Grupos de Reeducação Alimentar: determinantes, resultados e percepções

Grupos de Reeducação Alimentar: determinantes, resultados e percepções.

Christiane Clímaco1

Tatiana Rúbia Rengel2

RESUMO

Atualmente em decorrência dos altos índices de obesidade, tem aumentado a procura por grupo de reeducação alimentar. Esse grupo reúne pessoas diferentes, cada uma com sua subjetividade, seus potenciais e limitações, facilidades e dificuldades na busca de melhor qualidade de vida. Esta pesquisa teve como objetivo examinar a importância de um programa de reeducação alimentar em grupo, considerando pontos como a adesão, resultados e o significado do grupo na percepção dos participantes. Para realização da pesquisa, foram selecionados dez participantes, sendo seis mulheres e quatro homens. A coleta dos dados ocorreu por meio de entrevistas semi-dirigidas. A interpretação dos mesmos deu-se de forma qualitativa e demonstrou que grande parte dos participantes buscou o grupo por não ter tido sucesso ao realizar outro tipo de dieta feita individualmente ou por motivos de saúde e melhora na qualidade de vida.

Palavras-chave: Grupo, reeducação alimentar, obesidade

ABSTRACT

Currently in result of the high indices of obesity, it has increased the search for group of alimentary re-education. This group congregates people different, each one with its subjectivity, its potentials and limitations, easinesses and difficulties in the search of better quality of life. This research had as objective to examine the importance of a program of alimentary re-education in group, considering points as the adhesion, results and the meaning of the group in the perception of the participants. For accomplishment of the research, ten participants had been selected, being six women and four men. The collection of the data occurred by means of half-directed interviews. The interpretation of the same ones was given of qualitative form and demonstrated that great part of the participants searched the group for not having individually had success when carrying through another type of done diet or for reason of health and improves in the quality of life.

Keywords: Group, alimentary re-education, obesity.

A busca, de algumas pessoas, por grupos de reeducação alimentar para perda de peso e melhora na qualidade de vida, tem aumentado muito nos últimos anos em decorrência dos altos índices de excesso de peso, obesidade e em função dos padrões de beleza valorizados pela sociedade.

Em função de a comida ter um sentido diferente para cada pessoa, não basta simplesmente modificar um hábito alimentar, deve-se possibilitar que a pessoa compreenda o significado que o comer representa, bem como o lugar que ocupa na sua vida. É importante entender e aceitar o seu padrão alimentar para permitir uma alteração nesta relação com a comida.

A reeducação alimentar em grupo tem um papel importante neste processo de transformação, proporcionando aos participantes conhecimentos necessários para que eles mesmos adotem hábitos e práticas alimentares saudáveis. O contato com outras pessoas que apresentam as mesmas dificuldades ajuda os participantes a quebrar barreiras criadas por sentimentos de solidão, isolamento e frustração.  Assim o questionamento que se pretende responder neste trabalho é, qual é a importância do grupo de reeducação alimentar para os seus participantes?

Na busca de um entendimento sobre a temática, a pesquisa tem como objetivo verificar a importância do grupo de reeducação alimentar para os seus participantes. 

A pesquisa realizada foi de cunho qualitativo, entrevistando-se 10 (dez) participantes e realizando-se posteriormente a análise dos dados. A interpretação dos dados demonstrou que grande parte dos participantes busca o grupo por não ter tido sucesso ao realizar outros tipos de dietas feitas individualmente ou por motivos de saúde. As maiores dificuldades apontadas pelos mesmos foram o cumprimento do cardápio contendo uma alimentação mais saudável e balanceada nos finais de semana, ocasiões especiais e festas; a restrição a alimentos calóricos; a falta de compreensão dos familiares; as mudanças drásticas dos hábitos alimentares e os resultados lentos. Os participantes atribuíram ao seu aumento de peso o comodismo, a falta de cuidado com sua própria saúde e a ansiedade.

GRUPO TERAPÊUTICO

O grupo terapêutico tem como objetivo a busca de autoconhecimento de seus participantes e a promoção na mudança da personalidade dos mesmos. A terapia de grupo deseja proporcionar sentimentos de conforto e acolhimento, através de um ambiente de suporte e respeito.

A troca de experiências contribui para que cada participante observe os seus próprios sentimentos e comportamentos, ouvindo e sendo ouvido em um espaço de interação, dessa forma possibilitando que repense sobre aspectos próprios de si, que trazem sofrimento e comprometem a sua qualidade de vida. Através de técnicas que vão ao encontro do tema para o qual o grupo se propôs a "trabalhar".

Conforme Zimmerman (1998. p.225), "os grupos terapêuticos têm como objetivo principal a melhora de alguma patologia dos indivíduos, seja no aspecto da saúde orgânica ou psíquica, ou em ambas". O formato de um grupo possibilita sentimentos de inclusão, de pertencer, ser valorizado pelos outros participantes, oportunizando que cada um consiga perceber, confirmar e solidificar a sua própria identidade.

O grupo é compreendido como um espaço onde a pessoa tem a possibilidade de refletir, trocar experiências e onde adquire a vontade de melhorar sua auto-estima. Segundo Ribeiro (1999. p 156) "o grupo terapêutico é uma miniatura da vida quando permite a reexperiência do cotidiano nos relacionamentos humanos". Neste espaço o indivíduo consegue desabafar, falar de suas angústias relacionadas ao papel da comida em sua vida, sem que se sinta constrangido, por exemplo. Através deste contato com outras pessoas no grupo, os participantes quebram barreiras criadas por sentimentos de solidão, isolamento e frustração, principalmente pela possibilidade de receber sugestões construtivas de outras pessoas que vivem os mesmos problemas.

