Interrelação entre depressão pós-parto e relacionamento conjugal

           

         Thiene Salazar Livio Moraes            

        Tatiana Alvim Figueira           

Sabrina Ferreira Piazza

Interrelação entre depressão pós-parto e relacionamento conjugal

                              Rio de Janeiro 2008

1 INTRODUÇÃO

O nascimento de um bebê costuma ser um acontecimento marcante na vida de um casal. Mais significativo ainda quando se trata do primeiro filho, uma vez que o casal que até então desempenhava apenas o papel familiar de marido e mulher agora deverá também assumir a função a função parental. Sendo assim, a chegada do primeiro filho representa um acréscimo no desempenho de papéis.

De modo geral, é um acontecimento feliz. No entanto, na experiência de muitos casais, este momento passa a estar associado a situações de estresse decorrentes das mudanças e até das disfunções que se instalam na vida familiar.

As mudanças ocorridas no relacionamento conjugal e na vida em família a partir do nascimento do primeiro filho são de tal importância, que pesquisadores já têm se interessado pelo assunto. Romito, Cubizolles e Lelong (1999) abordam esta questão em seus estudos, conforme citados por Sotto-Mayor e Piccinni (2005)

Dentre as disfunções que podem ocorrer, incluem-se a Depressão pós – parto, parte do objeto de estudo deste artigo.

Embora a Depressão pós – parto seja tema presente na literatura da Psicologia, no que diz respeito a sua relação com a vida conjugal, observa-se que tem havido pouca atenção para o assunto por parte dos pesquisadores. Prova disso está na escassez da literatura sobre o tema.

Vários são os autores que se dedicam a escrever sobre as causas da Depressão pós – parto (Reading e Reynolds, 2001; O'Hara, 1997; Klaus, 2000 apud Sotto-Mayor, 2005) consideradas por alguns deles como multifatoriais (Cooper &Murray, 1995 apud Schwengber, 2003): biológicas (ex: alterações hormonais relativas à gravidez e ao pós – parto); obstétricos (ex: gravidez indesejada, nascimento prematura do bebê); sociais (ex: suposições que a mãe guarda dentro de si a respeito de expectativas da sociedade relacionadas ao desempenho de uma boa mãe); econômicas (ex: preocupações com problemas financeiros decorrentes da gravidez e do nascimento do filho); psicológicas, compostas por diversos elementos, inclusive o relacionamento conjugal.

Dentre os fatores mencionados , este último compõe o objeto de estudo deste artigo que fica assim definido: INTERRELAÇÃO ENTRE DEPRESSÃO PÓS – PARTO E O RELACIONAMENTO CONJUGAL. Vale ressaltar que o termo ‘interrelação' aqui utilizado indica a intenção de considerarmos a qualidade do relacionamento conjugal enquanto possível fator desencadeante da depressão pós-parto, mas também como conseqüência dela.

2 AS MUDANÇAS INTRÍNSECAS E EXTRÍNSECAS DA MULHER E DO HOMEM A PARTIR DA CONFIRMAÇÃO DA GRAVIDEZ

Segundo Maldonado e colaboradores (2000), o casal que espera o primeiro filho sofre profundas modificações que atingem tanto a mulher quanto o homem e o vínculo entre eles. Ao assumir a função parental, homens e mulheres terão que passar por uma adaptação de suas identidades individuais e principalmente de sua identidade enquanto casal.

A gestação traz à mulher mudanças físicas (inchaço nos seios, alargamento dos quadris), mudanças fisiológicas (interrupção da menstruação, alteração do sono) e mudanças emocionais (oscilações de humor). A confirmação da gravidez pode desencadear uma ambivalência de sentimentos. Com  a notícia de que será capaz de gerar e dar a luz a uma nova vida, a mulher pode ter uma sensação de grande poder e importância, demonstrando euforia. Em paralelo à euforia, podem vir a apreensão e a dúvida ao pensar se o momento seria ideal para receber um filho ou se teria sido melhor  esperar mais um pouco, além das preocupações com a chegada do bebê e com a responsabilidade materna (MALDONADO, NAHOUM, DICKTEIN, 2000).

