A perspectiva do Construcionismo Social

Segundo Gergen (1985), os estudos sócio-construcionistas focam-se nos processos cotidianos, ou seja, como as pessoas falam, percebem e experienciam o mundo em que vivem. A postura básica desta perspectiva é ser crítica à naturalização dos fenômenos sociais. As teorias de cunho essencialista, geralmente intrínseco nas mais diversas disciplinas, realizam suas investigações sem questionar seus objetos, concebendo-os como algo pronto.
O primeiro movimento da pesquisa construcionista é justamente questionar este fenômeno: “Cuando alguien habla de la construcción social de X tienes que preguntar ¿X = qué? ” (HACKING, 2001, p. 118). Entendendo X como um fenômeno social qualquer, o construcionismo vai justamente questionar se realmente este precisaria ter existido (SPINK, 2004).

O construcionismo social também pode ser definido como uma perspectiva de observação e análise da realidade a partir de uma visão sócio-histórica, negando qualquer essência nos fenômenos humanos. Contudo, para compreendermos melhor esta perspectiva, faz-se necessário, primeiramente, começarmos por sua localização.

Epistemologicamente, o construcionismo social faz parte das teorias Pós-Estruturalistas. Como o próprio nome diz, desenvolve-se como uma crítica, ou mudança de paradigma, sucedendo ao movimento denominado Estruturalismo. Grosso modo, este último, de inspiração mecanicista, supunha que a realidade podia ser apreendida desde que se conseguisse compreender a lógica e essência de suas estruturas. Presumindo que as estruturas possuíssem unicidade e coerência, não se preocupava com as bases materiais e históricas da realidade (LYE, 1997).

Muito dos críticos do Estruturalismo não se consideram necessariamente Pós-Estruturalistas. Deve-se a isto que o Pós-Estruturalismo não deve ser compreendido como uma “escola” ou “teoria”, mas como um conjunto de posições teóricas com entendimentos comuns (LYE, 1997).

Conforme Lye (1997), este é marcado pela rejeição de conceitos universalizantes e essencialistas, alegando serem respostas simplistas para problemas complexos, negando a materialidade e a ideologia existente nos problemas humanos. Deus, natureza feminina e patriarcado, quando utilizados como únicas e exclusivas respostas aos problemas sociais, são alguns exemplos.

O Pós-Estruturalismo possui em seu bojo a auto-reflexão dos significados e sentidos existentes nos discursos, sejam estes complexos ou simples, científicos ou do cotidiano. Entende que os seres humanos são discursivamente construídos nas práticas cotidianas. Práticas estas efetivadas numa realidade fragmentada, difusa e complexa (LYE, 1997).

Além da epistemologia, não é possível entendermos o movimento construcionista sem enxergarmos sua conjuntura: a Modernidade Tardia. Esta é a conceituação preferível para ser usada em lugar do termo pós-modernidade, uma vez que nos faltam subsídios para nomearmos nossa própria era (SPINK, 2004).

Segundo Spink (2004), apóiam-se três grandes debates da Modernidade Tardia para a compreensão do Construcionismo Social: globalização, individualização e reflexividade.

Giddens (1994) define globalização como uma modificação espaço-temporal que possibilita ações a longas distâncias. Tendo seus maiores propulsores os recentes e globais meios de transporte e de comunicação, por exemplo, as linhas aéreas intercontinentais e a internet, respectivamente, a globalização propicia enormes modificações nas experiências cotidianas. Esta pode ser entendida também como a intercomunicação das relações e eventos sociais mesmos distantes geograficamente. Trata-se de uma revolução da experiência social em nível contextual: algo feito aqui pode ser sentido lá e vice-versa  Apesar de relativamente recente, o fenômeno da globalização vem alterando profundamente a forma como os indivíduos interagem (GIDDENS, 1994).

Sobre a individualização, Spink (2004) expõe que esta provavelmente seja a maior particularidade da modernidade tardia e que os processos de destradicionalização são seus elementos mais marcantes. A individualização se trata assim, da ruptura com as tradições. Giddens (1994) explica que devido a noções neo-liberalistas, surgiram equívocos ao categorizar o individualismo como uma busca desenfreada de lucro e como contrário do sentido de coletividade . O autor defende que o individualismo como auto-interesse além de impulsionar o lucro de mercado, expande a reflexidade social.

