Nicotina em boa forma

Novo estudo elucida as bases neurais que relacionam a ação da substância ao controle do apetite. Autores pensam em maneiras de driblar seus efeitos nocivos para usá-la em tratamentos de obesidade e de dependência química.

Novo estudo elucida as bases neurais que relacionam a ação da substância ao controle do apetite. Autores pensam em maneiras de driblar seus efeitos nocivos para usá-la em tratamentos de obesidade e de dependência química.

 

A nicotina é sintetizada na raiz da planta do tabaco (‘Nicotina tabacum’) e está presente em suas folhas O teor da substância em apenas um cigarro já é capaz de ativar as vias nicotínicas que levam ao controle de apetite.

Alívio ao estresse, gosto pelo sabor, status social e até mesmo a manutenção da ‘boa forma’ são algumas das motivações alegadas por fumantes de tabaco para justificar sua iniciação e permanência na condição de usuários.

Por ser o tabagismo a principal causa de mortes evitáveis no mundo, diversos estudos científicos têm buscado entender como a nicotina atua no organismo e o que explica as sensações relatadas pelos fumantes.

Uma dessas pesquisas, desenvolvida por cientistas da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, e publicada na Science desta semana, ajuda a preencher uma dessas lacunas: a associação entre tabagismo e emagrecimento.

Por meio de testes moleculares, farmacológicos, eletrofisiológicos, comportamentais e genéticos, os autores rastrearam os caminhos neurais percorridos pela nicotina ao entrar no organismo de camundongos. Ao analisar os resultados, concluíram que a substância pode levar à diminuição da ingestão de alimentos e limitar o aumento de peso nesses animais.    

A nicotina, produzida na raiz da planta do tabaco (Nicotina tabacum) e presente em suas folhas, é reconhecida por receptores localizados na membrana celular de neurônios espalhados por todo o cérebro. Assim que é reconhecida, a substância estimula a liberação de hormônios psicoativos, como acetilcolina e dopamina, que provocam, entre outros efeitos, a sensação de prazer. 

Os pesquisadores observaram que o reconhecimento da nicotina por esses receptores ativa, além da liberação hormonal, neurônios pertencentes ao sistema melanocortina, uma importante via cerebral envolvida na regulação do balanço energético e ingestão de alimentos.

Para identificar as subunidades dos receptores ativadas que levavam sinais às vias de controle do apetite, os cientistas usaram uma substância similar à nicotina, a citisina – utilizada em tratamentos de dependência ao tabaco –, que é capaz de se ligar a partes mais específicas dos receptores nicotínicos. 

A nicotina e a citisina limitaram o ganho de peso, diminuíram a massa de gordura corporal e reduziram a ingestão alimentar em camundongos

Administradas em doses de 0,5 mg/kg (para nicotina) e 1,5mg/kg (para citisina), durante um mês, ambas as substâncias limitaram o ganho de peso, diminuíram a massa de gordura corporal em 15% a 20% e reduziram a ingestão alimentar em até 50% nos camundongos.

Segundo o neurobiólogo Yann Mineur, um dos autores do artigo, o controle de peso como justificativa ao hábito de fumar é observado em inúmeros estudos epidemiológicos. “Nos Estados Unidos, fumar para ‘se manter em forma’ é a principal razão citada por meninas adolescentes para justificar sua entrada e permanência no tabagismo”, disse o pesquisador em entrevista à CH On-line.

Mineur afirma que, também na Europa, muitos utilizam o cigarro como um supressor de apetite, especialmente o público feminino.

“O teor de nicotina de apenas um cigarro já é capaz de ativar as vias nicotínicas que levam ao controle da ingestão alimentar”, afirma o neurobiólogo. A absorção da nicotina pelo organismo humano é, em média, 1 mg por cigarro, variando de 0,34 a 1,56 mg, de acordo com a marca e a forma de ingestão. O consumo diário de tabagistas regulares é de 10 a 61 mg de nicotina. 

Mineur acredita que a nicotina pode ser uma aliada no desenvolvimento de tratamentos de obesidade. No entanto, alerta: “Devemos ser cuidadosos ao tentar traduzir resultados de pesquisas farmacológicas entre espécies, como camundongos e humanos, e as doses do medicamento e sua toxicologia devem ser atentamente estudadas para aplicações futuras”.

por Gabriela Reznik

Adalberto Tripicchio PhD

 

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