Psicologia Clínica – Uma introdução

Introdução

O presente artigo consiste em um informativo de definições da Psicologia Clínica e suas vertentes, salvo que este não busca o estudo minucioso das questões históricas desta forma terapêutica da Psicologia, mas sim, fazer com que o leitor tenha uma visão ampla e clara das modificações das Clínicas psiquiátricas, com seus tratamentos tradicionais, até a humanização das práticas profissionais com a Psicologia Clínica.

Definição

A psicologia clínica é uma das áreas mais conhecidas do cenário psicológico, possuindo o maior número de profissionais atuando. Para entender a definição do que seria a psicologia clínica, a Wikipédia, enciclopédia virtual acessada mundialmente, define Psicologia clínica da seguinte maneira:
 
         "Psicologia Clínica é a parte da psicologia que se dedica ao estudo dos transtornos mentais e dos aspectos psíquicos de doenças não mentais. Seus temas icluem a etiologia, classificação, diagnóstico, epidemiologia, intervenção (prevenção, aconselhamento, psicoterapia, reabilitação, acesso à saúde, avaliação)".
            
Por essa definição entede-se a Psicologia clínica como a sub-área da Psicologia, mais especificamente referente a terapêutica, em que há a relação direta Psicoterapeuta-Paciente, Profissional-Pessoa, ou ainda Psicologia-Sociedade. A psicologia clínica, é pois, uma prática psicológica de cura, de tratamento direto com a patologia.

Quadro histórico

O quadro histórico da Psicologia clínica engloba aspectos resultantes do pensamento do romantismo, este visto também toda a sua filosofia, juntamente com os saberes médicos resultantes das perspectivas da psiquiatria.

Os estudos realizados em busca da genealogia da psicologia clínica se encontram com as análises sociológicas de Michel Foucalt, sendo que este foi um grande estudioso das relaçoes de saúde pública e seus profissionais. A Dra. Daniela Ribeiro Schneider faz uma análise dos acontecimentos que possibilitaram o surgimento da Psicologia clínica, e na mesma situação, os principais autores para que esta separação da psiquiatria com uma nova terapêutica, o que viria ser a Psicologia clínica, surgisse.

 
"No século XVIII, as idéias psicológicas começaram a germinar no seio da psiquiatria, num primeiro momento sob influência do Romantismo (Victor Hugo, Stendhal, Baudelaire, etc), que ressaltava o valor da individualidade, ao implementar o culto do "eu", imprimindo uma perspectiva subjetivista à área que tinha, até então, uma ótica puramente mecanicista e organicista na compreensão dos "distúrbios nervosos". Depois, o encontro da medicina com a filosofia, como ocorreu na obra de Maine de Biran (1766-1824) e Victor Cousin (1792-1967), propiciou uma visão mais unitária e psicossomática do homem, tendo clara influência na interpretação mais psicológica da psicopatologia. John H. Jackson, já em 1875, na Inglaterra, formulou um dos primeiros esquemas descritivos sobre o sistema nervoso, oferecendo bases para uma reflexão psicológica que irá influenciar Pierre Janet, Henry Ey e Freud. Por outro lado, Pinel, em 1793, no hospital Bicêtre, e dois anos mais tarde na Salpêtrière, produziu uma revolução no tratamento dos loucos, ao libertá-los das correntes nas quais eram trancafiados como animais, para possibilitar-lhes um "tratamento moral". Por mais que, efetivamente, esse novo modelo de Pinel tenha representado um novo aprisionamento do louco, agora nas regras da razão ou nas normas morais (Foucault, 1991), ele acabou por significar uma ênfase nos aspectos psicológicos e relacionais da loucura. Essas e outras variáveis contribuirão na crescente importância da perspectiva psicológica no seio da psiquiatria, resultando, no final do século XIX, na consolidação de uma área específica: a psicologia clínica."