Segundo Vinogradov e Yalom (1992), existem fatores terapêuticos presentes no contexto grupal que favorecem a troca de experiências, o autoconhecimento e a busca por melhor qualidade de vida, aumentando as formas de lidar com as situações vividas.

De acordo com Zimmerman (1998. p. 240): "' […] há uma melhor compreensão e aceitação da parte dos integrantes do grupo, quando percebem que usam a mesma linguagem e compartilham das mesmas experiências". Isto facilita a adesão ao tratamento, permitindo que pessoas "doentes" aceitem e assumam sua deficiência, de forma menos conflituosa e humilhante.  Possibilitando um envolvimento comunitário, favorecendo a socialização e permitindo o surgimento de novos modelos de identificação. 

OBESIDADE

A obesidade pode ser definida, de forma resumida, como o grau de armazenamento de gordura no organismo associado a riscos para a saúde, devido a sua relação com várias complicações metabólicas.

Conforme Kaplan & Sadock:

A obesidade refere a um excesso da adiposidade corporal. Em indivíduos sadios a gordura corporal é responsável por cerca de 25% do peso corporal em mulheres e 18% em homens.   Sobrepeso se refere ao peso acima de uma norma de referencia, mais especificamente padrões derivados de dados atuariais ou epidemiológicos. Na maioria dos casos o aumento do peso reflete obesidade crescente.  (KAPLAN e SADOCK, 1999. p. 801)

O desenvolvimento da obesidade e ou sobrepeso, podem estar associados a uma imagem corporal altera. Segundo Schilder (1994. p11) "Entende-se por imagem do corpo humano a figuração de nossos corpos formada em nossa mente, ou seja, o modo pelo qual o corpo se apresenta para nós". O obeso, na maioria das vezes, apresenta uma noção de sua imagem corporal distorcida e essa distorção fica mais presente e intensa quanto mais tempo à pessoa encontra-se no quadro de obesidade.  Desta forma, muitas vezes o indivíduo não se "percebe" como obeso mantendo um estilo de vida onde combina o excesso de ingestão de alimentos com a falta da prática de atividades físicas.

Abreu (1998) sugere que algumas situações vitais podem ser favoráveis às crises existenciais, que muitas vezes provocam nas pessoas uma modificação do hábito alimentar e conseqüentemente do seu peso corporal, pois muitas pessoas encontram no comer uma forma de aliviar a ansiedade frente as suas dificuldades. A alimentação envolve um conjunto de valores e significados, que podem ser de ordem cultural, psicológica e social. E nossa relação com o prazer e a comida é muito próxima, pois a alimentação é uma necessidade biológica assim como respirar e ingerir água. Desde que nascemos o ato de comer é envolvido por sentimentos de afeto, como pontua Franques:

[…] a relação emocional tem início no aleitamento materno ao receber os alimentos dos adultos, em uma perpetuação da relação de bem-estar advinda do ato de ser alimentado, cuidado e presenteado com alimento. Essa relação com o alimento começa nas relações primárias mãe-bebê, mas acompanha o

indivíduo por toda a vida em todas as suas relações afetivas. (FRANQUES, 2006, p. 64).

Neste sentido, o fato da pessoa atribuir afeto ao ato de comer pode ter relação com distorções do afeto desde os primeiros meses de nossa vida, sendo que muitas vezes a criança está chorando em função de alguns desconfortos, frio, ou somente para pedir atenção da mãe e esta por não saber interpretar este choro, oferece o seio como forma de compensação.  Desta maneira, o alimentar-se adquire significado mais amplo do que a satisfação e pode ser entendido como uma forma de aliviar outros desconfortos, o comer compulsivamente também pode ser uma busca por preencher um vazio, um sentimento de insatisfação, ansiedade, nervosismo.

A REEDUCAÇÃO ALIMENTAR

Segundo o manual técnico de promoção da saúde e prevenção de riscos e doenças na saúde suplementar (ANS, 2007. p. 18) "a promoção da alimentação saudável visa contribuir para a prevenção e o controle de doenças como a obesidade, diabetes, hipertensão, câncer, entre outras".

A reeducação alimentar é um instrumento de grande importância na manutenção do peso e qualidade de vida, além disso, significa uma mudança permanente, podendo ser necessário algum tempo para que a pessoa se habitue a ela. Seus efeitos são de grande valia, o aumento de vitalidade e a perda de peso estabelecem um poderoso incentivo para insistir, mesmo que ocorram deslizes ocasionais. 

Conforme Rotenberg e Vargas (2004) a educação alimentar, exerce um papel de grande importância em relação ao processo de transformação e mudanças de hábitos alimentares, proporcionando ao indivíduo, conhecimentos necessários para que ele tenha a possibilidade de adquirir, hábitos e práticas alimentares sadias e variadas.

GRUPO DE REEDUCAÇÃO ALIMENTAR

O grupo de reeducação alimentar tem como objetivo contribuir para que os participantes compreendam seus comportamentos alimentares, fazendo com que reconheçam a sua imagem corporal, com a finalidade de melhorar assim a auto-estima, o autocontrole e principalmente modificar os hábitos alimentares, não só momentaneamente, mas para o decorrer da vida.

Vinogradov e Yalom destacam que:

Os pacientes com transtornos alimentares – seja obesidade mórbida, anorexia ou bulimia – mantêm segredo quanto ao seu comportamento alimentar anormal e sobre suas preocupações obsessivas sobre a imagem corporal e alimentos. Um importante objetivo da terapia de grupo é ajudá-los a compartilhar essas preocupações. Em segundo lugar, o grupo objetiva ajudar os pacientes a avaliar e entender seus comportamentos alimentares.  (VINOGRADOV e YALOM 1992 . p.178)

Os participantes de um grupo de reeducação alimentar compartilham suas experiências e dificuldades visando através da vitória de todos, perderem peso, modificar  hábitos alimentares e cuidar da saúde.