Apesar dos estudos darem mais atenção à perspectiva materna, os futuro pai também sofre mudanças significativas ao esperar o primeiro filho. Ainda segundo Maldonado et al. (2000) no primeiro momento em que receber a notícia de que será pai, o homem confirma a sua masculinidade, percebe-se potente e capaz de fecundar uma mulher. No entanto, é importante ressaltar que a alegria socialmente esperada, nem sempre ocorre. Neste período diversos fatores emocionais estão presentes.

Assim como a mulher, o homem terá que passar por um processo de reestruturação e adaptação a uma nova situação, podendo experimentar desconforto, alto nível de ansiedade, estresse, ciúmes, inveja e até mesmo sentimento de exclusão.

Pelo fato de não sofrer transformações em seu corpo e não ter um contato concreto com o filho durante a gestação, o homem pode invejar sua mulher, que por sua vez, tende a se doar mais para o bebê, o que pode despertar ciúmes no futuro pai. Além disso, é visível que a mãe torna-se centro das atenções durante a gravidez, tendo o pai pouca oportunidade para compartilhar suas angústias e expectativas. Estes acontecimentos podem gerar no homem um sentimento de exclusão, como já mencionado acima.

Ao lado dos fatores emocionais, fazem parte da transição da identidade os fatores sociais. Apesar das transformações que vem acontecendo em nossa cultura, a representação dos papéis masculinos e femininos mantém os estereótipos de gênero que reforçam as diferenças entre os papéis. (Costa, 2000; Fleck, Falcke & Hackner, 2005; Lewia & Lamb, 2003; Méier, 2000; Staudt, 2007; Trindade & Menandro, 2002 apud BORNHOLDT et al. 2007). Dentro deste aspecto social, o homem é visto como o provedor da família, sendo encarregado de atender as necessidades financeiras. Com o aumento de membros no núcleo familiar, a responsabilidade é ampliada, sendo assim, o futuro pai tende a se dedicar mais ao trabalho visando uma segurança financeira para chegada do novo filho (BORNHOLDT, WAGNER, STAUDT, 2007).

Em vista disso, os estudos examinados ressaltam que a confirmação da gravidez levará a alterações intrapessoais e interpessoais em ambos os sexos.

3 O IMPACTO DO FILHO PRIMOGÊNITO NA RELAÇÃO CONJUGAL

Os autores Apfel e Handel (1999 apud SOTTO-MAYORet al. 2005) mencionaram que a chegada de um filho, estabelece um desafio, emocional, físico, sexual e financeiro, para qualquer casal. É sabido também que, dentro desse contexto, o relacionamento representa uma das principais e mais importantes tarefas do processo de adaptação que a chegada do primeiro filho impõe. Isso se faz necessário porque, a partir do nascimento do primogênito, um novo sistema familiar é formado.

Segundo Maldonado e colaboradores (2000), o período puerperal pode desencadear  o surgimento de novos conflitos, gerar mágoas e ressentimentos, além de fazer vir à tona problemas antigos e até mesmo romper um equilíbrio frágil, causando dificuldades sérias na relação homem-mulher. Os mesmos autores colocam que geralmente nessa fase a rotina da mãe tende a  sofrer modificações radicais, enquanto o pai continua dedicando parte de seu tempo a interesses que não estão diretamente ligados ao bebê, podendo ser este um motivo gerador de ressentimentos.

Maldonado (1997) cita que nos primeiros meses após o parto, a mulher normalmente sente uma maior necessidade de cuidados, afeto e proteção. Recebendo mais e se doando menos. A autora acrescenta que essa necessidade, por parte da mãe, muitas vezes contribui grandemente para o impacto do nascimento do primogênito na vida conjugal, uma vez que o cônjuge teme ser eternamente explorado, pelo fato de sentir-se excessivamente  solicitado e obrigado a se doar, e, simultaneamente se vê privado de cuidados e atenção.

