História Social do Cuidado no Brasil Colonial

Sabemos que até o século XIX, o uso de mão de obra escrava no Brasil servia para todos os fins. As atividades dos negros eram utilizadas para todos os serviços braçais, inclusive aos cuidados dos filhos dos senhores: “Se o recém nascido pertence a uma classe distinta, raro é que a própria mãe o amamente: este cuidado é incumbido usualmente a uma mulata ou preta” (FERDINAND DENIS, 1816, p. 213 apud LEITE, 1997, p. 29).
Como a atividade de cuidar dos filhos exigia um grande esforço por parte das senhoras, rapidamente a utilização das amas-de-leite se tornou muito comum, inclusive com o aluguel destas (MAUAD, 2000; LEITE, 1997).

Segundo Ariès (1978), esta tradição de entregar o cuidado dos filhos a outra pessoa remonta a Europa do século 17, mesmo com os alertas dos educadores para que estes cuidados fossem feitos pelas próprias mães. Aliás, quanto mais alta a classe social, mais distante era o convívio das crianças com seus pais (MAUAD, 2000).

Isto significa que era algo bastante comum, filhos de senhores e de escravos conviverem juntos e compartilharem os mesmos espaços. Uma explicação para esta “trégua democrática” pode ser verificado por um comentário retirado da época: “estabelece-se entre eles uma familiaridade que, forçadamente, terá de ser abolida na idade em que um deve dar ordens, […] enquanto o outro terá de trabalhar e obedecer […] de forma a tornar o jugo da escravidão menos penoso” (JOHN MAWE, 1809, p. 91 apud LEITE, 1997, p.31).

Nesse meio tempo, os pequenos escravos serviam para entreter as senhoras e seus filhos. Contudo, a partir dos sete anos a classe social falava mais alta: os filhos dos senhores seguiam para os estudos e a dos escravos para o trabalho (DEL PRIORE, 2000).

A rotina das escravas parturientes não era menos penosa: em questão de dias após o parto estas já deviam retornar ao duro trabalho (SCARANO, 2000; CIVILETTI, 1991). Podemos nos perguntar: e quem cuidava destas crianças? Muitas tinham de permanecer amarradas junto ao corpo de suas mães durante o trabalho; outras, caso fosse necessário à venda da mãe, iam literalmente como um bônus; mas tanto no primeiro caso como no segundo podiam acabar sendo abandonadas, e isto geralmente era feito na Roda dos Expostos (DEL PRIORE, 2000).

A Roda dos Expostos teve origem nos antigos monastérios europeus. Recebeu este nome devido à roda que geralmente havia numa parte do muro, que separava os monges do restante da sociedade, por onde se podiam deixar doações. Com a miséria imperando nestes lugares, os pais logo viram nestes uma esperança de melhor cuidado a seus filhos. Por fim, as Rodas acabaram se disseminando por quase todas as colônias e transformou-se em verdadeiros depositários de crianças abandonadas (LEITE, 1997).

Outra alternativa aos cuidados destas crianças era a presença dos familiares, já que, necessitando a mãe voltar ao trabalho “o pequenino fica entregue a negras velhas ou a meninos de seis a sete anos, que lhes dão de comer” (ADÈLE TOUSSAINT-SANSON, 1851, p. 17 apud LEITE, 1997, p. 32).

Góes e Florentino, também salientam o amparo familiar deste período: este “incluía irmãos, primos, avós ou padrinhos que viviam fora do seu plantel” (2000, p. 185).

Referências:

ARIÈS, P. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978.

CIVILETTI, M. V. P. O Cuidado às Crianças Pequenas no Brasil Escravista. Dissertação de Mestrado em Psicologia Social. Universidade Gama Filho. Rio de Janeiro: 1991. Disponível em: http://www.uff.br/. Acesso em: 16/01/2009.

DEL PRIORE, M. História das Crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 2000.

GÓES, J. R. de; FLORENTINO, M. Crianças escravas, crianças dos escravos. In: DEL PRIORE, M. História das Crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 2000. P. 177-191.

LEITE, M. L. M. A Infância no Século XIX segundo memórias e livros de viagem. In: FREITAS, M. C. de (org). História Social da Infância no Brasil. Cortez Editora, 1997. p. 17-50.

MAUAD, A. M. A vida das crianças de elite durante o Império.  In: DEL PRIORE, M. História das Crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 2000. P. 137-176.

SCARANO, J. Criança esquecida das Minas Gerais. In: DEL PRIORE, M. História das Crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 2000. P. 107-136.

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