Atualmente vem surgindo diversos grupos para reeducação alimentar, o que traz uma nova proposta na assistência à saúde e qualidade de vida. Cada grupo apresenta uma metodologia diferente, mas em geral oferecem apoio nutricional e psicológico. Todavia, é evidente que a responsabilidade de decidir sobre sua alimentação, cabe ao indivíduo. É ele que deverá processar as alterações que irão ajudá-lo a melhorar seu estado de saúde e alcançar seu bem estar. 

MÉTODO

A coleta de dados deu-se através de entrevistas individuais, onde os participantes receberam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, para respectiva assinatura. Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas na íntegra.

Os dados coletados foram analisados de forma qualitativa utilizando como referência a seqüência das questões realizadas na entrevista. Visando compreender o significado que os acontecimentos e interações têm para os indivíduos, em situações particulares. Esse tipo de pesquisa trabalha com valores, crenças, representações, hábitos, atitudes e opiniões e não requer uso de métodos e técnicas estatísticas. Segundo Minayo (2007) a pesquisa qualitativa pretende examinar a relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, o que não pode ser traduzido em números.

Na visão de Gualda e Hoga (1997), a pesquisa baseada na abordagem qualitativa, busca enfocar a investigação de significados dentro de um contexto social, aproximando o pesquisador e os informantes. Os métodos qualitativos possibilitam o conhecimento dos significados para os pesquisados, uma vez que descrevem suas experiências tal como são vividas.

Os critérios de inclusão dos participantes na pesquisa foram: idade entre 16 e 60 anos, que não fazem uso de medicamentos para perda de peso e participarem do grupo a mais de 2 (dois) meses.

Foram sujeitos deste estudo 10 pessoas, sendo 6 (seis) participantes do sexo feminino e 4 (quatro) participantes do sexo masculino. Abaixo descreveremos todos os participantes da pesquisa, através de dados coletados na entrevista. Todos os participantes do grupo, segundo o calculo de IMC estavam acima do peso quando iniciaram no grupo de reeducação alimentar, sendo considerados obesos.  O Índice de massa corporal (IMC), conforme Kaplan & Sadock (1999, p. 801), "é calculado dividindo-se o peso em quilogramas pela altura em centímetros ao quadrado […] um valor de 20 a 25 kg/m2 representa um peso sadio".

Participante

Sexo

Idade

Peso

Altura

IMC

S1

Masculino

24

110

1,87

31,5

S2

Masculino

48

115

1,68

40,4

S3

Masculino

54

110

1,64

40,9

S4

Feminino

49

96,5

1,66

35,0

S5

Feminino

36

115

1,70

39,8

S6

Feminino

44

136

1,60

53,1

S7

Feminino

          17 

96

1,63

36,1

S8

Feminino

56   

125

1,78

39,5

S9

Masculino

40

104

1,70

36,0

S10

Feminino

37

70

1,63

26,3

Tabela 1 – participantes da pesquisa

OS GRUPOS CONTATADOS

Inicialmente, contataram-se três grupos para participar da pesquisa, sendo que um deles de imediato informou que por normas do grupo, não participaria da pesquisa. Os outros dois grupos se mostraram interessados em participar.

Foram visitados dois grupos que acontecem em bairros distintos na cidade de Joinville, SC., sendo que um localiza-se no bairro Boa Vista e o outro grupo no bairro Costa e Silva.

O grupo do Bairro Boa Vista é coordenado por uma equipe multidisciplinar, os participantes são indicados a participar do programa de reeducação alimentar posteriormente a consultas médicas. Após o primeiro contato com este grupo, surgiram alguns impedimentos, sendo que as entrevistas não foram realizadas, apenas uma visita que ocorreu no mês de junho, mas em função de ser o período de férias do grupo, estavam presentes apenas os participantes que foram desligados do programa de reeducação alimentar. Estas pessoas informaram, nesta única visita, que foram desligadas por estarem há muito tempo no grupo e já terem alcançado seus objetivos, como também, serem sabedores de todas as orientações para a reeducação alimentar e manutenção do peso.  Outra informação relatada por elas é que, demonstraram certa dependência do grupo, sendo sugerido que se reunissem em outro grupo, a dança sênior.

Nesta visita, imediatamente após a apresentação da pesquisadora para o grupo, percebeu-se que os participantes e a coordenadora do grupo ficaram surpresos com a estrutura física da mesma, por tratar-se de uma pessoa magra, chegando a comentar como alguém tão magro estaria interessado em pesquisar sobre reeducação alimentar. Parece que os objetivos do grupo de reeducação alimentar estavam sendo interpretados de forma errônea, pois os participantes entendem que a reeducação alimentar, só pode ser praticada por indivíduos que apresentem obesidade ou sobrepeso e não por pessoas que buscam uma melhora nos seus hábitos alimentares. 

Uma das participantes relata que quando não consegue comparecer aos encontros chega a se sentir mal. Outra destaca que o grupo significa um porto seguro, um lugar onde fez muitos amigos.  Corrobora-se que muitos participantes acabam dependentes do grupo, perdendo-se o foco do mesmo, pois o grupo de reeducação alimentar tem objetivo pré-estabelecido, tendo início, meio e fim, e não visa substituir uma dependência por outra, no caso à comida pelo grupo.

Sendo assim, a pesquisa foi realizada em um único grupo de reeducação alimentar devido à desistência de outros dois grupos.

O GRUPO PARTICIPANTE

O grupo participante da pesquisa é do bairro Costa e Silva, da cidade de Joinville, SC. A coordenadora deste, prontamente depois do primeiro contato demonstrou grande interesse na realização da pesquisa, enfatizando a importância da psicologia no processo de reeducação alimentar

O grupo está formado a cerca de cinco anos, sendo coordenado por uma profissional que não tem formação na área da saúde. Os participantes buscam pelo programa por livre e espontânea vontade, geralmente chegam ao grupo através de algum conhecido.

