“Onde Está Wally?” – Sobre o Encobrimento do Verdadeiro por um Falso Self na Adolescência Precoce.

Este trabalho pretende discutir a questão do encobrimento do verdadeiro self na adolescência precoce e a sustentação defensiva de um falso-self pelos mesmos, entendendo aqui essa precocidade na faixa etária de 8-13 anos.

O que vemos acontecer , no espaço contemporâneo escolar e clínico, é a recorrente pergunta desses jovens: “cadê eu mesmo?” Eles são o que têm em bens materiais e em atividades para serem cumpridas, numa agenda de executivo e num desfile sem fim da novidade tecnológica da semana.

Perde-se, nesse percurso de constituição de linha de vida, exatamente a capacidade de criação e de autoria de pensamento. O que temos em mãos são jovens que pensam o futuro sem saber sequer o que seja o presente, projetados sempre no adiante e no além. Mas algo eles sabem, quando se cansam de responder à demanda social e parental: eles não agüentam mais a falta de tempo para brincar e até de fazer nada.

Lembro-me do coelho aliciano “é tarde, é tarde, muito tarde” – esse eco é, muitas vezes, o que os pais e a sociedade demandam deles. Eles têm pouco tempo para mostrar o que são, mas sabem com mestria mostrar o que têm – o último lap top, celular, hi phone.

 Hoje em dia, no fast food da vida corrida desses jovens, temos pulseiras siliconadas coloridas que dizem a eles o que eles querem – pulseira de tal cor quer dizer disponibilidade para beijar, para….. , não importa, quem chegar perto desta pulseira, e se ela não estiver dobrada, esta pode ser puxada e, quem a puxou, poderá fazer com esse jovem o que esta pulseira diz que , supostamente, ele gostaria de viver na sua sexualidade e no seu corpo.

Neste momento indago-me, onde está Wally? Ou seja, onde está  a possibilidade de aparecimento de um  falso self protetor para que possa vir a aparecer expressões do verdadeiro self?

Por onde ficou o falso-self protetor e quando este virou o próprio jovem?

Onde está a segurança social e parental que deveriam avisar a esses jovens , que necessitam ainda de proteção para determinados passos, que não é uma pulseira que permitirá o seu corpo e desejo serem invadidos sem necessariamente eles entenderem realmente o que a cor e pulseira dizem ele querer?

Enfim, onde está Wally-criança e Wally- sociedade para que possamos dar aos jovens, minimamente, segurança, no sentido winnicottiano do termo.

EM QUE ESPELHO RECONHEÇO A MINHA FACE? A FALÊNCIA DO PACTO SOCIAL

Vinheta 1 – Londres

A vítima e três dos autores tinham se conhecido no dia 14 no mesmo lugar, quando ela saíra da escola e esperava o ônibus para retornar para casa. No dia seguinte, um dos homens chegou até a adolescente e arrebentou a pulseira preta, que convencionalmente representaria o sexo. "Ficou muito claro que a motivação foi o uso da pulseira, porque eles não tinham laço de amizade", afirmou o delegado. "Ela disse que, depois que arrebentou, eles pressionaram que ela teria que fazer e ela se sentiu constrangida e os acompanhou até a casa de um deles."

Pergunto-me, constrangida, impingida por que ou por quem?

Vinheta 2 – Rio de Janeiro

Uma estudante do Colégio Pedro II de só 12 anos conhece as regras do jogo das pulseiras do sexo de olhos fechados: “A roxa significa beijo de língua, a azul significa sexo oral, a preta é transar mesmo”. Os amigos C.F., M.C. e D.G., 16, alunos do Ensino Médio da mesma unidade, também têm as pulseiras, mas dizem que, embora saibam o significado erótico, usam o acessório por acharem bonito. “Eu gosto das cores, acho que fica legal no braço. Ninguém nunca tentou arrancar uma pulseira minha. Isso vai muito da atitude de cada um”, diz M.C., com mais de 20 pulseiras, nas mais variadas cores.

Mas pré-adolescentes contam que a brincadeira é, sim, posta em prática. “Uma amiga minha teve que dar um beijo de língua. Quem usa sabe o que pode acontecer”, conta A.P., 12 anos, que também usa o adereço.

Pergunto-me : sabem, mas sabem no sentido de entenderem as marcas que ficam nesse jogo ou desse jogo?

Versão virtual: snap on line

A modalidade virtual do jogo passou a ser usada por pedófilos para aliciar menores. O alerta é da ONG Safernet. Em seu formato online, o jogo é disseminado dentro de sites de relacionamento, em comunidades que tratam exclusivamente do assunto. No Orkut, são três, cada uma com mais de 100 mil membros, maioria criança e adolescente. Nos tópicos, usuários trocam mensagens dizendo que cor de pulseira gostariam de arrebentar no braço do outro.         No mundo virtual, o desejo aparece, mas o perigo do corpo do outro ser invadido e intrusivamente usado, não. Fica-se no imaginário ou se forja um fake, um falso self para poder-se dizer o que de fato, na vera, como nos falam os próprios adolescentes, isso não seria desejável. Ou pior, acreditam que dentro e fora da virtualidade isso é desejável e deve ser cumprido.  Pergunto-me : de quem a demanda?

