O uso de tatuagem ainda é um tabu nas empresas?

O presente artigo reflete sobre o uso de tatuagem e a sua interpretação em processos seletivos.

 


TABU, PERSONALIDADE OU AMBOS?

A Tatuagem (dermopigmentação) é uma forma de expressão realizada por aplicações subcutânea obtida através da introdução de pigmentos por agulhas na pele. Resumindo, uma espécie de desenho permanente. Existem muitas provas arqueológicas que afirmam que as primeiras tatuagens foram feitas no Egito entre 4000 e 2000 a.C. e também por nativos da Polinésia, Filipinas, Indonésia e Nova Zelândia (maori), geralmente, tatuavam-se em rituais ligados a religião.

Segundo dados do wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Tatuagem), a Igreja Católica na Idade Média baniu a tatuagem da Europa (Em 787, ela foi proibida pelo Papa), sendo considerada como uma pratica demoníaca, comumente caracterizando-a como pratica de vandalismo no proprio corpo, afirmando em sua doutrina como maneira de vilipendiar o templo do Espirito Santo, o corpo, levando seus fiéis a uma forma verdadeiramente reta de louvor a Deus.

Já nas empresas, elas não eram (e ainda 'não são'…) permitidas por estarem vinculadas a possibilidades negativas de caráter e personalidade. Se uma emrpesa permite ou não, observamos que nos tempos de hoje (2011), a tatuagem está cada vez mais presente e popular. Ela é vista em mulheres, homens, adolescentes, idosos, sejam escondidas, visíveis, variam de nomes, letras japonesas, dragões, tribais, fotografias, outros, ou seja, se ela traduz algum tipo de comportamento, este não pode ser generalizado pois terá um valor simbólico para cada autor, para cada portador. Um mesmo “dragão ou letra japonesa”, por exemplo, pode ter significados totalmente diferentes entre 2 pessoas com a mesma tatuagem.  

Em termos de “recursos humanos”, estamos vivendo a era das competências, o que significa que dados discriminatórios como raça, cor, religião, opção sexual e outros já foram (ou deveriam ter sido!) descartados. O que nos diz respeito sobre a competência de um profissional não é a sua roupa, religião ou tatuagem, mas sim a frequência de seus comportamentos. No Brasil, embora a constituição defenda os direitos do trabalhador e previna os profissionais de RH quanto a discriminação no processo de recrutamento e seleção, ainda é prematuro dizer que estamos perto do “ideal”. 

Os profissionais de RH enquanto prestadores de serviço aos seus empregadores, seguem regras e diretrizes estratégicas da empresa, da presiência, do marketing, enfim, isso fazem com que muitos sejam conivente com este processo equivocado de recrutar e avaliar pessoas. Por exemplo, empresas de artigos esportivos que vetam a contratação de pessoas acima do peso pois estes terão contato direto com a demonstração de seus produtos à clientes que representam um público alvo esportista, o mesmo se aplica em algumas redes de fast food.

Empresas de Auditoria, Contabilidade & Finanças, prezam pelo uso de roupa social aos seus colaboradores e assim por diante. Por outro lado, temos as empresas de publicidade (google, facebook, outras) onde o colaborador trabalha até com video game, o “casual day” é um termo diário e isso não dimunui as suas competências, pelo contrário estas são as empresas mais desejadas para se trabalhar, empresas que retém não pelo salário, mas pelo clima. Já se olharmos o antigo padrão de que roupas são análogas a personaldiade do ser humano que a veste, o que podemos dizer dos nossos políticos? Todos muito bem vestidos e em compensação, sua índole no congresso já não nos atende em termos de confiabilidade e caráter.

 

Embora eu particularmente, sem qualquer apologia, seja a favor da liberdade de expressão (inclusive sou adepto e possuo 3 tatuagens – a foto no inicio deste artigo é minha), enquanto profissional de RH, tenho que fazer esta ressalva aos leitores. 