No período puerperal, o vínculo entre a mãe e o bebê é quase exclusivo. Os autores Szejer e Stewart (1997 apudSOTTO-MAYOR & PICCINNI, 2005) enfatizam que, durante a gestação, a mulher acompanha psicologicamente a evolução do bebê, considerando que por meses ela o sente em seu ventre. O homem, por sua vez, fica apenas com sua imaginação, tendo o primeiro contato real com o filho somente quando nasce. Com isso, a adaptação física e psicológica por parte do homem à paternidade é mais demorada do que a da mulher em relação à maternidade.

De acordo com Maldonado, Nahoum e Dickstein (2000), a mãe é a figura principal para o bebê, sendo ele dependente dela para saciar as necessidades básicas de sobrevivência física e emocional. Sendo assim, fica evidente que a mulher dedicará a maior parte do seu tempo para o filho,  a fim de atender essas necessidades.

Os mesmos autores acrescentam que no puerpério a mulher estará menos disponível para o marido, somando o fato de que as relações sexuais só poderão ser reiniciadas aproximadamente 30 dias após o parto, podendo gerar nele sentimentos de menos valia. Por outro lado, a mulher não está livre de ter emoções semelhantes às do homem, podendo expressar ciúmes e rivalidade em relação ao neném, por temer que o homem se encante com o filho e ela receba menos atenção.

Dentre os vários motivos que distanciam o casal está o rompimento temporário da vida sexual. Reeder, Martin e Koniak (1995 apud AFONSO, 2000) apontam que, geralmente o retorno das relações sexuais costuma acontecer dois meses após o parto e para que estas sejam consideradas prazerosas pelas mulheres, o tempo médio é de três meses. Segundo Afonso (2000) "os desajustes que podem surgir no relacionamento sexual do casal após o nascimento do filho são suscetíveis de gerar conflitos entre os cônjuges".

Como podemos constatar, com a chegada do primogênito, o par conjugal terá que passar por diferentes situações até a formação da identidade parental e da adequação a uma nova rotina. Apfel e Handel (1999 apudSOTTO-MAYOR et al. 2005) falam sobre a importância da negociação e cooperação de ambos os parceiros a fim de que possam lidar adequadamente com esta nova fase e oferecer o cuidado de que o bebê necessita. Gottman (2000) concorda com os autores ao colocar que nesta primeira experiência de maternidade ocorre uma mudança natural na vida da mulher e, não havendo um acompanhamento do marido, é esperado que surja um distanciamento entre eles.

Pesquisas recentes realizadas por universidades americanas da Califórnia e de Washington concluíram que os casais não estão preparados para a chegada do primeiro bebê. Os pesquisadores ouviram cerca de 200 pais e mães de primeira viagem, onde 20% se separaram até dois anos depois do nascimento do bebê, 92% afirmaram ter mais conflitos com o parceiro do que tinham antes, 60% acharam que a satisfação com o casamento cai no primeiro ano de vida do filho, 67% passaram por sérias crises conjugais e 30% apresentaram sinais de depressão (SALOMONE, 2005)

Segundo Soto-mayor  et al. (2005) diversos autores tem enfatizado o puerpério, em especial no nascimento do primeiro filho, como um período propício para acentuar e surgir problemas emocionais nos pais, sendo os mais relevantes as manifestações psicossomáticas, as psicoses pós parto e as depressões.

4 DISCRIMINANDO A DEPRESSÃO PÓS-PARTO

Como já vimos, durante a gestação e o pós-parto ocorrem alterações físicas, psíquicas e sociais que exigem uma reorganização e adaptação da mulher, do homem e do contexto familiar. Furtado (2000 apud SILVA e BOTTI, 2005) considera estas mudanças como eventos estressantes que favorecem a ocorrência da depressão pós-parto.

Na primeira semana após o parto é comum a instabilidade emocional da mãe, havendo oscilações rápidas entre euforia e depressão, podendo esta última aumentar a intensidade (MALDONADO, 1997). Este período propicia o surgimento dos distúrbios psiquiátricos puerperais, que se denominam como tristeza pós-parto,psicose pós-parto e depressão puerperal.

O primeiro transtorno citado é conhecido também como baby blues. De acordo com Schwengber et al (2003) costuma se manifestar entre o terceiro e o quinto dia após o parto, atingindo cerca de 60% das puérperas. Estas mulheres apresentam um estado depressivo transitório, em que geralmente a remissão é espontânea, podendo ser caracterizado como uma melancolia passageira.