Questiona-nos Calligaris, em uma entrevista: O que são as pulseiras do sexo? Uma provocação de adolescentes inseguras? Ou será que elas expressam um desejo?” Gostaria aqui de levantar outra questão : meninos igualmente usam essas pulseiras, trançadas, com todas as cores ou as pretas. As questões que Calligaris dirige ao sexo feminino eu dirigiria igualmente ao masculino. Mas por que se discute essa questão somente no âmbito das adolescentes e não de qualquer adolescente? Qual a face que eles buscam para poderem se apropriar como sendo sua, diante do não olhar que a sociedade lhes apresenta?

O que é ser considerado adolescente? Ser adolescente seria ter certos comportamentos e atitudes além de toda uma mudança advinda com a puberdade; seria se revoltar, destruir valores. Mas hoje em dia, o que é ser considerado adolescente? Hoje, aos oito anos já se considera uma criança adolescente pelos seus comportamentos e inclusive se cobra dela esse comportamento, se corrobora com ele. Por exemplo, se uma menina dá a mão para um menino, a professora vê e deduz ”já são namoradinhos”, isso se espalha, a mãe fica sabendo e, feliz, diz a outras mães. De repente a criança, que deu a mão ou um beijo no rosto ou ficou mais amiga desse garoto, ou vice- versa, já tem um namorado e deve convidá-lo para todas as brincadeiras e saídas. O brincar de ter um amigo, o imaginar ter hoje um amigo especial e depois outro perde o sentido, o rótulo formata e o prazer do vivenciar some.

Nossa sociedade produz crianças precocemente adolescidas, sem padrões reais para suas identificações. Assim sendo, temos em nossas clínicas e em nossas salas de aulas fenômenos adolescentes em crianças como grupos rivais,  disputas de ser o popular, como ser vergonhoso brincar de qualquer coisa que seja. Estamos diante de um consumo desenfreado de brinquedos eletrônicos que duram como novidade por dias e que depois devem ser substituídos por outros e outros, fora esmaltes, batons, remédios, roupas, tênis, celulares. Vivemos num mundo de iguais, sem uma distinção marcada entre o mundo do adulto e o mundo da criança e do adolescente, e assim sendo como poderemos realmente nos forjar na nossa singularidade?

QUANDO O FALSO VERDADEIRO É: O VAZIO A SER PREENCHIDO

Segundo Winnicott, para que se constitua um verdadeiro self há de haver uma continuidade do ser e também um gesto espontâneo inaugural, visto por ele como uma agressividade primária, sinônimo de motilidade. Para que o verdadeiro self se exprima há a necessidade de um falso-self protetor – para Winnicott o verdadeiro self é inviolável e não comunicável. Winnicott postula uma gradação da saúde à patologia do falso–self. Na saúde, o falso self é a atitude social amável; no último extremo, ou seja, na patologia, é o falso self que se instala como real e aqui o verdadeiro self está oculto e poderá não ser achado. Neste caso, há uma cisão da mente, há doença. Na saúde, há o self socializado e o self privado, que não está disponível, a não ser na intimidade.

Pergunto-me: que intimidade é possível termos ou vivenciarmos em um mundo que nos pede que tenhamos coisas e que sejamos pessoas que ainda não podemos ser realmente? Que intimidade pode dar ensejo e segurança para o verdadeiro-self estar disponível se intimidade, hoje, não significa eu me sentir segura e ter confiança no meio e naquele que comigo partilha essa experiência? O outro, o estranho, diz-me faça e eu, constrangida, obedeço.

Acredito que o uso sexual de pulseiras coloridas e outras coisas afins com crianças e adolescentes precoces são uma antecipação de vivências. São intrusões fora do tempo considerado bom o suficiente para que o mundo se apresente para eles. Logo, classifico esse uso como um uso anti-social tanto do corpo quanto do objeto.

Para Winnicott é a falha ambiental que instaura o que ele denomina de tendência anti-social. O que se marca nesse comportamento anti-social  é a sensação de invasão constante do seu lugar de ser; seu meio é sentido como invadido , porque a criança tem de lidar com todas as demandas dos outros de uma vez só, percebendo-o em aspectos que deveriam ser retardados na apresentação do mundo para elas. O que ocorre é que essa criança  o percebe de uma só vez, intrusivamente, na sua linha de vida. Aqui situo o deslizar do verdadeiro self espontaneamente comunicativo através do falso-self protetor para a patologia, quando o falso self começa a tentar proteger o verdadeiro self dessa intrusão. Aparece, nesse deslizamento, a capacidade resiliente de certas crianças. Elas continuam a poder se expressar, nem que seja através do gesto agressivo, do uso de corpo pseudo-sexualizado ou sexualizado precocemente como a única maneira de se comunicar com o meio.

