Simplesmente Feliz…Ou porque a felicidade incomoda?

Dia desses assisti o filme Simplesmente Feliz (Happy-Go-Lucky), do diretor britânico Mike Leigh. Como alguém que se dedica ao estudo da felicidade, é claro, me senti atraída pelo título do filme. Toda a ação do filme se dá em torno do dia-a-dia de uma professora primária, Poppy, interpretada por Sally Hawkins – vencedora do Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim em 2008 pelo papel. Ou seja, não acontece muita coisa no filme, não no sentido em que se possa esperar por ação. A rotina é a tônica do filme: uma ida a livraria; um aluno com problemas de agressividade; uma saída à noite com amigas; um flerte com um colega de trabalho…o início de um romance; o roubo de uma bicicleta; uma visita familiar…e os entraves naturais da convivência entre irmãs com estilos de vida diferentes; conversas femininas sobre os homens e o futuro; a decisão de aprender a dirigir…e o encontro com um instrutor que corrói de tão ácido…

…mas é nesse ponto, no encontro da doçura de Poppy com o amargor de Scott (o instrutor de direção), que o filme revela sua ótica incisiva sobre o que é a felicidade. A convivência desses personagens expõe duas formas de viver e de ver o mundo diametralmente opostas que, me parece, são alegóricas. Ou seja, há uma exacerbação das características de personalidade das personagens, o que seria um recurso dramático para distinguir os "territórios" vivenciais de Poppy e Scott. Assim, o recorte da vida feito por Poppy é 100% otimista, bem humorado, generoso e encantado, levando-a a fruir com as situações diárias sem reservas ou pré-julgamentos. As lentes de Scott, ao contrário das de Poppy, são lapidadas por um pessimismo bruto, pelo azedume, pelo egoísmo, pela decepção e pela negação da vida, o que faz dele um homem incapaz de sair do próprio foco. O mundo de Scott é o umbigo dele, ensimesmado, o sujeito não consegue abrir mão das verdades que carrega consigo. Enquanto o mundo de Poppy é uma palheta que se desenha e colore à medida que os eventos ocorrem, o de Scott é uma tela acabada, monocromática e definitiva.

Ok! Você, caro leitor que viu o filme, pode dizer – mas a Poppy também detém suas verdades, só que as dela são baseadas numa visão "cor de rosa" do mundo. Logo, o mundo dela também é monocromático porque sempre positivo. Eu direi a você, errado! Poppy não deixa de ver o lado negativo da vida: ela reconhece o mal presente na agressividade do aluno; a ambigüidade afetiva da vida familiar; a miséria humana na condição do sem-teto; o prejuízo do roubo – quando lhe usurpam o principal meio de transporte, a bicicleta; a incerteza do amor que se inicia; a arrogância e a indelicadeza do instrutor de direção, que mais tarde revelam-se parte de uma instabilidade emocional muito mais profunda…enfim! Poppy não é a Pollyanna condicionada à uma resposta comportamental para esquivar-se dos males do mundo, muito menos o Professor Pangloss de Voltaire, para quem "tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis". Poppy vê o mal – o negativo, o ruim – e os danos que ele promove mas, ao contrário de Scott, ela não se deixa tragar por ele, ela não o toma como uma regra dominante que deve nos levar a nos defendermos de tudo e de todos, todo o tempo.

O mal existe, Poppy reconhece isso. Quando o lado negativo da vida se faz presente – Poppy ensina – devemos buscar os meios para minimizar os seus efeitos. É o que ela faz entrando na auto-escola ao ter a bicicleta roubada. Ao invés de sentar e chorar sua condição de vítima da violência urbana, ela coloca em prática uma necessidade adiada, aprender a dirigir, e abre novas possibilidades para viver. Em outro momento, ao se deparar com a agressividade do aluno, ao invés de demonizar a criança, tachando-a de problemática, etc., Poppy procura meios para eliminar o mal, tentando entender a raiz do problema e buscando soluções para ele. Por fim, quando o que é ruim é maior e mais forte do que os recursos que temos para enfrentá-lo, Poppy mais uma vez mostra o caminho: afastar-se da fonte do problema. É o que ela faz em relação ao Scott e, de certo modo, em relação a uma parte da própria família.

