Envelhecimento e bem-estar psicológico

Cada fase do desenvolvimento humano traz consigo desafios que lhes são próprios, dificuldades e experiências importantes a serem vividas, é necessário vivenciá-las em plenitude, assim não perder nada de bom que cada fase apresenta, como presente a ser aberto.

Este artigo, portanto, tem como objetivo trazer aos leitores algumas considerações para se viver bem psicologicamente o envelhecimento.

Quanto às limitações para viver como se gostaria, não se deve ficar preso a elas. Se há uma dificuldade de mobilidade, intelectual ou qualquer outro tipo de limitação, é preciso olhar para as habilidades e potencialidades que existem e a partir delas direcionar a vida, direcionar as ações.

Se o olhar estiver focado na falta, muita coisa boa que é possível deixará de ser vivida, às vezes por uma utopia, as pessoas deixam passar a vida e não fazem mais nada, como uma criança que faz birra por um brinquedo que a mãe não pode comprar e não aceita outro no lugar e conseqüentemente fica sem ter brinquedo algum.

O segredo não está na quantidade de atividades que o idoso possui e sim na intensidade e realização que estes o trazem, por isso o primeiro desafio é buscar atividades que preencham verdadeiramente os anseios. Ter um monte de atividades não quer dizer qualidade de vida, às vezes ter uma atividade que cause alegria e motivação é o bastante.

Outro erro é ter a rotina repleta de atividades que são utilizadas como fuga dos problemas, ou seja, a pessoa não está bem psicologicamente, não aceita algo que aconteceu na sua vida, ou a si mesma, ou quem sabe passa por um sofrimento e usa dessas atividades para não ter tempo para pensar sobre os problemas. A fuga não soluciona o problema, ele continuará a existir e de alguma maneira continuará a fazer mal. Então as atividades devem ser para o bem-estar e não para a fuga. Se há coisas pendentes para resolver, deve-se buscar maneiras de entender, aceitar ou modificar tais realidades.

Já que um grande causador de mal estar na velhice é o isolamento. Se fechar em si mesmo, deixar de conviver socialmente ou ao menos ao lado das pessoas que se gosta não faz bem, algumas pessoas preferem não sair muito, às vezes gostam de estar sozinhas, não há problemas quanto a isso, porém esse fator não pode ser constante.

Outro fator que pode alterar o bem estar da pessoa idosa é as perdas: perdas na mobilidade; afetivas; psicológicas; cognitivas entre outras. Elas podem trazer uma sensação de inutilidade e incapacidade à pessoa idosa, e uma das maiores dificuldades dessa fase é saber lidar com elas, daí é preciso buscar o significado da existência a partir da estória de vida, buscar coisas que façam sentido, coisas que fazem bem, e nem pensar em trabalhar como antigamente ou ter capacidade de fazer tudo como antigamente, porque essas coisas precisavam ser feitas bem antigamente, agora é outra fase, outro momento, e o idoso precisa fazer bem outras coisas.

O conhecimento adquirido através da experiência de vida é algo precioso nessa fase, e deve ser bem utilizado, pois os mais jovens precisam dele, ainda que muitos não se atentem a isso.

Envelhecer com qualidade de vida se consegue cuidando de si, isso não quer dizer só cuidar da saúde física, quer dizer também cuidar da saúde mental e espiritual. O cuidado de si tão importante, independente da fase da vida. Às vezes as pessoas se preocupam em cuidar dos outros e da imagem que consideram que devem manter diante dos outros e não se permitem viver o que realmente gostariam e do jeito que realmente gostariam. Esse é um dos importantes fatores a se considerar como determinantes no bem-estar psicológico. Deixar de se preocupar em olhar fora e começar a olhar dentro, para dentro de si mesmo e se permitir…

Digo assim porque isso é pessoal, diferente para cada um, então, tudo que estou falando desde o início deste artigo tem que ser trazido para o contexto de vida de cada um.

O desenvolvimento psicológico nas várias etapas da vida se faz assim: quando nascemos e vamos crescendo, queremos impressionar, agradar os outros, depois conquistar o mundo, coisas exteriores (nos voltamos para fora) e à medida que vamos envelhecendo fazemos justamente o contrário (nos voltamos para dentro), as conquistas internas, como ser humano, olhando para dentro de nós mesmos.

Enfim, afirmar que juventude é melhor que a maturidade é um erro, assim como considerar que a maturidade é melhor que juventude, cada momento tem suas coisas boas e ruins, e a pessoa deve tentar vivê-lo da melhor forma possível. E o sofrimento surge, inevitavelmente, surgiu na infância, na juventude e surge também na idade madura num formato diferente e a sabedoria adquirida e experiência de vida contribuíram para sair dele, e de jeito nenhum pode ser ele que impedirá ou fará desistir de viver bem o envelhecimento.

Envelhecer traz conquistas próprias como a liberdade, não ter mais que decidir caminhos profissionais e se afirmar neles, parir e criar filhos, comprar casa e apertar orçamentos, se alguém amar o idoso, não será pelo corpo que vai mudar, mas pelo que é hoje sem disfarces. Muita coisa boa se pode fazer na maturidade que não se podia antes, pois faltava disponibilidade, experiência e liberdade. Se não tiver nada pra fazer pode-se, ler, olhar, pensar, caminhar… E quando menos se espera surge à frente algo para fazer. Ouve-se muito: "No meu tempo…" Seu tempo é agora!

Kátia Jaqueline Móri 
Psicóloga CRP 04/27729
Contato: katiajmori@hotmail.com

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