As origens da família segundo o materialismo histórico

Segundo o Diccionario Básico de Antropología (CAMPO, 2008), família é definida como: "grupo social básico, que presenta vínculos afectivos, de parentesco y/o económicos. El número de miembros puede variar […] y estos no se encuentran necessariamente habitando el mismo hogar".
Cotidianamente, seja pela mídia, pelas religiões, por pesquisas científicas ou mesmo no senso comum, ouvimos apelos pela “defesa da família” ou por sua “manutenção”. Entretanto, antes de sairmos “defendendo” ou “consertando” a família, parafrasearemos Hacking (2001) nos perguntamos: que é a família?

Sendo uma invenção humana, esta não deve ser vista como uma ordem biológica ou natural, como muitas vezes é disseminado erroneamente pela mídia e por outros meios. Trata-se, sobretudo, de uma organização dos seres humanos produzida sócio-históricamente.

Partindo das considerações que Marx e Engels (1980) fizeram sobre a ideologia alemã, quando criticaram duramente os hegelianos pela ingenuidade com que concebiam a realidade, vemos que a mesma crítica ainda pode se aplicar à ideologia e à psicologia brasileira. Afirmamos isto pela enxurrada de expressões e premissas ideológicas que são constantemente legadas a instituição familiar.

Como resultante, compreensões descontextualizadas ou calcadas na fantasia acabam por dificultar o entendimento necessário pondo mais lenha na fogueira ideológica, o que pode inclusive retroceder na evolução das políticas públicas.

De acordo com o materialismo-histórico, a família se origina com a necessidade de organizar seus modos de produção. Segue-se um resumo sucinto de seus principais pontos sócio-históricos.

A primeira forma de organização é a tribal, estrutura familiar que se confunde com a social. A hierarquia se estabelece com os patriarcas sobre os membros, para mais tarde, com o aumento da população, estabelecer-se sobre os escravos (MARX; ENGELS, 1980).

A palavra família origina-se desta forma do latim "famulus" que significava literalmente escravo doméstico. Expressão concebida pelos romanos para nomear esta nova organização social surgida entre suas tribos quando foi introduzida a agricultura e a escravidão legal. Assim, se inicia o segundo momento de organização, com as Cidades-Estado: as famílias tribais se reúnem numa única cidade, no início de forma comunitária, evoluindo posteriormente para a propriedade privada. Neste período se desenvolve a oposição entre campo e cidade, o mesmo ocorrendo entre os Estados, que passam a representar o interesse de seus cidadãos (MARX; ENGELS, 1980).

Com novas composições se desenvolvendo, um novo momento sócio-histórico surge: a propriedade por ordens ou feudal. Basicamente no feudalismo, os principais meios de produção, isto é, as famílias vassalas, se organizaram em torno das famílias feudais (MARX; ENGELS, 1980).

Para estes autores, estes três fatos históricos são fundamentais para se compreender como a sociedade esta organizada atualmente. Inicialmente a produção tinha fins de satisfazer as necessidades materiais, uma vez satisfeitas, novas necessidades surgiram, evoluindo até as reproduções de ordem social.

Muito da concepção de família atual, tem raízes justamente no período feudal que teve como hegemonia o pensamento da Igreja Católica. Contudo, a família, tal como a conhecemos hoje, é certamente devido a ascensão da burguesia. Desde então, com a disseminação do modelo burguês a quase toda a sociedade, grande parte das pessoas se esqueceram sua origem (SPINK, 2004; ARIÈS, 1978).


Referẽncias

ARIÈS, P. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978.

CAMPO, A. A. L. Diccionario Básico de Antropología. Quito: Ediciones Abya-Yala, 2008.

HACKING, I. ¿La construcción social de que? Barcelona : Paidós, 2001.

SPINK, M. J. Linguagem e Produção de Sentidos no Cotidiano. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.

MARX, K.; ENGELS, F. (1845) A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1980.

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