A progressiva sutilização da âncora

Nos dias atuais, muito se fala que meditar precisa ser um estado, e não uma técnica; que deveria fluir com espontaneidade, e não com a "contração" que resulta de um esforço técnico. Outros defendem a importância da técnica bem ensinada e regularmente praticada. Como resolver essa aparente dificuldade? Hoje, buscaremos explicar.

Alguns falam da meditação como um estado, dentro do qual bastaria que você se permitisse relaxar, e a transcendência viria por continuidade. Outros preferem falar da meditação como uma técnica, que teria seus efeitos a partir de sua aplicação diligente, repetida e continuada. Vou lhe contar um segredo. Ambos estão certos!

Por um lado, o estado meditativo final é, de fato, um estado relaxado e entregue, sobre o qual não se pensa, com a plena integração entre praticante e estado, onde até a técnica já se torna algo dispensável. Por outro lado, a técnica é importante, para que nossa "mente-robô" seja ludibriada e não interfira em nosso processo meditativo. Dessa forma, vemos aqui duas versões de uma mesma verdade. Da mesma maneira que vemos meditadores tensos, "travados na técnica", buscando com ardor o que só se encontra na entrega, também vemos meditadores "perdidos em um espaço sem técnica", produzindo um estado mental que julgam "lindo", "mágico" ou "espiritual" e com isso se enganando durante meses, ou anos. Pior de que não conseguir meditar é pensar que está meditando sem realmente estar.

Mas a pergunta principal é: como harmonizar essas duas necessidades? Como juntar o rigor técnico com a leveza do estado? Através da sutilização progressiva da âncora.

Usar um foco – uma âncora – para meditar poderia ser comparado a usar desenhos marcados no chão para aprender a andar. No começo utilizamos grandes desenhos quadrados, sobre os quais os pés são colocados, vez a vez, em sequência, bastando acertar o pé no amplo quadrado correspondente. Depois de umas semanas, quando os passos já adquirem alguma precisão, podemos usar formas semelhantes a pés humanos, sobre as quais os pés do aprendiz são apostos e permitem o caminhar. Em um terceiro tempo, bastam pequenos pontos no chão para sinalizar os pontos de contato dos pés com o solo durante a caminhada. Passado mais um pouco, basta que exista uma calçada, sobre a qual o indivíduo caminha e se orienta em direção ao seu objetivo. A quarta etapa, envolve o "não-haver", sem quadrados, sem marcas de pés, sem calçada. Por fim, até mesmo o objetivo não é mais definido. Só permanece a Liberdade. Como essa metáfora se aplicaria à técnica meditativa? Ora, com a progressiva sutilização da âncora.

Quem começa a meditar, precisa de âncoras bem evidentes, bem fáceis de perceber quando se está focado ou quando se perdeu a âncora. Costumo fazer uma brincadeira, dizendo que a âncora de um principiante deveria ser como se colocássemos um grande elefante em frente a ele e manter a âncora fosse como permanecer olhando para aquele elefante. Você poderia perguntar ao iniciante: você está vendo o elefante? Se ele disser sim, então estaria na âncora. Se, mais tarde, ele lhe responde que não vê mais o elefante, então perdeu a âncora. Você então lhe diz: procure o elefante! Ele procura, volta a vê-lo e sabe que está novamente na âncora. Precisa ser fácil assim, simples assim, com uma âncora "escandalosamente" fácil. Essa fase é o que costumo chamar de "exercício de âncora", pois estar no foco consiste em também permanecer sutilmente atento ao eventual envolvimento nas correntes de pensamento. No momento em que se perde a âncora, também se percebe que se foi "envolvido" pela "mente pensante". Assim, sendo, exercitar a âncora é exercitar sua percepção de envolvimento nas sequências de pensamento.

