Insônia e o aparelho psíquico: O operário existente em nós

Trabalho de Conclusão de Curso: Sujeitos da Psicanálise
Cogeae – Coordenação Geral de Especialização, Aperfeiçoamento e Extensão.

Professoras:
Paula R Peron
Alessandra Barbieri
Elizabete Antonelli

Aluna: Cristiane Luzia dos Santos Vaz.

Introdução

O homem passa a maior parte de seu tempo acordado entretido ou engajado com o trabalho, estudo e nas realizações de projetos. Mas, se é importante este dia a dia para a construção de sua identidade é importante também uma boa noite de descanso, não apenas para revitalizá-lo para assim produzir a energia para o longo dia que terá pela frente como para que seja possível o descanso de seu aparelho psíquico tão brilhantemente postulado por Sigmund Freud.

A insônia é a dificuldade de iniciar ou manter o sono, bem como podemos considerar também um sono não reparador, ocasionando assim a fadiga, o cansaço, alterações de humor e até um melhor desempenho profissional além de ocasionar problemas de ordem emocional e afetiva.

Podemos notar que a clínica Freudiana enfrenta grandes transformações, as chamadas histéricas que tiveram o prazer em refutar o divã psicanalítico de Freud e através de métodos como a associação livre e terem a oportunidade de entrar em contato com seu inconsciente e assim trazer a tona conteúdos adormecidos, mas que as impediam de ter uma vida “normal”, hoje buscam na Psiquiatria e através das” pílulas mágicas” a solução para seus problemas, inclusive a insônia.

Podemos dizer que vivemos divorciados de nossas culturas e afastados de nossas histórias pessoais, nos aproximamos a cada dia de um cotidiano meramente racional, onde a Lei que rege todo este movimento diário vai muito além de qualquer teoria postulada por Darwin. As pessoas buscam a similaridade acreditando ser este o modo de vida considerado normal, invalidando qualquer modo possível de subjetividade. E assim buscam através de medicamentos ou novas fórmulas revolucionárias a cura de seus males, estes  que muitas vezes lhes atravessam a alma e encontram-se enraizados em cada espaço de seu inconsciente.
Segundo Pereira, professor na Unicamp (2006), uma boa pílula não ataca os problemas concretos, existenciais. Diante disso torna-se fato a importância de uma terapia que supre a busca almejada de boas noites de sonhos.

Antes mesmo de Freud postular A Interpretação dos Sonhos em 1900 o sonho já tinha sido estudado por algumas civilizações, que interpretavam os sonhos como presságios ou premunições. Psicanaliticamente podemos pensar que o sonho nada mais é do que a vida real levada à fantasia, trazendo consigo conteúdos significativos e até então inconscientes. O que dizer então dos indivíduos que não dormem? Quão é sofrível o seu encontro com conteúdos que teimam em surgir mesmo que “maquiados” e que parecem não ter lógica alguma?
 
O presente trabalho busca a discussão psicanalítica a respeito do sono e nosso aparelho psíquico, tendo como “papel de fundo” o filme O Operário, que tornou possível a discussão de termos apresentados sobre Sonhos, assim como tem o intuito de incitar novos questionamentos e possibilidades de um problema que se torna mais comum na atualidade, a insônia.

O aparelho Psíquico- Discussão Teórica

Em 1900, com a Interpretação dos sonhos, Freud procura descrever sobre sua clínica e as experiências sobre seus pacientes e seus sonhos. Desta forma, postulou que durante o sono conteúdos inconscientes poderiam surgir condensados ou deslocados, ou seja, haveria nos sonhos supostamente sem sentido conteúdos disfarçados de desejos reprimidos em busca de uma elaboração.

Se analisarmos o filme O operário, o protagonista Trevor, já está há um ano sem dormir e definha-se a cada dia, emagrecendo mais e mais. A princípio o que vemos nada mais é além de um comportamento compulsivo, onde lava as mãos, ou o piso do banheiro com uma escova de dente, pelas madrugadas já que não consegue dormir, numa busca desenfreada de alguma interpretação.