O terceiro conceito para a compreensão da modernidade tardia é a reflexividade: “propriedade das ações segundo a qual as práticas descrevem e constroem ao mesmo tempo” (IÑIGUEZ, p. 101, 2004). Como a sociedade sofre destradicionalizações diariamente, como efeito, garante-se autonomia aos sujeitos para filtrarem as informações que recebem. A sociedade atual entende que a busca por preservar o passado sem reflexão é inconcebível. A tradição defendida de forma tradicional é vista como fundamentalismo irrefletido, e como tal, doentio. Logo, reflexividade também é sinônimo de um maior desenvolvimento humano (GIDDENS, 1994).

Como consequência do fenômeno denominado "giro linguístico" tornaram-se comuns as revisões crônicas e críticas que os conceitos usuais, tanto científicos como do cotidiano, sofrem de igual modo. A título de exemplo podemos citar a ética em pesquisas: sabe-se que, se algum pesquisador utilizar em seus estudos, conotações que tendem ao preconceito, mesmo este sendo alguém de renome internacional, será duramente criticado, seja pelos próprios colegas cientistas, seja pela sociedade em geral. Algo impensável há décadas atrás.

Segundo a perspectiva do construcionismo social, o conhecimento só pode ser concebido contextualmente, isto é, o conhecimento humano é algo construído tão somente no coletivo. O construcionismo entende que a realidade dos sujeitos deve ser concebida numa visão sistêmica e dinâmica, a dicotomia “mundo interno/ mundo externo” é então abolida (BERGER; LUCKMANN, 1995; VIGOTSKI, 1999; NOGUEIRA, 2001).

O ser humano, como ser gregário que é, só deve ser pensado como um ser em interação e segundo o construcionismo, a mais importante manifestação interacional é a linguagem (BERGER; LUCKMANN, 1995; SPINK, 2004; IÑIGUEZ, 2004).

Faz-se importante também diferenciarmos linguagem do conceito de discurso. Linguagem “é a própria condição de nosso pensamento, ao mesmo tempo em que é meio para representar a realidade” (IBÁÑEZ, 2004, p. 46). Sendo um veículo seguramente notável de expressão dos conteúdos significativos dos sujeitos, também dá o entendimento necessário para compreender seus círculos de interação. O discurso passa a ser entendido assim, como o conjunto lingüístico que sustenta e estimula estas relações sociais.

A linguagem e o discurso passam a ser vistos, não apenas uma forma de expressão desarticulada e solta, mas como um intercâmbio onde as articulações do poder e do saber se manifestam (IÑIGUEZ, 2004; FOULCAULT, 1977). Este também é um dos motivos pelo qual construcionismo social inclui em seus estudos os processos linguísticos do cotidiano.

Outra importante característica desta perspectiva é seu caráter antiessencialista. Não há essência nos fatos humanos, pois estes são criados no contexto de suas interações: “questionando os pressupostos do essencialismo, a teoria construcionista social deslocou o foco da atenção da pessoa para o domínio social” (NOGUEIRA, 2001, p. 146). Isto significa que, diferentemente de outras teorias que naturalizam os fenômenos criados pelo próprio homem, o Construcionismo critica os modelos tradicionais, problematizando-os com investigações em suas raízes sócio-históricas (BOCK, 2004; CURADO, 2008).

Os fenômenos sociais são então problematizados “[…] buscando sua origem, seu processo, os efeitos que gera, a quem beneficia, a quem prejudica, por que aparece em determinado momento e não em outro” (IÑIGUEZ, 2004, p. 127). Assim, o construcionismo critica princípios ou verdades que já estão pressupostos.

