Um retrato da adolescência: Cristiane F. -13 anos- Prostituída e Drogada.

Elisângela Maria dos Santos Silva[1]

Resumo:

A autora, através dos recursos utilizados no filme Cristiane F. -13 anos- Prostituída e Drogada, propõe uma análise do comportamento adolescente da década de 70 em analogia com a contemporaneidade. Fundamentada em Freud, Eric Erikson, Peter Bloss, Arminda Aberastury e Maurício Knobel, discute as manifestações das várias identidades criadas pelo adolescente procurando o esclarecimento à suas sintomatologias bem como a maneira de se ver e tratar o adolescente diante de suas transformações.

[1] Aluna do 3° Período de Psicologia da Faculdade do Vale do Ipojuca- FAVIP- Caruaru P.E.

Década de 70. A Alemanha Ocidental, um país de primeiro mundo, superindustrializado, é considerada o espelho do Capitalismo. Não existia mendigos e nem famintos, mas o número absurdo de crianças e adolescentes que dormiam na rua, se drogavam e se prostituíam tornou-se um fenômeno ao qual a sociedade estaria cética e pouco interessada. Por que tantos menores eram por ela ignorados? O que os levou a se tornarem um “lixo social”?Seria a família de pais violentos, alcoólatras, “trapaceiros” e abandonadores? O lar sujo, sombrio, desumano, sem nenhuma higiene, conforto e lazer? A educação fracassada que não se importava com ninguém, que excluía, não estimulava à vida? A saúde que pouco se importava com a dor do ser humano, que só queria obter lucros sob suas fraquezas? As leis que marginalizavam quem não era marginal, transformando os verdadeiros escárnios da sociedade em “cidadãos”, treinando uma polícia para ser opressora, violenta, imparcial e corrupta? Enfim, o preço do crescimento capitalista é deixar que o futuro dessa sociedade “evoluída” morra antes mesmo dos 20 anos.Qual o significado do adolescente para esta sociedade? Qual o significado de ser um adolescente para este “indivíduo prematuro”?

Que motivos tem a sociedade para não modificar as suas rígidas estruturas, para empenhar-se em mantê-las tal qual, mesmo quando o indivíduo muda? Que conflitos conscientes e inconscientes levam os pais a ignorar ou a não compreender a evolução do filho? O problema mostra assim o outro lado, escondido até hoje debaixo do disfarce da adolescência difícil: é o de uma sociedade, às vezes, frente à onda do crescimento, lúcida e ativa, que lhe impõe a evidência de alguém que quer atuar sobre o mundo e modifica-lo sob a ação de suas próprias transformações. (ABERASTURY, 1981, p.16).

O adolescente é um ser social e individual. Possui suas dúvidas, angústias e desejos. Quer ter a liberdade de sentir amor e ódio, dependência e independência. Quer mostrar que sabe das coisas e busca aprender mais e mais. Quer construir sua própria família um dia, sem deixar de ter seus pais ou simplesmente quer aproveitar a vida da forma mais normal e naturalmente possível.Para Erikson “a adolescência é um período fundamental no desenvolvimento do eu, já que as mudanças físicas, psíquicas e sociais levarão o adolescente a uma crise de identidade cuja resolução contribuirá para a consolidação da personalidade adulta” (ERIKSON apud CALL, 2004 p.313).

Peter Bloss nos mostra que a adolescência é uma fase onde ocorrerá um segundo processo de individuação, ou seja, aos invés de os pais se aproximarem emocionalmente dos seus filhos, eles irão se distanciar, dando espaço para que possam se aproximar aos iguais, criando seus vínculos afetivos. Se as figuras parentais estão internalizadas, incorporadas à personalidade do sujeito, então este pode começar seu processo de individualização.Entre o desenvolvimento do eu, a crise de identidade de Erikson e a individualização e processo de construção dessa identidade de Bloss, tentaremos trazer a luz ao fenômeno punk, da Alemanha dos anos 70, retratada no filme Cristiane F. -13 anos- Prostituída e Drogada.Christiane Vera Felscherinow, (Cristiane F.) uma adolescente normal e comum, feriu o orgulho capitalista alemão quando trouxe à tona a sua história e a de muitos outros adolescentes e crianças que se prostituíam para sustentar seu vício na mais escravizante das drogas, a Heroína.Christiane cresceu num bairro pobre, dentro de um ambiente violento. Seu pai era muito agressivo e também alcoólatra. Como forma de compensação dos terríveis momentos que passara com a presença de seu pai, sua mãe dá a Christiane uma vida sem regras, sem responsabilidades.A Sound era a boate mais badalada em Berlim. Era fascinada em conhecê-la. Aos 13 anos, com ajuda de sua amiga Kessi, falsificou a data de nascimento em sua carteira escolar para poder entrar na boate. Lá, Kessi lhe apresentou seu namorado, Mich. Ele já era um dependente de drogas pesadas. Morreu meses depois.