            Notam-se as necessidades da época para proporcionar o surgimento desta prática terapêutica, por um lado, a desumanidade dos tratamentos psiquiátricos e por outro as mudanças de percepção sobre o ser humano, sobretudo, as concepções filosóficas. O grande impulso foi à renovação do tratamento para com os "loucos", que com Pinel impulsiona, a partir deste momento, as práticas psiquiátricas de acorrentamento, tratamento a base de choque, altas dosagens medicamentosas eram mal vistas pelos profissionais da saúde mental (é claro que uma grande maioria não vê com bons olhos uma revolução de tratamento do doente mental), o que possibilitaria se não a total mudança das práticas terapêuticas, o surgimento de uma nova forma de terapêutica, esta foi então a ferramenta impulsora para a criação da psicologia clínica.

A Psicologia Clínica no Brasil

Em seu livro "A Psicologia no Brasil", Mitsuko Aparecida Makino Antunes expõe traços que demarcam de forma ampla, o desenvolvimento das concepções da medicina psiquiátrica no Brasil até a explosão da visão e terapêutica psicológica no cenário brasileiro.

Segundo Mitsuko, "o surgimento da Psicologia Clínica no Brasil está diretamente relacionado ao desenvolvimento da medicina brasileira. Assim, as primeiras faculdades de medicina no Brasil, criadas no Rio de Janeiro e na Bahia em 1832, foram as primeiras a produzir materiais científicos concernentes à Psicologia. Para conclusão do curso de medicina era exigida do aluno a defesa de uma tese de doutorado. Entre as teses defendidas se verifica a presença de alguns temas correlatos a psicologia, como: psiquiatria e neurologia. A primeira tese a abordar um tema psicológico propriamente dito foi defendida por Manuel Ignácio de Figueiredo, denominada: "As paixões e afetos d'alma em geral".

Com a crescente preocupação da medicina social acerca da higienização na sociedade, é criado no Rio de Janeiro o Hospício Pedro II em 1842, cujas práticas eram fundamentadas nas ideiasde Pinel e Esquirol, e o Asilo Provisório para Alienados da Cidade de São Paulo em São Paulo. Entre o hospício do Rio de Janeiro e o Asilo de São Paulo havia diferenças elementares, como: o primeiro era voltado para a prática médico-psiquiátricas, já o segundo era destinado a exclusão dos doentes mentais.

O século XIX foi à época em que a Psicologia começou a adquirir seus contornos e sua emancipação no Brasil. A medicina, como criadora de conhecimentos psicológicos, foi grande auxiliadora da Psicologia Clínica. A medida que o pensamento psicológico evoluía, a prática e o conhecimento da Psicologia se delineram com maior clareza, tendo assim contribuído para a inserção da Psicologia Científica e sua definição como campo autônomo de conhecimento e ação, o que veio a se concretizar nas décadas iniciais do século XX.

Alguns outros fatores também vieram a somar para a evolução e definição das práticas psicológicas, tais como:

                                         I.  Criação de laboratórios de Psicologia nos Hospícios, na medida em que esses vieram a ser relevantes produtores de estudos e pesquisas eminentemente de cunho psicológico.

                                      II.  Produção de teses de doutoramento em faculdades de medicina que abordavam assuntos relacionados a Psicologia.

                                    III.  A importância dada ao conhecimento psicológico como instrumento para a Medicina Legal, a Criminologia e a Psiquiatria Forense.

Portanto, a Psicologia produzida no interior da Medicina estava estreitamente ligada a Psiquiatria. Contudo, cada vez mais será evidente o caráter de ciência autônoma da Psicologia."

Sub-divisões da Psicologia Clínica

Com o intuito de especificar de forma mais minuciosa a definição de Psicologia Clínica realiza-se sub-divisões em  relação a prática psicoterapêutica. Essas sub-divisões são caracterizadas por ambiente e terapia. Neste artigo, focalizaremos três dessas sub-divisões: Psicologia Clínica Hospitalar, Psicologia Clínica em consultórios e a Psicologia Clínica aplicada à instituições (CAPS – Centro de atendimento/atenção psicossocial).