Já o segundo distúrbio aqui citado é considerado um quadro mais grave. Conforme citado por Zanotti et al. 2003; Rocha, 1999; Kaplan et al. (1999 apud SILVA e BOTTI2005), a psicose pós-parto prevalece em 0,1% a 0,2% das novas mães. Sua  manifestação costuma  ocorrer  nas duas ou três semanas após o nascimento do filho. Schwengber et al. (2003) e Sotto-Mayor et al. (2005) acrescentam que a psicose pós-parto exige um tratamento intensivo, podendo envolver a hospitalização. Dunnewold (1996 apud SOTTO-MAYOR et al. 2005) destaca em sua pesquisa a presença de sintomas acentuados, como paranóides, excitação catatônica, agitação, além de ansiedade, tristeza e distúrbios do sono.

Deve-se ressaltar  que o reconhecimento dos sintomas característicos  e o tempo de surgimento são essenciais para o diagnóstico diferencial entre os distúrbios puerperais. A depressão puerperal se destaca dos outros transtornos por poder se revelar em outro momento, sem que seja de imediato ao nascimento do bebê. Klaus et al, 2000; Cooper e Murray, (1995 apudSOTTO-MAYOR et al 2005) concordam em suas pesquisas que a depressão materna pode ocorrer durante o primeiro ano de vida da criança.

        
Quanto à incidência, a depressão pós-parto atinge de 10% a 15% das novas mães (Kaplan  et al. 2003; Rocha. 1999; Zanotti et al. 2003 apud SILVA e BOTTI, 2005). Normalmente, mulheres acometidas por esta doença no puerpério apresentam sintomas semelhantes ao da depressão referente a outros episódios da vida. Dentre esses sintomas, estão a irritabilidade, a falta de energia, o choro freqüente, perda ou aumento de apetite, sentimento de culpa, hipersonia ou insônia, sentimento de invalidez, sensação de abandono e desinteresse sexual.

Como uma forma de especificar a sintomatologia da depressão materna, a puérpera atingida pode pensar que nunca será capaz de ser uma boa mãe,  que cuidar de seu filho corretamente é quase impossível, que para seu marido é como um peso.  Pode achar, ainda, que para seu caso não há esperança ou auxílio eficaz (Dunnewold, 1996 apudSOTTO-MAYOR & PICCINNI, 2005).

Em relação às causas da depressão pós-parto, é possível encontrar variações nos estudos consultados. As alterações hormonais são citadas como um dos fatores desencadeantes de um conjunto. Autores consideram que há uma associação entre fatores obstétricos, sociais, psicológicos, econômicos e biológicos que contribuem para a etiologia.

De acordo com Kumar (1990 apud DAEH et al, 1999), conflitos na família, falta de apoio social, dificuldades nas relações interpessoais, problemas psiquiátricos dos pais, stress obstétrico e a desarmonia no casamento (colocado como o mais potente) são considerados como alguns dos fatores psicológicos e sociais que precedem a depressão materna.

Os médicos associados à AMA (2002) alertam que a probabilidade da depressão pós-parto manifestar em mulheres que já sofreram com a depressão grave ou algum outro tipo depressão, é maior.

Já Reading e Reynolds (2001 apud SOTTO-MAYOR et al, 2005) destacam possíveis situações estressantes, como a gravidez indesejada, nascimento prematuro, morte do bebê e a não amamentação, podendo esses estarem associados aos fatores obstétricos.

O' Hara (1997 apud SOTTO-MAYOR & PICCINNI, 2005) menciona as mudanças hormonais que as mulheres sofrem nos cinco primeiros dias depois do parto como fatores biológicos. O mesmo autor enfatiza, ainda, os problemas financeiros já existentes, ou novos, que os pais terão que enfrentar como, por exemplo, dívidas e desemprego.

Maldonado (1997) aponta a frustração da mãe em relação ao bebê como uma das contribuições para a ocorrência da depressão materna. Segundo a autora, durante a gravidez, a gestante tende a imaginar os traços físicos do bebê e quando ocorre do real ser distante do imaginário, a mulher pode ter grande desapontamento.

