A Crise do Cuidado sob a Perspectiva de Gênero

“Chama-se Crise a um momento de ruptura
no funcionamento de um sistema,
a uma mudança qualitativa
em sentido positivo ou em sentido negativo,
a uma virada de improviso.”
BOBBIO

Segundo Carrasco (2003), nossa sociedade atualmente vive sob duas lógicas contraditórias: o trabalho de mercado e trabalho do cuidado. O primeiro esta relacionado ao trabalho remunerado, e por assim dizer, público, característico de nossa sociedade capitalista. Já o cuidado, é uma atividade de sustentabilidade da vida humana, de âmbito privado (doméstico), e que mesmo se caracterizando por ser uma função elementar e essencial do qual se depende, é uma atividade desvalorizada justamente por não ser remunerada.

Um grande exemplo deste fato pode ser apontado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/2007) que verificou: em 5,9 milhões de famílias chefiadas por idosos, na maioria mulheres, 2,2 milhões de netos – assim como outros parentes –, eram sustentados por estes. Não podemos nos esquecer que, estas mulheres além de trabalharem pelo sustento de seus lares, essas chefes de família são também trabalhadoras do lar. O que se pode ver é que não é “só” o trabalho remunerado que as mulheres precisam realizar, mas, quase sempre, as atividades do lar estão a cargo destas.

Dentre as conseqüências desta crise do cuidar, Carrasco (2003) aponta os adoecimentos físicos e psíquicos das mulheres assim como diminuição dos níveis de fecundidade, devido à forçosa dupla jornada. "Estas informações são de grande relevância, pois dizem respeito a assimetrias marcantes e persistentes entre homens e mulheres e que impactam muito diretamente a qualidade de vida desses grupos. Está se falando aqui também da reprodução das gerações futuras. […] Esta ambivalência se deve à forma como as convenções de gênero neste campo estão, ainda, fortemente arraigadas e necessitam de uma transformação mais profunda" (PNAD, 2007, p. 27- 28).

Sabemos que as convenções de gênero são diretamente influenciadas tanto pela mídia como pelo poder público. E sendo essa uma realidade que aflige as mulheres há um longo tempo, poderíamos supor que tais injustiças fossem denunciadas ou ao menos reprimidas por estes meios. Contudo, não é o que acontece. Para Sawaia (2005, p. 42), “nesse contexto, o Estado, isentando-se dos deveres de prover o cuidado dos cidadãos, sobrecarrega a família, conclamando-a a ser parceira da escola e das políticas públicas”. Pode-se entender o quanto às representações estereotipadas de homens e de mulheres contribuem com uma ideologia do cuidado.

Devido à persistência de visões calcadas do modelo cartesiano, ainda hoje, é comum a conceituação diferenciada entre sexo e gênero. Contudo, é preciso compreender estas duas questões como uma unidade, isto é, como a sexualidade seria biológica se não acontecesse num determinado contexto social? (SAFFIOTI, 2004).

O conceito de gênero pode ser definido como uma organização socialmente construída a respeito da diferença sexual (SCOTT, 1995). Do mesmo modo, Curado (2008) identifica que o construcionismo social, compreende a questão de gênero como uma construção que serve para dar significado as relações sociais. Enfim, gênero se refere a como às pessoas são sexualmente representadas em sua sociedade.

Conforme Peixoto (2005), o cuidado foi construído como posição própria das mulheres, sendo raros os homens que o fazem. Isto porque o cuidar feminino é algo esperado, ou melhor, esta é uma atividade que foi naturalizada por parte de nossa sociedade, inclusive pelos familiares, que delegam às mulheres, os cuidados a todos os que dele necessitam, tanto aos mais jovens, quanto aos mais velhos.

Esta realidade dos trabalhos domésticos; leiam-se trabalhos não-remunerados; como algo feminino, ficou bastante evidente conforme a PNAD (2007): 89,5% das mulheres cotidianamente as praticavam em comparação a 50,4% dos homens, sendo a maior disparidade na média de horas trabalhadas semanais (22,2 horas para as mulheres e 9,6 para os homens).

Outra forma de compreendermos estas diferenças é olhando-as como resultantes das atividades de produção e reprodução. Conforme mencionado anteriormente, as atividades de produção foram posicionadas como atividades masculinas, e as de reprodução como femininas, ou seja, preponderou desta forma, um gênero sobre o outro. Tanto as primeiras quanto as segundas, são atividades necessárias e fundamentais à vida humana. Contudo, pelas leis capitalistas, sendo os trabalhos de cuidado consumíveis em si mesmos, estes não são valorizados (BILAC, 1995; CARRASCO, 2003).

Para Bilac (1995), a instituição família, no capitalismo, é enxergada como a responsável pela reprodução da força de trabalho. Para a autora, estas diferenças do trabalho quanto ao gênero, são produtos da divisão social do trabalho, mais especificamente, de uma divisão sexual do trabalho.

Romanelli (1995) expõe que a dimensão do cuidado, assim, acaba ficando oculta sob a naturalização dos chamados “papéis sociais”. O dito popular “era para ser assim mesmo”, trata-se de uma regra própria do poder, pois somente ocultando parte de si mesmo que o poder pode ser tolerado, e seu desenvolvimento será maior conforme seu ocultamento. (FOUCAULT, 1977, p. 83).

Cremos que agora seja mais fácil entendermos por que o cuidado é um tema tão invisível em nossa sociedade de consumo. Discutir sobre um assunto tratado como óbvio, mas que na realidade esta sobre grossas camadas de culturalização, e por assim dizer, debaixo de relações de poder, é torná-lo insuportável, ao ponto de urgir sua revisão. O diálogo a respeito de cuidado remete-nos a respeito de relações de gênero que seguramente implica em compreenderem-se como se dão suas relações de poder.

Cuidado-gênero-poder acaba por torna-se um diálogo necessário. Desconstruindo este esquema torna possível a mudança de perspectiva. Ao contrário, permanecendo tais pressupostos, a injustiça social também permanece, devido a própria repressão necessária ao poder. Ignorar a discussão sobre a responsabilidade da atividade do cuidar também pode ser entendido como uma forma de repressão. A sustentabilidade humana é um tema que perpassa toda a sociedade, e como tal, termina por culminar no âmbito do Estado, pelas políticas públicas.

Referências:

BILAC, E. D. Família: algumas inquietações. In: CARVALHO, M. do C. B. de. (org.) A família contemporânea em debate. São Paulo: EDUC/Cortez, 1995. p. 29-38.

CARRASCO, C. A sustentabilidade da vida humana: um assunto de mulheres? In: A produção do Viver: ensaios de economia feminista. NALU, F.; NOBRE, M. (orgs). São Paulo: SOF, 2003.

CURADO, J. C. Gênero e os sentidos do Trabalho Social. Campo Grande: UCDB, 2008.

FOUCAULT, M. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições do Graal, 1977.

PEIXOTO, C. E. Solidariedade familiar intergeracional. In: ARAÚJO, C.; SCALON, C. (Orgs.) Gênero, Família e Trabalho no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005. p. 225-240.

PESQUISA NACIONAL DE AMOSTRA POR DOMICÍLIOS – PNAD 2007. Demografia e Gênero. Brasília, v. 3, n.11, outubro, 2007. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/comunicadopresidencia/08_10_07_Pnad_PrimeirasAnalises_N11demografia.pdf. Acesso em: 08/12/2008.

SAFFIOTI, H. I. B. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2004. – (Coleção Brasil Urgente).

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