Planejamento Estratégico e Bem Estar

O presente estudo teve como objetivo investigar e descrever a vivência do Planejamento Estratégico (PE) entre profissionais de saúde no contexto hospitalar. Também se investigou a influência do PE no bem-estar destes trabalhadores. Participaram desta pesquisa três enfermeiras chefes de serviço e seis enfermeiras chefes assistenciais. Trata-se de um estudo qualitativo, de natureza descritiva, no qual foram utilizadas entrevistas semi-estruturadas e pesquisa documental. As entrevistas foram gravadas, transcritas e submetidas à análise de conteúdo. Criaram-se três categorias temáticas: Vivência do Planejamento Estratégico, Bem-estar no trabalho e Cotidiano de Trabalho. Constatou-se que, embora não exista planejamento estratégico na organização estudada, os gestores e colaboradores sentem a necessidade de implantação do mesmo. As entrevistadas relataram que a ausência de planejamento resulta em uma queda do bem-estar na equipe de trabalho e, por conseqüência, interfere no cotidiano trabalho laboral. Em resposta à inexistência de um PE institucional, as chefes de serviço buscam estratégias de gestão para planificar as demandas de trabalho junto a suas equipes. Os resultados deste estudo indicaram que o equilíbrio entre Planejamento Estratégico e demandas de trabalho favorece o aumento da qualidade de vida no trabalho.

Palavras Chave: Planejamento Estratégico, Bem Estar no trabalho, Trabalho, Organizações Hospitalares.

 O Planejamento Estratégico (PE) foi e é amplamente utilizado pelas organizações corporativas. Seu início ocorreu na década de 1970. É utilizado para mobilizar recursos, visando a atingir os objetivos desejados em longo e médio prazo (Chiavenato, 2004). Para Drucker (2009), não diz respeito a decisões futuras, mas sim às implicações futuras de decisões presentes. O Planejamento pode se referir à maneira pela qual a empresa pretende aplicar determinada estratégia para alcançar os objetivos. A utilização envolve a formulação dos objetivos organizacionais a serem alcançados, análise interna das forças e limitações da empresa, análise externa e formulação de alternativas estratégicas. Ainda, conforme Chiavenato (2004), nenhuma organização nasce no vácuo; todas têm uma missão a cumprir. Nesse contexto, o planejamento estratégico é vital para estabelecer missão, visão e valores das empresas. Assim, a missão funciona como um propósito orientador para as atividades a serem realizadas; a visão, como o projeto que a organização gostaria de ser, ou seja, o futuro e, a partir desta, surgem os objetivos mais relevantes.Para Públio (2008), o PE é uma metodologia que visa à mobilização de todos os recursos da empresa no âmbito global procurando atingir objetivos previamente definidos. Como processo gerencial, procura definir objetivos para a seleção de procedimentos e execução, levando em conta as condições internas e externas à empresa e a evolução esperada. Nas organizações de saúde, o PE pode ter mais eficácia se realizado de forma participativa. Também considera as premissas básicas missão, visão e valores que a empresa deve respeitar para que todo o processo tenha sustentação e coerência.

Artmann, Azevedo & Sá (2000) afirmam que os hospitais, em particular, são caracterizados como organizações profissionais. Estas se definem por um setor de grande dependência dos profissionais, como a equipe de enfermagem, médica e técnicos da área da saúde, pela execução das atividades da organização, o que dificulta a aplicação do Planejamento Estratégico. Devido à complexidade das tarefas, estas são executadas e controladas diretamente por especialistas com alto nível de qualificação, que requerem autonomia para o desenvolvimento do trabalho.

Como o processo de trabalho no contexto hospitalar é muito complexo e especializado, os resultados do trabalho profissional não podem ser mensurados facilmente. As decisões, em grande parte, dependem de julgamento profissional. O poder em organizações deste tipo advém essencialmente dos experts, sendo conseqüência da perícia e não da hierarquia. Neste contexto, o papel dos gerentes/planejadores é mais limitado para coordenar ou normalizar o trabalho profissional. Além disso, destaca-se o desafio de integração da dupla estrutura, profissional e administrativa, bem como entre os diversos especialistas, principalmente no sentido do compromisso com os objetivos organizacionais (Artmann, Azevedo & Sá, 2000).