Apresenta como característica o fato de ser um grupo de formação espontânea, é composto por pessoas que se identificam por algumas características semelhantes, como o excesso de peso e a dificuldade de redução do mesmo. Trata-se de um grupo aberto, que segundo Ribeiro:

É aquele em que os membros entram e saem com facilidade. Não existe um compromisso rígido de freqüência e de permanência. Estes grupos funcionam freqüentemente como grupos de espera, de reflexão, onde ao efeito terapêutico secundário pode acontecer. (RIBEIRO 1999. p.94)

O grupo é conduzido somente por uma coordenadora, como citado anteriormente não tem formação profissional na área da saúde. Os encontros ocorrem semanalmente e levam em média de 1 a 2 horas de duração. No primeiro encontro, são registradas medidas como altura, peso e também solicitado ao participante qual a meta de perda de peso que deseja atingir e através dos dados altura e peso, faz o cálculo do índice de massa corporal ideal para cada participante.  Ao iniciar no grupo o participante paga um valor referente à sua matrícula no programa e a cada semana cobra-se também uma taxa. A coordenadora ainda informa como funciona o programa, onde o participante após atingir a meta estabelecida, recebe um certificado de "vencedor do peso" e o benefício de participar do grupo sem nenhum ônus financeiro, por mais 8 (oito) semanas, chamadas de "semanas de equilíbrio".

A cada encontro, os integrantes do grupo participam da verificação do peso corporal e recebem um cardápio a ser seguido a cada duas semanas. Posteriormente são transmitidas informações sobre hábitos alimentares saudáveis, a importância de exercícios físicos e o cuidado com a saúde. 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Após a transcrição das entrevistas deu-se início ao processo de discussão dos dados apresentados.

Inicialmente, por meio dos relatos dos participantes, evidenciam-se algumas questões do grupo de reeducação alimentar, caracteriza-se por ser um grupo onde os participantes acreditam que o sucesso depende das características individuais como força de vontade, determinação e desejo e necessidade de emagrecer, os participantes acreditam que o grupo serve de apoio e incentivo, onde, os integrantes, compartilham suas experiências e dificuldades. O objetivo comum dos mesmos é conseguir emagrecer, cuidar da saúde, controlando doenças crônicas, evitando outros tipos de doenças; melhorar a estética, a disposição física e a auto-estima.

O primeiro ponto a ser discutida foi: Porque o participante buscou o grupo de reeducação alimentar? Nas respostas desta questão, os 10 (dez) participantes entrevistados expuseram que sua opção em buscar o grupo, deu-se em função de tentativas frustradas para perda de peso individualmente, seja por utilização de medicamentos ou outros tipos de dietas. Como relata S1: "Ah, por duas razões, primeiro porque eu já tinha tentado outros métodos para emagrecer, tomei fórmulas, fiz dietas, mas não conseguia atingir meus objetivos, perdia peso, mas era momentâneo, superficial, depois de 2 ou 3 meses voltava tudo".

Dos dez (10) participantes, seis (6) relatam que além do insucesso em outras dietas, também buscaram ajuda no grupo para solucionar problemas de saúde, pois o excesso de peso acaba prejudicando-os no desenvolvimento de tarefas do dia-a-dia, profissionais. "Precisava emagrecer, por problemas de saúde. Já tinha tentado fazer dietas, mas nunca levava muito a sério." (S2) e (S9): "Vim para o grupo por problemas de saúde e já tentei emagrecer com dietas e também fórmulas, mas não dei certo".

A utilização de dietas "milagrosas" prometem uma perda de peso rápida e, geralmente, com um mínimo de esforço. No entanto, na maioria das vezes, este pode ser o caminho mais curto para o retorno ao peso anterior e o início do efeito "sanfona", tão indesejável quanto frustrante (SILVA & POTTIER, 2004. p. 377-38).  Após se submeterem a vários tipos de dietas e também utilização de medicamentos para emagrecimento, os participantes optaram pelo programa de reeducação alimentar, que  é ferramenta de grande utilidade tanto para promoção de hábitos alimentares saudáveis quanto para a prevenção e o controle do excesso de peso. Neste sentido a reeducação alimentar parece substituir a forma de proibição que marca as dietas tradicionais para a forma de "controle", onde a base é a responsabilização dos indivíduos e o seu poder de iniciativa.

Quando questionados sobre o que o grupo representa para eles, 9 (nove) dos 10 (dez) participantes comentam que o grupo é sinônimo de apoio, . Conforme os relatos: "Aqui é o único lugar que está dando certo, sozinha tu não consegue, o grupo incentiva a gente, é mesmo um apoio, na verdade eu não tenho esse apoio em casa e aqui um vai ajudando o outro, tá todo mundo se ajudando"(S6). "O grupo é importante, porque um apóia o outro para continuar, pois é difícil emagrecer, deixar de comer algumas coisas que gostamos bastante. Aqui no grupo todos passam as mesmas dificuldades e um incentiva o outro, por isso fica mais fácil continuar se esforçando"(S8).

Conforme pontua Ribeiro (1994, p.46), "o grupo terapêutico é um campo onde a realidade acontece […] uma realidade única, feita de momentos e possibilidades infinitas, que se organiza como um campo, com um espaço vital unificado". O grupo é o local onde a pessoa se revela e se faz compreensível

O apoio que o indivíduo busca no grupo de reeducação, possibilitará que ele aprenda a desenvolver recursos para lidar com suas questões, tornando-o mais reflexivo diante das dificuldades e na busca por soluções. Também ajudando o indivíduo a superar conflitos emocionais, colaborando para a ampliação da consciência sobre si mesmo, promovendo equilíbrio emocional e desvendando o que "ativa" a ansiedade que leva a compulsão alimentar e entre outras coisas, ajuda o indivíduo a aprender a lidar e controlar o que o angustia, para não buscar refúgio na comida. Muitos indivíduos obesos ou com sobrepeso, encontram a motivação e energia necessárias para manter seus planos de alimentação saudável por meio do apoio de seus "iguais".

