Investigação: Nova ferramenta para avaliação psicológica em contexto forense

Investigadores da Universidade de Coimbra (UC) estão a desenvolver estudos para conceber uma escala de avaliação psicológica da ‘sugestionabilidade’ das pessoas sujeitas a interrogatórios em contextos forenses, “ferramenta importante para polícias e tribunais”, anunciou hoje a instituição.
A cargo de uma equipa da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCEUC), o projeto visa criar uma ferramenta para “uma avaliação mais fundamentada dos testemunhos em contextos forenses”, segundo uma comunicado da UC.
O objetivo é “evitar a ocorrência de distorções do relato do acontecimento devido a perguntas sugestivas e pressão interrogativa”, adianta a nota.
De acordo com a coordenadora da investigação, Salomé Pinho, um instrumento “validado de avaliação do nível de ‘sugestionabilidade’ em contexto forense da população portuguesa é muito pertinente” para a tomada de decisão.
“Quando estão em jogo valores como a liberdade, ou a privação dela, ou, por exemplo, a retirada de uma criança aos seus pais, é importante conhecer as características de ‘sugestionabilidade’ das testemunhas ou das vítimas. Se uma testemunha é vulnerável à pressão interrogativa e não foram acauteladas determinadas condições, o seu depoimento poderá ser questionável”, refere a professora da FPCEUC.
A equipa está a desenvolver um conjunto de estudos parcelares para conceber a escala. Dos grupos já estudados – crianças, adultos jovens, adultos idosos institucionalizados, adolescentes delinquentes e mulheres vítimas de violência conjugal – conclui-se que, de uma forma geral, os indivíduos (condenados por crimes) reincidentes revelaram ser menos sugestionáveis do que indivíduos de primeira condenação.
Quanto às mulheres vítimas de violência conjugal, verificou-se que são menos sugestionáveis do que as mulheres não vítimas. Nos adultos, não foram encontradas diferenças entre os idosos e os jovens e, no grupo infantil, o estudo confirmou que as crianças mais velhas mostraram-se menos influenciáveis do que as crianças mais novas, adianta a nota.
O próximo estudo vai centrar-se na comunidade reclusa.
Salomé Pinho disse hoje à agência Lusa que estes testes já são utilizados noutros países. Para serem aplicados “com rigor” em Portugal, “é necessário que existam normas para a população portuguesa, baseadas numa amostra representativa desta população”.
O teste, segundo adiantou, consiste em contar uma história às pessoas, colocando-lhes depois 20 perguntais, 15 das quais contêm sugestão, e introduzindo posteriormente ‘feedback’ negativo, obrigando à repetição das questões.
“As pessoas são sugestionáveis em função destas pressões, algumas mudam o depoimento”, disse.
O conhecimento da vulnerabilidade à ‘sugestionabilidade’ interrogativa deve levar a que sejam tomadas precauções adicionais quando se procede à recolha de depoimentos e à obtenção de confissões, é referido na nota.

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