Fracasso no emprego pode ser depressão, diz psiquiatra; leia trecho

A depressão deve se tornar a doença mais comum do mundo no prazo de 20 anos, superando o câncer e até doenças cardíacas. O alerta, feito em setembro pela OMS (Organização Mundial da Saúde), desperta o interesse não só da comunidade científica e dos profissionais de medicina e de psicologia. Esse mal cada vez mais contemporâneo prejudica famílias e empresas devido aos custos com tratamentos e às perdas de produção no emprego.

A depressão deve se tornar a doença mais comum do mundo no prazo de 20 anos, superando o câncer e até doenças cardíacas. O alerta, feito em setembro pela OMS (Organização Mundial da Saúde), desperta o interesse não só da comunidade científica e dos profissionais de medicina e de psicologia. Esse mal cada vez mais contemporâneo prejudica famílias e empresas devido aos custos com tratamentos e às perdas de produção no emprego.

Mas como identificar uma depressão se quem sofre tende a negar a presença do problema? Procurar informações técnicas, precisas e confiáveis sobre os sintomas é um dos caminhos antes de marcar uma consulta com um especialista. É preciso ter em mente que a depressão pode ser a face de algum transtorno de humor, como a bipolaridade.

No livro "Enigma Bipolar: Conseqüências, Diagnóstico e Tratamento do Transtorno Bipolar", o psiquiatra Teng Chei Tung usa uma linguagem simples, voltada para o público leigo, para descrever a depressão bipolar e dar orientações para enfrentar as angústias provocadas pelas instabilidades, além de fornecer exemplos reais de pacientes.

Leia abaixo trecho do livro.

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

Alguém que teve depressão e que perde o emprego precisaria recomeçar a vida procurando um novo emprego. Essa pessoa sai de uma fase de muito baixo auto-estima, muita insegurança e muito pessimismo e se vê obrigada a começar de novo, do nada. Nesse momento, é fundamental o apoio da família, dos amigos e, se possível, de psicoterapia, pois necessita sair do fundo do poço sob o olhar depreciativo e preconceituoso de toda a sociedade.

Nas depressões moderadas ou leves, o prejuízo é mais sutil, fazendo seus portadores não conseguirem perceber que as coisas estavam dando errado por causa da depressão. Em geral, conseguem continuar trabalhando, mas seu rendimento cai; faltam ao trabalho com mais freqüência e apresentam mudança no relacionamento com os colegas, pois podem ficar mais irritados, mais isolados, mais ameaçados pelos chefes e pelos colegas. Quem tem depressão percebe que, ao ficar menos eficiente, passa a ficar para trás em relação aos outros profissionais com quem trabalha, tendo, portanto, menor chance de ser promovido na carreira profissional, além de estar mais sujeito a ser despedido.

Essa percepção de estar perdendo a "corrida", a competição, leva as pessoas a ficarem ansiosas, o que acaba atrapalhando ainda mais o rendimento, formando-se daí um círculo vicioso. Todo esse processo pode ocorrer sem que ninguém perceba que tudo começou com o quadro depressivo; ao contrário, a pessoa fala que ficou depressiva por causa das dificuldades do trabalho. Se houvesse a consciência de que a depressão poderia ser o ponto de partida de todos os problemas profissionais, seria mais fácil cortar o mal pela raiz, tratando a depressão antes de ela causar tanto estrago.

É provável que a maioria das pessoas que se vêem fracassadas profissionalmente esteja sofrendo, na realidade, as conseqüências de uma depressão, e sequer tenham consciência disso.

Tratamento psicológico, atitudes positivas e otimismo são fundamentais para reverter essa situação desfavorável. É ainda necessária muita paciência, pois leva tempo para provar a todos, inclusive para o próprio paciente, que a recuperação realmente ocorreu, que ela voltou a ser aquela pessoa eficiente e produtiva.

Os prejuízos das fases hipomaníacas são discretos, e muitas vezes os pacientes se recusam a aceitar que foram prejuízos. Eles podem tentar flertar com o chefe; comprar coisas caras e desnecessárias, criando dívidas que levam meses ou anos para serem pagas; se envolver em empreendimentos arriscados que acabam dando errado; brigar com pessoas por quase nada e perder amizades. Tudo isso poderia ser justificado como erros pessoais, ou empolgação, ou atribuir-se o erro a outras pessoas.

O que as pessoas ao redor do paciente hipomaníaco enxergam nessa fase é uma pessoa exagerada e inadequada, até estranha, mas por vezes engraçada, que não seria muito diferente daquele vizinho ou colega encrenqueiro. E acabam culpando o paciente pelas bobagens que fez, perdendo aos poucos a confiança que tinham nele.

Já para os casos de pacientes em fases maníacas, todas as pessoas acabam tendo uma impressão de que o paciente ficou enlouquecido, fora de controle, e dificilmente voltaram a respeitá-lo, muito menos a confiar nele, em situações normais. Porém, quando melhora, tem o ônus de enfrentar a vergonha das coisas completamente inadequadas que fez (por exemplo, sair pelado na rua) e ainda tentar reconquistar a confiança dos familiares e dos amigos que restaram, além da dos patrões desconfiados.

Muitos pacientes que têm crises de mania freqüentes não conseguem mais arranjar trabalho na mesma área que atuaram antes, acabando por aceitar trabalhos de nível técnico inferior, às vezes ficando desempregados, ou recebendo auxílio-doença do governo.

A família costuma ser o porto seguro da maioria das pessoas. Quando os problemas da vida começam a apertar, e o indivíduo sente que não vai agüentar, que precisa de um apoio, voltar para o lar quase sempre é a solução mais natural. O carinho e a compreensão da mãe, a segurança do pai, o companheirismo dos irmãos, todos esses sentimentos são o que as pessoas esperam ao voltar para casa ao se sentirem fragilizadas.

No transtorno bipolar, esse tipo de solução é muito comum. Uma mulher no pós-parto que apresenta depressão quase sempre acaba pedindo a companhia da mãe, o que ninguém estranha, qualquer um acha natural. Já um executivo de uma grande empresa que fica deprimido e volta a morar com os pais, sentindo-se tão inseguro que não consiga ficar em casa sozinho em nenhum momento, talvez não recebe o mesmo nível de compreensão da família que no caso anterior. Portanto, a reação da família quando uma pessoa fica depressiva depende do papel que cada pessoa assume nela.

Fonte: BOL Notícias

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