Foi na Sound que conheceu seus amigos Axel, Babsi, Atze, Zambie, Stella e seu futuro namorado, Detlef. Atze só falava em drogas e nas melhores formas de “voar”. Concordavam entre si quando viam a Heroína como um suicídio. Ninguém a tinha experimentado, mas sabia que usando uma vez não a largariam mais.Christiane vivia num mundo errado, com os amigos errados, mas não podia mudar em nada esta situação. Por falar em amigos, eles não possuíam fidelidade entre si, não possuíam vida. Estavam ligados pelas drogas, somente.

Babsi, 14 anos, tornou-se manchete de jornais por ter sido a mais jovem vítima da Heroína. Era filha adotiva de um famoso pianista alemão. Aos 13 anos já era viciada, prostituta, já tinha sido espancada e estuprada por bêbados. Quando Babsi morreu Christiane nem se sensibilizou tanto (já era algo que esperavam pra quem usa heroína). Pouco tempo antes elas tinham combinado em deixar o vício.Christiane inalou heroína pela primeira vez após assistir ao show de David Bowie (seu grande ídolo). A comparação, feita por Atze, da sensação de um orgasmo a levou ao pico (heroína injetável).O zoológico era um lugar de pessoas deprimentes, acabadas. Cada jovem que ali se encontrava não tinha mais nada que o assemelhasse a um adolescente normal, nem física e nem mentalmente. Esqueciam de sua própria existência e a presença de iguais já não significava nada. Eram vistos como a fruta podre da sociedade, esquecidos e ignorados. Os pais sempre foram figuras ausentes.Será que todos aqueles jovens possuíam uma mesma formação familiar?

O que sabemos é que vêem de lares desfeitos por separações, violência doméstica, alcoolismo, drogas. A única semelhança entre estes é que, enquanto os filhos se acabavam os pais nada faziam. Eram passíveis ou fracos nas decisões.Esses adolescentes eram os que mais baixo desceram na sociedade. Se em algum dia nunca tiveram uma posição, desta vez tornaram um problema ou coisa vergonhosa de uma sociedade mergulhada numa podridão.Diante desse relato é muito difícil situá-los na busca de um eu, de uma individuação, porque foram mais além. Seria muito reducionista considerar que o problema da adolescência está somente na sua relação consigo, com os pais e com a sociedade, de uma forma panorâmica.Por que estes jovens entravam tão cedo na dependência química, quando existem tantos meios à busca de satisfação?O adolescente no início de suas descobertas físicas se vê confuso com relação a sua sexualidade e seu relacionamento com os pais. Ele precisa encontrar alguém que o explique essa vivência.

A sociedade surge ao determinar que, os pais não podem ser um objeto sexualmente aceito (atos incestuosos). Dessa forma ele vai procurar no outro a oportunidade de liberar estes desejos de maneira que o assemelhe a seus pais. Freud nos dirá que este processo se dará através da transição dos desejos infantis aos desejos genitais. Mas, para que o adolescente encontre este objeto de amor, ele precisará elaborar o luto pelos pais. Caso isso não ocorra, seu processo evolutivo ficará em atraso. O ego neste momento encontra-se na posição de defesa, contra os impulsos inconscientes do id. Se eles não conseguem escapar à realidade, sua carga será voltada para outras atividades que irão liberar a sua energia. Neste caso, a compensação desses desejos estará na busca do prazer por outros meios.Poderíamos dizer, portanto, que a entrega às drogas seria uma compensação, de uma falta? Uma busca de um prazer proibido pelos pais, pela sociedade, pela moratória social?A falta de diálogo entre pais e filhos mostra o medo que os pais têm de que seus filhos se distanciem deles e a falta de preparo na construção adulta deles próprios que, por muitas vezes consideram seus filhos adolescentes como pequenas crianças indefesas.