        
Embora a literatura enfoque a depressão no contexto materno, o homem, por sua vez, também pode apresentar depressão pós-parto. As universidades inglesas de Oxford e Bristol realizaram uma pesquisa com 8.400 homens que tinham sido pais recentemente. Foi constatado que oito semanas após o nascimento do bebê, 3,6% dos pais apresentaram sintomas indicativos de depressão, como irritabilidade, ansiedade e a desesperança (COTES, 2006).

        
No período puerperal, normalmente as atenções estão voltadas para a mãe e o bebê, podendo o pai sentir-se excluído, não só pela companheira, como por familiares e amigos. As despesas tendem a crescer, ficando o homem encarregado de suprir as necessidades financeiras da família. A mulher tende a se doar mais para o filho, oferecendo pouco tempo para seu marido, além de serem interrompidas as relações sexuais. Todos estes fatores podem contribuir para que o pai fique deprimido. Goodman (2004 apud SCHMIDT et al. 2005) acrescenta que a depressão materna é um forte fator desencadeante da depressão paterna.  

        
Em entrevista fornecida a Cotes (2006), Fátima Bortoletti (Unifesp) colocou que os sintomas da depressão paterna não  diferem da materna. O que pode vir a ser diferente é o comportamento diante da doença. Segundo a entrevistada, os homens passam a se dedicar mais ao trabalho, evitando o contato com a mulher e com o filho. Passam a sair mais com os amigos e podem passar a beber mais também. Em casos mais extremos, podem procurar ter um relacionamento extraconjugal.

       

5 DEPRESSÃO PÓS-PARTO E O RELACIONAMENTO CONJUGAL

        
O relacionamento conjugal é um dos aspectos de grande relevância na abordagem do tema depressão pós-parto, sendo um dos principais fatores desencadeantes. Kumar (1990 apud DAHER et al, 1999), ao citar os fatores sociais e psicológicos, ressaltou o desajuste entre os cônjuges como fator mais influente no surgimento da depressão pós-parto, acrescentando ainda que os conflitos conjugais poderão aumentar no decorrer da doença. 

Schwengber et al (2003) afirma que pesquisas recentes têm se interessado pelo vínculo  existente entre a ocorrência da depressão pós-parto e  o pouco apoio oferecido pelo parceiro. Gottman (2000) cita em seu estudo que pessoas satisfeitas com o casamento tendem a ter um nível de vida melhor. O autor acrescenta que  casais felizes apresentam uma baixa taxa de doenças. Silva (1994) ressalta que a presença de um vínculo sólido entre os cônjuges e deles com seus filhos, favorece a saúde de todos os membros, sendo uma boa forma de prevenir doenças.

        
Tavares (1990 apud AFONSO, 2000) aponta que  a queda da qualidade do relacionamento marital no pós-parto e a crise conjugal estão possivelmente associadas com a depressão de ambos os cônjuges. A autora menciona que, dentro da dimensão sistêmica, é necessário focar os dois sexos no período puerperal. Segundo Tavares (1990), a mulher, cujo  companheiro não se dispõe a escutá-la, a ajudá-la nas tarefas domésticas e nos cuidados com o recém-nascido, está mais suscetível à depressão pós-parto. Por outro lado, o homem deprimido ou insatisfeito com o seu casamento estará menos apto a prestar o apoio exigido.

        
Conforme citado por Schmidt, Piccoloto e Muller (2005) as relações interpessoais são atingidas diretamente pelos  sintomas  da depressão pós-parto. De acordo com o DSM-IV (APA, 1994), a sintomatologia da depressão puerperal não difere do transtorno depressivo maior, estando presentes o humor deprimido, desinteresse nas tarefas, falta de prazer, disfunções alimentares, distúrbios do sono, fadiga, diminuição da concentração, agitação ou retardo psicomotor, sentimentos de culpa e de inutilidade, e pensamentos de ruína.