O benefício do grupo, de acordo com Mello (2007):

Reside no apoio mútuo e compartilhamento de experiências entre pessoas que vivem situações semelhantes, com potencial para prevenir o  desenvolvimento de padrões mal adaptados de enfrentamento e estimular comportamentos saudáveis. (MELLO 2007.p 114)

Esse apoio, em conjunto com as orientações sobre saúde e alimentação saudável, ajuda a vencer a obesidade. Inserido no grupo, percebem que outros também sofrem com a obesidade e as dificuldades para conseguir modificar os hábitos alimentares e que isso não acontece somente com ele.  A principal certeza dos membros desses grupos é que eles podem ser mais ajudados por quem já viveu ou está vivendo uma experiência como a sua, do que por aqueles que nunca passaram por ela.

Ribeiro afirma:

O grupo é uma realidade maior e diferente da soma dos indivíduos que o compõem. […] o grupo é um fenômeno cuja essência reside no seu poder de transformação, no seu poder de escutar, sentir, de se posicionar, de se arriscar a compreender o processo de significação do viver e do responsabilizar-se (RIBEIRO, 1994, p10).

Os participantes destacam que o grupo é um espaço onde conseguem desabafar, trocar experiências sobre suas dificuldades, falar de suas angústias relacionadas ao papel da comida em sua vida, sem que se sinta constrangido.  Segundo (S2): "Aqui no grupo todos passam as mesmas dificuldades e um incentiva o outro, por isso fica mais fácil continuar se esforçando". Pontua também (S8): "Ouvimos as historias de outras pessoas, que elas também têm a mesma dificuldade que a gente, mas é bem importante ver que todos conseguem, se não em uma semana, mas na outra, isso é um incentivo para sempre continuar".

Segundo Yalom (2006), a necessidade de pertencer, de ser aceito e estar inserido em algo maior é uma característica do ser humano. Quando inserido em um grupo o que está em jogo é o compartilhar seu mundo interior, ter o apoio e a aceitação dos outros participantes.

A segunda pergunta da pesquisa foi: O que o mantém no grupo? As respostas dos participantes foram semelhantes à questão anterior, onde os participantes comentam que percebem o grupo como um local de apoio e incentivo, aberto a trocar experiência e angústias, No grupo, identificam-se com os outros e percebem que cada participante é de grande importância para o outro, o que pode ser observado nos relatos de S1 e S2: "Gosto de vir aqui, onde encontro outras pessoas que estão também buscando ajuda … o grupo é bem importante para a gente não querer desistir apesar das dificuldades". (S2). "[…] vejo que os outros também passam por problemas semelhantes ao meu, todos temos o mesmo objetivo de emagrecer e aprendemos com os outros, ouvindo o que cada um traz para o grupo, vir aqui ajuda a não desistir" (S1).

O grupo representa, muitas vezes, para os participantes o único lugar onde eles percebem que tem potencial para atingir seu objetivo de perder peso, comentam que sem o grupo não conseguiriam continuar. Como aponta Ribeiro (1999. p.51) "No grupo as pessoas se mostram intensamente, sem a necessidade de máscaras. O cara a cara facilita o encontro com a verdade".

Pode-se observar então que os participantes do grupo de reeducação alimentar, de diversas maneiras, passam a significar muito uns para os outros.  Sete (7) participantes comentam que percebem o grupo como de grande importância em sua vida. Relatam que sem o grupo não conseguiriam o progresso que estão conseguindo participando do mesmo, S8 diz: "Sem o grupo, não vejo nenhuma perspectiva de continuar mantendo a restrição na minha alimentação e talvez voltaria a engordar"

A coesão também foi uma característica apresentada no grupo, onde os participantes se identificam com o outro, aceitando-os e compreendendo-os. Como deixam claro Vinogradow e Yalon (1992. p. 25), "a coesão do grupo refere-se à atração que os membros têm entre si e pelo próprio grupo".   A identificação com o grupo parece ser imprescindível para o fortalecimento e promoção da integração e de um relacionamento de confiança entre os membros. Isso faz com que o grupo tenha um significado de apoio e acolhimento. Fica evidente nas falas de 4 (quatro) participantes:"No grupo, tem várias pessoas com o mesmo problema, o mesmo objetivo, é um ambiente onde o assunto emagrecer é prioridade e interesse  de todos" (S1). "O grupo é importante, porque um apóia o outro para continuar, pois é difícil emagrecer, deixar de comer algumas coisas que gostamos bastante. Aqui no grupo todos passam as mesmas dificuldades e um incentiva o outro" (S2). "Aqui eu vejo que tem mais pessoas que estão passando pela mesma coisa que eu e isso dá vontade de continuar. Ver que outros já conseguiram"(S4) e "Ouvimos as historias de outras pessoas, que elas também tem a mesma dificuldade que a gente, mas é bem importante ver que todos conseguem, se não em uma semana, mas na outra, isso é um incentivo para sempre continuar" (S8).

Não se pode deixar de considerar a importância dos participantes do grupo perceberem que é necessário a existência de um limite para a orientação e apoio que eles recebem do outro, pois para que se apropriem do processo de reeducação alimentar,  é primordial que eles sejam  os principais agentes da sua própria mudança. Conforme Vinogradow e Yalon (1992) é de grande significância que o indivíduo perceba-se como responsável pelas modificações na sua forma de se alimentar e na relação com a comida e seu corpo.