Em muitas situações, os trabalhadores de instituições de saúde podem conviver com a implantação do PE ou sentir sua ausência nas rotinas diárias, durante a execução de suas tarefas. Assim, o PE pode ter resultados tanto positivos como negativos no bem-estar dos colaboradores, visto que a missão corporativa está relacionada com o direcionamento da empresa mediante funcionários e colaboradores. Robbins (2005) diz que a finalidade do PE é para onde os esforços da empresa estão direcionados. Tendo por base as exigências do mercado, as organizações devem planejar metas para permanecer competindo. Por essa razão, estão exigindo cada vez mais dos trabalhadores, os quais vem a ser peças fundamentais nos resultados almejados e estabelecidos pelo Planejamento Estratégico. No entanto, cobranças excessivas ou abusivas podem fragilizar o estado mental dos trabalhadores.

Em alguns casos, pode ser de difícil elaboração e operacionalização frente à realidade da empresa, pois, segundo Wagner (1999), administrar e liderar uma organização exige o uso do poder, e este está baseado em normas, valores e crenças de certos indivíduos. No entanto, o PE não visa apenas alguns indivíduos e sim a uma empresa como um todo, determinando características na cultura organizacional das instituições. Por isto, aplicar e vivenciar o planejamento pode ter várias complicações. A falta dele pode ter um impacto profundo nas ações e provocar diversos conflitos, como problemas entre os colaboradores, estresse no trabalho diante da falta de objetivos, uma sensação de ócio nos trabalhadores e, até mesmo, resultados de adoecimento mental ou físico. A forma como o PE é operacionalizado pelas organizações pode trazer impactos tanto positivos como negativos no processo saúde/doença dos trabalhadores. 

Estudos e experiências anteriores têm demonstrado que planejamentos participativos, nos quais os trabalhadores são consultados na elaboração e implantação do PE estão relacionados à eficácia organizacional, aliada à satisfação dos empregados, bem como maior comprometimento com as estratégias definidas (Gelbcker, Matos, Schmidt, Mesquita & Padilha, 2006). Por outro lado, a inexistência de qualquer tipo de planejamento, ou cobranças excessivas e abusivas, resultantes de gestões estratégicas autoritárias, tem sido mais relacionada à ineficácia e desmotivação entre os trabalhadores, e até mesmo adoecimento dos trabalhadores (Guimarães, 2002).

Diante disto, é importante investigar como os trabalhadores, individual e coletivamente, administram as demandas trazidas pelo PE e conseguem, ou não, favorecer situações de bem-estar no trabalho. É relevante, por exemplo, compreender quais princípios do planejamento estratégico e características dos trabalhadores que vem a ser fragilizados pela alta exigência ou pela falta do planejamento. Para Públio (2008), alguns fatores que devem ser levados em conta são os diversos tipos de variáveis envolvidas: ambientais, culturais, sociais, demográficas, econômicas, jurídicas, políticas, psicológicas e tecnológicas. Estes pontos citados remetem aos princípios do Planejamento Estratégico, pois as organizações necessitam avaliar as variáveis envolvidas para elaborarem o plano a ser seguido.

No processo de implantação do PE, pode-se observar que as práticas para Qualidade de Vida dos Trabalhadores nas organizações coexistem com uma pressão por produtividade crescente, num ambiente extremamente competitivo, no qual o indivíduo deve estar sempre pronto para mudar e se adaptar às demandas do mercado (Vasconcelos & Faria, 2008). Seguindo este raciocínio, Robbins (2005) afirma que dentro das organizações não são poucos os fatores que podem ser fontes de estresse: pressões, chefias exigentes e insensíveis, colegas desagradáveis e tarefas excessivas.

O aumento do número de registros de doenças relacionadas ao trabalho a cada ano instiga os pesquisadores a investigar a relação entre o surgimento de doenças (físicas, mentais ou psicossomáticas) e a organização do trabalho. Segundo as modificações nas relações sociais de produção, principalmente a partir da década de 1970, mesma década que data do início da utilização do PE pelas organizações (Vasconcelos & Faria, 2008).

Neste sentido este estudo propõe-se a investigar o impacto das técnicas aplicadas na implantação do PE. Tais técnicas envolvem os atores que irão participar da elaboração do planejamento e os métodos para torná-lo viável para os colaboradores – de modo a conquistar a adesão destes e a flexibilização das metas do PE tendo em vista a adequação ao cotidiano de trabalho. Estudos desta natureza podem auxiliar na minimização de dificuldades administrativas e colaborar para o aumento da qualidade de vida dos trabalhadores. 

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