Quando essa fase foi superada, cerca de 90 práticas depois, pode se começar a utilizar âncoras um pouco mais sutis. Caso se esteja utilizando uma técnica respiratória com contagem simples (como a técnica "meditando em três tempos" nesta coluna), pode alterar o tipo de contagem, usando uma forma ampla (como a "meditação em 4 tempos" em meu livro). Depois, passadas mais 90 práticas, pode-se evoluir para a respiração circular (como a técnica "meditando no ponto interno" nesta coluna). Mais tarde, cerca mais 90 a 120 práticas depois, pode-se propor uma importante mudança, quando se deixa de ter "atenção" na âncora e passa-se a ter apenas a "intenção" na âncora; ou seja, seu treinamento já lhe permite apenas dirigir a intenção ao objetivo de manter a âncora e ele já será cumprido, só eventualmente necessitando de algum redirecionamento de sua parte. Passadas outras 120 práticas, provavelmente já se terá conseguido obter amplo relaxamento durante a técnica, e se terá experimentado algumas vivências de "grande vazio" mental. Nesse ponto, a prática no exercício de âncora já está muito estabelecida, e o aprendiz se tornou um meditador de fato. Ele já aprendeu a identificar bem as "intrusões da mente pensante em seu estado de paz".

A partir desse instante, é preciso abandonar todos os conceitos que você estabeleceu sobre você e sobre a técnica durante esse tempo de prática. Repito agora o que disse em meu texto anterior: Não se rotule. Não faça "pose de meditador". Não pense que alcançou, pois enquanto for possível pensar que algo foi conquistado, aí ainda estará o ego em operação. Esqueça a "conquista"; esqueça a "busca"; esqueça a "iluminação". Esses são conceitos, e conceitos pertencem ao mundo da lógica.

Abandonados esses conceitos, é momento da plena sutilização da âncora, e seu foco passará a ser apenas o momento do agora. Você pode ouvir um som de um pássaro – ou de uma buzina – mas apenas ouvir, sem interpretá-lo. A interpretação será envolvimento em sequência de pensamento. Você pode perceber a brisa que sopra em seu rosto, mas apenas percebê-la, sem interpretar, para evitar se "apanhado" por outra sequência de pensamento. Você pode perceber sua própria respiração, mas tampouco fará qualquer julgamento sobre ela. Você pode perceber até seus próprios pensamentos, mas evitará o envolvimento com eles ao voltar sempre para o agora. Você estará, e apenas estará, aqui, agora, absolutamente presente, e sempre que vierem sequências de pensamentos, você as deixará partir, mesmo que sejam ideações positivas (ex: "estou me tornando iluminado"). Todos os pensamentos que "chegarem" devem igualmente "partir". Para onde partirão? Não sei, e nem você precisa saber, nem mesmo entender como isso acontece. Apenas esteja, permaneça, repousando no agora, como uma pura presença, sem definições, sem juízo de valor, pleno, vivo, inteiramente entregue ao agora. Uma espécie de "conexão" aí se estabelecerá, mas nem mesmo essa conexão deve ser definida, pois isso irá gerar a intrusão da mente pensante. Nesse momento, você não é velho nem novo, rico ou pobre, homem ou mulher, meditador ou não meditador. Você apenas é…  Você apenas está…

Esse é o estado meditativo, contudo ele solicita seu treinamento no exercício de âncora, que antes será obtido por modelos de âncora bem mais "concretos". O que vejo são diversas pessoas meditando tentando alcançar diretamente o estado meditativo. Algumas conseguem; porém muitas delas acabam "produzindo" o estado meditativo através de suas mentes, e assim ficam todos felizes: o indivíduo que está "meditando", a mente pensante que continua senhora da situação e o ego que se intitula um novo ser, "especial". Percebem o engano?

Meditar é estar no agora, mas estar no agora implica na libertação da "tempestade mental" com a qual se identificam as pessoas, ou quase todas. 
 

About Roberto Cardoso

Médico na área de Medicina Fetal e Medicina Integrativa. Estuda e pesquisa meditação na UNIFESP. Palestrante no meio médico e corporativo.
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