Forma como percebemos o tempo depende da memória, diz estudo

Aquela velha pergunta alarmante da manhã seguinte à virada do ano ("Ai, o que foi que eu fiz ontem à noite?") – pode até parecer agradável em comparação àquela que pode vir em seguida, "Ai, o que exatamente eu fiz com o ano passado?" Ou: "Espere um minuto – por acaso uma década acabou de passar?"

Aquela velha pergunta alarmante da manhã seguinte à virada do ano ("Ai, o que foi que eu fiz ontem à noite?") – pode até parecer agradável em comparação àquela que pode vir em seguida, "Ai, o que exatamente eu fiz com o ano passado?" Ou: "Espere um minuto – por acaso uma década acabou de passar?"

Sim. Em algum ponto entre a trigonometria e a colonoscopia, alguém deve ter pressionado o botão de avançar. O tempo pode marchar, caminhar, voar ou engatinhar, mas no início de janeiro sempre parece que ele relampejou como um convidado bravo para o jantar, deixando conversas inacabadas, relacionamentos ainda travados, maus hábitos ainda vivos, metas inalcançadas.

"Acho que, para muitas pessoas, nós pensamos em nossos objetivos, e se nada de mais aconteceu com eles, então de repente parece que foi ontem que os definimos", disse Gal Zauberman, professor-associado de marketing da Wharton School of Business.

Porém, a sensação do tempo passando pode ser muito distinta, segundo Zauberman, "dependendo do que você pensa e como pensa".

Na verdade, os cientistas não têm certeza de como o cérebro acompanha o tempo. Uma teoria afirma que ele tem um grupo de células especializadas em contar intervalos de tempo; outra diz que uma ampla gama de processos neurais age como um relógio interno.

De qualquer forma, segundo estudos, este marcapasso biológico não possui um grande alcance de intervalos longos. O tempo não parece desacelerar com um gotejar numa tarde vazia e acelerar quando o cérebro está envolvido em pensamentos desafiadores. Estimulantes, incluindo a cafeína, tendem a fazer pessoas sentirem que o tempo está passando mais rápido; trabalhos complexos, como calcular seus impostos, podem parecer se arrastar por mais tempo do que realmente tomam.

E acontecimentos emocionais – uma separação, uma promoção, uma viagem para fora do país – tendem a ser percebidos como mais recentes do que na realidade, em meses ou até anos.

Para resumir, segundo alguns psicólogos, as descobertas sustentam a observação do filósofo Martin Heidegger, de que o tempo "persiste meramente como uma consequência dos eventos ocorrendo dentro dele".
Agora, pesquisadores acreditam que o contrário também pode ser verdade: se muito poucos eventos vêm à mente, a percepção do tempo não persiste; o cérebro encurta o intervalo que passou.

Num estudo publicado na edição de dezembro do jornal Psychological Science, Zauberman liderou uma equipe de pesquisadores que testou a memória de alunos universitários para diversos novos eventos, incluindo a indicação de Ben S. Bernanke para presidente do Federal Reserve (33 meses antes do estudo) e a decisão de Britney Spears de raspar os cabelos (20 meses). Em média, os alunos subestimaram quanto tempo havia passado em três meses, segundo o estudo.

Não foi uma completa surpresa. Num experimento clássico, um explorador francês chamado Michel Siffre viveu numa caverna por dois meses, se afastou do ritmo de noite e dia e fabricou relógios artesanais. Ele ressurgiu convencido de que havia se isolado por apenas 25 dias. Deixado por conta de seus próprios meios, o cérebro tende a condensar o tempo.

No entanto, a forma pela qual ele fixa o tempo relativo de eventos depende da memória, diz o novo estudo. No ponto em que os estudantes no estudo recordaram desenvolvimentos relacionados ao evento original – a complicada vida amorosa de Britney, digamos, ou as intervenções de Bernanke na economia –, esse evento parecia muito distante. Numa série de experimentos, os pesquisadores testaram memórias pessoais e memórias de vídeos vistos no laboratório. O padrão se manteve: quanto mais vinham à mente desenvolvimentos intervenientes relacionados, mais distante parecia o evento original.

"As pessoas têm dificuldade em compreender a passagem do tempo", disse Zauberman, "e, para entendê-la, junte-a a algo que compreendemos" – o descobrimento de eventos. Seus coautores eram Jonathan Levav, da Columbia University, Kristin Diehl, da University of Southern California, e Rajesh Bhargave, da University of Texas, em San Antonio.

Em trabalhos anteriores, pesquisadores descobriram uma dinâmica similar funcionando no julgamento de pessoas para intervalos que duram apenas momentos. Estímulos relativamente pouco frequentes, como flashes ou sons, tendem a elevar a velocidade do marcapasso interno do cérebro.

Num nível óbvio, esse tipo de descoberta oferece uma explicação para o motivo pelo qual as crianças de outras pessoas parecem crescer tão mais rápido que as nossas. Pais envolvidos são todos muito cientes de cada soluço, lábio cortado e primeiro passo com seus próprios filhos; contudo, ver a criança de um primo com intervalos de anos, sem memórias intervenientes, encurta o tempo.

Em outro nível, a pesquisa sugere que o cérebro tem mais controle sobre sua própria percepção do tempo passando do que as pessoas podem imaginar. Por exemplo, muitas pessoas têm a sensação de que foi ontem que fizeram suas resoluções de ano novo; o ano voou e eles não começaram a escrever aquele romance ou começaram as aulas de pilates. Entretanto, foi exatamente porque eles não agiram com seus planos que o tempo pareceu escorrer pelos dedos.

Por outro lado, a nova pesquisa sugere que focar em objetivos ou metas que foram realmente trabalhados durante o ano – tendo eles sido ou não rotulados como "resoluções" – dá ao cérebro a oportunidade de preencher o ano que passou com memórias e tempo percebido.

A mente é perfeitamente capaz de interpretar um ano – ou década – que foi "avançado", como algo diferente de um dissipar de oportunidades pelo autoaperfeiçoamento. Em outra série de experimentos, publicados no Psychological Science, psicólogos descobriram que, quando pessoas eram levadas a acreditar que havia se passado um tempo maior do que pensavam, elas deduziam que provavelmente estavam se divertindo mais. A percepção elevava seu divertimento com música e suavizava a chatice de realizar tarefas menores.

"Uma coisa que a psicologia social nos ensinou, por várias vezes, é que a mente é um maravilhoso dispositivo de criação de sentimentos, ela absorve informações ambíguas ou confusas e as simplifica de acordo com seus princípios", disse Aaron M. Sackett, psicólogo da University of St. Thomas, em Minnesota, e principal autor do estudo.

"Nesse caso, ao sentir o tempo abreviado, mas sabendo que ele é inflexível, temos que nos apoiar em nossas próprias crenças para dar sentido à diferença. E uma delas é 'O tempo voa quando estamos nos divertindo'".

Um ano como 2009 certamente não foi apenas diversão. Mas parte dele certamente foi – quer melhor desculpa para negligenciar as tristes exigências do autoaperfeiçoamento?

Fonte: BOL Notícias

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