A receita de felicidade de Poppy é natural e, coincidentemente, vai ao encontro dos resultados obtidos pela Psicologia Positiva ao investigar o que diferencia as pessoas felizes das não felizes. Melhor dizendo: vivemos todos no mesmo mundo, todos enfrentamos dores e decepções. Há formas positivas e negativas de lidar com isso: aceitando a alternância da experiência e buscando soluções para o que nos aflige sem fazer tempestade em copo d'agua o tempo todo – de vez em quando é até saudável – ou afogando-se, persistentemente, na autocomiseração e isolando-se da vida porque o mundo parece ameaçador. Logo: morte, adoecimento, violência, desilusão, traição, perda, etc., farão parte da vida de todos nós em algum momento, e aprender a lidar com isso de forma produtiva – leia-se, sem deixar que o sofrimento nos paralize – é a única possibilidade de felicidade.

Parênteses: note-se, estou falando de todos nós que podemos suprir as necessidades básicas de subsistência. As pesquisas sobre felicidade apontam para o fato de que a privação material – como passar fome ou carecer de recursos para minimizar/interromper a dor – inibe a possibilidade de vivência de felicidade. Mas a vida não é só isso. Do ponto de vista estritamente fisiológico, satisfazer as necessidades básicas – comer, abrigar-se, evitar/tratar a dor – demanda recursos mínimos. Uma vez que tais recursos estão disponíveis, a avaliação da vida como positiva ou negativa é uma construção pessoal. O que diferencia uma pessoa feliz de uma não feliz é a forma de encarar e de lidar com os problemas e os males da vida. Melhor dizendo: o mundo, a vida, é do tamanho da nossa disponibilidade para aprender. O que, obviamente, exige uma mente aberta à experiência.

A necessidade de abertura emocional para a vida, e a felicidade, é sentida na pele quando vemos o filme. Esse é o grande mérito do diretor Mike Leigh, ele conseguiu construir uma narrativa que nos leva a nos depararmos com a nossa resistência a abandonar os padrões. Ao nos depararmos com Poppy, com seu comportamento peculiar, nos apegamos aos conceitos pré-definidos de maturidade, racionalidade, sanidade, etc. A mulher boba que ri de quase tudo, que brinca, que não se leva tão a sério, nos parece inicialmente uma "retardada", infantil, "sem noção"…o Scott em nós se irrita com o jeito de Poppy, e logo duvidamos da seriedade – e da validade – não só da personagem como do próprio filme.

Progressivamente, se nos permitimos, o desenrolar da trama vai sutilmente nos inserindo na mente de Poppy, na sua forma "desarmada" de lidar com os fatos…aos poucos vamos compreendendo como a felicidade pode habitar a vida, a partir da nossa disposição para reconhecê-la nas menores coisas e acontecimentos…é simples! A visão de Poppy nos permite fazer a transposição da concepção rígida do que seria a inteligência, a adultez e a racionalidade para um ponto de vista mais flexível da maturidade – no qual cabe uma certa dose de ingenuidade, de irresponsabilidade, de curiosidade, de insegurança, de narcisismo. Quando conseguimos fazer essa passagem, descobrimos que o incômodo que sentimos com a felicidade de Poppy é a constatação do nosso apego à tristeza, à idéia monolítica de seriedade que lutamos por ostentar como sinal de inteligência e superação da infância.

O encontro com Poppy e Scott pode nos ajudar, enfim, a perceber que a felicidade não é o oposto da tristeza. A felicidade é o oposto de uma vida não vivida…a Felicidade é o oposto da amargura!

About Angelita Scardua

Angelita Viana Corrêa Scardua é Mestre em Psicologia Social pela USP/SP, com estudos sobre Felicidade e Meia-Idade fundamentados na Teoria Junguiana e na Psicologia Positiva. Atua como psicóloga clínica e como professora de graduação e de pós-graduação...
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