Ao observar o processo grupal, evidenciou-se que a coordenadora do grupo reforça aos participantes a função do grupo como apoio.

Os participantes também foram questionados a respeito da meta estabelecida para perda de peso e se a mesma estava sendo atingida. Nesta questão, todos estavam perdendo peso, mas apenas dois (2) deles já haviam atingido a meta estabelecida ao iniciar no grupo. As maiores reduções de peso foram de S1 reduziu 30 kg em 5 meses e quando respondeu a pesquisa estava em seu último mês de participação no grupo. S3 foi o participante que teve maior redução de peso, 31,5 kg em 10 meses, mas continua participando do grupo para manutenção de seu peso.

Quando questionados sobre o que os leva a comer, nove (9) dos dez (10) participantes entrevistados relatam que:

1 – Comem com intuito de amenizar outros problemas:

Percebe-se através das falas dos participantes que muitas vezes o alimentar-se representa a principal fonte de prazer e consolo ou utilizam-se da obesidade como escudo para esconder outras dificuldades enfrentadas. Os participantes trazem que quando estão passando por alguma situação difícil, estão tristes ou deprimidos, encontram no comer um alivio para esses sentimentos e sensações. S1 relata que: "Desconto na comida, os problemas financeiros também me fazem comer". A participante S4 também traz que utiliza o comer para "aliviar" os problemas: "Quando tem alguma coisa incomodando, ou nervosa eu vou lá e como" Através dos relatos podemos identificar o que afirma Perls:

[…] a mente do guloso, encher a boca é tão "figura" quanto o bonde é para alguém esperando impacientemente por ele. Em ambos os casos, a confluência, aqui o fluxo conjunto de imagem e realidade, é esperada e permanece o impulso principal. O ato de encher a boca não recua para o fundo, como deveria, e o prazer de saborear e destruir o alimento não se torna o centro de interesse – a "figura". (PERLS, 2002 . p.168-9).

De acordo com Chimicati apund Leal, a relação de dependência desenvolvida com o alimento por muitos obesos e de grande representação para ele: Ao desenvolver uma doença compulsiva, cria-se um vinculo de dependência com o objeto; no nosso caso, com a comida. Passamos, assim a ser dependentes dela, não para nos alimentarmos, que é uma necessidade vital, mas para satisfazer outras necessidades psicológicas que passam a ser sentidas como vitais. Fazemos loucuras para conseguir o nosso objeto de dependência: assaltamos a geladeira, mentimos, desmaiamos, chantageamos, fazemos melodramas, enfim, usamos todos os recursos imagináveis e inimagináveis para conseguir uma porção mais.(CHIMICATI, 2005 apud LEAL, 2007, p. 21).

2) Comem por não perceberem que já estão satisfeitos:

Um participante relatou que a falta de percepção de saciedade. S9 fala: "Comi muita comida. Comia até chegar ao ponto de não agüentar mais". Essa falta de percepção que extrapola o limite entre comer para nutrir-se faz com que a pessoa passe a comer sem uma descriminação daquilo que precisa, sem a percepção de que a quantidade de comida ingerida já é suficiente.

Kaplan e Sadock destacam que:

O comprometimento da saciedade é um problema particularmente importante. Pessoas obesas parecem suscetíveis, de forma incomum, a indícios de alimentos em seu ambiente, a palatabilidade dos alimentos e a incapacidade de parar de comer quando o alimento se encontra disponível, são sensíveis a todos os tipos de estímulos externos para a alimentação. (KAPLAN e SADOCK, 1999. p. 803).

3 ) Comem por compulsão:

Dos dez (10) participantes, quatro (4) comentam que o comer faz parte da nossa vida e que sempre que são convidados ou convidam alguém para fazer algum programa, este envolve a comida. Pontuam também que a comida acaba sendo utilizada como forma de comemoração e confraternização. O que fica evidente na afirmação de Carneiro (2003. p. 2). "O que se come é tão importante quanto quando se come, onde se come, como se come e com quem se come".

As pessoas que apresentam perturbações alimentares podem buscar na comida a satisfação para diversas necessidades, mesmo quando não corresponde ao que efetivamente necessita. Sendo assim, as reais necessidades não são satisfeitas e continuam buscando o alimentar-se para tentar solucionar seus problemas, isso fica claro no seguinte relato de S2: "Comia muito, a toda hora, sempre precisava estar mastigando alguma coisa, para suprir alguma falta talvez".

4 )  Comem  por ansiedade:

A ansiedade foi outro ponto atribuído ao questionamento feito sobre o motivo que os leva a comer, 9 (nove) dos 10 (dez) participantes da pesquisa contam que comem quando estão ansiosos. Alguns relatos enfatizam: "Como muito por ansiedade" (S7) e  "Sou muito ansioso e quando como parece que alivia, preenche um vazio" (S1).

Abreu apund Capitão e Tello (2004) sugerem que "algumas situações do nosso cotidiano, favorecem o surgimento de crises existenciais, que muitas vezes provocam nas pessoas uma modificação do hábito alimentar e conseqüentemente do peso". Muitas pessoas encontram no comer a maneira para aliviar a ansiedade frente às mudanças do cotidiano. A ansiedade provoca várias reações físicas e está presente em nossas vidas, pois no decorrer do nosso desenvolvimento, nos deparamos com muitas mudanças e situações novas e ameaçadoras. Isto fica claro no relato de todos os participantes da pesquisa, que dizem comer compulsivamente quando estão ansiosos, e que o comer diminui os sintomas de ansiedade. Afirmam ainda que procuram compensar os seus problemas através do ato de comer.