I.  Psicologia clínica em consultórios – Clássica
 

Na Psicologia clínica, um traço de identificação notável é a visão de uma psicologia de profissional-paciente explícita. Isto fica mais evidente com as primeiras técnicas da psicologia em consultórios particulares, sobretudo, na corrente terapêutica pioneira, a psicanálise.

A clínica "tradicional" é um sistema com a sua atenção voltada ao indivíduo. A resolução das patologias apresentadas pelos pacientes deve ser resolvida no aqui e agora, sem procedimentos multi-disciplinares ou multi-profissionais, o que é colocado em questão é o fazer da psicologia em sua singularidade. O Conselho Federal de Psicologia publicou em 2001 a terceira edição do livro Psicólogo Brasileiro, neste encontra-se na página 19 os critérios mais freqüentes na definição da Psicologia "Clássica ou Tradicional.

         "Alguns critérios são frequentemente utilizados para definir o "tradicional" ou o "clássico"em termos de Psicologia Clínica:

·  Atividade de psicodiagnóstico e/ou terapia individual ou grupal;

·  Atividade exercida em consultórios particulares, restrita a uma clientela proveniente de segmentos sociais mais abastados;

·  Atividade exercida de forma autônoma, como profissional liberal, não inserida no contexto dos serviços de saúde;

·  Trabalho que se apóia em um enfoque intra-individual, com ênfase nos processos psicológicos e psicopatológicos e centrado em um indivíduo abstrato e a-histórico;

·  Hegemonia do modelo médico, aqui traduzido na aceitação da autoridade do profissional na relação com o paciente, não se questionando o saber e a prática a partir de reações do paciente."
 
Como atesta o trecho retirado do "Psicólogo Brasileiro", a situação da Psicologia Clássica se encontrava em uma definição direta de ação-resposta, autoridade profissional, herança da postura médica e em uma clientela "elitizada", o que vem sendo modificado gradativamente em uma psicologia clássica popular.

II.  Psicologia Hospitalar
 
Diante da necessidade evidente de auxílio e alívio do sofrimento por meio do ambiente hospitalar, surge a figura do psicólogo clínico com a tarefa profissional de proporcionar bem-estar a todos os que neste local estão, deste profissional transparece a Psicologia Hospitalar da vertente Clínica.

"Torna-se cada vez mais evidente o fato de que muitas patologias têm seu quadro clínico agravado por complicações emocionais do paciente. Daí a importância da psicologia hospitalar, que tem como objetivo principal minimizar o sofrimento causado pela hospitalização." (Angerami, Trucharte, Knijnik, Sebastiani; 2010). Visto a importância de um profissional da psicologia nos hospitais, torna-se indiscutível a sua validade nestes ambientes e a extrema necessidade destes profissionais para a recuperação dos enfermos, nos casos terminais a importância está na elaboração de técnicas que proporcionem melhor qualidade de vida para estes pacientes.

O objetivo da psicologia Hospitalar é, em resumo e amplitude, "trabalhar os pacientes, como também seus familiares, com qualquer faixa etária, em sofrimento psíquico por conta da doença, da internação e do tratamento. Ela não se limita apenas a assistência, ela também vai para a educação e para a pesquisa. Na questão da educação ela visa um aperfeiçoamento profissional de outros profissionais de nível médio ou superior, quanto na pesquisa é tentar desenvolver novas maneiras pesquisas cientificas na área da saúde, bem como sua publicação" (psicologado.com).

De forma ampla, a psicologia hospital proporciona aos indivíduos que no hospital estão recebendo atendimento, suporte terapêutico para a melhoria do bem-estar e solução para problemas psicossomáticos, no campo de profissionais que no hospital atuam, a psicologia clínica proporciona um melhor desempenho no desenvolvimento de medidas de tratamento e de atendimento aos enfermos e familiares destes.

III.  Psicologia Clínica aplicada às Instituições (CAPS)

A psicologia Clínica aplicada às instituições foi em suma um apelo contra as condições amorais das clínicas psiquiátricas, bem como a necessidade de uma higienização moral, o que veio a ser conhecida como higienização Mental.