Segundo Gevertz (2009) os sintomas compulsivos são maneiras do indivíduo de elaborar um material psíquico indigesto ao seu psiquismo. Tendo por objetivo livrá-lo da angústia trazida por idéias, pensamentos e afetos. Ainda sobre a autora ela nos traz a o que já foi aferida por Freud em sua clínica da neurose, de que o trabalho do psicanalista é propiciar possibilidades da edificação de uma personalidade menos rígida e mais flexível ao invés de possibilitar o aparecimento de sintomas.

No filme nosso protagonista em seu trabalho tem a sensação que  está sendo perseguido, havendo um complô contra ele. E neste desenrolar dos fatos, vemos situações mascaradas e conseguimos fazer um paralelo entre a teoria psicanalítica e a estória.

O protagonista não consegue dormir, como se buscasse o controle de suas ações o tempo todo. Eis, que começa a ver e conversar com um homem, surgindo assim um comportamento esquizofrênico e situações que ocasionam uma série de acontecimentos desagradáveis que o levam até a causar um acidente de trabalho, o que resulta claro no ápice de seu comportamento ansioso, alucinatório e o permite aos poucos lembrar fatos de seu inconsciente que explicam muito de seu cotidiano, o fazendo questionar-se sobre o que seria real do ilusório.

O que nos remete a elaborações e associações assim como ocorre na interpretação de sonhos. Ele mesmo que lutasse para que isso não fosse permitido com o sono, acaba facilitando esta elaboração na busca do real trazendo a tona conteúdos condensado de caráter fálico, pois, nos é abordada a deficiência nos dedos e nos faz pensar se ele fosse nosso paciente em como faríamos uma investigação quanto à dissolução de seu complexo de Édipo, já que seu pai o abandonou quando era criança. Podemos pensar também na garçonete e na figura materna que esta despertava nele.   
   
O filme que nos traz uma série de interpretações ao final, assim como em um final de terapia nos surpreende com todo o percurso transcorrido para chegar à cena original resultante de tantos fatos e tamanha angústia.

O operário nos convida a uma viagem pelo seu inconsciente, passando por suas repressões e seu conteúdo não elaborado de uma culpa eminente que busca a todo o momento suprir a necessidade de encobrir um erro do passado. Vemos que personagens que aparecem no seu cotidiano real ou por ele resignificados, ou seja, personagens pré- determinadas de como serão e o que farão para ele são traços mnêmicos de seu desenvolvimento psíquico. A garçonete que aparece na ficção é a figura da mãe do menino que ele atropelou e não socorreu com traços de sua parenta maternal, trazendo de suas lembranças mais tênues objetos os quais sua própria mãe tinha, como por exemplo, um vaso.
 
O operário com deficiência na mão traz traços de seu caráter e de seu físico antes do acidente, o que nos remete ao seu falo, por causa dos dedos e o que nos liga a sua amiga prostituta que repete a seus ouvidos que ele se ele fosse mais magro não existiria o questionando até mesmo o papel de homem que estaria ali representando para ela. Assim como a partir destas falas representa a sua paranóia, pois segundo Freud (1900) as malformações verbais nos sonhos se assemelham a paranóia, portanto se pensarmos que mesmo sem adormecer faz este movimento elaboratório utilizando de seus delírios podemos então pensar em suas linguagens faladas como resultantes desta paranóia que surge a partir destas condensações e deslocamentos de idéias.

Desta forma, nesta pequena viagem pelo seu inconsciente ele buscou não acreditar na culpa que teria porque tudo foi como se não tivesse acontecido. E foi preciso assim como na cena em que caminha sobre uma fossa em meio aos ratos que chegasse, ao fundo do poço para que se deparasse sobre si mesmo, aprendendo sobre o mundo, as pessoas, mas também se conhecendo como um sujeito que pode vir a mudar seu destino e assumindo as suas escolhas.

