Interveção em Pacientes Terminais em uma Perspectiva Fenomenológica

RESUMO

A perspectiva fenomenológica existencial compreendendo o ser na sua totalidade, dando ênfase na sua subjetividade que emerge enquanto fenômeno visa oferecer um sentido ao fenômeno que emerge do ser para a morte, que ao longo dos anos foi negligenciado e pouco compreendido pela equipe de saúde. Esse fato tem sido repensado pelos profissionais que lidam diariamente com o paciente terminal, procurando compreender a complexidade de este ser para  morte.

ABSTRAT

The phenomenological existential understanding being in its entirety, with emphasis on their subjectivity that emerges as a phenomenon aims to provide a sense of the phenomenon that emerges from being to death, which over the years been neglected and little understood by the health team. This fact has been rethought by professionals dealing with terminally ill patients daily, seeking to understand the complexity of this being to death.

INTRODUÇÃO

O filósofo Herculano (1984) em sua reflexão sobre a morte nos traz a figura do sábio Atenas, quando o júri condenou Sócrates à morte para tomar o veneno cicuta por ter ensinado aos jovens em praça pública conceitos diferentes ao da época, ele calmamente interpretou dizendo: A esta sentença todos estão condenados. Nascemos, crescemos e morremos eis o inevitável, não temos motivo para pensar na morte, nem para desejá-la, mas a morte não é uma opção é uma certeza, todos vão vivenciá-la querendo ou não o filósofo de Atenas.


Possuía uma serenidade a respeito da morte que era integrante, podendo atribuir esta serenidade devido a uma educação para morte? No ocidente somos todos acostumados a uma educação para a vida, está a causa para o temor do fim inevitável?

A civilização do oriente tem um pensamento elaborado sobre a morte que facilita a compreensão deste fenômeno, e acompanha a história da humanidade, e segundo Julia Kovács (2005, p.01),

A morte faz parte do desenvolvimento humano desde a sua mais tenra e acompanha o ser humano no seu ciclo vital, deixando suas marcas, questões são constantemente formuladas: De onde viemos e para onde vamos? Será a morte o final da existência, ou somente transição, o final do corpo físico, a liberação da alma? Haverá outras vidas? Será a nossa existência um caminhar para a evolução de cada ser? Chegaremos à perfeição Divina? Este desafio se torna ainda mais urgente para os profissionais de saúde e educação.

 Os profissionais da área de saúde que lidam com a perspectiva da morte em pacientes terminais, precisam cada vez mais procurar buscar conhecimentos para poder oferecer uma escuta adequada em sentido solidário e compreensivo deste processo tão pouco aceito e comentado diante do pragmatismo ocidental.

A falta de compreensão dos sentimentos do paciente perante as suas angústias, impotência, culpa e raiva diante da perspectiva de morte. Contudo, contribui para cristalização deste fim inevitável que é a morte. Pesquisas realizadas por Ross (2005), demonstram a falta de preparo da esmagadora maioria de paciente que quando passam por um processo de doença terminal entram em diversas situações conflitantes, para depois poderem ter consciência do que está vivenciando, mas nem todos chegam no estágio final que é o de aceitação.

           
Está situação requer do profissional de saúde uma atitude que possa aliviar de alguma maneira esse sofrimento, e a crise, que é se deparar com o conceito de morte.

Paciente Terminal

O paciente terminal é alguém que possui uma "sentença de morte" envolvida em seu ser, segundo Kovács (2002,p. 194) "estes fatores têm peso no desenlace da doença.  Atitudes e representações sociais têm de ser trabalhadas, sendo uma tarefa fundamental dos profissionais de saúde". Podendo classificar o paciente terminal como alguém  que está entre a vida e a morte, que passa por uma angústia profunda que vai desencadear estágio que são bem definidos por Kubler- Ross (1981), primeiro estágio é a negação, que é caracterizado no início do adoecimento, onde o paciente não acredita que tal esteja acontecendo com ele; Segundo estágio é a raiva, não é possível mais negar o sintoma, surgindo inveja e revolta. Nesse momento, permitir o paciente expressar sua raiva tornar-se o mais viável; Terceiro estágio é a  barganha, o paciente começa a pedir deixe-me fazer o último pedido, surge diálogo direcionado a DEUS, a igreja, com pedidos de troca de recompensa para sair da situação debilitante; Quarto estágio é a depressão, é momento muito doloroso para a família, que procura resgatar a auto-estima do paciente sem obter sucesso. Para emergir neste estágio  uma elaboração do luto,  de questão anterior vivenciadas anteriormente pelo paciente; Quinto e último estágio é a aceitação, é uma compreensão da sua morte, sua elaboração contra o inevitável a "morte" estão cessadas. 

