O papel das novas tecnologias nas relações sociais contemporâneas

O tema das relações sociais em nossa contemporaneidade é pensado segundo a influência da tecnologia na sociedade em que estamos inseridos, cujo cerne principal visa, dentre outros motivos, o individualismo típico do sistema capitalista. Pensar em como se desenvolve essas relações, é pensar uma psicologia que venha a atender as demandas que emergem de relações cada vez mais fragilizadas.
O objetivo desse artigo é abordar o tema “ o papel das novas tecnologias nas relações sociais contemporâneas”. Pensa-se que seja de relevância para estudos em psicologia, tendo em vista o impacto que essas novas tecnologias, como celular, internet e outras, tem modificado nossas relações interpessoais. Compreender esse impacto em nossa sociedade e como isso afeta nossas relações, é compreender que tipo de psicologia essa sociedade necessita. Tendo em vista que a tecnologia é um complemento da história do homem frente ao mundo, torna-se necessário elencar, no primeiro instante, as contribuições da tecnologia na evolução humana, sendo essencial para entender nossa sociedade contemporânea. Neste processo, é fundamental descrever a própria evolução tecnológica e como homem se reconhece frente a esses avanços tecnológicos.A partir desses pressupostos, poderemos compreender a significação que as novas tecnologias, como a internet, o celular, a televisão digital, têm em nossa vida.  

Por último, cabe refletirmos como a psicologia pode intervir diante da demanda de relações cada vez mais instáveis em função das significações das tecnologias nas mesmas. Ao longo de sua trajetória, o homem sempre se viu na necessidade de significar o mundo a sua volta, tanto de forma inconsciente, como o “homem das cavernas”, quanto dotado da mais pura razão como os maiores pensadores que a modernidade já presenciou, como Descartes, Kant entre outros.Nesta trajetória o homem vê, na relação como o meio que está inserido, o caminho possível para tal significação. A partir desta relação como o meio, começa a modificá-lo uma vez que é neste onde encontrar sua subsistência.           

Surge neste momento as primeiras modificações (tecnologias), suas ferramentas, como a pedra lascada em forma de lança, o que lhe possibilitou grande avanços em sua caça, pesca, em fim, em sua sobrevivência.Na trajetória da humanidade, segundo Muraro (1969),

A humanidade, dá então, entre 10.000 e 5.000 antes de Cristo, um salto ainda maior; os homens passam a domesticar os animais e cultivar a terra. Aprendem a moer o grão e dar polimento a seu machado e enxadas, inventam a cerâmica e o tecido, escavam as primeiras minas. (MURARO:1969) 

Esse momento marca o fim da etapa nômade do homem, que através do cultivo da terra e da domestificação dos animais, cria novos meios de subsistência, onde Muraro destaca que o motor desse salto foi a descoberta tecnológica dos métodos de cultivar a terra, a invenção da agricultura muscular.

Esta etapa só foi superada no início do século XIX, onde se situa a primeira grande Revolução Industrial. Até então o homem vivia maciçamente do trabalho dos seus músculos cultivando o solo. A invenção veio, num certo sentido, libertar o homem do trabalho de seus músculos, tendo sido este substituído pelas máquinas. Com a difusão da mecanização em grande escala e a conseqüente libertação do homem da terra, as cidades vão crescendo em importância. O homem passa de figura principal nas relações de trabalho para um mero instrumento de trabalho que, com as constantes modificações das técnicas no ambiente de trabalho, na busca de mais produção e menos mão de obras, vem se transformando em objeto obsoleto.Tem início a civilização urbana, com novas leis psicossociais, novos sistemas econômicos. É a época do capitalismo liberal nos países ocidentais. Criam-se então os grandes impérios econômicos no sentido moderno do termo, e é neste contexto que surgem as principais tecnologias de que abordamos neste artigo. E para atender a demanda econômica deste imenso sistema, a tecnologia entra em cena na possibilidade de acrescentar ao capitalismo ainda mais expressão pois, segundo Josgrilberg “o sistema capitalista (…) depende destas novas tecnologias para organizar as transações de mercado financeiro, a cadeias de produção distribuída globalmente, a automação de diversos setores, entre outras atividades”. (JOSGRILBERG: 2005). Esse fato nos revela o motivo pela qual se dá no século XX a maior explosão tecnológica que a humanidade já presenciou, afinal, as maiores invenções que fazem parte do nosso dia-a-dia datam deste século. 