        
A partir do momento em que um dos companheiros é acometido pela  depressão, o matrimônio passa a correr risco. De acordo com Xavier (2002 apud BALLONE, 2007), a possibilidade do casamento chegar ao fim é nove vezes maior em relação às uniões em que nenhum dos cônjuges está depressivo. O mesmo autor aponta que queixas de graves problemas no relacionamento conjugal são manifestadas por cerca da metade das mulheres depressivas que procuram tratamento terapêutico, podendo ser próxima à estatística referente aos homens que reclamam do casamento, cuja mulher é diagnosticada com a doença.

        
Ballone (2007) enfatizou, em seu artigo sobre a depressão e relacionamento pessoal, a diminuição da libido e o desinteresse sexual decorrentes da depressão como prejuízo do relacionamento íntimo.

        
Ballone (2007, p.3) ressalta que:

       

A falta de desejo sexual pode comprometer uma relação na medida em que o(a) parceiro sente-se deixado de lado, ou pior, suspeita de não estar mais sendo amado ou que pode estar sendo traído. 

Diante dos resultados apresentados pelas pesquisas, é possível constatar que o relacionamento conjugal frágil e/ou conflitante é um dos fortes fatores causadores da depressão pós-parto, havendo possibilidade de que a crise conjugal seja consequência dela.

       
Em virtude da escassez de estudos voltados para depressão pós-parto enquanto geradora  de conflitos conjugais, foram realizadas algumas entrevistas com profissionais que prestam assistência a mulheres vitimadas por esta patologia, tais como 3 ginecologistas e 1 psicólogo, além das entrevistas feitas diretamente com 2 mulheres que já sofreram de depressão puerperal.

        
Todos os relatos confirmam os dados encontrados na literatura. Os profissionais afirmaram que a qualidade do relacionamento conjugal interfere na melhora ou no agravamento da depressão pós-parto.

Em relação à influência da sintomatologia da doença sobre o vínculo do casal, os três ginecologistas ressaltaram que a depressão pós-parto não é uma patologia comum à sociedade. Por este motivo, na maioria das vezes o casal não está preparado para enfrentar a doença. Os sintomas podem ser interpretados pelo cônjuge como desinteresse, falta de amor, frieza em relação a ele e ao filho, podendo certamente desestabilizar o relacionamento conjugal e ainda resultar no fim do casamento. A psicóloga entrevistada considera ainda a possibilidade de um conflito já existente,  que poderá ser acentuado com o impacto da depressão puerperal.

Quanto às mulheres entrevistadas, ambas afirmaram que a patologia prejudicou o casamento, mas que a crise pode ser superada com o apoio e  a compreensão do marido e com uma terapia de casal.

6 CONCLUSÃO

        
Considerando as informações obtidas no levantamento bibliográfico feito e as entrevistas realizadas, torna-se clara a necessidade de se prosseguir com pesquisas em torno deste tema. A escassez do material disponível mediante à larga abrangência do assunto, caracterizado por múltiplos fatores, evidencia tal necessidade.

        
Contudo, é possível constatar a interrelação entre a depressão pós-parto e o relacionamento conjugal, bem como a influência bilateral existente.

        
Importa chamar a atenção para o fato de que a depressão pós-parto apresenta os mesmos sintomas da depressão grave comum, diferenciando-se desta apenas por se manifestar no puerpério e pela rejeição ao bebê.

        
Sabendo-se que a depressão comum, por si só, é capaz de gerar conflitos entre casais e de prejudicar gravemente  a vida conjugal,  deve-se considerar a alta possibilidade existente de que a depressão pós-parto seja um forte fator desencadeante de crises conjugais, podendo até mesmo ocasionar o fim do casamento. 

        
Outro aspecto que merece ser destacado é o fato de que, embora com menor incidência em relação às mulheres, a depressão pós-parto paterna é uma realidade, com efeitos igualmente prejudiciais à vida conjugal. Algumas pesquisas voltadas para este assunto começam a surgir, porém a necessidade de estudos mais profundos e específicos se impõe.

        
Depressão pós-parto: às vezes, consequência de um relacionamento conjugal frágil e insatisfatório; em muitas outras, geradora de profundas e incontornáveis crises conjugais. Por isso, Interrelação entre Depressão pós-parto e Relacionamento Conjugal.

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