A falta de educação para a morte tem gerado profundas crises existenciais no ser humano, quando vivencia este processo, encarar o desconhecido é temeroso. Segundo Kovács (1992, p. 15) " o medo da morte é universal e atinge todos os seres humanos, independentes da idade, sexo, nível socioeconômico e credo religioso." Este medo  tem um fundamento, pois revela certo instinto de preservação.

O paciente terminal, assumi esta finitude que á morte, pode ajuda-lo a lidar e/ou aliviar este terror original. Segundo Camon (1998, p. 17), "humanizando e interiorizando a morte, o homem pode alijar-lhe o caráter de restrição da liberdade." O ser humano estando predestinado a morrer, faz necessária uma reflexão sobre este temor, desde a situação mais tenra idade. Deparamo-nos com situações  de morte em nosso desenvolvimento querendo ou não, é um fato que está além de nossa vontade, o temor, o medo, a angústia, a revolta são emoções que emergem quando vivenciamos a experiência do processo de morrer, com um de nossos familiares, amigos ou até  desconhecido, e geralmente não são discutidos o porquê dessas emoções, apenas fica representado no silêncio da subjetividade, pois o homem não justificar o desencontro com a morte, Heidegger filósofo alemão (1927) vai dizer que o homem é o ser-para-morte. Esta experiência da morte é uma possibilidade inevitável e intransferível, que não é o fim da vida, mas sim um fenômeno desta vida, ninguém pode morrer pelo outro e quando o ser toma conhecimento deste fenômeno ele começa a projetar interiormente uma educação para a morte, o questionamento existencial sobre a morte torna o ser mais autentico com ele mesmo, com sua realidade inevitável. Segundo Kovács (2005, p. 12),

Negar a morte é uma experiência das formas de não entrar em contato com as experiências dolorosas. A grande dádiva da negação e da repressão é permitir que viva num mundo de fantasia onde há ilusão da imortalidade. Se o medo da morte estivesse constantemente presente, não conseguiríamos realizar os sonhos e projetos. Existe, no ser humano, o desejo de se sentir único, criando obras que não permitam o seu esquecimento, dando a ilusão de que a morte e a decadência não ocorrerão. Essa couraça de força é uma mentira que esconde uma fragilidade interna, a finitude e a vulnerabilidade.

           

Não podemos negar que o ser existencial independente de qualquer linha de pensamento filosófico é um ente que está em conflito com a perspectiva da percepção da sua finitude, a morte será inevitável, porém, compreender a morte em uma visão fenomenológica existencial significa perceber que este é um fenômeno da própria vida,  e não algo a ser negligenciado.

Ser-no-mundo

Segundo Heidegger (1927) existir é encontrar-se no mundo e viver para a morte, o ser apenas compreende o significado da vida quando é autêntico, e experiência seus sentimentos é reconhecê-los como parte de sua finitude poderá ser gerado um angústia  da falta de compreensão, de realizar-se plenamente, este olhar é compreendido como facilitador de uma visão holística do paciente terminal na totalidade de sua existência, ou seja, o paciente terminal abordado nessa perspectiva poderá ser mais bem compreendido, consequentemente, ter uma boa morte.

           
Segundo Kovács (2002,p.147) "a  morte é as possibilidades mais peculiares, irrefutáveis e irrepresentáveis do ser-aí. Dentro de todas as minhas possibilidades, já está presente a absoluta impossibilidade, de não estar mais aí." Quando o ser humano debruça-se com a sua  finitude da sua existência, consequentemente é gerada uma angústia, que vai suscitar um sentimento de ser-para-a-morte, onde o ser humano percebe que o poder-ser pode não-ser. Segundo Giles (1979, p.91), "É a fenomenologia que vai estudar, sob o plano da manifestação em que todas as ordens da experiência podem se traduzir, este fenômeno de existência humana, pois existir para a consciência é aparecer, e é  um aparecer que é preciso descrever e interrogar." A morte ainda é considerada um tabu em nossa sociedade, e podemos observar nas palavras Rehfeld (2007, p. 199) "contesta uma estrutura de ser inconsciente, em que todo ato humano deve ser compreendido de acordo com a relação entre o ser e seu mundo." É difícil para a maioria falarmos sobre a morte; há pelo menos duas razões para isso. Um delas é antes de tudo psicológica e cultural: o assunto morte é tabu para muitos.