Em um século, a humanidade evoluiu tecnologicamente mais do que em todos os mais de 2.000.000 de anos de sua existência, o que nos dá a dimensão da relevância de se compreender o papel da tecnologia em nossas vidas, haja visto o quanto a tecnologia tem participado junto ao homem no seu processo evolutivo, possibilitando as ferramentas necessárias para que essa evolução viessem em um ritmo acelerado.Em contrapartida, a tecnologia vem tomando proporções nas quais o homem não conseguiu acompanhar, devido a velocidade com que as tecnologias se renovam.Quando Granham Bell inventou o telefone em 1876[1], será que imaginou um aparelho portátil que lhe possibilitaria, além de encurtar distâncias, saber a previsão do tempo? 

Mas se a tecnologia é parte determinante de nossa evolução enquanto humanidade, qual o sentido que atribuímos à essas tecnologia em nossa vida e como nos enxergamos enquanto seres humanos a partir das tecnologias? Os primeiros computadores surgiram na Inglaterra e nos Estados Unidos em 1945[2], – contemporaneamente ao surgimento da televisão em todo mundo. Por muito tempo reservados aos militares para cálculos científicos, seu uso civil disseminou-se durante os anos 60. A informática servia aos cálculos científicos, às estatísticas dos Estados e das grandes empresas ou a tarefas pesadas de gerenciamento (folhas de pagamento, etc.).A virada fundamental, segundo Lévy, data, talvez, dos anos 70.  

O desenvolvimento e a comercialização do microprocessador (unidade de cálculo aritmético e lógico localizada em um pequeno chip eletrônico) dispararam diversos processos econômicos e sociais de grande amplitude. Eles abriram uma nova fase na automação da produção industrial: robótica, linhas de produção flexíveis, máquinas industriais com controles digitais etc.( LÉVY: 1999, p.31)

Desde então, Lévy ainda postula que “a busca sistemática de ganhos de produtividade por meio de várias formas de uso de aparelhos eletrônicos, computadores e redes de comunicação de dados aos poucos foi tomando conta do conjunto das atividades econômicas” (LÉVY: 1999, p.31). Esta tendência continua em nossos dias. Os anos 80 viram o prenúncio do horizonte contemporâneo da multimídia. Isso corrobora com o fato de que, em 1977 foi lançado nos Estados Unidos o primeiro telefone celular[3].

A digitalização penetrou primeiro na produção e gravação de músicas, mas os microprocessadores e as memórias digitais tendiam a tornar-se a infra-estrutura de produção de todo o domínio da comunicação. Novas formas de mensagens "interativas" apareceram: este decénio viu a invasão dos videogames, o triunfo da informática.No final dos anos 80 e início dos anos 90[4], um novo movimento sócio-cultural, originado pelos jovens profissionais das grandes metrópoles e dos campi americanos, tomou rapidamente uma dimensão mundial. Sem que nenhuma instância dirigisse esse processo, as diferentes redes de computadores que se formaram desde o final dos anos 70, se juntaram umas às outras, enquanto o número de pessoas e de computadores conectados à inter-rede começou a crescer de forma exponencial.Será possível imaginarmos o homem com todos esses avanços, se não existissem as técnicas?McLuhan, citado por Muraro (1969, p. 32) postula que “toda tecnologia é extensão de nosso corpo humano ou de alguma de suas partes. As roupas são extensões da pele, os móveis, casas, o telefone, o rádio, o cinema, a televisão etc., do nosso sistema nervoso central”. Assim, “todas as coisas inventadas pelo homem,  são extensões de seus sentidos ou de suas faculdades” (MURARO: 1969). Isso nos remete que é impossível pensar o homem sem a tecnologia, uma vez que essa lhe é intrínseca, e que essas extensões foram essenciais em sua caminhada evolutiva, o que lhe proporcionou a modificação da natureza em seu favor.E são dessas extensões de que se valem o sistema vigente de nossa sociedade, que super estimulam nossos sentidos, nos bombardeando de estímulos de tal forma, que aceitamos cada novo invento como sendo parte de nós, indispensáveis a nossa sobrevivência.

