Oficinas Terapêuticas na Atenção Psicossocial em Saúde Mental

Oficinas Terapêuticas na Atenção Psicossocial em Saúde Mental. 
Luiz Bosco Sardinha MACHADO JÚNIOR

Programa de Pós-Graduação em Psicologia – Faculdade de Ciências e Letras de Assis – Universidade Estadual Paulista – UNESP – Assis-SP – Brasil

Contato: luizboscojr@yahoo.com.br

RESUMOTrazendo alguns questionamentos sobre a prática psi em Saúde Mental, este artigo traça breve genealogia do emprego de técnicas terapêuticas nos moldes de oficinas, discorrendo principalmente sobre seu amplo emprego dentro do paradigma psicossocial, que guia os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Aborda-se principalmente o conceito de grupo dispositivo, explorando-se suas possibilidades na elaboração de práticas que permitam a expressão de modos de subjetivação singulares.

PALAVRAS-CHAVEAtenção psicossocial – Saúde mental – Oficinas – Grupo dispositivo

ABSTRACTBringing some questions about the psychological practices on Mental Health, this paper traces a concise genealogy of the use of therapeutically techniques on patterns of workshops, considering its extensive use inside the psychosocial paradigm, which guides the Psychosocial Care Centers (CAPS, in Portuguese). Approaches essentially the concept of device group, exploring thus possibilities on creation of practices that allow the expression of singular subjectivaction manners.

KEYWORDSPsychosocial care – Mental Health – Workshops – device Group

Até meados do século XVIII, havia uma série de estabelecimentos de caráter caritativo, principalmente no Ocidente, que se ocupavam dos desvalidos: órfãos e crianças abandonadas, enfermos, idosos etc. Também recebiam peregrinos, misturando-os todos em espaços conhecidos como hospícios ou hospitais.A partir do Iluminismo, estes espaços começam a especializar-se e surge o conceito de que estes desvalidos, assistidos pelo Estado, pelo clero ou associações laicas, deveriam ser úteis à Nação. Começa então a instituição de trabalhos nestas nascentes instituições para combater a ociosidade e levar esses "desocupados" a contribuírem para o "bem público".Essa "contribuição" é mais explícita quanto às crianças abandonadas, por exemplo (ROCHA, 2004).

Quanto aos "alienados", passa-se a defender a reeducação da mente alienada, através de um trabalho terapêutico associado a um tratamento moral, principalmente a partir das idéias do pai da Psiquiatria, Pinel: "Pode-se dizer que o médico francês deu ao uso do trabalho uma nova conotação. A psiquiatria transformou o trabalho em terapêutica, fazendo surgir uma associação entre o ato de trabalhar e a saúde" (CEDRAZ; DIMENSTEIN, 2005, p. 303). Este trabalho deveria ser imposto aos internos, visando "controlar suas paixões desregradas" e trazê-los de volta à realidade.

Após a Segunda Guerra Mundial, ganha força o movimento intitulado de Reforma Psiquiátrica: "esta pode ser definida como um processo histórico de formulação crítica e prática e fundamenta-se numa nova concepção de homem como ser biopsicossocial" (CEDRAZ; DIMENSTEIN, op. Cit., p. 303). Compreende-se a construção histórica do fenômeno da loucura, em sua relação com o advento do capitalismo industrial – onde o louco era força de trabalho inutilizada – e a prática de seu encarceramento como ineficaz e desumana.

Já na década de 70 entendia-se como terapia psicossocial "atividades terapêuticas que envolvem o atendimento do usuário, tanto a nível individual como em grupo, e atividades de trabalho e recreação" (MINZONI, apud VALLADARES et alli, 2003, p. 5).Atualmente, a Reforma Psiquiátrica brasileira tem como objetivos "a desinstitucionalização e inclusão, integrando as pessoas com sofrimento psíquico nos diferentes espaços da sociedade" (VALLADARES et alli, op. cit., p. 5).

Busca-se a autonomia do indivíduo, possibilitando sua relação com as instituições sociais. Dentro desse referencial, entende-se que "as oficinas terapêuticas são atividades de encontro de vidas entre pessoas em sofrimento psíquico, promovendo o exercício da cidadania e expressão de liberdade e convivência dos diferentes através preferencialmente da inclusão pela arte" (VALLADARES et alli, op. cit., p. 6).As oficinas terapêuticas são dispositivos catalisadores da produção psíquica do indivíduo, possibilitando seu trânsito na sociedade em suas diferentes instâncias – família, trabalho, cultura etc. Os serviços substitutivos, como o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) devem oferecer tais oficinas, e de fato é uma das principais formas de tratamento (CEDRAZ; DIMENSTEIN, op. cit.).

O trabalho terapêutico através de oficinas pode ser dividido em: oficinas de caráter expressivo (produção artística); geração de renda (aprendizado de atividades que podem servir como fonte de renda); alfabetização. Independentemente de seu caráter, a oficina terapêutica deve produzir uma conexão distinta da habitual do indivíduo com a sociedade e consigo mesmo; do contrário, não permite a produção de novos modos de subjetivação que possibilitem sua autonomia.Para melhor debater esse caráter das oficinas terapêuticas, um referencial muito utilizado é o de grupo como dispositivo.

Este conceito de grupo, aplicável aos grupos terapêuticos que compõem as oficinas, distingue-se dos tradicionalmente apontados nas diversas teorias de grupo: "grupo como intermediário entre sujeito e sociedade; grupo como objeto de investigação a ser conhecido; uma abstração que o antecede aos indivíduos que o compõe, grupo como totalidade-estrutura e unidade e ainda numa dicotomia singular/coletivo" (PAIVA-CRUZ et col., 2006, p. 5).