A Morte no Contexto Ocidental

           
Segundo Grof (2005) a sociedade ocidental construiu uma negação psicológica da morte, onde percebemos o resultado  desta negação, na imensa publicação existente sobre o tema morte, paciente terminal. Preparar para a morte é também preparar para á vida, todos sabemos que temos de morrer, e que este fato pode acontecer a qualquer momento, a morte não avisa, não manda carta e nem recado, apenas  fazemos parte da lei da natureza e não temos escolha.

           
Entretanto, Ross (2005) diz que o nosso inconsciente não aceita o nosso fim, contribuindo para ter uma visão da morte como um acontecimento ruim, juntamente com este processo interno, tem a contribuição de uma sociedade capitalista, onde o "ter" é mais importante que o "ser",  o pensamento linear e pragmatista desta sociedade, tem causado e colaborado para uma influência dessa visão de homem no mundo, diferente da proposta fenomenológica existencial, onde vai enxergar o homem como o ser-no-mundo, contribuindo para a perspectiva que a morte é um fenômeno da vida, e não termino dela. O paciente terminal está diretamente ligado a questões em que está inserida dentro de sua cultura, vive em uma sociedade muito capitalista, onde quem não produz, não tem lugar, é excluído, possibilitando uma crise existencial entre o querer e permanecer vivo, e voltar a ser aceito de volta nesta sociedade produtiva, onde sabemos não se tratar de querer e sim compreender o seu estado atual.  Está crise existencial que o paciente terminal vivencia diante da sua situação esta que existe aos milhões e que nós profissionais de saúde iremos nos deparar  com este processo, seja ele enquanto atuante em nossa profissão ou em nossas vidas pessoais, procurando ter uma visão deste fenômeno que emerge nesta situação de esperar e/ou compreender este fim inevitável que se traduz na palavra de cinco letras, mas que tem a força de fragilizar o homem que pisou na lua, que conquista o espaço cada dia que se passa, que constrói verdadeiros castelos de concretos que exalta a beleza de formas mais exóticas que se pode imaginar, que é capaz de realizar cirurgias  transformadoras no ser humano, que pode haver comunicação de um ponto a outro no mundo em segundos, que constrói bombas que são capazes de destruir um país inteiro ceifando vidas e dizimando qualquer forma de força vital, que é capaz de compreender uma forma molecular e de até separar o átomo, enfim, o homem conquista a cada dia que se passa a tecnologia num entanto se torna completamente frágil no que toca a sua intimidade, não consegue controlar o que gera dentro dele, as suas emoções, a sua "morte".

 

Considerações Finais

           
O paciente terminal é um ser fragilizado que necessita de cuidados especiais da equipe de saúde, a fenomenologia existencial, compreendendo que o ser se constrói na relação com outro, que a cada encontro eu sou afetado e afeto a outra no sentido de crescimento e compreensão da minha existência, e esta compreensão está implícita o sentido de minha finitude, este paciente será mais bem compreendido diante de suas angústias e fenômenos correlatos diante da morte.

BIBLIOGRAFIA

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REHFFELD, Ari. Dicionário de Gestalt-Terapia: "Gestaltês" – Ser no Mundo / Gladys D'Acri, Patrícia Lima, Sheila Orgler.  – São Paulo: Summus, 2007.

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GROF, S. Psicologia do Futuro: Niterói -RJ: Ed. Heresis, 2000.

JUNIOR, R. A.M. Vida Depois da Vida. Rio de Janeiro: Nórdica, 1984.

KOVÁCS, M.J. Educação para Morte. 2005 Disponível em; HTTP:/pepsic.bvs.psi.org.br/scielo. Acesso em: 06. Jun. 2011.

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