Dicotomias na psicologia científica: subjetivo-objetivo

A psicologia científica desde sua fundação é perseguida por certas dicotomias que acabam gerando problemas insolúveis. Um exemplo emblemático é a dicotomia subjetivo-objetivo, que coloca aos projetos de psicologia científica um paradoxo insuperável: quando assume o caráter objetivo exigido pela ciência, acaba afastando-se dos assuntos psicológicos, geralmente considerados subjetivos; já se assume o interesse pela subjetividade, vez por outra acaba perdendo seu caráter científico.

Seja no cotidiano, seja no contexto acadêmico, o pensamento dicotômico nos é bastante familiar. De maneira formal, esse tipo de pensamento remonta, pelo menos, à Analítica de Aristóteles, mais especificamente ao princípio do terceiro excluído (é impossível, ou contraditório, defender ao mesmo tempo uma proposição e sua negação). Nesse contexto, podemos dizer que a maneira dicotômica de pensar é bastante “econômica”, na medida em que apresenta opções limitadas de escolha, no caso apenas duas. Além disso, a dicotomia é sedutora porque acaba nos obrigando a assumir um ponto de vista diante de um assunto: “você defende ‘x’, ou defende ‘não-x’” e “se você não defende ‘x’, então necessariamente defende ‘não-x’”.

O fato é que a psicologia científica desde sua fundação é perseguida por certas dicotomias que acabam gerando problemas insolúveis. Um exemplo emblemático é a dicotomia subjetivo-objetivo, que coloca aos projetos de psicologia científica um paradoxo insuperável: quando assume o caráter objetivo exigido pela ciência, acaba afastando-se dos assuntos psicológicos, geralmente considerados subjetivos; já se assume o interesse pela subjetividade, acaba, vez por outra, perdendo seu caráter científico. Em suma, ou é ciência não-psicológica, ou é psicologia não-científica. (L. C. M. Figueiredo, no livro “Matrizes do Pensamento Psicológico”, apresenta literalmente essa conclusão.)

Se assumirmos o pensamento dicotômico não há saída, que não assumir um dos pólos ao mesmo tempo em que se nega o outro. No entanto, autores contemporâneos (como Edgar Morin, L. Prigogine, Boaventura de Sousa Santos, por exemplo) têm questionado a necessidade de nos filiarmos a esse tipo de pensamento, sugerindo que termos contrários são interpretados de maneira mais produtiva como complementares. O interessante é que quando fazemos isso, muitos dos problemas que tínhamos quando assumíamos o pensamento dicotômico desaparecem.

Será que isso é o futuro da psicologia científica? A título de provocação, eu diria que esse é o passado da psicologia. Isso porque uma proposta praticamente idêntica foi defendida pelos psicólogos da Gestalt. Max Wertheimer, por exemplo, propôs que o embate entre psicologia positivista (entendida como uma ciência natural) e psicologia compreensiva (entendida como uma ciência do espírito) ocorrido na Alemanha do século XX poderia ser resolvido mostrando que explicação e descrição não eram antagônicos, mas complementares. Alguns anos depois, W. Köhler tentará resolver os problemas colocados pela dicotomia objetivo-subjetivo, que subjazem ao conceito de experiência imediata, por meio do conceito de experiência objetiva.

A lição que pode ser retirada dessa coincidência histórica é que, muitas vezes, nos fascinamos com propostas contemporâneas porque não conhecemos a história da psicologia. Nesse sentido, não é raro encontrarmos na história da psicologia propostas mais atuais do que aquelas defendidas no presente.

One Response to Dicotomias na psicologia científica: subjetivo-objetivo

  1. Johnston Gonçalves 28 de Maio de 2015 at 16:27 #

    Talvez a posição mais coerente fosse a não adoção de dicotomias, compreendendo o fenômeno dito subjetivo e psicológico no âmbito de uma coisa só, um indivíduo como um todo . Tal problema é quase superado em um primeiro momento com a psicanálise que, atribui ao comportamento uma relação indireta entre relações homem-mundo, aprendizagem, ao estabelecer seu modelo de inconsciente baseado em id, ego e superego. A não dicotomia do sujeito é adotada com êxito pela teoria behaviorista que trabalha com um sujeito que é o que é devido uma história complexa de aprendizagem e interação com o mundo sem recorrer a eventos psicológicos internos, mas com as proposições do que constituiria tais processos, uma forma em que o psiquismo é estudado sem a metafísica herança platônica e cartesiana.