O conceito de posição também é outra importante crítica à Psicologia tradicional. Segundo Davies e Harré (1990), o termo posição social procura substituir algumas dificuldades referente ao uso da noção de papel social. Segundo estes autores, o termo papel é de cunho transcendental, um naturalismo. Conforme Spink (2004, p. 81): “A noção de papéis tem um ranço de essencialismo. Já a noção de posicionamento é absolutamente fluída: as posições de pessoa são posições evocadas no processo de interanimação dialógica que pontua nossas interações”. Ou seja, se compreendermos que os seres humanos são produtos de suas interações sociais, através das práticas discursivas realizadas, não há como os enxergarmos com um papel fixo, pronto e acabado.

O conceito de posicionamento é relevante à Psicologia Social, pois dá margem as múltiplas e paradoxais situações cotidianas, além de abarcar a capacidade dinâmica e transformadora que os sujeitos possuem (DAVIES; HARRÉ, 1990; CURADO, 2008; SPINK, 2004). Quando dizemos que alguém pertence a certo status econômico, social ou político significa dizer basicamente como este alguém se encontra posicionado.

Por fim, a postura Construcionista é relativista. Para Edwards (2004), esta é posição imparcial que o pesquisador precisa buscar quanto à “verdade” ou “certeza” dos fatos expostos pelos objetos investigados. "É difícil muitas vezes sairmos dessas construções e olhá-las de fora porque estamos habituados a elas e fomos socializados nessas matrizes. Mas a postura construcionista tem que ser relativista por princípio: não aceitando isso, não se está fazendo uma pesquisa construcionista" (SPINK, 2004, p. 28).

É provável que dentre todas estas características citadas, o relativismo seja a mais difícil de ser levada em conta. Isto porque ao assumir esta perspectiva, toda referência de pensamento dicotômico, ainda tão comum nos dias de hoje, simplesmente não funcionará adequadamente.

Referências:

BERGER, P.; LUCKMANN, T. A construção social da realidade. 12ª ed. Petrópolis: Vozes, 1995.

BOCK, A. M. B. A perspectiva sócio-histórica de Leontiev e a crítica à naturalização da formação do ser humano: a adolescência em questão. Caderno Cedes, Campinas, vol. 24, n. 62, p. 26-43, abril, 2004. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v24n62/20090.pdf. Acesso em: 20/11/2008.

BOCK, A. M. B.; FURTADO, O.; TEIXEIRA, M. L. Psicologias: uma Introdução ao Estudo da Psicologia. 8ª ed. São Paulo: Saraiva, 1995.

_______________________. A perspectiva sócio-histórica na formação em psicologia. Petrópolis: Vozes, 2003.

CURADO, J. C. Gênero e os sentidos do Trabalho Social. Campo Grande: UCDB, 2008.

DAVIES, B.; HARRÉ, R. Posicionando: a produção discursivas de “selves”. In: Journal for the Theory of Social Behavior, v. 20, n.1, p. 43-63, 1990. Tradução: Mary Jane P. Spink (abril, 1996).

EDWARDS, D. Psicologia Discursiva: Teoria da Ligação e método como um exemplo. In: IÑIGUEZ, L. Manual de Análise do Discurso em Ciências Sociais. Petrópolis, Vozes, 2004.

FOUCAULT, M. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições do Graal, 1977.

GERGEN, K. J. Movimento do Construcionismo Social na Psicologia Moderna. American Psychologist, v.40, n.33, p. 266-275, março, 1985.

GIDDENS, A. Admirável Mundo Novo: o novo contexto da política. Caderno CRH, Salvador, n. 21, p. 9-28, julho, 1994. Disponível em: www.cadernocrh.ufba.br. Acesso em: 25/02/2009.

HACKING, I. ¿La construcción social de que? Barcelona : Paidós, 2001.

LYE, J. Some Post-Structural Assumptions. 1997. Disponível em: http://www.brocku.ca/english/courses/4F70/poststruct.php. Acesso em: 10/03/2009.

NOGUEIRA, C. Um Novo olhar sobre as relações sociais de Gênero. Perspectiva feminista crítica na psicologia social. Tese de doutoramento. Universidade do Minho. Braga, 2001.

SPINK, M. J. Linguagem e Produção de Sentidos no Cotidiano. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.

SCHULTZ, D. P.; SCHULTZ, S. E. História da psicologia moderna. São Paulo: Cultrix, 2005.

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