Família Real ou Ideal? As Avós e os Novos Arranjos Familiares Contemporâneos

A família, sendo uma invenção humana, com o tempo foi adquirindo feições de naturalidade, como algo inato ao homem. Carrasco (2003) aponta que este fato se deve ao pacto social que foi estabelecido durante o século XX, baseando-se em duas grandes noções: a ideia de um emprego estável e seguro – provisão de toda a renda –, pressupostamente ligado à atividade masculina e ao modelo familiar patriarcal já consolidado – mulher como dona-de-casa, provedora dos cuidados e afetos no lar e totalmente dependente financeiramente.
Surgem então, duas visões sobre o que seja a família: a família pensada ou idealizada e a família vivida ou real. A “família ideal” pode ser entendida como modelo patriarcal, monogâmico, previsto numa união em amor e estabilidade entre seus elementos: pai, mãe e filho (os). Já a “família real”, designa-se como qualquer grupo social, unido por sangue ou não, unido por vínculos afetivos e econômicos (CAMPO, 2008; ROMANELLI, 1995; MELLO, 1995; SZYMANSKI, 1995).

A desconexão entre este modelo familiar e a que realmente existe constitui no estigma da “família desorganizada”. Este discurso pronto do que é família, amplamente divulgado pela mídia, enraizou-se no imaginário social e leva a crença de uma família padrão, calcada na harmonia e na ordem. Contudo, faz-se o alerta: “de que família estamos falando, de que país, de que estrato social, de que momento. […] Os grandes esquemas conceituais e explicativos revelam-se falhos quando confrontados com a realidade” (MELLO, 1995, p. 53).

Outra forma de entendermos as posições  familiares é partindo pela diferenciação que há entre as famílias hierárquicas e as igualitárias. Vitale (1995), afirma que as famílias hierárquicas são aquelas que seus membros são posicionados claramente em termos de funções, idade e sexo. Nas famílias igualitárias, as diferenças são percebidas e respeitadas e os indicadores sexuais e etários diminuídos, o que não quer dizer que não existam conflitos, pois sempre existiram em qualquer relação social.

Apesar de que a família continua sendo o intermédio entre o indivíduo e a sociedade (SAWAIA, 2005), foi o tempo em que família se resumia na triangulação pai, mãe e filhos. Devido a uma série de mudanças sócio-históricas, muitos outros desenhos podem ser formados.

Dentre algumas mudanças significativas nas famílias da atualidade constam: as configurações familiares contemporâneas (monoparentais, divorciadas/separadas e recasadas); a gravidez na adolescência; dificuldades financeiras; envolvimento em situações ilícitas pelos pais; ou ainda incapacidades física e/ou psicológica, bem como a morte destes; e a inserção das mulheres no mercado de trabalho (ARAÚJO; DIAS, 2002, VITALE, 2005; BRAGA, 2006; COUTRIM et al., 2007) Além disso, há também a questão do aumento da expectativa de vida, o que vem a facilitar o convívio entre as gerações.

A monoparentalidade, também chamada produção independente, em que geralmente um dos pais – na maioria das vezes a mãe – assume o cuidado pela(as) criança(as), constitui uma destas mudanças (MACEDO, 2008). Conjuntamente, esta ocorre nas famílias atuais, pelo aumento progressivo dos processos de separação e divórcio. Tendo a união dos pais biológicos a um novo padrasto ou madrasta, muitas crianças rejeitando ou sendo rejeitadas por esta nova situação, acabam convivendo com suas avós (ARAÚJO; DIAS, 2002).

Do mesmo modo, a gravidez na adolescência constitui uma das questões mais discutidas no que se refere à família na contemporaneidade. Sabemos que a gravidez constitui uma mudança sem precedentes à mulher e conseqüentemente a todo o sistema familiar que acaba sendo confrontado tanto afetiva como materialmente a esta nova situação. Segundo Peixoto (2005), este cuidado acaba, quase sempre, sobrando para os avós, mais precisamente às avós.