O uso de tatuagem no Brasil ainda pode vetá-lo enquanto candidato em um processo seletivo nas seguintes ocasiões:

 

– Se o perfil da empresa não permite este tipo de expressão (por exemplo, escolas infantis deixaram de contratar professores com tatuagem acreditando que estes poderiam influenciar as crianças na adesão de tatuagens);

– Se o perfil dos diretores, presidentes e / ou donos são tradicionalistas, ortodóxos e “Babyboomers”;

– Se a empresa está desatualizada com as tendências e avanços tecnológicos e sociais (por exemplo, fora das redes sociais e movimentações sociais);

– Se a empresa possui uma cultura e clima formal ou ortodoxa;

– Se o profissional de RH não tiver uma sólida formação sobre ferramentas de avaliação comportamental e de personalidade. Se não tiver o preparo, estará mais sensível a fazer julgamentos.

– Se a empresa tiver tido histórias de contratações má sucedidas de pessoas com tatuagem ("vide comportamento supersticioso").
– Se a tatuagem for aversiva ao contratante ou ao público alvo que ela atende;
– Etc

 

 

Como eu disse anteriormente, embora a constiuição garanta o direito ao candidato de ir a um processo seletivo tendo suas tatuagens, na prática a realidade ainda é outra. Mesmo que não esteja visível nos anúncios de vagas, os profissionais de RH farão algum tipo de filtro, seja a olho nú, seja desclassificando-o por um requesito fake (“Para esta vaga precisávamos que o senhor tivesse inglês”), ou meramente pela escolha de outro candidato.   

Algumas tatuagens não são visíveis e passam pelo filtro do RH, já presenciei casos de desligamento simplismente pela pessoa ter tatuagem e não ter falado ou mostrado na admissão. O modelo mental de muitos dirigentes e líderes de empresa ainda são ultrapassados neste sentido e cabe a nós que estamos fazendo a história neste momento, ir mostrando e provando o diferente.

Voltando ao meu exemplo, na cabeça do meu avô, tatuagem é coisa de presidiário. Na cabeça da minha mãe, é coisa de maloqueiro. Na do meu irmão caçula, sou o ídolo dele em ver que um “tatuado” pode escrever corretamente, trabalhar dignamente e defender seus direitos sem recorrer a violência ou baixaria. O fato é que elas são escondidas e de certa forma, facilitam que eu não seja julgado por elas.

A tatuagem não é só um ‘tabu’, ainda é uma fonte de “julgamentos”. Apenas uma pequena parcela de nossa sociedade mostra aceitação quando o terreno é o campo empresarial. Ainda temos muita hipocresia e reflexões a serem superadas. Por enquanto a dica que eu deixo aos leitores é: “analisem o perfil da empresa onde querem trabalhar”. A partir do momento que damos o “aceite” em algum contrato de trabalho, estamos indiretamente dando “aceite” para todas as regras daquele ambiente profissional.

Se eu escolhi uma profissão mais tradicionalista (“Secretária Executiva de Presidência”) por exemplo, são maiores as chances de ser repudiado (a) do que em profissões mais “descoladas” como ator, publicitário, etc. Julgamentos ocorrem em nossa sociedade independente de tatuagem, esta é só mais uma fonte que o ser humano usa para julgar uma pessoa. As pessoas não podem ser julgadas por outra coisa que não suas atitudes. A frequência de um comportamento é a fonte mais fidedigna de dizer e / ou avaliar o repertório de personalidade e caráter. É o que no segmento de auditoria costumamos dizer “contra fatos e eveidências não há argumentos”. O problema é que a tatuagem é uma evidência ambigua e não traduz um único significado. Podemos sim ter um presidiário e um profissional honesto tatuados. O que vai motivá-los a escolher sobre qual caminho andar, está longe de ser a sua tatuagem.

 

 

About Eduardo Alencar

Psicólogo comportamental do Cais/USP (2009), pós graduado em Psicologia Comportamental e cognitiva pela USP, com formação técnica em administração de empresas, extensão universitária em OBM e em Acompanhamento Terapêutico pelo Núcleo Paradigma, especializ

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