A droga do estupro. Uma Lenda Urbana

Uso um subtítulo errado. Com a Internet não existe mais fronteiras para lendas e mitos. Chamo a atenção para material que circula em e-mail há cerca de dez anos. Neste momento parece que houve um recrudescimento na mídia desta suposta droga.

 
Trata-se do Progesterex, que seria um fármaco usado em veterinária para esterilizar animais de grande porte. Consultando a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), observa-se que não existe tal produto no mercado veterinário. Nem como Marca Registrada e nem como Genérico.
 
O que existe, de fato, é o hormônio progesterona, que mantém o estado gravídico na mulher e nas demais fêmeas de mamíferos cuidadas por veterinários. Se alguém em especial inventou este nome, Progesterex, o fez com grande má fé valendo-se da similaridade dos nomes.
 
Conta-se pela Internet vários casos semelhantes de jovens que tomaram alguma bebida que lhes foi oferecida, e que a partir daí, nada mais se lembram. Ficam desaparecidas. Quando encontradas, em geral em Motéis, estão atordoadas e com sinais de de violação sexual.
 
Uma delas que teria feito Corpo de Delito, teria em sua vagina sêmen de oito estupradores diferentes.
 
Onde entra o Progesterex. Ele seria um esterilizador permanente em mulheres logo após de ingerido. Com isso o estuprador não teria de se preocupar com possível gravidez. Mentira.
 
E a amnésia? Aqui também entram as lendas e, principalmente, a desinformação do grande público com relação aos fármacos de nossa área, a Psiquiatria. Para indivíduos muito sensíveis aos ansiolíticos e hipno-indutores, ou que, por nunca terem usado, não têm nenhum grau de tolerância desenvolvido a estes fármacos, seu efeito poderá ser aumentado, especialmente se for ingerido com álcool. Sem qualquer risco para a saúde do paciente.
 
O coquetel preconizado pela Internet como a "droga do estupro" tem a fórmula: Progesterex + Rophynol. Estas duas drogas não existem. Mais uma vez a mente macabra que bolou este embuste (hoax em inglês) chegou perto. O fármaco que existe, produzido pelo Laboratório Roche, tem Marca Registrada de Rohypnol.
 
Trata-se do genérico com o princípio ativo Flunitrazepam, um excelente hipno-indutor, que usado na dose recomendada de 2mg, leva a um sono reparador, mesmo nos insones mais graves. Na minha prática diária de consultório e hospitais, nunca tive um caso de amnésia com este produto, quando usado na dose correta.
 
Nos USA este fármaco foi proibido de ser fabricado pelo fato dos jovens terem descoberto que tomado em grandes doses, não só não faz dormir, como traz um estado alterado de consciência muito semelhante ao de inúmeras drogas ilícitas. Um estado de torpor, de "paz" interior, de alheamento do meio e vai por aí. Imediatamente, a eficiente FDA (Food and Drug Administration) dos USA tirou-o do mercado. Assim, nós psiquiatras, acabamos por perder mais um importante fármaco de nosso arsenal terapêutico.
 
Porém, depois de algum tempo da proibição do fármaco nos USA, felizmente o Rohypnol voltou a ser comercializado no Brasil na dose de 1mg. Costumo prescrevê-lo na dose de dois comprimidos ao deitar, quando indicado.
 
Isso acontece, geralmente nos Estados Depressivos Típicos com insônia rebelde, até que o anti-depressivo ministrado em conjunto, comece a fazer o efeito terapêutico desejado. Com isso, desaparece a depressão e todo o seu cortejo sintomático, em especial, a insônia. Em seguida, já podemos eliminar os ansiolíticos e hipno-indutores.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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