A “não permissão de crescimento” determinada pelos pais, atrapalha muitas vezes o processo de individuação de seus filhos, tornando-os assim eternos dependentes das figuras parentais. Mas, e quando o adolescente entra nesta fase de dependência e independência dos pais, e eles simplesmente ignoram suas necessidades? Talvez aconteceria o que aconteceu a Christiane quando sua mãe a tornou uma garota sem limites e responsabilidades por causa de um desajuste na família.Uma vez que o adolescente toma sua atitude com relação ao que irá fazer, mesmo sem saber por que está fazendo ou se será o melhor a fazer, a sociedade passa a interferir também na sua tomada de decisões. Geralmente a participação social se apresenta mais como punidora do que construtora de saberes e adultos formados. Enquanto as crianças e adolescentes se acabavam na prostituição, na marginalidade e nas drogas dos subúrbios alemães, nada era feito para que este quadro mudasse. Muito pelo contrário, revelavam uma imagem deturpada destas vítimas como sendo; os rebeldes, problemáticos, detestáveis e desprezados.

Poderíamos arriscar a pergunta: Não seria culpa desta sociedade reprimidora o fato destes jovens se entregarem ao pior que lhes é oferecido, quando poderiam estar usufruindo da intelectualização como fonte de liberação de energia de toda sua libido? A busca da morte, (ao ingerir Heroína) não seria a busca de uma nova vida talvez? Ou não seria uma forma silenciosa de se isolar do mundo quando este não o aceita como alguém em construção, com necessidades de apoio e incentivo para o crescimento maturacional (físico, mental e social)?

O ser humano tem se decepcionado constantemente com a imposição das regras que ele mesmo construiu e não consegue cumprir. O futuro de uma nação ilude-se constantemente quando percebe que a humanidade é hipócrita ao exigir dele, uma postura que nem mesmo eles conseguem exercitar. O mal estar da civilização, está no fato de que o ser humano entrou em uma angústia profunda ao descobrir que, àquilo que foi criado para o “bem de todos” está servindo para a sua própria destruição. E destruir-se a si mesmo é também não importar com a destruição do outro. É isso que está acontecendo com o adolescente que, é impedido de viver seus conflitos, seus questionamentos, seus direitos de possuir prazeres e desejos (mesmo que impossíveis de se realizarem). O adolescente que entra numa sociedade bagunçada, como uma criança sem pais e sem perspectivas de uma vida futura melhor é o adolescente que vemos em Christiane, Babsi, Axel, Detlef, Atze e muitos outros.Na busca do conhecimento da “completude” dos conflitos adolescentes temos aqui, a obrigação de trazer o mestre Freud que, em seu texto O mal estar na civilização (1929, p. 2) traz a reflexão sobre o que seria um sentimento oceânico […] “Trata-se de um sentimento que ele gostaria de designar como uma sensação de ‘eternidade’, um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras- ‘oceânico’, por assim dizer”. Este sentimento é algo que existe no próprio questionamento da existência do eu. Qual o propósito da vida do homem? Talvez o fato de se ter um propósito, mesmo indefinível, seja um estímulo a vida. Mas, essa busca pode estar em algo positivo ou negativo para ele, porém, a sua busca é sempre evitar o desprazer nas coisas e, neste caso, o desprazer é algo que o ser humano está mais suscetível.

A infelicidade surge através de nosso corpo (a não resistência a uma patologia, o ideal estético, a velhice, dependência química, etc.), do mundo externo (as necessidades físicas, de consumo, sociais, a relação com as normas e costumes de uma sociedade) e do homem (a relação afetiva com o outro). A infelicidade é algo que o ser humano está mais suscetível a experimentar. Como forma de defesa de um sofrimento, o indivíduo tende a se isolar, buscando o prazer no seu interior através de estímulos orgânicos e físicos. No caso de Christiane, a busca do prazer nas drogas a tornou dependente de uma satisfação simplesmente orgânica. O uso de drogas traz um prazer inacabável enquanto o organismo está em transe. É uma sensação individual que não se encontra no mundo externo. Este tipo de defesa de um sofrimento pode acarretar outros tipos de sofrimentos (inconscientes) como a angústia, melancolia e depressão. A dependência química reduz a capacidade de o indivíduo crescer como ser humano tornando a sua ausência um motivo de insatisfação e dor. 

A felicidade é fruto de uma satisfação que por muito tempo permaneceu represada. Se o desejo pelo prazer acontece de forma constante, a felicidade já não possui uma força intensa e sim um pequeno fio de satisfação.  A felicidade localiza-se também na busca da beleza. Beleza esta que não tem um lugar definido, mas cabe como um impulso inibido. Beleza e atração são mecanismos do amor, atributos do objeto sexual. Se o indivíduo não consegue a satisfação através de seus instintos, por outras vias ele irá buscar a felicidade e o aniquilamento dos instintos. Irá buscar, quem sabe, um prazer transcendental. Nos casos menos extremos não há a busca do aniquilamento, mas há a busca de controle através da realidade. A sociedade trás este controle quando determina, por exemplo, a escolha do objeto sexualmente aceito. O sacrifício da satisfação sexual, imposto pela sociedade, é um tanto doloroso ao indivíduo principalmente quando, na substituição do objeto de prazer ele não encontra uma satisfação.