Convém ainda salientarmos a posição da mulher e suas relações de trabalho de mercado. Atualmente se entende que o fenômeno da inserção das mulheres no mercado de trabalho seja a maior responsável pelas modificações em todo o âmbito familiar. A necessidade das mães trabalharem, aliando-se a dificuldade de se pagar por babás e a escassez de creches públicas, acaba por tornar as avós a escolha mais viável. (BILAC, 1995; ROMANELLI, 1995).

Independentemente de como se organizam as famílias, sabe-se que as transformações no contexto social afetam profundamente as relações familiares. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD /2007), três grandes revoluções sociais são dignas destas transformações: a) revolução da contracepção, que é a dissociação entre sexualidade e reprodução humana; b) revolução sexual, ou seja, a separação de sexualidade e casamento e; c) revolução da posição social, que são as mudanças tradicionais de gênero.

Referências:

BILAC, E. D. Família: algumas inquietações. In: CARVALHO, M. do C. B. de. (org.) A família contemporânea em debate. São Paulo: EDUC/Cortez, 1995.

BRAGA, J. S. Avós Guardiões: Um estudo sobre as circunstâncias em que os avos assumem a guarda dos netos e por que o fazem. Monografia Serviço Social. Universidade Católica Dom Bosco. Campo Grande: 2006.

CAMPO, A. A. L. Diccionario Básico de Antropología. Quito: Ediciones Abya-Yala, 2008.

CARRASCO, C. A sustentabilidade da vida humana: um assunto de mulheres? In: A produção do Viver: ensaios de economia feminista. NALU, F.; NOBRE, M. (orgs). São Paulo: SOF, 2003.

CARVALHO, M. do C. B. de. (org.) A família contemporânea em debate. São Paulo: EDUC/Cortez, 1995. p. 29-38.

COUTRIM, R. M. da E.; et al. O que os Avós Ensinam aos Netos? A influência da Relação Intergeracional na Educação Formal e Informal. In: XIII Congresso Brasileiro de Sociologia – 29 de maio a 1º de junho de 2007. Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP, Recife (PE). Disponível em: http://www.sbsociologia.com.br/congre … %20-%20Paper_SBS_2007.pdf. Acesso em: 11/12/2008.

PESQUISA NACIONAL DE AMOSTRA POR DOMICÍLIOS – PNAD 2007. Demografia e Gênero. Brasília, v. 3, n.11, outubro, 2007. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/co … 07_Pnad_PrimeirasAnalises
_N11demografia.pdf. Acesso em: 08/12/2008.

MACEDO, M. dos S. Mulheres chefes de família e a perspectiva de gênero: trajetória de um tema e a crítica sobre a feminização da pobreza. Caderno CRH. Salvador, v. 21, n. 53, pp. 385-399, maio, 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ccrh/v21n53/a13v21n53.pdf. Acesso em: 24/12/2008.

MELLO, S. L. de. Família: perspectiva teórica e observação factual. In: CARVALHO, M. do C. B. de. (org.) A família contemporânea em debate. São Paulo: EDUC/Cortez, 1995.

ROMANELLI, G. Autoridade e poder na família. In: CARVALHO, M. do C. B. de. (org.) A família contemporânea em debate. São Paulo: EDUC/Cortez, 1995.

CARVALHO, M. do C. B. de. (org.) A família contemporânea em debate. São Paulo: EDUC/Cortez, 1995. p. 73-88.

SAWAIA, B. B. Família e afetividade: a configuração de uma práxis ético-política, perigos e oportunidades. In: Família: redes, laços e políticas públicas. ACOSTA, A. R.; VITALE, M. A. F. (Orgs.). São Paulo: Cortez, 2005. p. 39-52.

SZYMANSKI, H. Teoria e “Teorias” de famílias. In: CARVALHO, M. do C. B. de. (org.) A família contemporânea em debate. São Paulo: EDUC/Cortez, 1995. p. 23-28.

VITALE, M. A. F. Socialização e família: uma análise intergeracional. In: CARVALHO, M. do C. B. de. (org.) A família contemporânea em debate. São Paulo: EDUC/Cortez, 1995. p. 89-96.

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