Onde estão os pais que não perceberam o uso de adereços que poderiam causar algum mal estar a seus filhos?

Onde estão os pais que não proibiram esse uso?

Onde estão as escolas que desconheciam o significado das pulseiras ou, se conheciam, pouco fizeram até o ato ir aos jornais ou pararem nas mãos da Justiça?

Onde estão os professores que lidam com esses alunos e os ouvem em vários espaços, que não fizeram com que eles parassem para pensar qual autorização estava sendo dada para um outro , outro desconhecido , para lhe invadir ?

Gilberto Gil, em seu poema Copo Vazio, monta-nos um encaixe que marca o que quero salientar com tantas questões aqui feitas. “É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar”, alerta-nos o poeta. Uma criança que agride está cheia de raiva, mas também sobrevivendo a um vazio, “vazio daquilo que no ar do copo ocupa um lugar”, o vazio do olhar materno, o vazio da proteção social.

Uma criança que não consegue perceber um perigo que , dizem, assume deliberadamente correr; uma criança que realmente não dimensiona o que poderia acontecer em certas situações, ela somente segue a regra do grupo, para mim ela apela, com esse  comportamento, para um olhar que se perdeu – que aos 8,9,10 anos ela ainda é uma criança e tem direito a ter infância e não uma adolescência incensada pelos adultos que, através dela, se realizam.

Tal qual a gradação proposta nas metáforas deste poema, o que está em falta, em um nível, pode não estar em outro, assim como o que é percebido pode acabar, se quisermos ver e ouvir,  nos mostrando algo diferente.

Como o corpo ou cores ou objetos podem estar atuando como propiciadores de intrusões a crianças que não podem ainda responder por si mesmas, mesmo que tenham conhecimento, como nos aponta as reportagens de jornal ou a própria crônica de Calligaris?

Onde está o olhar-espelho que deveria proteger essas crianças que brincam de ser adolescentes, tendo atitudes adolescentes e, o pior de tudo, todos acharem que eles são adolescentes?

Por que hoje estudamos e falamos tanto do sombreamento da infância, da adolescência precoce e do adulto que se recusa a crescer e assumir suas responsabilidades, os adultescentes?

Acredito que as pulseirinhas do sexo, antes simples pulseirinhas coloridas que poderiam enfeitar, possam estar expondo a nós questões de abandono e desamparo, questões de uma sexualidade precoce, de um comportamento anti-social em que o corpo comparece para denunciar o abuso de se achar normal algo que deveria ainda estar sendo visto como anormal: qual seja, a utilização de um código sexual de não domínio de todos, principalmente dos adolescentes precoces, para um uso perverso do corpo do outro.

Como aponta Calligaris, quebrar uma pulseirinha do sexo, sendo de silicone fino, não é difícil, logo estamos facilitando um jogo ao não dizermos não  a esse jogo. Precisou haver abuso, dor e denúncia para que providências fossem tomadas. Quanto à “verdadeira natureza interior” dessas crianças, não propiciando esta não aparecer ao permitirmos que crianças decidam coisas que adultos devem decidir por elas: aquilo que elas devem ou podem estar expostas e quando não podem nem devem!

Termino minhas questões e pensamentos com uma reflexão de Winnicott, quando, em 1964, aos 68 anos, ao falar para um grupo de estudantes em Oxford, disse, citando Polônio: “isto sobretudo – a teu próprio eu sê fiel,

E disto brota, como da noite o dia,

Que não poderás mentir a homem algum.”

Com isso Winnicott quis dizer àqueles alunos que não era possível sermos realmente verdadeiros conosco – seja o que isso for – , a menos que alguém tenha se devotado a nós em primeiro lugar. “Ama-se a ti mesmo” ( ou conhece-te a ti mesmo) é simplesmente sem sentido para alguém  que jamais vivenciou a devoção total de alguém . Poderíamos chamar esse problema de “como posso saber o que penso, ante de ouvir o que digo?”

Indo além como podemos saber o que provocamos se não ouvimos o que essas crianças , em seus comportamentos e em seus sofrimentos nos dizem e acabamos, seja pelo motivo que for, não ouvindo, não percebendo, sequer entrando em contato – foi proibido o uso da pulseira, será que foi permitido que essas crianças, adolescentes precoces possam entender essa proibição, que possam receber esse gesto como uma proteção necessária e muitas vezes pedida por eles de inúmeras formas e, sentindo-se seguras, possam, na intimidade, mostrarem-se no seu verdadeiro self e abandonarem a máscara que usam e diz a elas : façam e não pensem muito sobre?

About Maria Vitoria Campos Mamede Maia

Prof Dr.UFRJ, Prof. Pós Graduação da Faculdade de Educação UFRJ, Doutora em Psicologia PUC-Rio,Mestre em Literatura PUC-Rio, Psicanalista -CPRJ, Psicóloga clínica,Psicopedagoga clínica, Pesquisadora convidada UFPR- Departamento de Psicanálise.
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