 Outra técnica para afastar o sofrimento reside no emprego dos deslocamentos de libido que nosso aparelho mental possibilita e através dos quais sua função ganha tanta flexibilidade. A tarefa aqui consiste em reorientar os objetivos instintivos de maneira que eludam a frustração do mundo externo. Para isso, ela conta com a assistência da sublimação dos instintos. Obtém-se o máximo quando se consegue intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes do trabalho psíquico e intelectual. (FREUD, 1929, p.11).

Aspectos mais intensos nos mostram também a busca de uma satisfação ilusória, fruto da imaginação. São as satisfações que o artista busca na ascensão da arte, na criação de algo que faça esquecer a realidade. Realidade esta que, em outro processo mais exacerbado fará com que o homem busque a satisfação através de um remodelamento da mesma.    

O indivíduo aplica constantemente esforços na tentativa de evitar o sofrimento e conquistar a felicidade, e não caberia numera-los desde que são tantas as formas de manifestar este desejo, mas, a arte de viver seria uma das manifestações mais presentes na sociedade, pois a imagem que ela nos traz é de uma busca pela felicidade mesmo nos momentos mais difíceis e, o amor, ocupa uma posição privilegiada de amenizador e de conforto diante da dor.O amor é uma ponte de deslocamento de libido construído nos processos mentais internos e direcionado ao mundo exterior. Diferente do amor narcísico, voltado ao próprio ego, a relação que ele terá com o meio será de uma busca favorável de satisfação para si. O fato de amar e se amado torna o amor centro de tudo, e uma das manifestações mais efetivas de sua presença vem do prazer sexual que ele oferece fornecendo assim um ideal de felicidade.

O lado negativo dessa busca de felicidade através do amor é que o indivíduo torna-se tão indefeso e dependente dele que, pensar na perda torna-se algo doloroso. […] ”É que nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão desamparadamente infelizes como quando perdemos o nosso objeto amado ou o seu amor…” (1929, pág 13). No relacionamento amoroso infeliz, pode-se buscar a satisfação em outra pessoa.

Um narcisista autosuficiente irá buscar satisfação nos processos mentais internos (individual).Na adolescência são típicas as manifestações de amor. Posso dizer até, que são mais intensas, pois se voltam para o prazer genital – que oscila entre o auto-erotismo, de caráter masturbatório e manipulador genital, à heterossexualidade,  início da atividade sexual genital -,  e o prazer de possuir um objeto de amor. Digamos que a existência dos dois são associadas e diferenciadas nesta fase pois, os interesses são voltados para diversos fins. Desde que, seu objeto de amor, traga-lhe o prazer e a satisfação sexual, este será uma presença constante em sua vida, principalmente, porque sua característica, como adolescente, é o fato de que está passando por um período de transição desta fase para a fase adulta e, como necessita de algo que firme seu luto pelos pais, será neste objeto que irá se apoiar como forma de suprir satisfatoriamente esta perda.E a religião? A moratória Social?

O que elas vêm nos oferecendo e oferecendo a estes adolescentes? A religião não oferece escolha, adaptação entre ela e o mundo real. A realidade é distante do sentimento oceânico religioso de maneira que o indivíduo sente-se intimidado nas suas escolhas. […] “A religião restringe esse jogo de escolha e adaptação, desde que impõe igualmente a todos o seu próprio caminho para a aquisição da felicidade e da proteção contra o sofrimento. Sua técnica consiste em depreciar o valor da vida e deformar o quadro do mundo real de maneira delirante – maneira que pressupõe uma intimidação da inteligência…” (1929, pág 14). Neste ponto, o adolescente será um extremo religioso ou um extremo ateu. Nas suas tentativas de consolar o ego pela suas perdas e frustrações, uma figura divina pode significar uma saída mágica ou um ateísmo ativo pode se transformar numa reivindicação, numa atitude defensiva e compensadora.