Cabe ressalvar, que a tecnologia em si não traz nem o bem nem o mau, pois segundo Muraro, “a tecnologia, motor do progresso do ser humano, motor (…) da própria transformação do ser humano, é neutra em si”.(MURARO:1969). È possível acrescentar, segundo Pierre Leví, que,  Quando os "impactos" são negativos, seria preciso na verdade incriminar a organização do trabalho ou as relações de dominação, ou ainda a indesvendável complexidade dos fenômenos sociais. Da mesma forma, quando os "impactos" são tidos como positivos, evidentemente a técnica não é a responsável pelo sucesso, mas sim aqueles que conceberam, executaram e usaram determinados instrumentos. (LÉVY: 1999)   

Ou seja, o que define a importância da tecnologia é significação que damos a elas, o que explica porque as nossas relações sociais estão cada vez mais sendo influenciadas pela internet, pelo aparelho de telefone celular, pela televisão digital. Esses recursos ao mesmo tempo no oferecem um mundo de possibilidades ao nosso favor, como também nos oferecem relações, cada vez mais, virtuais. Através da internet, por exemplo, podemos nos comunicar em tempo real com pessoas de todas as partes do planeta, encurtando distâncias, mas também a vemos como única forma de diálogo entre muitas famílias. O telefone celular possibilita-nos todas as comodidades imagináveis como presenciamos hoje na era “3G” com aparelhos cada vez mais modernos, com mais recursos, porém, somos totalmente dependentes desses aparelhos e quando não estamos com eles, parece que nos falta um pedaço de nós.

A televisão digital vem com um sem número de recursos em tempo real, que nos proporciona uma forma nova de entretenimento, uma total interação com a máquina, mas que tem prendido a atenção das crianças que passam mais tempo em frente da televisão do que estudando. Este poderoso meio de comunicação, traz outro recurso de maior impacto, que são as telenovelas, com suas encenações virtuais não muito distantes de nossa realidade, pois tratam em seu conteúdo, episódios do cotidiano das pessoas, porém, torna-se um importante veículo de difusão dos interesses do mercado do consumo, afinal, quem não que usar o mesmo vestido que aquela mocinha da novela das oito? Quem não gostaria de ter o mesmo “carrão” daquela tal personagem? “Interagindo com os outros meios de comunicação, a televisão traz a tona um plano emocional de existência que reúne os membros da sociedade numa espécie de macro contexto flutuante, sem memória e de rápida evolução” (LÉVY: 1999)

Outra face do impacto da televisão em nossa vida são os realit-shows, dentre eles o Big Broders Brasil que a tantos anos faz sucesso entre os brasileiros que se maravilham com a possibilidade de “espiar” o cotidiano das pessoas, confinadas em seus próprios ego, mostrando-nos o quanto buscamos ser reconhecidos socialmente pelas pessoas e quanto necessitamos estar inseridos no padrão ideal de beleza.Temos relações que transitam do estado físico, do contato e que são imprescindíveis na manutenção da sociedade coletiva, para relações cada vez mais virtuais, superficiais, sendo embaladas pelas comunidades virtuais advindas da internet, como os sites de relacionamento (Orkut, MSN, salas de bate-papo, etc.). Neste campo de relacionamento, as relações se apresentam como superficiais, por ser o espaço em que cada um pode ser o que de fato não é na realidade. Isso contribui para uma outra significação, por exemplo, das relações amorosas, haja visto os inúmeros sites onde é possível encontrarmos nossa “cara-metade”, e com esse espaço em ascensão, as pessoas estão transportando essa conduta para suas relações físicas, o que explica porque os relacionamentos estão cada vez mais efêmeros. 