Trabalhar um grupo como dispositivo é compreendê-lo, "antes de mais nada, [como] um emaranhado, um conjunto multilinear" (DELEUZE, s/d, p. 1).Um dispositivo comporta linhas de luz, que distribuem o visível e o invisível, "fazem nascer ou desaparecer um objeto que não existe sem ela" (id., p. 2).

Comporta linhas de enunciação, estéticas, políticas, científicas etc., definindo as posições diferenciais dos elementos de um dispositivo, sua conjugação. Deleuze aponta ainda um terceiro lugar, as linhas de força, que passam por todos os pontos do dispositivo, "agindo como flechas que não param de entrecruzar as coisas e as palavras, levando adiante a batalha entre elas" (p. 2). São linhas que compõem-se com o poder e o saber, envolvendo outras linhas, retificando trajetórias, estreitamente embaraçadas com as outras linhas. Por fim, as linhas de subjetivação, processos e produções de subjetividade permitidos ou possibilitados pelo dispositivo e pelas dobras das linhas de força sobre si mesmas.Pensar o grupo como dispositivo é não encará-lo como dado, nem como natural, um grupo que não é tão somente a conjunção de indivíduos nem fruto de um agir institucional. É compreender que linhas podem ser mapeadas, que podemos "medir a passos terras desconhecidas". Cartografar para que possamos otimizar as linhas de ruptura, de fissura, de fratura, legitimando a diferença e produzindo ressonâncias "indivíduo afora".

Grupo que não se fecha no discurso da interpretação, mas antes provoca, abre passagem ao novo, lança luz à outra ordem do mundo atrás dessa ordem – aquela que não sabemos qual é, onde "o número e a ordem de suposições possíveis neste campo é precisamente o infinito" (ARTAUD, 1947, p. 134)."A noção de dispositivo aponta para algo que faz funcionar, que aciona um processo de decomposição, que produz novos acontecimentos, que acentua a polivocidade dos componentes de subjetivação" (BARROS, s/d, p. 151).O profissional da área psi necessita ter consciência de que seu trabalho em uma oficina terapêutica não deve ser mera reprodução de um modelo "filantrópico" ou de manutenção da ordem social. Deve saber que suas práticas "podem ir na direção da reprodução das relações sociais de dominação-subordinação ou se orientarem no sentido da singularização desejante e da transformação sócio-histórica" (BENELLI, 2004, p. 7).

É importante destacar o papel das oficinas terapêuticas voltadas à geração de renda. Para além de um caráter assistencialista, tais oficinas rompem com o estigma de que o indivíduo em sofrimento psíquico deve permanecer distante de atividades práticas, além de possibilitar que o indivíduo produza, crie e ganhe seu espaço na sociedade, através do consumo (VALLADARES et alli., op. cit.) e da melhoria de suas condições materiais de vida. Para além da "inserção laborativa", a oficina de geração de renda torna-se assim um lugar de promoção de autonomia.Sabe-se que há ainda muito a conquistar na atenção psicossocial à saúde mental. O tecnicismo e a ênfase nos aspectos jurídicos das políticas de atendimento na saúde mental ainda têm força sobre a atuação do profissional da Psicologia. Devemos repensar a todo momento nossas práticas, buscando diferentes linhas para a compreensão da subjetividade, da sociedade e de sua relação com o fenômeno do sofrimento psíquico. As oficinas terapêuticas são um lugar privilegiado para o cultivo e vivência do contato com o outro, em sua singularidade, permitindo que se possa pensar sempre em novos caminhos para a convivência.

BIBLIOGRAFIA

ARTAUD, A. "Para acabar com o julgamento de Deus". In: WILLER, C. (org.) Rebeldes e Malditos. São Paulo: L&PM, 2007.

BARROS, R. D. B. "Grupo e Produção". In: BAREMBLITT, G. et alli. Saúdeloucura no. 4. p. 145-154. São Paulo: Ed. Hucitec, s/d.BENELLI, S. J. O lugar da psicologia na sociedade contemporânea: encomenda e demanda social. [mimeo] Assis: Unesp, 2004.

CEDRAZ, A.; DIMENSTEIN, M. "Oficinas Terapêuticas no cenário da Reforma Psiquiátrica: modalidades desinstitucionalizantes ou não?" In: Revista Mal-estar e Subjetividade. V. V, no. 2, pp. 300-327. Fortaleza: Unifor, 2005.

DELEUZE, G. O que é um dispositivo? Trad. de: DIAS, R. S. [mimeo] Assis: Unesp, s/d.

PAIVA-CRUZ, S.G.F.; MARTINI, R.B.; MACHADO JÚNIOR, L.B.S.; et col. "Dispositivo grupal acionando resistência aos modos de assujeitamento da subjetividade". In: Anais do XIX Encontro de Psicologia e VI Encontro de Pós-Graduação da Unesp Assis. [on-line] Disponível na Internet <http://www.assis.unesp.br/encontrosde … ORGINA_PAIVA_CRUZ.htm> Acessado em 14 de janeiro de 2009.

ROCHA, L. C. "O perigo dos pobres". In: FRANÇA, S.; PAIVA-CRUZ, S. G.; ROCHA, L. C.; et col. Estratégias de Controle Social. Pp. 43-68. São Paulo: Arte & Ciência, 2004.

VALLADARES, A. C. A.; et alli.  "Reabilitação Psicossocial através das Oficinas Terapêuticas e/ou Cooperativas Sociais". In: Revista Eletrônica de Enfermagem. V. 5, no. 1, pp. 4-9. Disponível na Internet <http://www.fen.ufg.br/Revista> Acessado em 22 de fevereiro de 2009. 

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