Outra pergunta feita aos participantes foi se estão mantendo hábitos alimentares saudáveis. Após os relatos conclui-se que os mesmos não entendem o objetivo real do programa de reeducação alimentar em grupo, que visa à mudança nos hábitos alimentares. Pois atribuem ao grupo o objetivo de reduzir e manter seu peso corporal e não a modificação da sua relação à comida, ou seja, eles não modificam seus hábitos, apenas deixam de comer para perder peso em função do grupo, mas não "tratam" o que faz com que comam compulsivamente. S9 comenta que fica muito ansioso no momento da pesagem: "Se não eliminei peso, ao menos preciso manter o mesmo da semana passada […] é bem frustrante quando aumentamos de peso, não só pra mim, mas para todos do grupo".

S5 relata que segue os cardápios às vezes, mas não modificou toda sua alimentação: "Mudei algumas coisas, inclui frutas e verduras, mas não deixei de comer tudo que gosto. Na segunda e na terça feira eu como menos para quando me pesar pelo menos ter mantido o peso e não ter engordado".

Outros 2 (dois) participantes também trazem da dificuldade da mudança na alimentação nos fins de semana: "Restringir a alimentação, principalmente nos fins de semana". (S5) e "É difícil, no final de semana é complicado, é o resumo da semana inteira de estress, e reúne à família toda, a gente come mais" (S10).

Todavia, percebeu-se que a experiência no grupo faz com que alguns participantes experimentem outras maneiras de relacionar-se com o alimento e com o que ele representa. Conforme discurso de S1: "Mudei minha forma de pensar, de me alimentar, a preferência por alimentos mais saudáveis, prática de exercícios, melhorou também meu desempenho no trabalho e a minha auto-estima.Agora percebo que posso comer de tudo, mas controladamente e o grupo foi muito importante para isso".

Outra pergunta feita aos participantes trata da questão sobre o que aconteceu para que o participante chegasse ao peso que iniciou no grupo. Um dos pontos levantados foi o sedentarismo, 8 dos 10 participantes relatam que não tinham o hábito de praticar nenhum tipo de atividade física antes de freqüentar o grupo, mas que agora praticam caminhas, corridas e outros exercícios.

O participante S9 relata: "Agora não ando mais de elevador, subo escadas e não fico mais sentado como antes, estou me movimentando bastante e isso tem melhorado muito minha condição física".

A prática de atividade física, julgada como possível de ser incluída na rotina pelos participantes, tem sua efetividade descrita pela literatura, segundo Kaplan e Sadock (1999. p. 805) "atividade física pode atenuar a ingestão de alimentos e a combinação com o aumento do dispêndio calórico auxilia a manter a perda de peso".

Outro ponto abordado na pesquisa refere-se às maiores dificuldades encontradas após o início no programa de reeducação alimentar. A pergunta feita aos participantes foi à seguinte: Qual a maior dificuldade enfrentada após iniciar sua participação no grupo de reeducação alimentar. As respostas apontadas pelos participantes foram: dificuldade de realização do plano alimentar principalmente nos finais de semana, festas e ocasiões sociais, falta de compreensão da família, mudança drástica dos hábitos alimentares, os resultados lentos e ansiedade. Por outro lado, a inclusão de frutas, legumes, verduras e alimentos integrais bem como o fracionamento da alimentação em quatro a seis refeições por dia e a prática diária de atividade física foi considerada fácil por 4 dos 10 participantes entrevistados.

Assim como destaca Rito (2004), as mudanças nos hábitos de vida dos participantes, não devem ser vistas como um processo de normatização e muito menos como de culpa do indivíduo. O que está em jogo não se restringe apenas à mudança do consumo de alimentos, de atividade física, mas tem influência sobre todos os significados ligados ao comer, ao corpo, ao viver.

Os participantes relatam que é muito difícil restringir a alimentação quando recebem visitas ou aos domingos onde toda a família tem o hábito de se reunir para as refeições e que isto já é "costume" que vem desde quando crianças.

S10 enfatiza: "É difícil no final de semana, é complicado, é o resumo da semana inteira de estress, e também onde reúne a família e o hábito é sempre de sentar na mesa e comer, é uma forma de aproximar as pessoas".

Outra dificuldade apontada pelos participantes da pesquisa, nesta pergunta, diz respeito a demora do resultado no processo de reeducação alimentar, diferente das dietas que utilizam medicamentos. Dois participantes relatam que por ser um processo mais lento, no inicio até pensaram em desistir, mas no decorrer do processo, perceberam que a reeducação é muito mais eficaz que nas dietas com medicações, pois quando deixavam de tomar o medicamento engordavam muito. S1 diz: "Já tomei medicamento, emagreci bastante e bem rápido, mas depois quando parei engordei o dobro".

Este imediatismo na busca do emagrecimento contribui para que o processo de reeducação alimentar seja mais penoso, como no discurso de S4: "Sou ansiosa e aqui demora para perder peso, com fórmula é mais rápido, às vezes penso em desistir".

Com a reeducação alimentar a própria pessoa tem que controlar sua alimentação, até comendo o que gosta, mas controladamente. Compreendem também que agora que se alimentam com comidas mais leves e saudáveis não sentem aquele "peso no estomago" que sentiam antes.

Alguns participantes falam, ainda na mesma pergunta, que quando iniciaram a reeducação alimentar acreditavam que precisariam restringir tudo o que gostavam de comer, mas depois de alguns encontros, através das informações trocadas com os outros participantes, perceberam que nem tudo que é gostoso engorda ou é caro.

Conforme dito por  S10: "Até conseguimos economizar um pouco, porque não compro mais tanta comida, e não jogamos tanta coisa fora, também não compramos comidas prontas que são mais caras que as frutas, é só saber comprar coisa da época".

