminários de Zollikon. Rio de Janerio. Ed. Petrópolis, 2001.

________________. Ser e Tempo. Trad: Maria Sá Cavalcanti Schuback. São Paulo: Ed. Vozes, 2005.

Pompéia, João Augusto. Uma caracterização da psicoterapia. Revista da Associação Brasileira de Daseinsanalyse, n°9, São Paulo, 2000.

One Response to Daseinsanalyse psicológica: surgimento e método

  1. Gaby Rodrigues 28 de novembro de 2015 at 1:40 #

    muito bom, ajudou-me muito na compreensão.
    obrigado