Ambos, com suas diferenças possuíram um ponto em comum ao se tratar deste adolescente. Está no fato de que ele já não é mais criança. Sua identidade infantil foi quebrada e seus conflitos neuróticos irão surgir nos dois lados.Com relação a estes conflitos, Erikson dirá que eles originam-se no contato social, primeiro, com a família, que é a mais próxima e a que mais facilmente trará as influências na conduta do adolescente e em seguida, a sociedade em si, que intervem muito na sua conflitiva. O mundo adulto hostiliza esse adolescente em virtude de todas essas situações conflitivas que ele passa transferindo para ele uma atitude paranóide e moralista.

A sociedade, mesmo manejada de diferentes maneiras e com diferentes critérios sócio-econômicos, impõe restrições à vida do adolescente. O adolescente, com a sua força, com a sua atividade, com a força reestruturadora da sua personalidade, tenta modificar a sociedade que, por outra parte, está vivendo constantemente modificações intensas. Tendo consciência da alteração que significa o que afirmo, é possível dizer que se cria um mal-estar de caráter paranóide no mundo adulto, que se sente ameaçado pelos jovens que vão ocupar esse lugar  e que, portanto, são reativamente deslocados. O adulto projeta no jovem a sua própria incapacidade em controlar o que está acontecendo sócio-politicamente ao seu redor e tenta, então, deslocalizar o adolescente. (ABERASTURY, 1981, p.53).

Vejamos agora, diante destes aspectos do ser humano, como o adolescente se sente vivenciando todo o mal estar que cotidianamente o homem, formado, vive dentro de seu lar, no seu trabalho, no meio social. Enfim, se para nós, adultos “construídos” já é difícil manter a moratória imposta sobre nossos desejos, que dirá para um adolescente, em formação, que efervesce querendo liberar toda sua energia, seus desejos, que incompreensível aos seus, e aos nossos olhos, estão reprimidos numa caixinha pronta a explodir.

É por isso que, ao pensar em escrever este texto, remontei ao passado não muito distante, de nossa civilização. Se antes já se existia uma sociedade repressora, que tentava regular os relacionamentos sociais, dando liberdade a cada indivíduo para manter um vinculo afetivo socialmente aceito, a dificuldade deste indivíduo, de se inserir nesta sociedade, dava-se ao fato de que ele não conseguia livrar-se completamente de seu libido para adotar as normas sociais. O homem não podia possuir uma sexualidade, não podia ser agressivo. Seria, senão completamente, quase todo reprimido. Esta é uma realidade que apontamos ainda nos dias atuais. O ser humano tem se desapontado cada dia mais com esse processo civilizatório.

O adolescente, da década de 70, que procurou o prazer nas drogas e no álcool, que brigou com seus pais, que criticou a religião ou foi um extremista cristão, é o adolescente de hoje, que também está sendo reprimido, também está passando naturalmente por suas mudanças e infelizmente, seus pais, ainda não sabem disso e nem o conhecem o bastante porque também não o conheceram, não o viram e nem o ouviram quando foi um adolescente.

Poder aceitar a anormalidade habitual no adolescente, vista desde o ângulo da personalidade idealmente sadia ou da personalidade normalmente adulta, permitirá uma aproximação mais produtiva a este período da vida. Poderá determinar o entender o adolescente desde o ponto de vista adulto, facilitando-lhe seu processo evolutivo  rumo à identidade que procura e precisa. Somente quando o mundo adulto o compreende adequadamente e facilita a sua tarefa evolutiva o adolescente poderá desempenhar-se correta e satisfatoriamente, gozar de sua identidade, de todas as suas situações, mesmo das que, aparentemente, têm raízes patológicas, para elaborar uma personalidade mais sadia e feliz. (ABERASTURY, 1981, p.59).

Concluo com a idéia de que, quebrar estas projeções do passado seria um ótimo começo para a facilitação da relação entre gerações diferentes e para a evolução dessa e de outras gerações que virão. Mesmo sabendo que um sofrimento longo e árduo de um indivíduo não desapareça instantaneamente acredito que, paulatinamente, os indivíduos vão se localizando, encontrando-se a si mesmos neste espaço e, este encontro permitirá um primeiro e novo encontro do adolescente com sua personalidade.     

Referências Bibliográficas:
 
Eu, Cristiane F.-13 anos- drogada e prostituída. Direção: EDEL, Ulrich,  Flashstar Home Vídeo,1981.

FREUD, Sigmund; (1929). Mal-estar na civilização. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. vol. XXI.

ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Maurício. Adolescência Normal: um enfoque psicanalítico.  Porto Alegre: Artmed, 1981.

COLL, César et al. Desenvolvimento psicológico e educação: psicologia evolutiva. 2 ed. Vol.1 Ed. Artmed, 2004.

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