Vemos as relações, marido e mulher, pais e filhos, patrões empregados, se desfazerem por causa do impacto que as tecnologias têm modificado essas relações, tornando-as obsoletas, para que essas possam dar lugar às relações virtuais, para assim serem manipuladas a qualquer hora de acordo como o interesse dos dominantes.A significação que damos a essas novas tecnologias, não tão novas assim se levarmos em consideração que foram inventados no final do século XX, tem uma repercussão nunca vista em toda humanidade, o que determinam as nossas relações com o outro e com nós mesmos, pois são frutos de uma globalização massificante, e com nossa permissão, invadem as nossas casas e nos obrigam a consumir, a pensar, a agir como ela quer.Cabe salientar, que o impacto de que tratamos neste artigo não é apenas negativo, exemplo disto é o papel relevante que a tecnologia tem em nossas eleições, através das urnas eletrônicas, que fazem do nosso país um modelo de seriedade e confiabilidade na apuração dos votos, um aliado indispensável à democracia. Não podemos falar da sociedade contemporânea, sem nos referirmos ao culto ao individualismo, marca significante do sistema vigente, onde devemos, a qualquer preço, atingirmos a total autonomia pessoal, sermos bem-sucedidos, alimentando assim o nosso narcisismo.

Esse é o cerne das relações interpessoais da contemporaneidade, onde cada um vê no outro o seu adversário direto na busca pelo topo, pelo tão sonhado “lugar ao sol”, afogando o outro nas águas inóspitas de nosso ego. E em função desta constante pressão que carregamos conosco, dia após dia, surgem as principais doenças que atacam cada vez mais os brasileiros, como a síndrome da pressa, uma doença psicológica causada principalmente pelo ritmo frenético em que a sociedade moderna se submete nas zonas urbanas e no trabalho. Ataca pessoas que só sabem agir sob pressão – real ou imaginária – para resolver tudo o mais rápido possível. Neste caso, o organismo reage a estímulos ambientais, como as pressões do trabalho ou uma doença em família. Apesar de não ser reconhecida e classificada, pelos manuais de psiquiatria modernos, é estudada desde os anos 80.É preciso que o psicólogo entenda todo este contexto em que estamos inseridos, para  compreender o quanto somos determinados pela significação desses tecnologias e com que grau isso afeta cada um. A depressão, por exemplo, é muito freqüente na sociedade atual tendo tendência a aumentar, pois, dentre outros fatores, se dá a medida que as relações  vão se tornando menos humana, o que torna-se um grande risco diante do crescente número de sites de apologia ao suicídio, os chamados “suicídio.com”.           

Como sabemos, essa sociedade nos influencia com um padrão inatingível  de beleza, o que torna claro porque ainda somos atacados por vários transtornos alimentares como a anorexia, ainda tão expressiva em nossa sociedade.             
Esse é o principal desafio da psicologia no século XXI, o de proporcionar ao homem, a reflexão de qual é o seu papel diante desta sociedade tecnológica, na perspectiva de construirmos um futuro diferente do que hoje pressupomos ter, diante da constante relativização do homem frente a tecnologia, para que juntos, homem e máquina, possamos acabar com a disparidade de uma sociedade tão desumana. 

Referências Bibliográficas

ALVES, Rubem. Tecnologia e Humanização. In: ALVES, Rubem. O Enigma da Religião. Campinas: Papirus, 1984. p. 97-116. BRASIL, Discovery. Marcos da Tecnologia: telefone. Disponível em http://www.discoverybrasil.com/guia_t … ogia/telefone/index.shtml  Acesso em: 04/11/2008

JOSGRILBERG, Fábio B.. Tecnologia e sociedade: entre os paradoxos e os sentidos possíveis. Comunicação & Educação, São Paulo: 2005.v. 3, n. set/dez, p. 278-287  LÉVY, Pierre. Cibercultura. Trad. Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999. 264p. 

MURARO, Rose Marie. A Automação e o futuro do Homem. Petrópolis: Editora Vozes, 1969. 151 p.

About Adilson P Santos

Graduando de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
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