Nos encontros a coordenadora e os próprios participantes trocam informações sobre possíveis alternativas para que o indivíduo se habitue a uma alimentação rica em alimentos saudáveis e de baixa caloria (frutas, legumes e verduras, leguminosas, cereais integrais, leite e derivados, carnes com pouca gordura), saborosa e com o mesmo orçamento familiar.

Fica claro que a reeducação alimentar deve ser gradativa, negociando as substituições alimentares, despertando novos prazeres, sugerindo alimentos, preparações saudáveis, mas também acessíveis e prazerosas, considerando os aspectos econômicos, culturais e sensoriais do sabor e da aparência. Para ter uma alimentação saudável não é preciso excluir "coisas gostosas", mas é preciso saber equilibrar evitando os exageros e o consumo freqüente de alimentos altamente calóricos.

Nos relatos, fica evidente que alguns participantes percebem a importância do grupo, mas que, além disso, é preciso que eles mesmos tenham força de vontade e determinação para atingir os seus objetivos. Segundo Ribeiro (1999. p. 152) "o grupo funciona como uma escola da vida […] as lições são aprendidas e de acordo com a capacidade de percepção de cada um de seus membros".

A restrição de determinados tipos de alimentos como chocolates, doces, carnes gordurosas e massas também foram atribuídas pelos participantes como uma dificuldade para a adesão ao programa de reeducação.

Quando questionados sobre as principais mudanças que percebem após freqüentar o grupo. Compreende-se através do relato de 7 dos 10 participantes entrevistados que eles sentem-se bem com a alimentação mais saudável e grande parte deles estende essa alimentação para a sua família, mas mesmo assim demonstram uma grande dificuldade de deixarem de comer em grandes quantidades determinados tipos de comidas, ou deixar hábitos alimentares antigos. S10 expõem que na sua casa todos acrescentaram mais grãos, cereais, frutas e verduras: "Mudamos a alimentação, tá bem melhor, mas é difícil no final de semana quando reúne toda a família". Outros participantes falam: "Já melhorei minha saúde, minha condição física e também minha família mudou também a alimentação" (S1) e "Percebi muitas mudanças na saúde, alimentação também da minha família"(S4).

Os participantes vivem uma experiência positiva, mas estão atrelados ao modo de alimentação antiga, demonstrando a possibilidade de ter que manter um controle na maneira de se alimentar por um grande período, relacionando-se com a alimentação como se fosse uma norma a ser seguida ou então acabam abandonando, com o tempo, por não agüentar o controle.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após as visitas e entrevistas com os participantes de grupos de reeducação alimentar, percebeu-se que a adesão a um programa de reeducação alimentar é eficaz na maioria dos casos.

Verificou-se que os participantes que buscam por grupos de reeducação alimentar vão desde aqueles que desejam perder peso por razões estéticas, até aqueles que sofrem de vários problemas de saúde decorrentes da obesidade, pouquíssimas pessoas buscam o grupo apenas para reaprender a se alimentar de forma mais adequada.

No grupo, os participantes, encontram aquilo que buscam para conseguir atingir seus objetivos, o emagrecimento, a mudança de hábitos alimentares, melhora na auto-estima e na qualidade de vida. E este é compreendido como um espaço educativo, de reflexões, de troca de experiências e anseios, de melhoria da auto-estima e construção de cidadania. O sentimento de pertencer a um grupo específico ajuda a desenvolver estratégias para o indivíduo enfrentar a obesidade ou sobrepeso e os problemas sociais e de saúde relacionados a ela.

A coesão é um ponto de grande importância na continuidade do grupo, pois se refere à atração que os membros têm entre si e pelo próprio grupo. Os membros de um grupo coeso aceitam uns aos outros, oferecem apoio e estão inclinados a formar relacionamentos significativos dentro do grupo. Isto ficou claro na maioria dos relatos dos participantes, que dizem que no grupo são aceitos, se sentem a vontade e recebem muito apoio, e isso que faz com que emagreçam e continuem buscando alcançar seus objetivos. Percebe-se que o grupo oferece aos participantes condições de aceitação e compreensão que muitas vezes não encontram na família, e em outros grupos sociais.

Pode-se observar que as mudanças de hábitos alimentares não são fáceis, pois envolve alterações nos hábitos que foram estabelecidos ao longo dos anos. Assim como também dissociar o ato de comer do prazer e dos problemas, frustrações e ansiedades. Manter a mudança do comportamento é ainda mais difícil e requer motivação, controle comportamental e apoio social.

Tão importante quanto reconhecer a mudança, é saber que esta pode ser interrompida por recaídas, durante as quais ocorre uma regressão. Mas isto não significa que tudo está perdido: as recaídas não devem ser vistas como um fracasso consumado, mas sim como uma oportunidade de aprendizado para que se evitem erros futuros.

Observou-se ainda nas entrevistas e também nas visitas ao grupo, que não tratar do aspecto emocional que desencadeia o comer compulsivo parece manter a dificuldade que os participantes relataram a respeito de aderir em sua rotina à alimentação saudável como uma fonte de prazer e não de restrição ao que engorda. Esta pode ser uma questão para outra pesquisa. Percebeu-se também que o grupo não está estruturado didaticamente, tendo uma proposta de início, meio e fim aonde o participante possa se apropriar do que aprendeu e senti-se seguro para deixar o grupo.  

A reflexão sobre a experiência com o grupo demonstrou que o mesmo configura-se numa oportunidade de expressão das vivências e de troca de experiências, tornando-se uma valiosa fonte de aprendizagem, promotora de crescimento.

Sendo assim, fica evidente o programa em grupo trouxe aos participantes um resultado mais eficaz, já que participando do grupo, os indivíduos ganham não só com a redução de peso, mas também com a melhora da sua auto-estima, do humor, da qualidade de vida e principalmente da saúde.

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