O alienismo e a teoria da degenerescência introduziram concepções da loucura e da saúde social que possibilitaram uma revolução psiquiátrica e um tratamento verdadeiramente mais humano. Pode-se dizer, como afirma alguns autores, que instituições brasileiras, tais como: O Hospício de Juquery, O hospital Nacional de Alienados, a Colônia de Psicopatas do Engenho de Dentro e as Ligas da Higine Mental foram instituições que, se não foram o alicerce da reforma psiquiárica e logo, da humanização da psicologia clínica institucional, foram, pelo menos, idealistas em prol desta mudança.

Neste presente trabalho, será apresentado as características fundamentais dos CAPS – Centro de atendimento/atenção psicossocial, sendo que este é uma das maiores manifestações brasileira de mudança no tratamento de pacientes das antigas clínicas psiquiátricas.

O artigo publicado pela Wikipédia, os objetivos do CAPS e seus fundamentos se unem, proporcionando uma concepção consistente do atendimento destes centros. Segundo o artigo, os CAPS "constituem um serviço comunitário que tem como papel cuidar de pessoas que sofrem com transtornos mentais, em especial os transtornos severos e persistentes, no seu território de abrangência. Devem obedecer a alguns princípios básicos, dentre os quais se responsabilizar pelo acolhimento de 100% da demanda dos portadores de transtornos severos de seu território, garantindo a presença de profissional responsável durante todo o período de funcionamento da unidade (plantão técnico), e criar uma ambiência terapêutica acolhedora no serviço, que possa incluir pacientes muito desestruturados que não consigam acompanhar as atividades estruturadas da unidade.

A atenção do CAPS deve incluir ações dirigidas aos familiares e comprometer-se com a construção dos projetos de inserção social. Devem ainda trabalhar com a idéia de gerenciamento de casos, personalizando o projeto de cada paciente na unidade e fora dela, e desenvolver atividades para a permanência diária no serviço.

Os projetos terapêuticos dos CAPS devem ser singulares, respeitando-se diferenças regionais, contribuições técnicas dos integrantes de sua equipe, iniciativas locais de familiares e usuários e articulações intersetoriais que potencializem suas ações. O CAPS deve, ainda, considerar o cuidado intra, inter, e transubjetivo, articulando recursos de natureza clínica – incluindo medicamentos -, de moradia, de trabalho, de lazer, de previdência e outros, através do cuidado clínico oportuno e programas de reabilitação psicossocial.

O CAPS vem ajudando não só os portadores de síndromes, mas também as famílias dos mesmos, para que saibam agir e reagir mediante as situações que podem ocorrer.".

Esta definição institui a grande importância destes centros de reabilitação e atendimento para toda a população, remontando de forma equipada e humanizada a valorização do indivíduo enquanto ser humano e enquanto paciente.

Conclusão

A psicologia clínica com suas vertentes ou sub-divisões é um fazer de interação paciente-terapeuta, apesar de inicialmente ter sido uma abordagem exclusivamente psicanalítica, hoje é empregada as mais diversas correntes teóricas.

Referências bibliográficas utilizadas para elaboração deste informativo:

  • ANTUNES, Mitsuko Aparecida Makino. A psicologia no Brasil: leitura histórica sobre sua contituição. São paulo: Unimar Editora, 1998, 3a ed.2003
  • Conselho Federal de Psicologia. Psicólogo Brasileiro: Práticas emergentes e desafios par a formação. São Paulo: Casa do Psicólogo, 3ed. 2001

·         ANGERAMI, Waldemar Augusto; TRUCHARTE, Fernanda Alves Rofrigues; KNIJNIK, Rosa Berger; SEBASTIANI, Ricardo Werner. Psicologia Hospitalar: Teoria e prática. São Paulo: Cengage Learning, 2ed. 2010.

Fontes eletrônicas, LINK's para acesso:

·         pt.wikipedia.org/

·         portal.saude.gov.br/

·         www.pol.org.br/

·         www.redepsi.com.br/

 

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