Se Trevor conseguisse, ou melhor, se permitisse dormir, teria já trazido toda esta bagagem psíquica anteriormente, segundo Freud a maioria das idéias reveladas em análise, já estão em ação durante o processo do sonho. Daí podemos pensar em todo este seu trajeto mesmo que solitário como uma espécie de analise e o quanto de toda a sua angústia não transitou pelos seus sonhos.

O personagem ao final de sua jornada lembra-se da culpa e assim permite-se dormir. Como se a sua consciência estivesse livre como há muito tempo não sabia como era. As visões se dissolveram como um sonho sem sentido e ele pode entender que não importa para onde vá sua consciência de tudo o que causou não o abandonará.


Conclusão

Como é possível acordar de um pesadelo se não se está dormindo?

O filme nos questiona exatamente isso, o que nos faz refletir sobre a dificuldade da sociedade atual em acordar de seus pesadelos e do mundo em que está inserido uma vez que não se está dormindo.

É preciso cortar as amarras de tudo o que nos foi imposto ou eliminar o que foi injetado em nossas veias subjetivas para que possamos nos responsabilizar por nós mesmos, por nossos destinos e tenhamos consciência de nossas ações.

É o momento que deixemos fórmulas mágicas e passemos a olhar para nós mesmo, assim como Trevor o fez, mesmo que isso nos custe abandonar à aparente tranqüilidade de nossas consciências e que sejamos chamados as nossas razões.

Competem a nós terapeutas a conscientização da importância de nossas ações e de nossa tarefa. Freud em A Interpretação dos Sonhos (1900) já nos chamou ao trabalho quando disse:

¨…Estamos, portanto, diante de uma nova tarefa que não tinha existência previa, ou seja, a tarefa de investigar as relações entre o conteúdo manifesto dos sonhos e os pensamentos oníricos lactentes, e de desvendar os processos pelos quais estes últimos se transformaram naquele…¨.

Destarte devemos reavaliar esta sociedade onde a insônia se faz presente comumente, para que tenhamos mais pessoas bem resolvidas a pessoas que buscam a felicidade nas realizações materiais. Sei que a felicidade é subjetiva e desta forma não há receitas como as de bolo, mas devemos nos aferir mais sobre o que estamos fazendo dos nossos dias. Por que as noites são solitárias para aqueles que as passam diante das janelas ou em frente a televisores? Será que na busca de conhecermos melhor mais e mais pessoas não estamos nos distanciando de quem realmente nós somos?

Desta forma o presente trabalho tem como intuito propagarmos a importância da terapia numa sociedade liberal, onde os jovens têm liberdade de expressão e de ir e vir, mas sociedade esta que também que é discriminalista ao ponto de julgar o que é certo ou não, independente da individualidade de cada um e ditaduralista, onde quem dita às regras é a minoria, embasada em pré- supostos, onde cada vez mais se tem menos tempo para si, pois, o trabalho consome a maior parte do tempo, em pró de um melhor desenvolvimento e uma vida com supostas possibilidades e maiores prosperidades.

Assim, fica a proposta para os tantos psicólogos que temos como colegas de trabalho a sugestão de elaborarmos um projeto com essa massa populacional que tende a insônia para descobrirmos assim novas discussões psicanalíticas e quem sabe elaborarmos novas teorias complementares as já existentes postuladas brilhantemente pelos nossos pensadores psicanalistas

Bibliografia

– Freud, S. Obras Psicológicas Completas. A Interpretação dos Sonhos (I). v. IV. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

– Freud, S. Obras Psicológicas Completas.  A Interpretação dos sonhos e Sobre os Sonhos (II) v. VII. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

– Available from: http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/jornalPDF/ju334/pag09.pdf.
 (21 a 27 de Agosto de 2006).

– Gevertz, S. Material Psíquico Indigesto. Revista Psique,São Paulo, V. 40, 2009.

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