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Como enfrentar a violência contra a mulher?

A violência contra a mulher é um tema complexo pela multideterminação de elementos de análises que nela convergem. Com vistas a qualificar intervenções e atendimento contra mulheres agredidas Ana Cláudia Wendt dos Santos, do Programa de Pós-graduação em Psicologia Social do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e Carmen Leontina Ojeda Ocampo Moré, do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina realizaram um estudo exploratório-descritivo com 10 mulheres agredidas que prestaram queixa em uma delegacia da mulher.

As autoras consideram que "ao pensar a mulher em situação de violência, se está falando de um processo interacional que não pode ser concebido como uma construção individual, mas sim como uma trama relacional na qual todas as partes envolvidas se afetam recursivamente. Ou seja, nas relações conjugais, familiares e sociais, as ações entre seus integrantes tanto podem gerar violência como podem gerar condições de submissão à mesma. Assim, a fronteira entre agressor e agredido, entre vítima e cúmplice é de difícil demarcação quando se concebem as situações de violência inseridas em um processo de construção relacional, pois todos os envolvidos, ao assumir determinadas posições, podem se colocar como vítimas ou cúmplices das mesmas. A tomada de posição, produto desse processo de construção, dependerá diretamente do contexto em que a situação de agressão ocorrer." 
Desta forma o uso dos termos vítima e agressor no estudo, se relaciona a situação das mulheres quando recorrem aos dispositivos legais de suporte psicossocial e de proteção aos direitos da mulher. Também é ressaltado no artigo a principal forma de violência contra a mulher: aquela praticada pelo marido/companheiro ou por algum membro da família (pai, irmão). 
A partir das entrevistas e análise de dados realizadas no estudo, as autoras encontraram quatro categorias de análise: 

(a) agressão como situação-limite: Estar diante do fato de que cabe a si mesma tomar uma decisão sobre o que está acontecendo e que se nada for feito a situação de violência continuará.
(b) reações comportamentais e emocionais diversas: Ocorrência de desânimo, dores de cabeça, insônia, angústia, ansiedade, choro frequente e instabilidade de humor e também queda de cabelo, falta de apetite, perda acentuada de peso e o aparecimento de hematomas pelo corpo. Também foi verificado o uso de medicações psiquiátricas, álcool e tentativa de suicídio. As autoras ressaltaram também a questão da perda de produtividade no trabalho e a questão de aceitar ou não a volta do agressor para a casa.
(c) sentimentos da mulher em relação ao agressor:  Percebeu-se a presença da ira e do desejo de vingança mas por outro lado dependendo do comportamento do agressor, reações de compaixão e mágoa. As autoras ressaltaram a presença destes sentimentos contraditórios e ambivalentes e que interferem na tomada de decisões. 
(d) estratégias de enfrentamento – bem-sucedidas e malsucedidas:
Estratégias bem-sucedidas: buscar outras pessoas para conversar (colegas de trabalho, amigos, vizinhos, familiares, profissionais da psicologia e do serviço social e doutrinadores de uma determinada religião). Rotinas absorvidas no trabalho ou no serviço doméstico que contribuiu para o pensamento não ficar retido na situação. Traços de personalidade relacionados a comportamentos de busca de soluções, empenho no trabalho e bom humor. Uso de recursos mais drásticos por medo de novas agressões: dormir com marreta ao lado da cama, spray de pimenta na bolsa e uso de intimidação.
Estratégias mal-sucedidas: Busca de emprego para melhorar a relação com o companheiro, o que provocou agressão física mais severa em uma das entrevistadas;
Tentativa de separação e imposição de limites como tentativa de modificar a situação estressante;
As autoras concluem que os dados do estudo precisam ser compreendidos e contextualizados em termos de pesquisa qualitativa já que representatividade amostral não era um dos objetivos deste estudo. 
Por sua vez, a repercussão da violência na mulher e as estratégias de enfrentamento utilizadas, também, envolvem o conhecimento da presença de posturas ambivalentes por parte da mulher, seja na tomada de posição frente à violência, seja diante dos sentimentos provocados pelo agressor, e pela possibilidade de reconhecimento de seu papel tanto de sustentação do processo de violência conjugal e/ou familiar como de ruptura do mesmo.
Foi também confirmado, segundo as autoras, "a repercussão devastadora da violência em termos de saúde física e psicológica, o que deixa a mulher, muitas vezes, subjugada a diagnósticos psicopatologizantes e a tratamentos medicamentosos, e a ter de enfrentar o cotidiano com muito sofrimento, o que lhes exige esforço extra para ter condições de dar continuidade a sua vida."
Ressaltaram também o papel do psicólogo no contexto de violência contra a mulher, na compreensão do fenômeno multideterminado por fatores relacionais, sociais, culturais, econômicos e históricos e por estigmas de gênero, e que é preciso o debate permanente das questões éticas, da violação e da promoção dos direitos da mulher e na prmoção de saúde e cidadania dessas mulheres.
SANTOS, Ana Cláudia Wendt dos; MORE, Carmen Leontina Ojeda Ocampo. Repercussão da violência na mulher e suas formas de enfrentamento. Paidéia (Ribeirão Preto),  Ribeirão Preto,  v. 21,  n. 49, ago.  2011 .   Disponível em . acessos em  11  fev.  2012.  http://dx.doi.org/10.1590/S0103-863X2011000200010

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