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Diálogos entre Oliver Sacks e B.F. Skinner: uma introdução

Antes de qualquer coisa faz-se necessário apresentar ao leitor os dois autores que serão explorados neste primeiro de uma série de artigos, a saber: Oliver Sacks e B.F. Skinner.

Oliver Sacks nasceu em 1933, em Londres, tornando-se membro do Albert Einstein College of Medicine, de New York, em 1965. Passou a lecionar neurologia e a atuar na área da psiquiatria na Columbia University onde, atualmente, ocupa o posto de Artista, que lhe permite transitar livremente entre os departamentos, ensinando, conduzindo seminários, atendendo pacientes, etc.
    
Com a publicação de Enxaqueca (1970), iniciou uma brilhante carreira de escritor, com uma série de livros que logo se tornaram best-sellers, tais como Tempo de Despertar (1973), Com uma perna só (1984), O homem que confundiu sua mulher com um chapéu (1985), Vendo vozes: uma viagem ao mundo dos surdos (1989), Um antropólogo em Marte (1995), A ilha dos daltônicos (1997), Tio Tungstênio: memórias de uma infância química (2001) e Alucinações Musicais (2007). Nessas obras, que descrevem histórias de pessoas portadoras de distúrbios neurológicos e perceptivos, Oliver Sacks transmite ao leitor todo o seu fascínio pela criatividade da mente humana ao lidar com suas próprias percepções do mundo, geradas pelas suas afecções.
   
Já o segundo autor abordado nesse artigo, B.F. Skinner, foi um dos mais renomados psicólogos do século XX. Ao introduzir na área da Psicologia uma nova maneira de estudar o fenômeno psicológico, Skinner se contrapôs ao modelo de Psicologia vigente na sociedade, iniciando uma verdadeira luta contra o status quo para provar a validade de sua visão de homem e de mundo.
   
Para este autor, o objeto de estudo da Psicologia deveria ser o comportamento direta ou indiretamente observável, sendo que para estudar tal objeto ele desenvolveu bases metodológicas para o estudo do comportamento por meio de pesquisas com organismos não humanos em laboratório.
   
Porém, ao contrário do que afirmam seus críticos, o foco dos estudos de Skinner não estava nos organismos não humanos. Ao longo de sua extensa produção, Skinner não perdeu de vista o comportamento humano, do mais simples ao mais complexo, do comportamento individual ao comportamento em grupo.
   
Como ele próprio afirma em sua principal obra, Ciência e Comportamento Humano (1953), era sua preocupação estender a análise científica do comportamento individual para a compreensão e explicação de fenômenos sociais e testar a aplicabilidade dos conceitos e princípios formulados com base na Análise Experimental do Comportamento para explicar o comportamento de pessoas em grupo.
   
Utilizando-se desses conceitos e princípios, Skinner procurou explicar como o indivíduo se relaciona com os outros, descrevendo as contingências que controlam a emissão de uma determinada resposta e analisando o controle que agências sociais exercem sobre as pessoas.
   
Em uma leitura superficial das obras desses dois autores, pode parecer ao leitor que seria difícil estabelecer um diálogo entre a Neurologia e a Psicologia. Contudo, os avanços na área da Neurociência permitem visualizar a influência das redes neurais nas nossas ações cotidianas, além de permitir visualizar como as nossas ações cotidianas influem na maneira como os circuitos neurais se constituem.
   
Apesar desses avanços, a tarefa de estudar o comportamento e estabelecer sua ligação com as redes neurais não é fácil. Skinner menciona a dificuldade de se estudar o comportamento em Ciência e Comportamento Humano (1953):

O comportamento é uma matéria difícil, não porque seja inacessível, mas porque é extremamente complexo. Desde que é um processo, e não uma coisa, não pode ser facilmente imobilizado para observação.

É mutável, fluido e evanescente, e, por esta razão, faz grandes exigências técnicas da engenhosidade e energia do cientista. Contudo, não há nada essencialmente insolúvel nos problemas que surgem deste fato. (p. 27)

Os avanços obtidos nas técnicas de estudo do cérebro humano são uma ferramenta importante na obtenção de conhecimento sobre como nós, seres humanos, nos constituímos. Porém, sem uma ciência do comportamento com sólidos pressupostos teóricos e técnicas de observação e alteração do comportamento validadas empiricamente, o conhecimento produzido pela Neurologia per se não permite vislumbrar muitas possibilidades de alteração do comportamento, além daquelas geradas pela farmacologia e cirurgias cerebrais.

Nesse sentido cabe ao profissional da Psicologia produzir o conhecimento necessário dos mecanismos do comportamento humano para que, junto ao tratamento medicamentoso quando necessário, possa produzir alterações significativas na vida dos indivíduos.

Todavia, não deve ser o objetivo último de uma ciência do comportamento se fundir à Neurologia, ou ser um mero apêndice desta. Sua função deve ser produzir conhecimento sobre os mecanismos fundamentais do comportamento humano, para que aliado à forma como o cérebro se organiza e funciona, possam gerar uma visão mais total do ser humano, não compartimentalizada em duas áreas do saber sem diálogo.

Cabe a Psicologia estudar o comportamento, e cabe a Neurologia estudar as bases fisiológicas deste comportamento estudado pela Psicologia. Uma não existe sem a outra, uma vez que o comportamento não ocorre sem uma base fisiológica e as funções do cérebro só se tornam visíveis através do comportamento.

A distinção entre os conhecimentos produzidos pela Neurologia e pela Psicologia muitas vezes se confunde na linguagem popular, como assinala Skinner:

O leigo usa o sistema nervoso como uma explicação imediata do comportamento. A língua inglesa contém centenas de expressões que implicam a mencionada relação causal. Na descrição de um longo julgamento lemos que, ao final, o júri mostrou sinais de “fadiga mental”, que os “nervos” do acusado “estavam à flor da pele”, que a esposa do acusado está beira de um “colapso nervoso”, e que o advogado não teve “miolos” para debater com o promotor. É óbvio que não se fez nenhuma observação direta do sistema nervoso de qualquer dessas pessoas. Seus “miolos” e “nervos” foram inventados no calor do momento para dar mais substância àquilo que de outra forma seria um relato superficial do comportamento. (p. 38, 1953)

Assim, o objetivo desta série de artigos é estabelecer um diálogo entre a Psicologia e a Neurologia, representadas por Skinner e Sacks, sem cometer o erro de se misturar os conhecimentos produzidos por essas duas ciências de forma leviana e não científica.

Os próximos artigos abordarão afecções cerebrais e suas conseqüências no comportamento do indivíduo, assim como o ambiente em que o indivíduo se encontra pode influir na forma como o cérebro se organiza.  

Referências

SACKS, Oliver. Enxaqueca. Companhia as Letras, 1970.

SACKS, Oliver. Tempo de despertar. Companhia das Letras, 1973.

SACKS, Oliver. Com uma perna só. Companhia das Letras, 1984.

SACKS, Oliver. O homem que confundiu sua mulher com um chapéu.
Companhia das Letras, 1985.

SACKS, Oliver. Vendo vozes: uma viagem ao mundo dos surdos. Companhia das Letras, 1989.

SACKS, Oliver. Um antropólogo em Marte. Companhia das Letras, 1995.

SACKS, Oliver. A ilha dos daltônicos. Companhia das Letras, 1997.

SACKS, Oliver. Tio Tungstênio: memórias de uma infância química. Companhia das Letras, 2001.

SACKS, Oliver. Alucinações Musicais. Companhia das Letras, 2007.

SKINNER, Burrhus Frederic. Ciência e Comportamento Humano. The Macmillan Company, 1953.

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